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Daniel Ruiz, um militante popular preso irregularmente e sem motivos após os protestos de dezembro de 2017, conta nesta entrevista sobre seu caso, as irregularidades do processo judicial, a solidariedade das organizações populares e a militância política nos críticos momentos atuais.

Por: Juan Manuel Erazo – @JuanchiVasco

Daniel Ruíz foi preso por ter participado da mobilização massiva de 18 de dezembro de 2017 contra a reforma previdenciária que afetava milhares de aposentados. Daniel foi detido nove meses depois disso e arbitrariamente.

Ele vinha da marcha do Sindicato dos Astilleros (estaleiros), foi seguido e não chegou a entrar em sua casa porque a polícia o apanhou do lado de fora. Ele ficou incomunicável por dois dias, foi encontrado fogos artificiais em sua mochila (comum em mobilizações) e por isso foi considerado “pessoa perigosa”, portanto terrorista, e ficou a disposição dos tribunais de Comodoro Py.

Daniel é militante do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), o mesmo de Sebastián Romero, o famoso “gordo do morteiro” que apareceu em todos os meios de comunicação. O judiciário manteve por quase um ano um suposto perigo de fuga que nunca existiu.

Graças à campanha realizada por seus familiares e companheiros, Daniel foi liberado em 8 de outubro. Mesmo assim, ele deve enfrentar o julgamento que começa nesta segunda-feira, 25 de novembro.

Por que você foi detido por mais de um ano?

– Foi basicamente por ter me manifestado contra a reforma previdenciária e o acordo tributário em dezembro de 2017 com milhares de trabalhadores e setores populares em todo o país. Mas centralmente eles me detiveram por enfrentar as reformas impostas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) que o governo de Mauricio Macri queria impor a todo custo com repressão e assédio.

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Outro motivo pelo qual fiquei detido por mais de um ano foi que eles não encontravam e não encontram Sebastián Romero. Eles me detêm para conseguir que o companheiro se entregue ou eu o delate. Essas são as principais razões pelas quais o governo nacional e a justiça argentina me mantiveram 13 meses na prisão de Marcos Paz.

Nesta segunda-feira, começa o julgamento do processo contra você. Quais são os principais argumentos que sustentam sua inocência?

– Os argumentos que apresentarei no julgamento mostram as grotescas e irregulares acusações contra mim. Estamos falando de uma intimidação pública que não se aplicava.

Argumentam um ataque à autoridade com uso de armas, para o que não há provas ou um policial que tenha dito que eu o machuquei. O que deve ser discutido é se o protesto social é um crime ou por que os responsáveis ​​por essa repressão brutal não são colocados no banco de réus. Foram as forças de segurança que reprimiram ferozmente ocasionando a perda de visão de vários companheiros e atropelando um companheiro da CTEP (Confederação dos Trabalhadores da Economia Popular).

Como foi o tempo que você esteve preso?

– O tempo em que estive detido foi difícil, porque ninguém gosta de quando se é privado de liberdade, e menos ainda quando se está em uma prisão de segurança máxima, como fizeram comigo. Nas prisões existem muitas pessoas das classes populares, da classe trabalhadora e da classe pobre que, por causa desse plano econômico de exclusão, caíram na prisão.

Mas, apesar do assédio do Estado encontrei solidariedade, encontrei maneiras de me organizar e encontrei dignidade para poder continuar reivindicando pela vida. Nesse sentido, pudemos organizar e reivindicar com os companheiros do pavilhão, do Módulo 5, obtendo alguns benefícios em função do coletivo.

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É isso que eu valorizo, que pudemos fazer assembleias e reivindicações, mas não individualmente. É o que nos diferencia, a classe trabalhadora e pobre sempre se organiza coletivamente. Isso lhe dá força para alcançar as melhorias necessárias.

Qual foi a resposta das organizações políticas e sociais?

– Do conjunto, dos sindicatos, forças políticas, forças sociais e organizações de direitos humanos, independentemente do pensamento de cada um. Na verdade tenho que agradecer-lhes, porque desde o primeiro dia de minha detenção, se integraram e colaboraram. Deram uma ajuda com a parte jurídica, com a contenção, com as visitas, mas mais do que tudo, fazendo uma campanha unitária, extensa e solidária, adotando os princípios de nossa classe.

Foi uma questão de princípios lutar pela minha liberdade e pela de todos os presos políticos e lutadores perseguidos. Nesse sentido, a resposta foi enorme, me ajudou não desmoronar dentro da prisão e me deu muita força para enfrentar um julgamento que é na verdade uma farsa.

Expresso profunda gratidão ao Movimento dos Trabalhadores Excluídos (MTE), a Juan Grabois, que liderou a campanha e por todo o apoio que deram à minha família que faz parte do movimento. Sou eternamente grato pela ajuda que deram à minha família e minha filha. Juntos, lutaremos pelo que é justo e necessário.

Como você vê a militância e a vida cotidiana com esse processo?

– Acredito que essa situação de ter estado preso, que queiram me deixar com antecedentes criminais, e sabendo que isso condicionará minha ação militante e minha vida pessoal, teve resultado contrário, o que eles conseguiram é solidariedade e multiplicação das ações. É algo que eu valorizo, apesar de estar condicionado.

A luta dos jovens pelo meio ambiente, o que está acontecendo no Chile, as mulheres argentinas que deram um passo adiante, toda essa força se multiplicará. De qualquer forma, minha experiência contribuirá para conseguir uma sociedade sem escravos ou excluídos. Quando comecei a militar com o movimento piqueteiro, dizíamos “trabalho, dignidade e mudança social”. Eu chamo isso de socialismo. Essas consignas estão vigentes e as novas camadas as levarão muito melhor do que nós. Estou muito feliz e esperançoso pelas gerações futuras.

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Fuente: https://notasperiodismopopular.com.ar/2019/11/24/discutir-por-que-banquillo-responsables-brutal-represion/?fbclid=IwAR3uY6wImvSUT1dU5zl-G88Cre31DPvffR8UVd81QZ6YfU5vgaET9V3qMVA

Tradução: Nea Vieira