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Daniel Ruiz foi libertado depois de ter sido preso pelo protesto contra a reforma da previdência de dezembro de 2017. ”Os quase treze meses que estive preso ninguém me devolverá”, afirma e assegura: “No julgamento vamos demonstrar que tudo isto esteve viciado de arbitrariedades”.

Por: Adriana Meyer, de Página 12

Foi uma soltura “express”, os juízes assinaram às 18 horas e às 19 hs os guardas abriam o portão de Marcos Paz, seus companheiros não chegaram a tempo então o ex preso político tomou o ônibus. “Estou me adaptando aos poucos à liberdade, o confinamento intimida a gente, mas já vamos ganhando confiança é impressionante o nível de aumento de preços, melhor continuar preso”, brinca Daniel Ruiz em conversa com Página 12.

Após quase treze meses detido na penitenciária de Marcos Paz, acusado de supostas lesões a um policial durante a repressão de dezembro de 2017 na manifestação contra a reforma da previdência, este operário petroleiro e militante do PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado) resume que sua prisão foi política, “ uma mensagem à luta dos trabalhadores, à constante reivindicação de diferentes setores operários e populares e inclusive setores médios.

Olhando para trás essa tentativa não se concretizou, minha detenção não gerou o efeito de medo que pretendiam, nessa batalha global do Governo e Patricia Bullrich e sua doutrina Chocobar fracassaram nos votos, na economia e no conjunto da sociedade que rechaça essa forma de governar”. Ruiz destaca que 57% dos presos não tem condenação, reitera seu compromisso de continuar reivindicando pela situação carcerária e agradece “a todos que colaboraram na campanha por minha liberdade, meu partido, minha família e à rede sindical internacional que pressionou 20 embaixadas”.

–Como foram os dias no pavilhão?

–Primeiro houve temor, mas comecei a estabelecerlaços pela situação conjunta de confinamento. Marcos Paz foi construída há 20 anos, as condições do edifício são deploráveis, há superpopulação e a situação de repúdio ao governo começa a gerar organização. Estando preso fazia assembleias, isso me fez sentir vivo, agradeço aos meus companheiros. Tivemos pequenas conquistas que para nós foram grandes.

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–Quais?

–Que se pintasse todo o pavilhão, instalações elétricas, cozinhas e pias; o pátio agora está aberto das 9 às 18 horas, puseram arcos para jogar futebol, e conseguimos que mais da metade pudesse trabalhar, em março apenas oito trabalhavam, agora são 26. Puseram mobília no setor de visita, e insumos para a educação, para poder terminar o ensino básico, secundário e também para os da universidade. Sempre queremos a liberdade, e pela luta de todos em meio à emergência carcerária veio uma juíza de execução três vezes, por nossas denúncias com organismos de direitos humanos e a comissão de cárceres de Deputados, conseguiu-se com que fossem mais flexíveis para conseguir a liberdade. Organizados conseguimos melhoras e também a liberdade. Antes de sair nos juntamos no pavilhão e ratificamos a ideia de continuarmos organizados, meu compromisso de ajudá-los de fora, e quero agradecer às organizações e sindicatos que doaram alimentos para os companheiros que não os recebem, e assim não dependerem da bandeja do Serviço Penitenciário. Fui parte de algo que é genuíno, a organização dos presos, que temos direitos, a partir daí pode-se construir uma nova sociedade.

–Em junho relatou que vocês cozinhavam porque a comida da prisão vinha com soro para as pessoas que estão em abstinência. Qual foi o pior momento?

–Os primeiros dias em uma penitenciária até que a família possa ter contato com você, você não tem nada, até o casaco eles tiram, não há solidariedade no pavilhão, não se pode falar por telefone, você fica incomunicável. O confinamento gera situações de violência, pensei que podia ser grave, mas soube suportar. O povo argentino, como luta tanto, está acostumado fazer assembleias e organizar-se. Temos que felicitar essa tradição, nas piores fomes houve assembleias populares e de piqueteiros. Em situações extremas, fica a chama para que surja com horizontes claros. A petição assinada por todos no pavilhão dá uma força muito genuína, para mim e para o conjunto.

–Agora a campanha é pela sua absolvição? Por que o liberaram neste momento?

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–Na quinta-feira (dia 10/10) às 10 horas no tribunal vão me dizer as condições de minha liberdade, as permissões para meus movimentos. Há uma situação política geral de repúdio a uma forma de governar e de fazer justiça, não é mais possível sustentar o que há quatro anos este governo quis implementar, com parâmetros contrários ao Estado de direito, aqui estamos todos presos sem julgamento, o preso tem que demonstrar sua inocência. Nas marchas foi dito que não, e isso de uma ou outra maneira refletiu-se em minha situação, porque são os mesmos fiscais e os mesmos juízes que há um ano me disseram que estava muito bem preso, e agora me dizem que se reveja. Nem eram tão maus antes, nem são tão bons agora, por isso minha liberdade é produto da mobilização, um sentimento da sociedade e da luta dos trabalhadores.

–Qual é sua prioridade agora?

–Recuperar o tempo com meus afetos, minha filha. Minha família não é militante e se meteram neste baile, me acompanharam da mesma forma. Quero compensá-los por esse mal estar. Deslocaram-se 2 mil quilômetros e pediram dias no trabalho para me ver. Os quase treze meses que estive preso ninguém vai me devolver, agora quero devolver o carinho que minha família e amigos me deram. Pelo julgamento tenho que estar aqui, mas meus afetos estão em Comodoro Rivadavia, quero estar no meu bairro Floresta onde nasci e lutei toda minha vida.

–Você disse que era um refém para que Sebastián Romero aparecesse, seu companheiro de partido que está foragido pela causa. Continua pensando assim?

–É assim, de fato (a sala I da Câmara de) Cassação está dizendo que estive mal detido, fica claro que era uma mensagem para difamar Romero e empurrá-lo a entregar-se. Hoje o Governo não tem força para impor esse estilo, no julgamento demonstraremos que tudo isto esteve viciado de arbitrariedades, o juiz (Sergio) Torres, o Ministério Público de Instrução e o Tribunal 3 terão que assumir isso.

–Como você vê seu futuro no trabalho e político?

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–Creio que há um ponto de inflexão na classe trabalhadora porque com certeza os resultados das PASO vão se repetir, deram um voto de confiança à fórmula Fernández-Fernández, mas a crise vai continuar. Nesse sentido, se vierem novos desafios, e nesse marco sem querer, porque nunca quis ser referência de nada, sou um soldado do movimento, darei apoio para que novas camadas de lutadores, jovens e mulheres possam ser líderes de uma alternativa. Minha experiência boa ou má pode servir. Gostaria de voltar para as equipes de torre, com meus companheiros doze horas nos poços de petróleo, e terminar com o adendo que é esta reforma trabalhista nos campos petrolíferos que deixaram tantos acidentes, contaminação e mortes.

–O confinamento pode puxar votos, dado que você é candidato da del FIT-U em Chubut?

–Nas PASO conseguimos 4%, agora que estou livre talvez possa reafirmar a campanha, mas minha candidatura está a serviço das lutas, hoje cortam a entrada de docentes e pais aos campos petrolíferos, o conflito estatal está na 14ª.semana.

–. Enquanto você estava detido, Chubut pegou fogo.

–Pegou fogo justamente porque a lei contra a qual me manifestei, que é a reforma das aposentadorias, na minha província acelerou as aposentadorias antecipadas do setor petroleiro. Nesse mesmo dia foi assinado o acordo fiscal, o governo de Arcioni levou à falência da província, além da má administração dele e Das Neves com fatos de corrupção. Minha manifestação era porque essa reforma condiciona milhares de pessoas, os aposentados, os veteranos de guerra e os que recebem o Subsídio Universal.

Publicado originalmente em: https://www.pagina12.com.ar/amp/224406-trece-meses-preso-por-protestar-contra-la-reforma-previsional

Tradução: Lilian Enck