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As prisões e o sangue das mulheres palestinas explicitam ao mundo que elas não estão alheias às lutas anticoloniais

Por: Soraya Misleh

“Neste Dia Internacional da Mulher, há 48 palestinas nos cárceres israelenses, incluindo 24 mães, sete prisioneiras feridas e 26 doentes, além de uma em detenção administrativa, sem acusação ou julgamento.” O relatório é da organização palestina Addameer, em português, Associação de Apoio aos Prisioneiros e aos Direitos Humanos. Um chamado à ação pela libertação das presas políticas palestinas. São submetidas a torturas e maus tratos sistemáticos pelo simples fato de travarem resistência heroica, sob os meios possíveis – escritos, poesia, pedras contra tanques, protestos, recusa a deixar sua terra. Pelo simples fato de teimarem em existir e ser palestinas, ante limpeza étnica e colonização israelenses que já duram mais de 70 anos. Desde 1967, segundo o mesmo relatório, passaram pelos cárceres da ocupação mais de 10 mil mulheres. Uma delas, que se tornou mundialmente conhecida, é a jovem Ahed Tamimi, considerada símbolo da resistência.

Além das prisões, são submetidas a toda sorte de ameaças e agressões pelos colonos em assentamentos ilegais na Palestina ocupada. Nem mesmo o direito à maternidade segura lhes é garantido. Em 2005 o Alto Comissariado para Direitos Humanos das Nações Unidas denunciava que, entre setembro de 2000 e dezembro de 2004, 61 gestantes foram impedidas de ter seus filhos em hospitais: sua passagem foi barrada em postos de controle israelenses na Cisjordânia, Palestina ocupada em 1967. Tiveram seus filhos ali, o que resultou na morte de 36 dos bebês. Estatística que se mantém. Algumas foram ainda espancadas, mesmo grávidas.

Em Gaza, não é assegurado sequer o direito ao pré-natal. Metade das mulheres não consegue fazê-lo, diante do cerco desumano imposto por Israel há cerca de 12 anos. Cerca de setenta por cento delas estão desempregadas, num quadro de grave crise humanitária. Contra esse bloqueio desumano e pelo direito de retorno dos milhões de refugiados palestinos às suas terras – 80% em Gaza compõem o universo de deslocados internamente de seus vilarejos ou cidades de origem desde 1948 –, protagonizam semanalmente, ao lado dos homens, a Grande Marcha do Retorno há quase um ano.

Razan Ashraf Najjar, ativista e paramédica voluntaria do ministério da saúde da palestina na faixa de gaza. Assassinada em gaza por militares israelenses.

Entre as vítimas de franco-atiradores israelenses, a palestina Amal al-Taramsi, de 44 anos de idade. Ela foi atingida na cabeça em 11 de janeiro de 2019, a primeira vítima fatal do ano, nas mãos da ocupação criminosa. Em meados de 2018, outras duas mulheres foram assassinadas em meio à Grande Marcha do Retorno: Razan al-Najjar, uma paramédica de 21 anos que cuidava dos feridos nas manifestações, e Wesal al-Sheikh Khalil, uma estudante de apenas 14 anos.

A ação dos franco-atiradores serve como denúncia da limpeza étnica perpetrada pelo Estado de Israel há mais de 70 anos, desde que foi instituído mediante os cadáveres violentados e a expulsão de milhares de outras mulheres. Em 1948, as paramilícias sionistas confirmaram a abominável tradição colonial de usar os corpos femininos a seus planos. Estupros foram intensamente utilizados nas documentadas 31 aldeias palestinas em que houve massacres e depois serviram como propaganda para a expulsão nas demais. Ao final, 800 mil palestinos se tornaram refugiados e cerca de 500 vilarejos e cidades foram esvaziados e destruídos violentamente.

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Feminismo anticolonial

As prisões e o sangue das mulheres palestinas explicitam ao mundo que elas não estão alheias às lutas anticoloniais. Não são submissas por natureza, uma massa absolutamente uniforme escondida atrás de véus que lhe são impostos, como geralmente a mídia hegemônica as apresenta – e parte do movimento feminista no “Ocidente” corrobora, ao fundar-se em estereótipos.

Sob o manto de que tais mulheres precisam ser salvas de sua sociedade e cultura natais, acaba por servir à dominação colonial. Um feminismo liberal que não enxerga a relação entre exploração e opressão de gênero. Que enxerga necessariamente um símbolo da opressão no véu islâmico (que apenas muçulmanas usam – e nem todas). O problema não é seu uso, mas sua imposição. Um movimento de mulheres protagonizado na França nos últimos anos pelo direito de utilizar o véu em espaços públicos, mediante lei proibitória, é exemplar.

A ideologia que permeia essas ações contrapõe um “ocidente” de civilizados e pacíficos a um “oriente” de bárbaros e violentos por natureza, como denuncia o intelectual palestino Edward Said (1935-2003) em sua obra “Orientalismo – O Oriente como invenção do Ocidente”.

‘De acordo com essa representação, como povos atrasados, não podem se autogovernar, devem ser temidos e, portanto, controlados. Ou seja, colonizados.’

Visão discriminatória que o atual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, faz coro, com sua retórica xenofóbica e pró-Israel. Nas redes sociais, em 6 de janeiro último, ele chegou ao cúmulo de postar um vídeo de apedrejamento de uma mulher muçulmana, sem qualquer contextualização ou informação sobre em que local se dava a ocorrência abominável.

A postagem era acompanhada do seguinte texto, reproduzido literalmente: “Debaixo da lei Sharia, mulher é morta à pedradas por várias covardes muçulmanos. É com esta cultura que querem invadir o Ocidente e nos submeter à este tipo de aberração. Um dos maiores absurdos que acontecem no Planeta. Contra essa violência as esquerdistas feministas não se levantam?”. A postagem exemplifica bem o orientalismo descrito por Said.

Contra tal caricatura, na Palestina e no mundo árabe como um todo, insurge-se o chamado “feminismo anticolonial”, que trava a luta contra a opressão machista e a colonização simultaneamente. Considera a emancipação de gênero inseparável da libertação da Palestina. Critica e desconstrói as representações orientalistas, reducionistas e generalistas, e preenche o vácuo de um movimento que desvia o olhar para as relações de poder que são fundantes à opressão de gênero. Parte da desconstrução proposta pelo feminismo anticolonial – que se coaduna com vertentes como os feminismos antirracista e islâmico – é resgatar o protagonismo das mulheres árabes e muçulmanas na História.

Como aponta a feminista egípcia Nawal El Saadawi, em “A face oculta de Eva – As mulheres do mundo árabe”, foram elas pioneiras nos protestos contra os primeiros assentamentos sionistas ao final do século XIX – a serviço da colonização de terras e conquista do trabalho, que integravam o projeto sionista de limpeza étnica para constituição de um estado exclusivamente judeu na Palestina (Israel). Já em 1903, período que marca o começo da segunda onda de imigração sionista, criaram uma associação de mulheres.

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Nos anos 1920, sua atuação se fortaleceu e formaram vários comitês populares para articular protestos e demais ações de desobediência civil, bem como garantir auxílio a feridos em manifestações. Em 1921, constituíram a primeira União de Mulheres Árabes-Palestinas, que organizou protestos contra o mandato britânico, a colonização sionista e a Declaração Balfour – em que a Inglaterra garantia a constituição de um lar nacional judeu em terras palestinas.

Mulheres palestinas protestando em Gaza

Em agosto de 1929, participaram de manifestação reprimida violentamente pela Grã-Bretanha. Entre os 116 participantes mortos, nove eram mulheres. Muitas outras foram feridas, presas ou espancadas. No mesmo ano, aconteceu entre 26 e 29 de outubro o primeiro Congresso de Mulheres Árabes em Jerusalém, com o objetivo central de organizar o movimento de mulheres face à situação política no terreno, com o aumento da colonização sionista.

As mais de 300 participantes concordaram em chamar o boicote a produtos britânicos e estabelecer um centro de informação ao mundo sobre o que estava ocorrendo na Palestina, bem como em promover novos protestos. A conferência aprovou o envio de uma delegação formada por 14 mulheres para entrega ao Alto Comissariado Britânico de suas demandas: o cancelamento da Declaração Balfour, o impedimento da imigração sionista e a substituição de um procurador-geral judeu por seu conhecido racismo. Após a reunião, as 14 mulheres se somaram a outras 100 em uma carreata pelas ruas de Jerusalém, com parada em frente a embaixadas estrangeiras.

Na década seguinte, a luta se ampliou. Em abril de 1933, mulheres de diversas partes da Palestina marcharam em Jerusalém contra a visita aos lugares sagrados pelo general britânico Edmund Allenby. Na revolução de 1936-1939 contra o mandato britânico e a colonização sionista, as mulheres também se destacaram. Em 4 de maio de 1936, 600 estudantes realizaram uma conferência em Jerusalém e protagonizaram uma greve que durou seis meses.

Em outras partes da Palestina, organizaram grandes marchas e comitês populares. Além de promoverem protestos, recolhiam fundos para assistência às famílias dos mortos e prisioneiros e auxiliavam no transporte de insumos básicos e armas. Nas aldeias, lutavam lado a lado com os homens para defender suas terras. Uma delas é Fatma Ghazal, morta em combate no dia 26 de junho de 1936.

Outro nome que merece destaque na história palestina é o de Fatma Khaskiyyeh Abu Dayyeh. Entre 1936 e 1939, ela esteve no comando do local de armazenagem das armas dos revolucionários e em 1948, durante a nakba (catástrofe palestina, representada pela criação do Estado de Israel), chefiou um grupo misto de 100 combatentes. Também se formaram no período brigadas exclusivas de mulheres, que se colocaram na linha de frente contra a expropriação de suas terras. Entre elas, “Zahrat Al-Uqhuwan” (o crisântemo), fundada em 1947 pelas irmãs Nariman e Moheeba Khorsheed.

Já diante da consolidação do projeto sionista, em 1965, foi criada a União Geral das Mulheres Palestinas, atrelada à Organização para a Libertação da Palestina (OLP). No início seu papel ainda era, contudo, limitado, reservado à assistência social e aos cuidados com a saúde. Mas a política não foi deixada de lado. Ao final dos anos 1960 e início dos 1970, diversas delas partiram para a ação direta, diante da omissão internacional à violação cotidiana de direitos humanos e a expansão israelense, que em 1967 resultou na ocupação por parte dessa potência bélica de toda a Palestina histórica. A mais conhecida em todo o mundo é Leila Khaled, da Frente Popular pela Libertação da Palestina.

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Leila Khaled, militante da Frente Popular para a Libertação da Palestina

Nas intifadas (levantes) de 1987-1993 e 2000-2004, novamente as mulheres foram às ruas. Na primeira, as que viviam nas áreas rurais assumiram papel central, mas as que residiam na região urbana também marcaram presença. Para se ter uma ideia, um terço das baixas era da parcela feminina. O número de mulheres detidas passou de centenas do início da década de 1970 para milhares nos anos 1980.

Ao longo de toda essa trajetória, elas se destacaram também em outras trincheiras de luta, como no campo das palavras. No âmbito cultural, entre as que merecem ser lembradas encontra-se Fadwa Touqan, que nasceu em 1917 na cidade de Nablus, na Cisjordânia, e faleceu em 2003.

‘Nas palavras de Moshe Dayan, chefe do exército israelense em 1967, seus versos eram mais subversivos do que dez atentados.’

As mulheres são as que mais sofrem em situações de emergência humanitária, conflitos armados e frente à ocupação da Palestina e limpeza étnica. Mas não se intimidam. Representando quase metade da população total de 3,9 milhões nos territórios palestinos ocupados militarmente em 1967 (1,8 milhão), estão reunidas em diversas organizações, por educação, saúde, trabalho, contra a ocupação e o sexismo. Ali, assim como nos campos de refugiados, em que são milhares, na diáspora ou onde hoje é Israel, desafiam o projeto sionista.

A história palestina de resistência é repleta de nomes de heroínas, que se recusaram e se recusam a permanecer em silêncio e inertes até que a Palestina seja livre. Para além dos nomes registrados na história, há milhares anônimas. Nawal El-Saadawi, em “A face oculta de Eva”, conclui: “A extensa lista de mártires serviria para encher as páginas de todo um capítulo. Seus feitos intrépidos um dia serão admirados pelas futuras gerações”. Neste 8 de março, diante de um Brasil em que é endêmico o feminicídio ante a exploração capitalista, fica o chamado a todas e todos que acreditam em um mundo justo inspirar-se em sua longa trajetória de bravura e resistência. Somos todas palestinas.

Artigo publicado originalmente em: https://www.cartacapital.com.br/mundo/devemos-nos-inspirar-na-resistencia-da-mulher-palestina/