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Bolsonaro, os governadores e as empresas não se importam com a vida da juventude trabalhadora. Por eles, morremos de Covid, de violência policial ou de fome. Nossa vida é descartável.

Por: Mandi Coelho, do Rebeldia – Juventude da Revolução Socialista

No início da pandemia havia uma propaganda por parte do governo Bolsonaro, inflada por fake news, que dizia que a juventude não seria afetada pelo novo coronavírus. Hoje essas mentiras caíram por terra e qualquer dúvida nesse sentido deixou de existir faz tempo. Na verdade, no Brasil o coronavírus matou mais jovens do que em outros países. Isso se explica, em partes, porque o Brasil tem uma população mais jovem do que os outros, como a Europa. Mas o problema principal tem a ver com a falta do isolamento social e a exposição ao vírus, e as péssimas condições sociais da juventude brasileira.

O Brasil já ultrapassou a marca de 60 mil mortes. Isso é reflexo de uma política genocida e criminosa de Bolsonaro. Os governadores parecem diferentes, mas depois de uma quarentena fake, começam a reabertura no pico da crise, capitulando ao governo federal. Mês após mês o isolamento social não foi garantido, o que acarretou no aumento do número de mortos e infectados, levando o Brasil ao topo no ranking de países com mais mortes e mais casos. Existe uma completa negligência com a saúde e a vida de todos os trabalhadores.

Agora, num momento com cada vez mais infectados pela Covid-19, com o aumento das mortes nas capitais do país, os governadores começam um processo de flexibilização, como se tudo estivesse quase resolvido em relação à doença.  Bolsonaro, os governadores e a mídia colocam como se a culpa do aumento de infectados fosse das pessoas individualmente, e não de uma política consciente desses governos.

Mesmo diante do isolamento social, a polícia segue realizando o genocídio da juventude negra nas periferias. É indignante a notícia da morte do jovem João Pedro, assassinado dentro de casa numa operação policial no Rio de Janeiro. Se você for jovem e negro, nem dentro de casa, há a garantia de seguir com vida. Longe de combater a violência, este é o papel que cumpre a atual política de segurança racista e elitista do Estado brasileiro. O papel de ser promotor do assassinato do povo pobre e negro deste país.

A fome ronda a juventude sem trabalho ou no subemprego

A juventude normalmente já está nos empregos mais precários, mas isso se aprofundou com a pandemia. Logo no início da pandemia vimos o telemarketing, um setor de trabalhadores com um perfil muito jovem, se mobilizar pelo direito à quarentena. A resposta dos governos foi considerar telemarketing um serviço essencial. Hoje, algumas empresas chegaram a proporcionar o home office para esses trabalhadores, mas muitas não fizeram isso. O que demonstra o descaso das empresas e dos governos com a saúde da juventude brasileira.

Os entregadores de aplicativos também sofrem com a precariedade e descaso. São majoritariamente jovens. Segundo a Pesquisa da Aliança Bike, 50% dos entregadores de São Paulo tem até 22 anos. Inclusive, há uma grande mobilização nacional de entregadores de aplicativos, sendo uma das pautas a reivindicação que as empresas como Rappi, Ifood, UberEats, proporcionem EPIs para que possam trabalhar em condições de menor vulnerabilidade na pandemia. Além disso, as outras pautas, como exigir um maior valor pago por quilômetro rodado, escancara o nível de precarização dessa forma de trabalho.

Essa mobilização inclusive ganhou contornos internacionais. Ocorreu no Brasil, Argentina, Chile, Equador, México e Costa Rica, justamente num momento de recorde no desemprego na América Latina e no Brasil. A estimativa da OIT (Organização Internacional do Trabalho) é que, com a pandemia, aumente em 15 milhões o número de desempregados na América Latina, o que representa um aumento de 57%. Já no Brasil, de acordo com dados do IBGE, é a primeira vez que tem mais desempregados do que empregados entre a população em idade para trabalhar. E, entre os jovens, segundo a LCS Consultores a partir dos dados do IBGE, o desemprego vai subir de 27,7% para 38,8%. Um aumento de mais de 2 milhões de jovens desempregados.

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Com o aumento do desemprego, aumenta a parcela da população que está jogada à própria sorte. Os aplicativos aparecem como uma alternativa, ultraprecária e com níveis de exploração absurdos, para quem está sem emprego e precisa se virar de alguma forma. Para os desempregados, o auxílio-emergencial do governo é essencial para sobreviver. No entanto, o auxílio está muito longe do valor necessário para proporcionar o mínimo. Sem contar toda dificuldade de liberação desse dinheiro.

Bolsonaro desde o início da pandemia está contrapondo economia e quarentena. Fingindo que está preocupado com a situação dos trabalhadores. Isso não é verdade, se ele estivesse preocupado liberaria o auxílio-emergencial sem dificuldades e até um valor maior. O que o governo deve fazer é dar condições pras pessoas ficarem em isolamento, ao invés de sair reabrindo tudo automaticamente. Até porque isso também não resolve o problema da economia. O problema é a exploração e o ataque aos direitos.

A educação que já era ruim, piora!

Além de sofrer sem trabalho digno e com risco de vida, não temos direito à educação decente. O que já era ruim vai piorar pois impuseram um modelo de aulas através do Ensino à Distância, que é elitista e aprofunda a desigualdade social que existe entre a juventude pobre e filha dos trabalhadores e a juventude rica.

Para os filhos de trabalhadores, fazer o EaD não foi uma escolha. Porque grande parte não tem acesso aos meios tecnológicos para realizá-lo, mas também porque o EaD nem está acontecendo. Enquanto nas escolas particulares, por exemplo, são utilizadas as melhores plataformas, os melhores recursos etc.

De fundo, o EaD é uma porta de entrada para a privatização na educação. A tecnologia, que poderia muito bem ser usada para melhorar a vida da população e a educação, na verdade está cumprindo o papel oposto,de precarizar! E agora, em muitos estados, está se debatendo o retorno das aulas presenciais. Fato que desde já tem causado muito repúdio entre os professores e estudantes.

A juventude pelo Fora Bolsonaro

É por tudo isso que precisamos organizar toda a juventude e os estudantes junto com os trabalhadores, para garantirmos o direito ao isolamento social, a emprego digno, para lutar por um auxílio emergencial que atenda as nossas necessidades e para acabar com as operações policiais e com essa política genocida do governo. Para fazer isso, temos que derrotar o presidente e fortalecer a luta pelo Fora Bolsonaro.

A juventude hoje é um dos setores mais contrários ao governo de Bolsonaro. De acordo com o Datafolha, 67% dos estudantes consideram o governo ruim ou péssimo. Entre os jovens de 16 a 24 anos, esse percentual é de 54%. Queremos debater com os jovens e estudantes o que devemos fazer para derrotar Bolsonaro. Mas também, principalmente, qual é a alternativa ou saída para o Brasil. Derrubar o governo é um passo, temos que nos empenhar nisso, mas também precisamos discutir uma alternativa que atenda aos interesses da juventude e dos trabalhadores.

Dia 10 de julho é dia de luta: A luta da juventude trabalhadora e estudantil pode derrotar Bolsonaro

No dia 10 de Julho acontecerá um dia nacional de lutas e protestos. Essa data foi aprovada numa reunião com mais de 100 organizações, partidos e movimentos. A pauta central do dia de luta é o Fora Bolsonaro. Essa data será muito importante para fortalecer a luta contra Bolsonaro, que está cada dia mais isolado e perdendo aprovação. O próprio escândalo com o ex-ministro da educação Dacotelli, que nem cerimônia de posse chegou a ter, demonstra isso.

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Além do dia 10, também está marcada para o dia 11 uma plenária nacional popular pelo fora Bolsonaro, e no dia 12 acontecerão novas manifestações de rua. Essa jornada de lutas tem o papel de massificar a luta contra o governo, levando em consideração as limitações impostas pela própria pandemia. É por isso que no dia 10, cada um deve participar como puder. Atrasando turnos de trabalho, fazendo atos simbólicos de ruas, participando do panelaço no fim do dia etc.

A maior parte do movimento estudantil está entre dois caminhos: a unidade de ação para lutar contra o governo ou a frente ampla com a burguesia, sustentada por partidos como o PCdoB, o PT e o próprio PSOL. As últimas manifestações que aconteceram no país, dos entregadores e das torcidas antifascistas, mostram como deveria ser a nossa mobilização. No entanto, esses partidos jogam todas suas forças na construção de uma Frente Ampla com vários representantes dos interesses dos ricos.

É esse o significado da Frente Direitos Já, lançada na semana passada, sendo Flávio Dino (PCdoB) um dos seus grandes articuladores, além de contar com a participação de figuras do PT e PSOL, como Haddad e Fernanda Melchionna. A questão é que, junto com eles, participaram figuras como Tarso Jereissati (PSDB), um dos relatores do projeto de Bolsonaro de privatização da água e do saneamento básico. O próprio Temer (MDB) era um dos participantes da frente, mas depois abandonou o barco. Até Sérgio Moro foi cogitado para participar.

Essa frente, bem como outras que se formaram, como “Estamos Juntos” e “Somos 70%”, são justamente uma tentativa de construir uma unidade nacional, para ir fortalecendo uma alternativa eleitoral para a disputa de 2022. Tudo por dentro da democracia dos ricos, e com o limite na defesa de um programa que não vai além da fórmula que já conhecemos, que é a defesa de mais democracia. Democracia essa que massacrou os jovens e trabalhadores todos os últimos anos.

Estamos dispostos a fazer toda a unidade de ação possível, no entanto não faremos parte de uma frente cujo nome é “Direitos Já”, mas que é totalmente contra os nossos direitos, que vai servir para jogar a crise sobre nossas costas e que sequer é pelo Fora Bolsonaro. O PT e o PCdoB proporem uma frente como essa só demonstra como é urgente desenvolvermos uma alternativa diferente deles.

O fato da corrente MES, do PSOL, da deputada Fernanda Melchionna ter participado, causa estranhamento. No entanto, a deputada já havia votado no pacote anti-crime do Moro e no Orçamento de Guerra do Paulo Guedes. O primeiro, que criminaliza e aumenta repressão contra os jovens negros da periferia. O segundo, que joga a conta da crise nas nossas costas. O posicionamento de Fernanda é resultado da lógica eleitoreira de buscar o “menos pior”, o que significa cada vez mais um afastamento da estratégia socialista.

A própria UNE, ao invés de jogar suas forças na construção do dia 10, está divulgando uma frente chamada Brasil pela Democracia, que coloca como centro nesse momento não a luta pelo Fora Bolsonaro, mas sim a defesa do “Estado Democrático de Direito e suas instituições”.

Nós achamos que a alternativa para todos os jovens e estudantes do país deve ser construir o máximo de unidade de ação possível para lutar. Com todos aqueles dispostos a lutar contra Bolsonaro. Nas mobilizações e nas diversas formas de manifestações que possam ocorrer. A UNE deveria mobilizar o conjunto dos estudantes para isso, e convocar uma grande jornada de lutas começando no dia 10 de julho. As organizações de juventude deveriam se unir para fazer do dia 10 um marco, uma data que iniciaria o segundo semestre do ano abalando ainda mais as estruturas do governo.

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Qual a saída?

Derrotar Bolsonaro hoje passa por construir essa grande unidade para lutar, um amplo movimento que parta para a ação nas mobilizações. No entanto, apenas essa luta é limitada, porque devemos colocar em cheque não só esse governo. A nossa luta não deve ter como horizonte substituir Bolsonaro por outro governo que ataque os jovens e trabalhadores, como foram os governos do PT.

Os problemas da juventude com relação a emprego, direitos trabalhistas, educação são inclusive anteriores a Bolsonaro. Com Bolsonaro tudo aprofundou, mas a verdade é que isso nos traz a grande lição de que, independente do governo ter uma aparência amigável ou não, no capitalismo não é possível conciliar os interesses dos ricos com os nossos. Por exemplo, o desemprego é bom para eles, porque faz com que diminuam nossos salários e submetam os trabalhadores a todo tipo de assédio e superexploração por conta do medo de não ter trabalho. Portanto todo projeto que tenha como limite governar por dentro desse sistema nunca vai atender nossas reivindicações.

Devemos, portanto, partindo dessas lutas, colocar o questionamento de que a democracia dos ricos que existe hoje não nos serve e nunca nos serviu. Obviamente não queremos uma ditadura militar no país, como é o objetivo de Bolsonaro. E contra a implementação desse projeto lutaremos com todas nossas forças. No entanto, a democracia como conhecemos sempre atendeu só os interesses dos ricos, empresários, latifundiários e banqueiros. Em plena pandemia, por exemplo, a preocupação deles é votar um projeto de lei que privatiza a água, ao invés de se preocupar com um plano de emergência para salvar a vida dos trabalhadores.

Também devemos, partindo dessas lutas, colocar o questionamento ao próprio modo de funcionamento do sistema capitalista. Sistema esse que coloca o lucro acima da vida da grande maioria da população, mas que também é irracional em sua essência. O capitalismo se provou incapaz de atender nossas demandas de saúde, emprego, renda, educação e um longo etc.

É justamente por isso que devemos organizar a revolta entre os de baixo para derrotar Bolsonaro e Mourão, e também lutar para acabar com a propriedade privada. As empresas como Rappi e Ifood, por exemplo, deveriam ser estatizadas e colocadas sob controle dos entregadores de aplicativo, que são quem garante que elas funcionem. Os CEOs dessas empresas dizem que elas entregam as compras para as pessoas. Mas quem entrega são os trabalhadores, que sequer possuem vínculos empregatícios e direitos trabalhistas.

Derrotar o capitalismo e ter como horizonte a construção de uma sociedade diferente deve ser o nosso norte. Essa é uma questão de sobrevivência. Enquanto houver capitalismo, a vida dos jovens e dos trabalhadores estará destinada à miséria e superexploração, quando na verdade somos nós que produzimos as riquezas do país e do mundo.

Somente uma sociedade socialista poderá atender nossas demandas, porque seu modo de funcionamento não é a irracionalidade capitalista. A sociedade socialista se organiza e se estrutura de modo a atender as demandas da maioria da população. Somente assim a vida dos trabalhadores e dos jovens poderá valer mais do que mera moeda de troca.