No dia 31 de maio, o motorista de ônibus, há 14 anos, Erek Stater entrou na garagem onde trabalhava, na cidade de Chicago, no estado de Illinois, nos Estado Unidos, e cumpriu uma tarefa corriqueira para quem é dirigente sindical: leu uma nota da “Amalgamated Transit Union International” (ATU, a organização sindical que representa os trabalhadores do transporte público nos Estados Unidos e Canadá).

Por: Wilson Honório da Silva

Contudo, um mês depois, no dia 7 de julho, Erek foi demitido pela Autoridade de Trânsito de Chicago (CTA), processado pela Administração da Cidade e passou ser assediado pela polícia, sob a alegação de ter tentado organizar uma “greve ilegal” em sua garagem.

Uma mentira criada, na verdade, para tentar abafar o teor potencialmente explosivo da nota: “(…) Os nossos membros têm o direito de recusarem o perigoso dever de transportar a polícia para os locais dos protestos e de levar manifestantes presos para longe das suas comunidades, onde muitos destes motoristas vivem. Isso representa um uso indevido do transporte público (…)”

Em uma conversa conosco, Erek, que também é militante do “A Voz dos Trabalhadores” (“La Voz/Workers’ Voice”) – organização-irmã do PSTU, igualmente filiada à Liga Internacional dos Trabalhadores (Quarta Internacional) –, declarou que “os trabalhadores receberam a nota da ATU com muita satisfação não por temerem por suas vida;, mas, sim, por saberem que estavam sendo obrigados a levar não só a polícia mas também a Guarda Nacional para reprimir seus familiares e vizinhos e, acima de tudo, por estarem solidários com as mobilizações detonadas com o brutal e covarde assassinato de George Floyd.”

O que está por trás da perseguição a Erek Slater?

Mesmo antes de ser oficialmente demitido, Erek passou a ser defendido por uma campanha internacional, com seu caso sendo visto como mais um dos muitos exemplos da criminalização daqueles e daquelas que, não só nos EUA, se levantam não só contra a opressão e a violência policial, mas, também, os efeitos da maior crise econômica já enfrentada pelo sistema capitalista, em meio uma pandemia cujas trágicas repercussões em perda de vidas humanas e sofrimentos impostos a milhões têm sido potencializadas por posturas genocidas por parte da burguesia mundial e de seus capachos nos governos.

Sabemos que casos como o dele têm aumentado ao redor do mundo. Não faltam exemplos, inclusive de processos anteriores, agora intensificados na tentativa de intimidar os crescentes protestos, como os presos políticos no Chile e a situação do companheiro do PSTU Argentino, Sebastián Romero.

Por isso, antes de apresentarmos as formas de participação na campanha, vale oferecer algumas elementos deste contexto. Não é um acaso, por exemplo, que a situação descrita acima seja particularmente evidente nos governos de Trump e Bolsonaro, ambos fundamentalistas ultraconservadores que estão à frente dos países que (de acordo com os dados em 22 de julho) concentram as maiores quantidades de vítimas dentre 620 mil pessoas mortas por Covid-19: 145 mil, nos EUA, e 82 mil, aqui.

Também não é um acaso que, tanto lá quanto aqui, as vítimas mais diretamente atingidas pela morte, mas também pelo desemprego e os ataques às condições de trabalho e vida, que têm aumentado na esteira da pandemia, sejam exatamente os mais explorados e historicamente marginalizados e oprimidos: com negros(as), imigrantes e seus descendentes, povos originários e os que moram em comunidades periféricas.

Algo particularmente escandaloso nos EUA, onde a população negra corresponde a apenas  13,4% do total de habitantes – enquanto latinos(as) são 18,5% e brancos, 60,1% — mas, assim como aqui, de forma muito desproporcional, é a mais atingida pela pandemia e a que mais morre.

Alguns poucos números são reveladores. Segundo um artigo publicado no jornal The New York Times, em 05 de julho, para cada 10 mil casos de infecção por coronavírus registrados, 23 são em pessoas brancas; 62, em negros e 73, em latinos.

Algo que só pode ser explicado pelas consequências diretas do racismo, assim como o número de mortos, como demonstrou um levantamento publicado pelo Laboratório de Pesquisas APM, em 08 de julho que, considerando os óbitos para cada parcela de 100 mil habitantes, revelou que entre negros há 69,7 mortes; dentre os nativos (indígenas), 51,3; dentre os latinos, 33,8 e, na população branca, 30,2. Ou seja, a possibilidade de morrer por Covid-19, em comparação à população branca, é 3,8 vezes maior para negros(as); 3,2 vezes, para os nativos e 2,5 para os latinos.

Na cidade onde Erek mora e trabalha, segundo uma matéria da Associated Press (de 05 de julho) a situação não é diferente. Os negros constituem cerca de 30% da população de Chicago, mas são quase metade dos mortos pelo vírus. Com um detalhe bastante importante: desde 2019, a Chicago é governada pela ex-promotora federal Lori Lightfoot, a primeira prefeita negra e lésbica da cidade.

Números que são importantes para entender o porquê da enorme dimensão que o movimento “Black Lives Matter” (BLM, “Vidas Negras Importam”), ganhou, detonando uma rebelião que é superior a tudo que tem sido visto nos EUA há décadas, ultrapassando as barreiras de raça e ganhando, cada mais, solidariedade de classe. E este é o principal termo em relação a atitudes como a de Erek Slater.

Como lembra a matéria, apesar de desde sempre ter estado no centro dos debates na sociedade norte-americana e sempre ter provocado tensões e lutas, talvez nunca o caráter genocida do racismo tenha ficado tão evidente: “[A tensão existia há tempos] e, aí, vieram o COVID-19 e George Floyd – um matando negros em número alarmante, o outro jogando um luminoso e pesado holofote sobre o racismo sistêmico. Numa questão de meses e quase 8 minutos [o tempo que durou o estrangulamento de Floyd], tornou-se evidente que as instituições concebidas para assegurar as duas coisas mais importantes na vida – saúde e segurança – tinham convergido para se virarem contra um segmento da população de formas horrendas e brutais”.

“Estamos com Erek”: contra o racismo e a exploração capitalista

Ao mesmo tempo em que a campanha com o título acima tem sido encampada por sindicatos, o próprio BLM, organizações políticas e de diversos movimentos sociais ao redor do mundo, seu advogado deu entrada a processos federais contra o CTA, por violação do direito à liberdade de expressão (baseado na famosa Primeira Emenda da Constituição dos EUA), demonstrando que a demissão e perseguição ao companheiro é uma violação de seus direitos e, também, dos trabalhadores de se organizarem e pronunciarem contra a injustiça.

Como está escrito na moção “este é um momento histórico em que pessoas de todo o país e do mundo estão se manifestando nas ruas para obterem justiça e, por isso mesmo, a solidariedade internacional antirracista dos sindicatos é mais crucial nesses momentos do que nunca: o ataque a um é um ataque a todos”.

Opinião plenamente compartilhada por Herbert Claros, que, falando tanto em nome da CSP-Conlutas quanto das organizações filiadas à Rede Sindical Internacional de Solidariedade e Lutas, nos lembra que “Erek Slater está sofrendo uma dupla perseguição, tanto em função de sua atividade sindical cotidiana em defesa dos direitos dos motoristas de ônibus e dos trabalhadores em geral da cidade de Chicago, quanto por sua militância contra o racismo nos EUA. É parte da política racista dos governos nos EUA e demostra a hipocrisia do discurso da prefeita da cidade que é negra e faz discursos contra o racismo. Por isto, exigimos a sua reintegração, já!” .

Por isso mesmo, além de justa e necessária, para que um trabalhador, pai três filhos, recupere seu emprego e possa exercer a atividade sindical para qual foi eleito, a campanha ainda tem significados muito mais profundos.

Primeiro, ao se chocar com uma prefeita que, além de negra e lésbica, se elegeu prometendo, em seu discurso de posse, “ajudar as pessoas de baixa renda e da classe trabalhadora, que foram deixadas para trás e ignoradas pela classe política dominante da cidade”, a situação exposta pela perseguição a Erek evidencia a impossibilidade de, de fato, se lutar contra o racismo ou em defesa “dos de baixo” através das vias institucionais ou alimentando ilusões em partidos supostamente progressistas como o Partido Democrata norte-americano.

Além disso, como lembra Eduardo Almeida, da LIT, “a campanha em defesa de Erek Slater é, também, parte de uma luta por mudanças profundas no movimento sindical nos EUA; primeiro, para que assuma uma postura ativa em todo o movimento contra o racismo e a violência policial que sacode o país; mas, também, para que rompa com seu imobilismo ou, pior, tenha uma postura de cumplicidade com situações como a do companheiro, como aconteceu com a burocracia sindical de lá”.

Lutar não é crime! Redmissão já! Fim da perseguição política e judicial!

Diante de tudo isto, conclamamos as entidades e os ativistas dos movimentos sindicais, populares, de negros e negras, LGBTs , mulheres, da juventude e todos trabalhadores e trabalhadoras a assinarem a petição de solidariedade – aqui – onde exigimos:

Retirada de todas as acusações e reintegração de Erek Slater!

Garantia do direito dos trabalhadores à auto-organização e à liberdade de expressão no local de trabalho!

Justiça para George Floyd e para todas as vítimas de violência policial!

As vidas negras importam!