Reproduzimos abaixo a introdução ao livro “Conversando com Moreno”, escrita por Bernardo Cerdeira.

Escrever a apresentação de um livro como “Conversando com Nahuel Moreno” não é uma tarefa fácil. Esta longa entrevista é considerada por muitos como uma espécie de testamento político de Nahuel Moreno.

Mas primeiro seria preciso falar do autor. Entre os trotskistas, Moreno é conhecido como fundador e principal dirigente da Liga Internacional dos Trabalhadores, mas sua obra é pouco conhecida. Também surge outra dificuldade. Moreno teve muitas facetas: autor, teórico, dirigente político e homem de ação, construtor de partidos e dirigente internacional. Por onde começar? E principalmente qual o enfoque entre tantas possibilidades?

Para uma obra voltada a leitores brasileiros, jovens militantes socialistas e revolucionários, é melhor contar uma história pouco conhecida: a do papel de Moreno na construção da corrente trotskista que foi a base para a formação do PSTU. Essa história foi vivida por algumas dezenas de quadros que continuam militando, mas nunca foi contada em sua íntegra.

Além disso, através deste exemplo concreto pode-se ver uma das preocupações centrais do trabalho político e teórico de Moreno: extrair as principais caracterizações da luta de classes em um país para traduzi-las em política concreta para os partidos da LIT e buscar as oportunidades para construí-los intervindo na luta das massas. Essa, que foi para ele uma obsessão, se refletiu em várias obras: “Revolução e contra-revolução em Portugal”, “Angola: a revolução negra em marcha”; “Argentina, 1982: começa a revolução”, “Carta a Alicerce”, etc.

Um olhar para esta intensa atividade política e teórica aplicada ao Brasil longe de pretender exaltar o trabalho de um dirigente, pode ajudar ao leitor brasileiro de “Conversações” a entender o papel e a importância imprescindível de uma Internacional para a construção dos partidos nacionais nesta época imperialista marcada por guerras, crises e revoluções.

Moreno e o Brasil

A preocupação de Moreno com a construção de um partido trotskista no Brasil vem de muito tempo. Segundo ele mesmo contou a dirigentes da Convergência Socialista, Moreno visitou por mais de uma vez o Brasil em princípios da década de 50. Reunia-se com o PSR, à época a seção da IV dirigida pelo jornalista Hermínio Sachetta, com o qual tentava organizar uma oposição a corrente posadista da Internacional. Vinte anos depois Moreno relatou aos dirigentes da CS suas vívidas impressões sobre a situação política do Brasil daquela época, entre as quais sobre o forte setor militar nacionalista que pouco depois apoiaria a campanha pela nacionalização do petróleo e pela Petrobrás.

A oposição à política de Posadas foi derrotada, a maioria do SU dirigida por Pablo y Mandel reconheceu Posadas como representante do SU na América Latina, a IV Internacional se dividiu em 1953, o PSR de Sachetta se manteve isolado e depois se dissolveu. Por mais de uma década a única organização trotskista no Brasil foi o POR posadista. Durante estes anos, Moreno organizou o Secretariado Latino-americano do Trotskismo Ortodoxo (SLATO) uma pequena tendência que nunca conseguiu uma implantação no Brasil.

Vinte anos depois da divisão da IV, Moreno esteve ligado à construção de uma nova organização Trotskista no Brasil, que teve como antecedente o grupo Ponto de Partida no Chile e que surgiu claramente vinculado à corrente morenista com a fundação da Liga Operária.

No Chile do governo da Unidade Popular de Salvador Allende, entre 71 e 73, centenas de militantes de esquerda do Brasil e de outros países buscaram refúgio da perseguição das ditaduras militares.

Alguns deles, oriundos em sua maioria de organizações da luta armada começaram um processo de autocrítica da experiência guerrilheira. Entraram em contato com um setor da IV Internacional que se opunha a linha guerrilheira da sua direção: era a Fração Leninista Trotskista, formada pelo SWP norte-americano e pelo Partido Socialista dos Trabalhadores (PST) argentino.

Em contato com Hugo Blanco e Ernesto González, dois dirigentes desta fração, e inspirados pelo trabalho de Moreno chamado “Argentina e Bolívia: um balanço”, os exilados fundaram o grupo “Ponto de Partido”, de curta vida. O primeiro documento político do grupo foi o artigo “A propósito de um seqüestro”  onde, a partir de analisar o seqüestro do embaixador da Suíça no Brasil por grupos de luta armada, fazia-se uma severa crítica e autocrítica da política guerrilheirista. Ao mesmo tempo o grupo apoiou a denúncia e o combate da corrente morenista contra a Frente Popular no Chile encabeçada por Allende e pelo Partido Comunista.

Fruto da pouca clareza sobre seus propósitos, o grupo Ponto de Partida dividiu-se e desapareceu. Veio o golpe militar de Pinochet. Alguns membros do grupo encontraram refúgio na Argentina e em particular um apoio no PST.

O PST argentino foi uma influência e uma referência decisiva para a formação do que viria a ser a Liga Operária. Naquele momento o PST era um importante partido de vanguarda e a maior organização trotskista de América Latina que tinha ousado enfrentar a “vaga peronista” nas eleições de 73, chamando à constituição de um “pólo operário e socialista” e apresentando candidato a presidente contra Cámpora primeiro e Perón depois.

Os exilados foram recebidos pelo PST, militaram em suas fileiras, fizeram cursos com seus quadros e receberam uma atenção especial de Moreno. A Liga Operária, a princípio uma organização de exilados brasileiros, foi fundada em Buenos Aires, seu primeiro documento sobre a situação política brasileira foi escrito aí e os dois primeiros números de “Independência Operária”, a publicação que veiculava suas posições foi impresso na Argentina.

A inspiração teórica e política e a prática deste trabalho de apoio ao desenvolvimento de organizações trotskistas na América Latina vinha de Moreno. Quando após poucos meses na Argentina os exilados colocam a necessidade de voltar ao Brasil Moreno se opôs temendo que a inexperiência e a falta de formação do pequeno grupo levasse à empreitada ao fracasso. Era lógico, mas quando, depois de apenas 2 anos de trabalho, a Liga Operária passa dos 4 fundadores a 100 militantes Moreno reconheceu seu “erro”.

A proposta do Partido dos Trabalhadores

Quatro anos depois, em 1978, a Liga Operária, que agora se chamava PST e contava com 800 militantes, se encontrava em uma situação completamente diferente. Havia lançado um movimento chamado Convergência Socialista, que tinha como objetivo organizar um Partido Socialista amplo no país e agrupava cerca de 2.000 ativistas.

Em agosto de 78, esse movimento realiza a sua Convenção Nacional, para aprovar uma proposta de programa e estatutos para o PS. Moreno visita o Brasil a convite da direção do PST e assiste à uma pequena parte da Convenção Nacional que contou com a presença de 1.200 assistentes.

Em reunião com o Comitê Executivo do PST, Moreno deu sua opinião sobre o movimento pela criação de um Partido Socialista e as alternativas para a construção de um partido operário no Brasil.

Sua opinião era que a corrente socialista estava limitada à vanguarda revolucionária agrupada em torno do PST e portanto era muito débil. Para ele, o outro elemento qualitativo era o aparecimento com força do movimento operário, cujas greves metalúrgicas do ABC paulista haviam explodido três meses antes, e o surgimento da corrente dos sindicalistas autênticos encabeçada por Lula. Analisava também a posição dos dirigentes do Sindicato de Metalúrgicos de Santo André, especialmente seu presidente Benedito Marcílio, que tinha definido, em acordo com a direção da CS, defender a proposta de um Partido dos Trabalhadores no seu programa eleitoral (ainda não publicado) de candidato a deputado federal.

Tomando em conta esses elementos, Moreno propôs que a direção do PST mudasse sua proposta para construir um partido operário no Brasil de um PS para um PT. A concretização dessa política pela direção do PST foi interrompida pela prisão de 24 militantes da CS, entre eles 8 companheiros da direção, e do próprio Moreno.

A prisão de Moreno e da direção da Convergência Socialista

A prisão de Moreno e 24 militantes do PST, incluindo a maioria dos seus dirigentes, foi produto de um grave erro da direção brasileira que subestimou a ditadura e avançou demasiado nos planos de legalização do PS. Isso colocou em risco a própria vida de Moreno já que a ditadura brasileira poderia deportá-lo para a Argentina o que equivalia, em pleno ano de 78 sob o governo assassino de Videla, a uma sentença de morte.

Foi preciso uma forte campanha, nacional e principalmente internacional para que ele não fosse deportado à Argentina. Pediram por sua libertação e pelo direito de que voltasse à Colômbia, desde o parlamento português até Felipe González, líder da social-democracia espanhola.

No Brasil, desde d. Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo na época, até Fernando Henrique Cardoso, numerosas organizações políticas, de direitos humanos, sindicais e estudantis pediram a libertação dos presos da CS e de Moreno. Os presos da CS, juntamente com militantes e familiares fizeram uma greve de fome de 14 dias para exigir que ele fosse repatriado para a Colômbia.

Finalmente Moreno foi expulso do Brasil, deportado para a Colômbia e só pode voltar ao Brasil em 1985 com o fim da ditadura militar.

Moreno e a caracterização da direção do PT

Nos anos que se seguiram a sua prisão, Moreno se preocupou em ajudar a jovem direção da CS com uma política que respondesse por um lado ao processo da crise da ditadura e por outro ao novo e dinâmico processo de organização político e sindical da dinâmica classe operária brasileira, processo este sintetizado na construção do PT e da CUT. Sua experiência política e sindical foi inestimável para a direção da CS neste período.

Mas a armação política desta etapa começou pelas caracterizações e questões programáticas como recomendava Trotsky, método que Moreno sempre defendeu e utilizou.

O primeiro desafio foi a fundação do PT em 1980. A CS tinha sido a primeira organização a propor a construção de um PT no famoso Congresso dos Metalúrgicos do Estado de São Paulo em Lins, fazendo aprovar a tese de Santo André-Lins que propunha a formação de um PT. Agora se propunha a construir o PT mas precisava definir que tipo de partido, o que era a direção de Lula e dos dirigente sindicais para entender em que condições se daria a atividade da organização e quem seriam seus aliados e seus adversários.

Em seu artigo, “12 anos de construção do PT”, onde analisa a participação da CS no PT, Martín Hernandéz, dirigente da LIT, explica melhor que ninguém a intervenção decisiva de Moreno neste verdadeiro trabalho de elaboração de uma política:

Moreno nos ensinou que não se pode propor a uma corrente construir um partido operário se não se tem dela uma caracterização precisa. E muito menos se pode entrar em um partido operário se não se tem uma caracterização desse partido e de sua direção.

“No Brasil, quando a CS começou sua relação com o PT, tinha uma caracterização equivocada da corrente de Lula. Dizia, confusamente, que era uma corrente sindical “classista” e tentava ajudá-la a avançar, ganhá-la para seu programa. Depois, com a ajuda da Internacional, os companheiros da CS viram que estavam equivocados, tanto na caracterização como na política. Na verdade, tratava-se de uma corrente burocrática e, portanto, irremediavelmente dependente do estado, no princípio por via dos sindicatos e irrecuperável para a revolução socialista. Concluíram assim que com essa corrente só havia um acordo político, um grande acordo: construir o PT. E nada mais. Porque Lula e a CS tinham para o PT dois projetos antagônicos.

Desde o início a corrente lulista foi construindo um partido oportunista. Teve, desde o início, o projeto de fazer do PT um partido eleitoral e não de luta e colocá-lo, na melhor das hipóteses, nos marcos da oposição burguesa, à ditadura primeiro e aos governos democrático-burgueses depois.

A CS definiu a corrente de Lula como uma “burocracia de esquerda”, ou seja, uma corrente que do ponto de vista social, era parte da burocracia, e nisso não se diferenciava dos pelegos, os burocratas de direita. Mas do ponto de vista político, se diferenciava deles porque não se enfrentava com o ascenso. Colocava-se à frente para dirigi-lo e desviá-lo. Essa caracterização gerou muita polêmica, especialmente com o lambertismo, com quem a CS estava em processo de unificação em 1981. Esses companheiros diziam que a corrente de Lula não tinha nenhum ponto em comum com os pelegos, e que não podíamos descartas a possibilidade de ganhá-la para a IV Internacional.[1]

Martín Hernandez cita também uma discussão de Moreno com dirigentes da CS em que este esclarecia:

“Uma questão é a definição de classe e outra a definição do fenômeno político (…) Primeiro vem a definição social. Se é um setor burocrático, jamais poderá deixar de sê-lo. Do contrário, terão de explicar como. Aí caem por terra todas as bases do trotskismo, porque o trotskismo se baseia em um postulado fundamental da luta de classes: nenhum setor social renuncia a seus privilégios. Nenhum. Individualmente sim. Mas como setor privilegiado, jamais. Isso é marxismo. São os interesses materiais que movem as pessoas, principalmente os grupos, e existem várias formas de manter e fortalecer esses privilégios. Alguns se aproximam cada vez mais do governo. Outros optam pela via da aproximação com o movimento de massas. Pensam: melhor que se fortaleça o movimento de massa e, talvez, consigamos deputados, ministros etc.”[2]

Depois se estendia sobre a caracterização política da burocracia lulista que dirigia o PT.

“Depois vem o problema político: se são centristas. Que posições tinha o grupo de Lula antes e que posições tem agora? Foram ou não para a esquerda? Sim ou não? … é uma corrente centrista porque tem posições que evoluem para a esquerda, sem sair do oportunismo… Lula, circunstancialmente, poderá ter posições positivas, mas sua linha geral será sempre oportunista. Por isso, digo que é um centrista cristalizado. Não há saída. E não discutam se é centrismo ou não (…) É oportunista, oportunista, oportunista.”

Moreno se preocupava que a direção da CS fizesse em primeiro lugar uma caracterização social, de classe, da direção do PT, para enquadrar a caracterização política de determinada direção.

“A direção não vai para a revolução porque reflete um grupo social específico, estranho à classe operária. Por isso, têm que começar a análise pelo aspecto social, deixando de lado se é centrista ou não. O que Lula reflete socialmente? É muito importante a discussão política, porque a política é toda uma esfera, fundamental para nossa tática, mas não para nossa organização histórica e estrutural. Para a caracterização histórica e estrutural, o fundamental é o aspecto social”.

Foi essa caracterização da direção lulista que permitiu à CS armar sua intervenção estratégica e tática no PT. Base para a participação bem sucedida da CS no PT. Todo o resto da esquerda trotskista, OT em polêmica na época e a DS hoje ou participam do governo de colaboração de classes neoliberal encabeçado por Lula ou o apoiam.

Moreno e a queda da ditadura

A partir de 82, Moreno volta clandestinamente à Argentina e se estreitam os laços e as discussões com a direção da CS. Em setembro de 83, em discussão com dirigentes brasileiros e baseado nas revoluções democráticas da Argentina e da Bolívia no ano anterior, Moreno coloca que “Eleições diretas para presidente” pode ser a palavra de ordem para a revolução democrática brasileira.

Alicerce da Juventude Socialista”, o novo nome da organização brasileira, resultado de uma política para um setor da juventude, coloca “Eleições Diretas, Já” na capa do seu jornal de setembro, muito antes do primeiro comício do PT na praça Charles Muller e quatro meses antes do famoso comício da Sé.

Pouco depois, com o desfecho da campanha das Diretas, Moreno coloca uma visão original da queda da ditadura na “Carta à Alicerce”. Para ele, a ditadura tinha caído com os grandes atos das diretas de 84 (1 milhão no Rio e 1 milhão em São Paulo):

A votação deixou o governo completamente no ar. Ficou demonstrado que ele perdeu quase todo o apoio que ainda tinha nas últimas eleições, o que se reflete no fato de que seu bloco governamental de deputados é, hoje, o terceiro bloco em influência. Agora o seu destino depende de para onde vai o novo setor centrista que, se se une à oposição, pode dar-lhe um xeque-mate. Isso o obriga a negociar de forma imediata, sem nenhuma garantia de que possa impor nada nessas negociações. A votação, ao deixá-lo em esmagadora minoria, provocando a ruptura de seu bloco, de fato liquidou o governo, expressando na superestrutura e de forma distorcida a vitória que o movimento de massas conquistou nas ruas.[3]

Moreno caracterizava que a votação no parlamento e o acordo do regime militar com o PMDB para participar no Colégio Eleitoral foram para evitar uma queda ruidosa e uma vitória evidente para as massas. A partir da votação das Diretas o governo Figueiredo era só um espectro caminhando para o fim de um regime que já tinha sido derrotado.

A maior parte da esquerda via ao contrário: uma derrota em abril e uma derrota das massas por meio da “transição conservadora” encabeçada por Tancredo.

Moreno e a participação da CS na CUT e nos sindicatos

Em setembro de 83, depois da fundação da Central Única dos Trabalhadores (CUT) a direção da CS discutiu com Moreno a nova situação criada com a divisão do CONCLAT e a criação de duas centrais: a CUT e a CGT, que estava sendo esboçada neste momento.

Moreno opinava que a .CUT seria a grande central brasileira. Segundo ele, os pelegos da CGT ficariam deslocados porque haviam perdido o trem da história e a Central dinâmica seria a CUT.

A partir desta caracterização Moreno recomendou que a CS abandonasse a tática de Alicerce e se voltasse para o movimento sindical. Ele caracterizava que as oposições sindicais aos pelegos, que já existiam há anos, teriam agora uma referência, se fortaleceriam e se multiplicariam. Um ano depois uma chapa dirigida pela Convergência Socialista ganhou o Sindicato dos Metalúrgicos de Belo Horizonte e Contagem, dando início ao período de penetração da CS no movimento sindical onde chegou a dirigir uma corrente da CUT com cerca de 10% de influência.

Em 1985, 7 anos depois de sua deportação, a queda da ditadura permitiu a revogação da expulsão de Moreno e sua volta ao Brasil. A convite do Associação de Cientistas Sociais e do Sindicato dos Metalúrgicos de Belo Horizonte, dá uma palestra durante a reunião da SBPC que se realizava em Belo Horizonte,. Faz palestras também no Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro e na Fundação Getúlio Vargas em São Paulo.

Em Belo Horizonte, visita o Sindicato dos Metalúrgicos e reúne-se com a diretoria. Sua preocupação fundamental era a democracia operária. Recomendava uma assembleia por mês seja para que assunto fosse (prestação de contas, etc).

Naquela época parecia desnecessário e um tanto ridículo. Hoje, quando não existem assembleias a não ser em campanhas salariais, ou protocolares, mostra toda a sua importância.

O legado de Moreno

Moreno morreu em janeiro de 87, 1 ano e meio depois de sua última visita ao Brasil. Dezoito anos depois, é possível avaliar qual a sua influência e o seu legado?

Foi o dirigente trotskista de maior influência na América Latina. Moreno influenciou política, teórica e praticamente toda uma geração de socialistas revolucionários que ele ganhou para o trotskismo. Muitos desses dirigentes políticos, mesmo os que depois romperam com ele ou o renegaram, reconhecem o seu papel.

No entanto, o mais importante é a atualidade de sua herança. Nos quinze anos em que se relacionou diretamente com a direção da organização brasileira e com muitos dos que hoje são dirigentes do PSTU, Moreno deixou ensinamentos fundamentais para o que ele definia como as orientações centrais para superar as crises das organizações revolucionárias.

Essas orientações são as que ele ressalta em “Conversações”. Seu trabalho de elaboração teórica e política está marcado pela confiança na análise marxista sobre o curso mais geral da história, sobre a decadência do capitalismo na sua fase imperialista e a fé inabalável no papel da classe operária e na Revolução Socialista Mundial. Seu trabalho prático como dirigente se concretizou na construção de partidos bolcheviques ligados à classe operária. Moreno deixou essa marca em várias organizações da América Latina e Europa porque, dando continuidade a tradição de Lênin e Trotsky, só concebia um partido revolucionário como parte de uma Internacional Revolucionária e a construção de uma direção revolucionária internacional como a tarefa fundamental de todo revolucionário. Este foi o seu testamento e a herança que permanece em sua obra política e teórica e nas organizações que seguem seus ensinamentos.

Notas:

[1] Martín Hernandes, “12 anos de construção do PT”

[2] “12 anos de construção do PT”

[3] “Carta ao Alicerce”