Greve geral paralisa a Nigéria
 
A Nigéria parou no dia 1° de janeiro de 2012 com uma Greve Geral contra a eliminação do subsídio ao combustível.
 
Este ato do governo levou o preço do litro da gasolina de US$ 0,40 para US$ 0,86, um aumento de 115%. Outras nações produtoras de petróleo como a Venezuela, Kuwait e Arábia Saudita oferecem à sua população combustível por cerca de US$ 0,12 o galão, que tem em média 3,7 litros. (Nada a ver com o valor no Brasil de US$ 1,40 o litro).
 
Este aumento eleva a patamares insuportáveis o preço dos transportes e alimentação para a maioria da população além de atingir outras necessidades básicas, como aluguéis, mensalidades escolares e contas médicas.
 
O presidente Goodluck Jonathan disse que o subsídio era economicamente insustentável, mas o que é insustentável é a maioria dos nigerianos viverem com menos de US$1,3 por dia, ou R$2,30.
 
Lojas, escritórios, escolas e postos de gasolina em todo o país fecharam desde o primeiro dia desta greve que os sindicatos prometem ser por tempo indeterminado.
 
Na cidade portuária de Lagos, com mais de 10 milhões de pessoas, 500 mil se reuniram no Parque Gawi Fawehinmi. Em Kano, manifestantes bloquearam as estradas principais, fecharam postos de gasolina e cercaram a casa do chefe do Banco Central da Nigéria. Renomearam a praça principal da cidade de "Praça da Libertação", inspirando-se na revolução egípcia e na Tahrir Square.
 
As forças de segurança responderam aos protestos com violência. Em Kano, a polícia disparou e pelo menos três manifestantes morreram e 30 ficaram feridos. Outro manifestante morreu em um confronto com a polícia em Lagos. O governo impôs um toque de recolher noturno, mas a população não acatou.
 
O momento do corte dos subsídios não é o mais inadequado para o governo, que leva uma luta contra militantes islâmicos da organização Boko Haram no norte do país, anunciado como um conflito pior do que a guerra civil que o país viveu na década de 1960, com os separatistas da República de Biafra.
 
Então por que fazê-lo agora?
 
País do Petróleo
 
A British Petroleum (BP) afirmou que a África detém 127 bilhões de barris de petróleo inexplorados, quase 10% das reservas mundiais. Destes, a Agência Internacional de Energia afirma que a Nigéria detém 37 bilhões de barris, superando a Noruega. A Nigéria é o maior exportador de petróleo da África.
 
O governo anunciou com orgulho que o país produz hoje 2,4 milhões de barris por dia e o Standard Bank estima que a Nigéria obteve US$ 6 trilhões de dólares em receita do petróleo nos últimos 50 anos.
 
Mas, apesar de ser um grande produtor de petróleo, a Nigéria não investe na infra-estrutura necessária para produzir combustível refinado. Apesar de sua riqueza petrolífera, importa 85% da gasolina e diesel necessários para o país.
 
Outra característica do país é que é considerado um dos mais corruptos do mundo. Desde a independência da Grã-Bretanha em 1960, cerca de US$ 400 bilhões das receitas do petróleo estão desaparecidos, presumivelmente roubados pela elite militar e política.
 
Mesmo o salto repentino dos preços do petróleo causado pela Primeira Guerra do Golfo em 1990 e 1991, que rendeu US$ 12,5 bilhões em receita, foi desperdiçado pela junta militar que governava o país. Bilhões foram desviados para contas privadas ou despesas clandestinas.
 
Como resultado, Lagos tem uma das maiores concentrações de bilionários da África, enquanto a taxa de desemprego é de 47% e a água potável é um luxo para cerca de 80% de sua população.
 
Multinacionais no comando
 
As exportações de petróleo e gás representam mais de 98% das receitas de exportação e cerca de 83% das receitas do governo federal. Os Estados Unidos são os maiores importadores de petróleo bruto da Nigéria, representando 40% do total das exportações.
 
Quase todas as reservas estão concentradas em torno da Foz do rio Níger, onde o petróleo foi perfurado comercialmente em Oloibiri em 1956 pela Shell, gigante anglo-holandesa do petróleo.
 
A Shell admitiu ter derramando 14 mil toneladas de petróleo bruto nos córregos da foz do Níger em 2009, destruindo parte das comunidades pesqueiras na região do sudeste da Nigéria e das zonas úmidas, no mais devastador derramamento de petróleo do mundo, que passava despercebido, com décadas de danos ao meio ambiente.
 
A Foz do Niger é habitada por inúmeros grupos étnicos, e quase toda a região está militarizada, além da presença de grupos de milícias em constante conflito.
 
Atualmente quase toda a produção e exploração de petróleo é realizada sob Joint Ventures entre corporações multinacionais estrangeiras e o governo federal através da Nigerian National Petroleum Corporation.
 
Há seis terminais de petróleo de exportação no país, todos estão nas mãos das multinacionais, a Shell possui dois. A Shell é responsável por 50% da produção total de petróleo do país, com mais de oitenta campos de petróleo. A Exxon-Mobil é o segundo maior produtor, a Chevron a terceira, depois estão empresas como a Agip italiana, ConocoPhillips e a Total francesa.
 
Estas multinacionais ganham com a exportação e depois com a importação, pois a gasolina refinada vem de refinarias da Costa do Marfim, controladas pela Total francesa e da Holanda e Inglaterra, controladas pela Shell.
 
A mão do FMI
 
A hora do corte dos subsídios pode ter sido imprópria, mas a ordem veio diretamente do recém-nomeado diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde: os governos da Nigéria, Guiné, Camarões, Gana e Chade deveriam acabar com os subsídios aos combustíveis em seus países.
 
Com isso os preços dos transportes chegaram a triplicar em alguns destes países, sem aviso prévio.
 
Esta foi uma exigência do Fundo antes de conceder mais um empréstimo, procedimento normal, já que sempre determina que os países devedores devem seguir estritamente as políticas econômicas ditadas por ele, que incluem: desvalorização da moeda, elevação de tarifas de comércio, eliminação de subsídios e cortes nos orçamentos da saúde e educação públicas.
 
Como tantas outras nações, o povo nigeriano vê seu padrão de vida sistematicamente reduzido após ser submetido a políticas estruturais de ajustes do FMI. Desta vez o Fundo também exigiu a criação de um Fundo Soberano, similar ao criado pelo governo brasileiro, o que significa mais dinheiro retirado de circulação em benefício dos credores.
 
Por outro lado, o Departamento de Estado dos Estados Unidos está realizando exercícios militares com o AFRICOM, com cenário de guerra baseado na necessidade de assumir o controle da foz do Níger, em um contexto de “desintegração” da Nigéria à beira do colapso e em meio à guerra civil.
 
Além de controlar a foz, o governo dos EUA está apoiando a "guerra ao terror" no norte do país contra o Boko Haram. Para isso já enviou em novembro passado 100 homens das Forças Especiais para trabalhar com os militares nigerianos. Ainda que não esteja claro que o Boko Haram seja uma ameaça nas proporções que o governo anuncia.
 
As ações dos governos, das multinacionais e dos bancos internacionais demonstram quem de fato está no comando na África e na Nigéria e o avanço no processo de recolonização.
 
Greve continua
 
A central sindical, Congresso do Trabalho da Nigéria, estabeleceu uma trégua nas manifestações no último fim de semana, para permitir que a população estocasse alimentos, gasolina e outros víveres. Mas anunciou que a greve continuaria na segunda-feira, 16 de janeiro.
 
Agora os sindicatos se preparam para parar o “coração pulsante da economia” a produção de petróleo. O objetivo é parar a produção em toda a foz sul do Níger. Se os campos forem fechados, podem demorar seis meses a um ano para serem reiniciados.
 
A Associação de Trabalhadores de Petróleo e Gás Natural da Nigéria, que representa cerca de 20.000 trabalhadores, disse que seria forçada a "aplicar uma opção amarga" – o encerramento da produção de petróleo e gás, se o governo se recusar a repor os subsídios à gasolina.
 
A ameaça de uma greve causa nervosismo nos mercados mundiais de petróleo. A Nigéria é o quinto maior fornecedor de petróleo para os EUA e uma paralisação forçaria refinarias americanas a substituir 630 mil barris por dia de petróleo.
 
Há informes também de que, como a greve está proporcionando a unidade entre a classe trabalhadora e os pobres nigerianos, a violência sectária é condenada por muçulmanos e cristãos. Durante o primeiro dia da greve, os cristãos foram proteger os muçulmanos enquanto rezavam, e os muçulmanos se ofereceram para defender igrejas cristãs.
 
Esta Greve Geral na Nigéria é importantíssima, pois se trata do país mais populoso da África, com mais de 160 milhões de pessoas, quase o dobro de qualquer outro país no continente, e a segunda maior economia da África subsaariana. Coloca a classe trabalhadora e o operariado no centro de um dos maiores conflitos de um dos países mais importantes do continente.
 
Somente se a classe operária tomar os destinos de seu país em suas mãos poderá acabar com séculos de exploração colonial feito pelas multinacionais e bancos dos países imperialistas.
 
Um ótimo exemplo a ser seguindo no restante da África e no Oriente Médio.
 
*Américo Gomes é membro do ILAESE e assessor do Sindipetro de Alagoas e Sergipe.
 
Fonte: www.pstu.org.br, 16/01/2012