Estive foragido no Uruguai porque quando se mobilizou contra a reforma da previdência macrista, a ex ministra da Segurança Patricia Bullrich iniciou uma processo por intimidação pública. Na conversa com PáginaI12 fala de tudo: do que aconteceu nesse dia, o famoso “morteiro”, sua detenção atual; a militância e o desejo de conseguir um trabalho.


Por: Adriana Meyer, de Página 12

Sebastián Romero fala rápido, como se quisesse recuperar o tempo. Perdido? A primeira coisa que diz quando atende a PáginaI12 é que “está tudo bem”, e em seguida ri como se pensasse tudo bem, dentro dos limites que possa estar privado de sua liberdade. Desde 25 de junho, quando veio extraditado do Uruguai onde esteve “foragido” quase dois anos e meio, permanece na Superintendência de Investigações da Polícia Federal, localizada em Madariaga e General Paz, à disposição do Ministério da Segurança porque o Serviço Penitenciário Federal não aceita novos presos por causa da pandemia.

Identificado pela maioria da mídia como o “Gordo do Morteiro” – porque na foto que foi divulgada após aquele intenso dia de protesto e repressão tinha uma espécie de morteiro com pirotecnia atado a um pau – o delegado da General Motors e militante do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) foi detido em 30 de maio no país vizinho. Estava foragido desde 18 de dezembro de 2017 por causa da intimidação pública iniciada pela ex ministra Patricia Bullrich contra uma dezena de manifestantes, após o massivo protesto contra a reforma do sistema de aposentadorias.

Com sua família só teve contato telefônico, mas se sentiu aliviado. “Me fortalece para continuar firme na luta”, disse a PáginaI12  no diálogo a partir da prefeitura de Madariaga. Romero nasceu e cresceu em Rosario, no bairro Fonavi com uma família numerosa e trabalhadora e estudou em escolas públicas. “Sou um menino de bairro, fiz o que a maioria faz: estudar, trabalhar, progredir mas com as travas que são colocadas para a classe trabalhadora”. Tentou seguir a carreira de Ciências Veterinárias e depois Psicologia, mas teve que deixá-las e trabalhar. “Passei minha juventude com meus companheiros de fábrica, na General Motors me elegeram delegado sindical e entrei no ativismo, conheci meu partido o PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado) e começamos a discutir política, antes era apolítico, criticava o sistema mas não via saída pela política, como a maioria dos de minha idade”. Sebastián Romero tem 35 anos, é de Boca, seus pais estão vivos, tem 5 irmãos e 10 sobrinhos. Às vezes joga futebol para passar o tempo com amigos e companheiros de trabalho. “Paixões por fora do político não tenho, agora estudarei psicologia social, no tempo livre leio e estudo, sou autodidata”.

–Como foram esses anos?

–Aos 20 anos entrei no setor de carrocerias, minha posição na fábrica sempre foi muito difícil por defender os direitos dos meus companheiros e a democracia operária para que haja assembleia, fui perseguido pela empresa e pelo Smata. Sofri fraude eleitoral duas vezes. 2017 foi um ano muito difícil, vieram demissões, a situação econômica piorando. Em março o Smata e a empresa fizeram um acordo por suspensões de 350 trabalhadores, eu entre eles, por seis meses recebendo a metade do salário, depois viria a demissão. Além disso, no meu bairro por falta de obras caiam as escadas, dois vizinhos se feriram gravemente pelos desmoronamentos, como militante socialista estive organizado em meu bairro e no meu trabalho, em risco a moradia e o trabalho. Via de muito perto a necessidade entre minha gente, não era possível pagar o conserto da escada. Foi um golpe de consciência massivo, em todas as fábricas se discutia dizer não à reforma trabalhista e da previdência. Havia raiva, as pessoas queriam organizar-se porque as direções reclamavam mas não apresentavam um plano de luta concreto. Em 17 de dezembro, depois de muitas assembleias nós os suspensos decidimos ir a Buenos Aires.

–O que aconteceu nesse dia?

–Cheguei a Buenos Aires, por volta das 10 da manhã, na praça procurei a coluna do meu partido junto às demais organizações, era uma mobilização gigante, não estava acostumado com tanta gente salvo quando tínhamos ido por Santiago Maldonado. Estávamos cantando, tomando água e conversando. As pessoas rechaçavam massivamente o plano econômico do governo de Macri que até hoje continuamos pagando. Nesse dia houve muita repressão. Estávamos junto à FIT, sempre mobilizamos juntos.

–Houve algum tipo de prevenção das organizações pelo que poderia acontecer?

–Não.  O que a mídia disse de que fui o organizador não é correto, nunca aconteceu. Sempre levamos bombas de estrondo nas marchas e assembleias, é muito comum. Em nenhum momento pensamos que iria desatar semelhante repressão. A organização havia se juntado para decidir as consignas, as multisetoriais apresentavam o repúdio à repressão do dia 14, a outra manifestação contra a reforma previdenciária, nesse dia o Congresso não teve sessão, passaram para o dia 18. O Smata começou a dizer na fábrica que não tinham que aprovar essa reforma porque senão viria a trabalhista, tinha que parar e mobilizar, um setor do sindicato mobilizou, mas não estavam na primeira linha. Foi uma situação muito tensa, corriam à minha esquerda, alguma coisa estava acontecendo. Depois atiraram gases onde estavam nossas colunas mas não podíamos retroceder pela quantidade de gente que havia. A primeira linha atirava pedras, mas começou a crescer o número de pessoas e gerou uma batalha campal. Devolvíamos os gases, e nesse momento tinha um morteiro atado a um pau que usamos para atirar ao ar, e me tiraram uma foto e um vídeo para mostrar que era eu quem estava agredindo.

–Um morteiro?

É de venda livre, vem com três tiros com um cilindro de borracha e aí se coloca o foguete para soltá-lo.  Não era nada de fabricação caseira, era o pau que peguei na mobilização e o atei com fita, improvisei no momento.  Nas mobilizações é muito comum usar pirotecnia, eu estava me defendendo com um foguete vendido livremente, a polícia estava armada com balas de borracha, os gases lacrimogênios, as motos, os caminhões lança água, a relação de forças era muito diferente. Não era uma questão de defender-se e sim de frear a repressão porque estávamos encurralados sem poder sair para nenhum lado. Na primeira linha a raiva era tão grande que se defendia com o que se tinha à mão.

–O que fez quando tudo terminou?

–Eu estava voltando para Rosario, a mídia em massa repetia minha imagem, diziam que eu era perigoso, de tudo…me mataram, Bin Laden não era nada ao meu lado. Tinham pedido minha detenção, falei com meu advogado para que respondesse que eu só tinha lançado uma bomba de estrondo, não feri ninguém, mas nesse momento o governo de Macri endureceu comigo, a mídia de massa reproduziu minha imagem tantas vezes que queriam me ver preso. Comecei a receber mensagens em meu telefone e pelas redes sociais, e me assustei. Imaginei que iriam me linchar, eram mensagens de ódio, ameaçaram minha família, eles nunca imaginaram semelhante coisa, muito angustiante.

–Como você decidiu tornar-se foragido?

–O juiz me negava a libertação. Houve buscas e detenções, pessoas se apresentavam e as prendiam como César Arakaki e Dimas Ponce, do PO, aprovavam leis com uma manifestação massiva na rua e pensei que poderiam fazer qualquer coisa.

–O que pode nos contar desses quase dois anos e meio como foragido?

–Não foi fácil, tive que deixar de ser eu, não pude mais ver minha família e amigos. Mas era uma maneira de demonstrar o que sofremos os trabalhadores com políticas que os governos fazem e matam muitas pessoas, e não aceitei ir preso por atirar um foguete em uma marcha quando genocidas estão em suas casas. Nos pedem aos cidadãos que sejamos corretos quando nossos direitos são violados. Foi difícil porém necessário.

–Teve medo de que pudesse acontecer alguma coisa com você na prisão?

–Vivo em um bairro da periferia, conheço muito bem como são os serviços penitenciários e como age a polícia, isso não temia. A decisão política desse momento, a política das forças repressivas de amedrontar tanto, de alentar a raiva sobre um setor, foi um agravante. Tive medo pelas ameaças, me diziam que na prisão iria me acontecer um monte de coisas.

–Esteve fora do país? De quem você teve ajuda?

– Sim, tive que ir. A classe operária é mundial e é solidária, sempre há solidariedade.

–Como te encontraram?

–Estava voltando para a Argentina, e na alfândega de Chuy quando apresentei a documentação apareceu meu pedido de captura e me detiveram. Tomei a decisão de voltar porque não é possível ficar a vida toda assim. De certa maneira confiei em haver uma mudança de governo, e ver que muitas coisas estão sendo feitas seriamente na pandemia. Fui perseguido pelo governo de Macri, agora está o governo de Fernández e eu estou preso, por uma reforma que matou de fome e de tristeza muitos velhinhos. Parece que são números mas não, em meu bairro não podiam sair para comprar gás natural.

–Pensou que ao regressar poderia ficar em liberdade?

–Não sou ingênuo, minha imagem foi crivada como alguém mau pela mídia hegemônica, com um governo diferente agora isto mais do que um julgamento, é uma decisão política. Me negaram a libertação, o juiz Rodolfo Canicoba Corral, e continuo aqui preso. Meu companheiro Daniel Ruiz esteve preso mais de um ano e está em julgamento, mas em liberdade. Organizações tanto de bairros como internacionais estão pedindo minha liberdade.

–Falou com Ruiz?

–Sim, lhe agradeci por ter bancado toda a situação, sabemos que primeiro está um camarada que a gente próprio. Havia um milhão de pesos de recompensa por mim, assim o atiraram na jaula dos leões para que alguém lhe fizesse alguma coisa em troca de informação, mas seus companheiros presos o trataram muito bem. Há dignidade, na penitenciária de Libertad também cuidaram de mim, me passaram mantas e sabão. Estou orgulhoso de todos meus companheiros e da militância argentina, toda a solidariedade do arco político e sindical, as organizações de direitos humanos e as Mães da Praça de Maio. Tem que se unir para o que virá depois da pandemia.

–E onde você está agora te tratam bem?

–Sim, sim. Nenhum problema, sempre tive um bom tratamento e diálogo. Inclusive falamos do que aconteceu nesse dia, se eles estivessem sindicalizados poderiam negar-se a reprimir.

–Sentiu-se estigmatizado pelo apelido “gordo do morteiro”?

-Não me afetou que me chamem de gordo, de fato eu estava (ri). O problema é quem usou isso e para quê. É uma sociedade sexista e discriminadora. Ridicularizar uma pessoa com excesso de peso é para disfarçar o fato do por que eu estava lá. É me ridicularizar para que a mensagem política se perca do porquê as pessoas se mobilizaram nesse dia e estavam tão raivosas. Ao passar tantas vezes minha imagem gerou uma opinião, mas o tiro saiu pela culatra, porque longe de me verem como violento, me viram como alguém protestando. As leis que votaram são muito mais violentas que uma pedra ou uma bomba de estrondo.

–Como você se vê no futuro?

Gostaria de conseguir trabalho o que será difícil pela exposição que tive. Sair e sobreviver como sempre fiz, continuar militando e construindo meu partido e a Liga Internacional dos Trabalhadores, falar com todos os setores para fazer alguma coisa pelo país e pelo mundo. Está tudo em colapso, ver para onde vamos ter que começar a unidade dos trabalhadores. Tem que reapresentar tudo, o Governo também, fome nunca mais. A fome é violenta, o desemprego também.

Publicado originalmente em: https://www.pagina12.com.ar/280142-sebastian-romero-yo-me-estaba-defendiendo-con-un-cohete-de-v

Tradução: Lilian Enck