Depois do aval que o parlamento burguês deu ao Governo para aprovar as bases do acordo de submissão ao FMI, Alberto Fernández dispôs o que difundiu como “uma guerra à inflação”. Uma série de medidas irrisórias que se assemelham mais a uma “palmada no bumbum” aos formadores de preços, e não às verdadeiras ações de contenção atacando os geradores deste flagelo: as grandes empresas nacionais e estrangeiras controladoras do mercado de alimentos, medicamentos, energia, e os distribuidores, em uma economia dependente do capitalismo internacional.

Por: PSTU Argentina

Segundo o INDEC, a inflação de fevereiro foi de 4,7%, e soma nos dois primeiros meses deste ano 8,8%. A interanual, de março 2021 a fevereiro de 2022 chega a 52,3%. A dos alimentos em 2022 já chega a 12,8%. Projeções de economistas e consultorias patronais, assim como alguns funcionários do Governo preveem que este ano estaria entre 55% e 60%.

Após o acordo com o FMI os Fernández, embora o neguem, aprofundarão o ajuste aos trabalhadores e ao povo, e parte disso é a escalada de preços promovidas pelas empresas controladoras da produção. Ante semelhante panorama do capitalismo argentino, com as perspectivas de desgastes políticos acelerados e crises internas na Frente de Todos, o Presidente veio com discursos para a “plateia” que, de nenhuma maneira, predizem um verdadeiro ataque à inflação.

Cinco medidas para a arquibancada

  1. Reativa até o dia 7 de abril próximo o programa de “preços cuidados” ampliando-o para 1.321 produtos. Algo que na prática nunca foi cumprido, nem sequer em plena pandemia da Covid-19. Na realidade, são preços de referência e dispensa as empresas de incluir suas principais marcas e de melhor qualidade.
    2. Preços máximos para produtos de primeira necessidade. Um escárnio econômico para o bolso dos trabalhadores. Nos últimos dez dias, as tabelas de preços para distribuidores e pontos de venda chegaram com aumentos de até 30% que não estão dispostos a baixar, ainda que o Governo peça a reversão prévia antes dos aumentos, algo que nunca aconteceu. Por exemplo, aumentaram La Serenísima (10%), Arcor (15%), Bimbo(20%).
    3. Criação de um “Fundo Fiduciário” (“fideicomisso”) para as verduras frescas que são vendidas no Mercado Central, mas não esclarece o que seria feito com os mercados concentradores do interior do país.
    4. Criação de um “fideicomisso”(administração de fundos fornecidos por terceiros) destinado a um Fundo do Trigo. Recursos que seriam obtidos de um restabelecimento de 2% (de 31% a 33%) das retenções apenas para as exportações de farinha e óleo de soja. E teria como objetivo subsidiar o preço do pão e derivados do trigo. Nada é dito sobre o aumento exuberante e recente do pão e derivados da farinha, e como se faria para voltar aos preços anteriores.
    5. Foi convocada uma Mesa de Diálogo com produtores agropecuários, empresas nacionais e estrangeiras, entidades capitalistas da produção que as agrupam, aos dirigentes sindicais burocráticos, para debater como baixar a inflação. Ou seja, aos que ganham fortunas aumentando e aos que permitem o roubo dos trabalhadores. Justamente os que monopolizam o poder da produção e ganham fortunas dependentes dos preços internacionais, não das necessidades da população empobrecida. Por exemplo, foram convocadas as 11 empresas que exportam farinha e óleo de soja: Cargill, Cofco, Nidera, Noble, Molinos, ADM, Toepfer, Bunge, AGD, Vicentin, ADA, muitas delas também multinacionais. Difícil que aceitem retroceder aos preços de princípio de março, como foi proposto.

Preços pelo elevador, salários por uma velha escada de incêndio

Paralelamente ao flagelo da inflação, o ataque ao salário do capitalismo é cada vez mais selvagem. Com a cumplicidade das direções sindicais, cúmplices do Governo, nos últimos seis anos o salário real perdeu cerca de 20% do poder aquisitivo no setor privado registrado, 26% no setor público e no informal e sem carteira assinada cerca de 29%.

O Ministério do Trabalho, sindicalistas e empresários se reuniram no Conselho do Salário e subiram o Salário Mínimo, Vital e Móvel de $33.000.- para $47.850, cerca de  45%. Variável que estabelece o mínimo que o trabalhador deve ganhar. E, além disso, em quatro parcelas até dezembro de 2022. Ou seja, sem recuperar o que vem perdendo, os trabalhadores devem aguentar a escalada de preços com salários em parcelas já desvalorizadas.

Juntamente com os índices inflacionários de fevereiro passado, o INDEC informou que em uma família típica de quatro integrantes deveria receber uma renda de $83.807 para não estar abaixo da linha da pobreza, sem considerar o pagamento de um aluguel e outros serviços básicos. Por outro lado, a Junta Interna da Associação de Trabalhadores do Estado estabeleceu que nenhum trabalhador deveria ganhar menos de $136.000.- Se se considerar também que a aposentadoria mínima desde março será de $32.630.- fica demonstrado o enorme ajuste econômico acordado com o FMI e os que terão que suportá-lo.

A quem convém

O Governo faz demagogia com sua guerra à inflação; seu ministro da Economia, Martín Guzmán, e o resto dos funcionários ministeriais sabem que embora lhes traga desgaste grande e problemas políticos, as consequências do acordo com o FMI favorecem a inflação. Assim também promoveu e permitiu o recente aumento de combustíveis, o aumento de tarifas que vem na luz e no gás, o aumento da medicina pré-paga, os medicamentos, e em todos os serviços como os de telefonia e comunicações.

A inflação permite a estes governos patronais a serviço dos grandes capitais arrecadar muito mais, e ao reduzir proporcionalmente os salários e gasto público como saúde e educação, reduziria o déficit fiscal para dispor ao longo do tempo, economia de recursos para pagar juros usurários de uma Dívida Pública impagável.

Merece parágrafo à parte o outro fator inflacionário que Alberto Fernández não ataca. Não são os trabalhadores e os aposentados que empurram o dólar. São os grandes especuladores como os credores em  Leliqs do Banco Central e as próprias exportadoras de produtos agropecuários e minerais que buscam aumentar seus lucros milionários com as desvalorizações. Não por acaso o FMI exige no acordo que o dólar oficial se aproxime mais do paralelo, com importações mais caras que esfriarão nossa débil economia capitalista.

Há ferramentas econômicas que não querem usar

Ratificamos as medidas que o governo burguês peronista poderia implementar, embora sejam provisórias dentro deste capitalismo em  crise, que poderia atenuá-la e melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores e do povo. Mas os Fernández, para não afetar a propriedade privada dos capitalistas e respeitar a especulação dos lucros do “mercado” não recorrem sequer a recursos provisórios que o capitalismo argentino já utilizou, e poderiam atenuar a remarcação selvagem das patronais.

Ao recriar as Juntas Nacionais da Carne e Grãos ou o Mercado Único de Câmbios poderiam garantir alimentos e bebidas básicos com preços acessíveis e exportar o resto. Mas também pode impor a Lei de Abastecimento intervindo nas empresas produtoras para controlar os motivos mentirosos das remarcações e dos possíveis desabastecimentos. Foi aplicado em 2011 com os combustíveis da empresa Shell, em 2012 com a erva mate e em 2013 com o trigo. O próprio Mauricio Macri esteve prestes a aplicá-la em 2019 para gasolina e o gás óleo.

Os socialistas revolucionários sabem que a única forma contundente para conter esta abominável inflação é com o povo mobilizado. Com o controle dos trabalhadores em suas próprias empresas organizados democraticamente para denunciar e impedir abertamente a especulação dos patrões para seus maiores lucros. Mas, nenhum setor da Frente de Todos está disposto a isso.

Tradução: Lilian Enck