Em meio à reconstrução após o forte terremoto que atingiu a Cidade do México na semana passada e deixou mais de 300 mortos, a belíssima cena da solidariedade lamentavelmente confunde-se com o uso da tragédia humanitária para ganhos políticos e econômicos. Israel enquadra-se nesse último caso. A população que sofre os efeitos do desastre, com razão, enxerga qualquer ajuda como bem-vinda.

Por: Soraya Misleh

Não obstante, enquanto segue ampliando os acordos com o governo mexicano, que em nada beneficiam a sociedade local, seus trabalhadores e trabalhadoras, Israel aproveita-se da calamitosa situação de destruição e real necessidade de todo tipo de ajuda para propagandear ao mundo a imagem de estado solidário e que presta assistência humanitária ao redor do globo. Poderia se denominar essa ação como Human Washing (no português, algo como “lavar de humano”), a qual é parte das políticas e investimentos israelenses em relações públicas institucionais. As reais intenções não são nada nobres. Ao apresentar-se dessa forma, visa encobrir os crimes contra a humanidade que historicamente tem cometido no processo de ocupação e colonização de terras palestinas.

Nessa trajetória, Israel tem desenvolvido tecnologias militares que vão servir à repressão e criminalização em diversos países. A América Latina é a bola da vez, e as boas relações com o governo mexicano tornam o país um dos destinos potenciais ao incremento da exportação de tais tecnologias, desenvolvidas sob o sangue dos palestinos. Uma das colaborações em relação ao México é na construção do muro na fronteira desse país com os Estados Unidos. A companhia Israel Aeroespace Industries (IAI), por intermédio de sua subsidiária Elta North America, é uma das companhias implicadas (confira em https://goo.gl/6giP5X). Com longo histórico de violações de direitos humanos, produz equipamentos para as forças de ocupação, o muro do apartheid e os assentamentos ilegais em terras palestinas.

A ajuda humanitária aos mexicanos ocorre na sequência da visita ao país do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e sua delegação formada por 30 empresários. Na ocasião, foram assinados três acordos com o governo de Peña Neto, consolidando a cooperação bilateral. Esses abrangem atualizar o acordo de livre comércio entre México e Israel, incentivar contatos entre as comunidades empresariais, participar de projetos de cooperação conjunta na América Central e trabalhar em colaboração na segurança cibernética.

A realmente necessária ajuda humanitária, nesse caso, está repleta de segundas intenções: cai como uma luva para fortalecer os negócios israelenses na região e inclusive confundir os que simpatizariam com o movimento BDS (boicotes, desinvestimento e sanções a Israel) no México – o que já está acontecendo. Algo bem distante da verdadeira solidariedade internacional.