Reproduzimos abaixo artigo da CSP Conlutas sobre o assassinato do presidente do Haiti.

O presidente do Haiti, Jovenel Moïse, foi assassinado na madrugada desta quarta-feira (7) em sua casa, na capital Porto Príncipe.

Um grupo armado invadiu a residência particular do presidente haitiano por volta da 1h e o matou a tiros, ferindo ainda a primeira-dama Martine Moïse.

Porto Príncipe já vinha sendo, ao longo dos últimos anos, local de intensas manifestações contra o governo. Tanto em 2019 quanto em 2020, já em meio a pandemia, protestos foram realizados pela saída de Jovenel.

Segundo a imprensa tradicional noticiou na tarde desta quarta-feira (7), tiros têm sido ouvidos em toda a capital desde o anúncio do assassinato. O governo colocou o país em estado de sítio e os cidadãos estão sob leis marciais até segunda ordem.

Na esteira do assassinato do presidente haitiano, uma das grandes questões é quem o sucederá.

Segundo Jean Wilner Morin, presidente da associação nacional de juízes no país, a linha de sucessão presidencial ainda é incerta, uma vez que o presidente da Suprema Corte, René Sylvestre, seria o convocado, como determina o governo, para ocupar o cargo, mas morreu recentemente, em decorrência da infecção por Covid-19.

Crise que se arrasta

É preciso lembrar que Moise impôs uma ditadura para manter seu governo, prorrogando seu mandato, adiando indefinidamente as eleições, suprimido o parlamento e a corte de justiça.

Essa situação política no Haiti teve importante instabilidade em 2015, quando a eleição que deu a vitória a Moïse foi anulada sob suspeita de fraude.

Um ano depois, uma segunda eleição foi organizada, com a vitória de Moïse que tomou posse em 7 de fevereiro de 2017. Devido a este processo, o então presidente considerou que seu mandato só terminaria em fevereiro de 2022.

Neste período, 23 opositores ao governo foram presos, entre eles um juiz da instância máxima da Justiça hatiana e a inspetora geral da Polícia Nacional.

Em meio a esta crise, no início de 2020, Moïse chegou a dissolver o Parlamento, mas seu governo já nascia fragmentado. Os sete primeiros-ministros nomeados por ele caíram. O congresso, desse modo, ficou praticamente paralisado.

Em 2021, como esperado, Moïse se recusou a deixar o poder, convocando novas eleições para 26 de setembro deste ano.

Dignidade e poder para o povo

Na ilha caribenha de 11 milhões de habitantes, dois em cada três haitianos vivem com dois dólares por dia. Cerca de dois milhões de seus cidadãos são ameaçados pela fome, 35% da população precisa urgentemente de ajuda alimentar e a desnutrição crônica afeta 40 em cada 100 pessoas.

Essa realidade tem colocado o povo nas ruas em furiosa demonstração contra os governos neoliberais e repressivos. A violência policial contra manifestantes foi denunciada pela CSP-Conlutas em 2019 e, mais recentemente, em Reunião da Coordenação Nacional da Central em 2021.

Manifestação contra escândalos de corrupção no Haiti | Foto: Jean Nehemy Pierre/Wikimedia Commons

Em 2019, durante massivos protestos, a população tentou invadir a residência presidencial oficial. Os confrontos com a polícia foram violentos e segundo informe da Rede Nacional em Defesa dos Direitos Humanos, cerca de 20 manifestantes foram mortos nas mobilizações e 200 ficaram feridos.

O assassinato do presidente pode ser o evento responsável por aprofundar ainda mais a crise política e social e colocar o povo em situação ainda mais vulnerável e violenta.

Para a CSP-Conlutas, é de extrema importância, no marco da solidariedade internacional e incondicional com o povo haitiano, ajudar as vanguardas a se organizarem no enfrentamento e na ruptura com todos os setores burgueses, para impedir a volta do grupo de Aristides, Préval ou qualquer outro inimigo interno dos trabalhadores.

É também importante aprofundar o debate acerca de eleições livres imediatas, e o fim do controle politico militar imperialista dos EUA e europeu, da ONU, OEA, FMI, Banco Mundial e todas formas de subordinação estrangeira.