Conversa com dois protagonistas das lutas dos trabalhadores imigrantes que decidiram aderir ao PdAC e à LIT – Quarta Internacional
 
Na Rua 20 de Setembro, 113, em Verona, na cidade governada pelo prefeito da Liga (Extrema direita italiana, xenófoba e racista) Flavio Tosi, a poucos passos da Porta Vescovo, chama a atenção dos passantes um belo edifício de três andares com cartazes coloridos espalhados nas janelas e no interior anunciando greves, manifestações e passeatas, que reivindicam o asilo político aos refugiados das guerras, da fome e das ditaduras, a permissão de residência e o direito de voto aos imigrantes, a cidadania aos nascidos na Itália, o direito à moradia, à educação, à saúde, à renda para todos. Manifestos e panfletos que divulgam iniciativas organizadas com o Comitê dos Imigrantes da Itália e com os sindicatos da Cub e da Cobas, panfletos que recordam a revolta dos imigrantes de Rosarno, as lutas de Brescia e de Milão. Trata-se da sede da Coordenação dos Imigrantes de Verona, associada à CUB.
 
Da sede entram e saem, permanentemente, imigrantes de diversas nacionalidades para pedir um conselho sobre a permissão de residência, assistência para as práticas de reunificação familiar, para resistir a um despejo, para entender como ler um documento trabalhista ou um contrato de trabalho.
 
Peço ao Secretário Geral Wagne Moustapha, um companheiro senegalense, e ao Vice-presidente Tahar Sellami, um companheiro tunisiano, para nos contarem sobre a Coordenação, como foi criada, sua história e seus objetivos.
 
Não é fácil sintetizar em um artigo o entusiasmado e o difícil percurso que viram Wagne e Tahar, juntos a tantos outros trabalhadores imigrantes, na construção da Coordenação e, enquanto os companheiros contam, a tensão e a emoção são fortes.
 
Em 2002 ocorreram numerosas mobilizações. A Coordenação nasceu na sequência de uma luta que ocorreu em 2003 para a anistia (aos imigrantes), uma luta que partiu de Verona e envolveu outras cidades da Itália. Depois de uma longa série de iniciativas, esta luta obteve como resultado que a liberação de mais de 400 permissões de residência, um resultado que encorajou e deu vontade de prosseguir.
 
Contam-me do longo percurso para chegar até hoje, da relação com os Centros Sociais (“desobedientes”) que tentaram controlar suas palavras de ordem e da batalha, ao contrário, para manter uma independência com posições de classe, me falam das dificuldades econômicas, das numerosas mudanças da sede.
 
Na sede da Via Maffei, em 2003, em fim se constituiu, com estatuto, a Coordenação Imigrantes de Verona, uma Coordenação de luta independente, seja nas questões práticas, seja nas escolhas políticas. A Coordenação, explicam-me os companheiros, se move em dois campos: de um lado a luta e de outro a assistência prática (com vários serviços) aos imigrantes. Este segundo aspecto, tendo em conta os graves e inumeráveis problemas que os imigrantes devem enfrentar por causa da burocracia e das leis racistas, é considerado uma importante forma para colocar-se em contato com os trabalhadores. “Dessa forma- me explicam Wagne e Sellami- a Coordenação oferece uma alternativa aos sindicatos que não levam e continuam não levando uma verdadeira luta política a favor dos imigrantes. A Cgil nunca quis apoiar verdadeiramente os imigrantes”.
 
Porque a Cgil na realidade não defende e não organiza os imigrantes, Wagne Moustapha, que foi funcionário da Cgil no setor internacional e de imigração, abandonou esta organização. Ele conta: “Antes de 2003, depois de sair da Cgil, abri um escritório como profissional liberal, fazia assistência aos imigrantes e era também vice-presidente de uma Cooperativa. Um dia entrou no meu escritório uma delegação de trabalhadores imigrantes que me colocaram uma simples pergunta. Perguntaram-me: ‘Deseja ficar sozinho ou quer se ligar à luta popular?’. Eu pedi a eles uma semana de tempo para pensar. Naquele tempo ganhava bem e tinha acabado de firmar com a Confartigianato (Confederação de estímulo a pequenas empresas) de Bergamo um acordo para realizar alguns cursos para empreendedores imigrantes. Decidi fazer uma escolha de classe: deixei a Cooperativa, a Confartigianato, e me uni à luta dos trabalhadores”. Tahar Sellami me diz: “Também eu sai da ‘Cesar K’ (o centro social da área desobediente, ndr) e me uni a eles”.
 
A relação com os sindicatos e com o Comitê de imigrantes da Itália
 
No mês de outubro de 2003 mudam-se para outra sede e em 2004 se colocam a questão de se unir a RdB. Para fazer uma ação sindical, em março de 2005, firmam a adesão. A Coordenação Imigrantes de Verona trabalha com a Rdb e Adl (um sindicato hegemonizado pelos desobedientes, agora na USB como na RdB), mas a relação com a Adl se deteriora e torna mais grave em dezembro de 2008, até chegar a uma ruptura que é explicitada publicamente em janeiro de 2009.
 
No relato que me fazem os companheiros emerge claramente à vontade, da parte da Coordenação, de repelir quaisquer tentativas de instrumentalização, a vontade de pretender um real respeito nas relações e de defender a Coordenação de qualquer tentativa de divisão ou de tentativas externas de esvaziar seu conteúdo.
 
Depois a ruptura com a Adl, a Coordenação procura reorganizar-se e, não obstante as dificuldades logísticas e econômicas, retoma a sua intervenção política organizando uma grande e concorrida assembleia pública em 18 de abril de 2009.
 
Wagne e Tahar contam que a Coordenação de Imigrantes de Verona, depois de um percurso democrático com o envolvimento de todos os membros, decidiu por não aderir a USB, não somente pela presença da Adl na nova entidade, mas, sobretudo porque faltou, no momento da formação do novo sindicato, um percurso democrático, e esta situação penalizou muito os trabalhadores. E a relação com o Comitê de Imigrantes da Itália? “A relação é estreita – me dizem – somos ambos membros da Secretária do Comitê”.
 
Na cidade do prefeito da Liga os imigrantes se organizam
 
“Estão na cidade do prefeito Tosi, da Liga”, lembro a eles. “Sim – conta Tahar – somos ainda mais orgulhosos, porque conseguimos nos defender do ‘lobo’. No entanto, também com Paolo Zanoto, ex-prefeito de centro-esquerda, não era fácil, tivemos os mesmos problemas, muitas dificuldades, muitíssimos problemas de despejo, também com ele tivemos de desenvolver a mesma luta dura que estamos combatendo agora com Tosi”.

“Na última pesquisa, efetuada para o jornal Il Sole 24 ore – observo – Flavio Tosi obteve o primeiro lugar como prefeito mais amado da Itália”.
 
“No que toca a pesquisa sobre Tosi – explica Wagne – refletimos também sobre isto e chegamos à conclusão que a nossa presença, no que toca seu eleitorado, facilitou e o tornou mais popular porque, pois sendo constrangido a responder e procurar impedir a nossa luta, acabou ganhando mais visibilidade nas questões que tocam os imigrantes. Por este motivo decidimos começar a intervir também em questões mais gerais, que não tocam somente aos imigrantes, intervir nos problemas que tocam também à população nativa de Verona, nos associando também as questões que não tocam somente a imigração”.
 
“Além dos problemas de que se fala com mais frequência como o trabalho, a permissão de residência – pergunto – de que coisas precisam os imigrantes na Itália?”
 
“O direito de voto – me diz Wagne – devemos batalhar pelo direito de voto porque esta é uma questão não apenas simbólica, pois se liga a todos os outros direitos e também ao respeito mesmo pelo imigrante”.
 
“Quem se dirige a vocês? E a filiação a Coordenação? de que tipo é?”
 
“A nós se dirigem – me respondem – sobretudo imigrantes, mas também qualquer trabalhador italiano com problemas de trabalho ou de despejo. A Coordenação é associada à CUB, mas a filiação é autônoma. Quem se filia, se filia a “Coordenação Imigrantes de Verona”.
 
Uma organização democrática para a luta dos imigrantes
 
“Quem e como se tomam as decisões da Coordenação de Imigrantes de Verona?”, pergunto.
 
Explicam que cerca de duas vezes ao ano é convocada a “Assembleia popular” de todos os filiados que tem a tarefa de decidir as linhas gerais. Depois existem os “Comitês territoriais” e uma “Direção” de 21 membros (na direção: o Presidente Yassine N’ Sir, o Vice-Presidente Tahar Sellami, o Secretário Geral Wagne Moustapha).
 
Dizem: “Nós afirmamos sempre que podemos internamente não estar de acordo entre nós, discutir animadamente, mas depois que a maioria decide devemos estar unidos e compactos, de outra forma seríamos fracos. Nos autofinanciamos, não recebemos contribuições de nenhuma instituição. Entendemos que a nossa batalha deve ser levado em tempo integral – acrescenta Wagne – somos dos militantes em tempo integral; enquanto comemos, em casa ou com os amigos, temos sempre um pensamento, nos pensamos sempre na batalha”.
 
Sindicato de classe e partido revolucionário
 
Estamos para concluir o relato, percebo que já se passaram quase três horas desde quando iniciamos a entrevista, uma história cheia de anedotas, de detalhes, de protagonistas, uma história feita de dramas, de desgastes, de orgulho e de aspiração a verdade e a justiça.
 
Um longo e interessante relato que, infelizmente, por razão de espaço, neste artigo não pôde ser mais desenvolvido. Antes de terminar faço as últimas duas perguntas, últimas por razões cronológicas nesta entrevista, mas não certamente as últimas por sua importância.
 
“E hoje – pergunto – existe segundo vocês o sindicato de classe?”
 
“Não – me respondem – não existe, mas é necessário construí-lo. É obrigatório construí-lo. É necessário fazê-lo com os setores do sindicato de base, é necessário fazê-lo na unidade. Nós somos pela unidade e pela luta de classes”.
 
“Companheiros – digo a eles- há poucos dias vocês se filiaram ao Partido da Alternativa Comunista. Esta escolha me honra e me alegra. Como conclusão desta entrevista, lhes peço para explicitar os motivos desta escolha”.
 
“Porque – me respondem com naturalidade, quase surpresos pela minha pergunta – o PdAC tem um programa que corresponde a nossa identidade. Porque é um partido revolucionário, que diz aquilo que vai fazer, não se esconde. Porque é um partido internacional. Nunca antes tínhamos sido filiados a nenhum partido e finalmente encontramos o nosso partido”.
 
 
Tradução: Rodrigo Ricupero