COMPARTILHAR

Como no ano passado, a Comissão Nacional do 8M vai mais uma vez vai convocar uma greve trabalhista, estudantil, de consumo e uma greve de cuidados feminista.

Por: Laura R.

Nós da Corriente Roja vamos nos esforçar ao máximo para que este dia de luta nacional e internacional seja um grandioso dia de mobilizações e greve geral de toda a classe trabalhadora pelos direitos das mulheres, com as mulheres à cabeça.

Mas, por mais que pensamos, não entendemos bem como as trabalhadoras podem realizar uma “greve de cuidados”, com quais objetivos, nem contra quem é essa greve.

No site da comissão podemos ler: “exigimos que o trabalho de cuidados seja reconhecido como um bem social de primeira ordem e exigimos a redistribuição deste tipo de tarefas”. (…) “Com esta greve queremos deixar claro que o sistema econômico entraria em colapso sem o nosso trabalho cotidiano de cuidados. Queremos parar para que esses trabalhos não recaiam apenas sobre nós mulheres”. (Comissão nacional 8M)

Nós partimos do fato de que as greves, como ferramenta de luta, são feitas contra alguém e por reivindicações concretas que queremos conseguir. Não são feitas para “tornar visível” algo que, por outro lado, é bastante evidente: as mulheres no mundo todo realizam tarefas domésticas e de cuidados (trabalho reprodutivo) no âmbito privado da família, de forma totalmente gratuita para o sistema. Então, a pergunta seria:

Qual é o papel do trabalho doméstico e de cuidados gratuitos no sistema capitalista em que vivemos?

A luta do movimento feminista dos anos 60 e 70 foi vital para colocar essas questões na mesa. Esse movimento em sua origem, além de reivindicar nossos direitos sexuais e o de escolher sobre nossa maternidade ou não que até hoje ainda nos é negado, foi uma revolta contra a naturalização das tarefas domésticas e de cuidados e por seu reconhecimento como um trabalho necessário para que a sociedade funcione.

Leia também:  O caso Neymar e o machismo que permeia o futebol, a mídia e a sociedade

Nesse sentido, serviu para que a teoria marxista, que é uma ferramenta que serve não somente para explicar o funcionamento do sistema capitalista, mas também para nos organizar como uma classe trabalhadora para derrubá-lo, integrasse e explicasse o papel do trabalho reprodutivo gratuito que as mulheres realizam no âmbito privado.

Deste modo, a luta das mulheres contribuiu para enriquecer a teoria marxista, uma vez que, como o próprio Marx entendia, esta não constitui uma teoria acabada e imutável, mas é algo vivo que pode e deve ser enriquecido pela experiência da luta de classes.

O capitalismo mantém a responsabilidade destes trabalhos sobre os ombros das mulheres, desempenha um papel ideológico de primeira ordem já que educa os homens na ideia de que a mulher é um ser inferior, que está aí para servir e satisfazer todos os seus desejos e necessidades, disponível 24 horas e que por isso têm privilégios. Essa desigualdade é a causa da nossa dependência salarial dos homens dentro da família, de que nossas condições de trabalho sejam piores e da divisão desigual de poder nessa sociedade capitalista.

Esse trabalho gratuito que nós mulheres fazemos é uma forma de escravidão doméstica que nos impede e dificulta a participação social, em igualdade de condições. Por isso é tão necessário para nós combater essa falsa ideologia de que é algo “natural” e que os homens tomem consciência de que o machismo que nos encarrega dessas tarefas, nos divide e nos enfraquece como classe trabalhadora para lutar contra as políticas da burguesia e os seus governos lacaios, que temos de enfrentar diariamente.

Mas, além disso, esse trabalho gratuito e invisível serve para economizar bilhões em orçamentos para saúde, educação, cuidados com dependentes, serviços sociais, etc.

Não podemos esquecer também as diferenças abismais que existem entre as mulheres de acordo com sua renda. A mulher burguesa pode contratar o serviço de outras mulheres que façam por ela esse trabalho doméstico que está muito precarizado, ou comprar serviços privados de cuidados, sem qualquer problema para chegar ao final do mês.

Leia também:  Não a Bolsonaro e a apologia ao turismo sexual

Dito isso, não temos acordo e consideramos erradas as teorias feministas que afirmam que o trabalho doméstico e a família são os pilares da produção capitalista, sem os quais o sistema cairia e entraria em colapso.

O pilar sobre o qual o sistema capitalista sempre se sustentou é a obtenção de mais-valia no trabalho assalariado. Quando dizemos que, do ponto de vista capitalista, o trabalho doméstico não é produtivo porque não gera mais-valia em si, não significa que seja um trabalho inútil ou secundário. Pelo contrário, para o capitalismo, é funcional que as coisas sejam assim. Mas isso não significa que, num momento e lugar específicos, não possa (e de fato o faz) transformar parte do trabalho reprodutivo que é indispensável, em trabalho assalariado, se for conveniente para ele.

Os próprios governos e organizações imperialistas apresentam políticas públicas e prestam serviços públicos quando querem estimular a inserção das mulheres no mercado de trabalho, quando a burguesia precisa. Quando não lhes convêm, pelo contrário, concedem subsídios para manter a mulher em casa. O capitalismo usa as mulheres como um exército de reserva de mão-de-obra barata e usa ideologias para tirá-las e devolvê-las ao lar quando necessitam. Por isso realizar uma distribuição equitativa dessas tarefas entre homens e mulheres, obviamente, irá contribuir para uma sociedade mais igualitária, mas não questiona as bases do capitalismo, enquanto alguém continue fazendo estas tarefas gratuitamente, no âmbito privado.

Greve de cuidados pela socialização dessas tarefas?

Concluindo, concordamos que, para acabar com o machismo, as mulheres têm que lutar de maneira organizada pela distribuição dessas tarefas e por medidas que a favoreçam, como a equiparação das licenças de paternidade e maternidade, que o governo Sanchez também se empenha não por capricho, em atrasar.

Leia também:  Sobre as polêmicas no Comitê por uma Internacional Operária

Mas limitar a chamar uma greve de cuidados por um dia para alcançar “um maior reconhecimento social do trabalho doméstico e de cuidados” ou “uma maior distribuição e responsabilidade social” do mesmo, confunde a raiz do problema e é totalmente insuficiente.

As trabalhadoras precisam que este 8M seja um dia de greve geral em que toda a classe trabalhadora vá para as ruas exigir e arrancar dos capitalistas e dos governos a seu serviço, os recursos necessários para que todas essas tarefas sejam de responsabilidade do Estado. Exigir recursos que acabem com a dependência material das mulheres da classe trabalhadora e com os preconceitos e estereótipos machistas. Recursos que nos permitam participar em igualdade de condições, dentro da produção social e da vida política. Não para perpetuar e manter esse sistema social e econômico capitalista injusto, mas sim, para que como parte de nossa classe e junto com nossos companheiros, nos organizar para destruí-lo.

Por fim, apenas uma revolução socialista que exproprie a burguesia e coloque a economia sob o controle dos trabalhadores pode socializar até o fim o trabalho doméstico e de cuidados. Isto é realmente o que se começou a fazer com a Revolução Russa de 1917, até a chegada do stalinismo. Fizeram isso com a criação de restaurantes públicos, lavanderias públicas, atendimento infantil público e universal e um verdadeiro sistema de saúde socializado.

Tradução: Tae Amaru