Não existe meio de comunicação que não fale da recessão econômica que se aproxima. As bolsas mundiais parecem um tobogã que dança ao som dos twits de Trump sobre a guerra comercial. Já existe uma recessão so setor industrial no mundo, com a única exceção da China, cujo crescimento cada vez diminui mais. O Banco da Espanha e o governo Sánchez já reconheceram “uma desaceleração mais profunda do que pensávamos”

Por: Felipe Alegría

Na realidade, durante estes mais de 10 anos que sucederam a crise financeira de 2007/2008, nunca saímos da depressão. Durante esse período a classe trabalhadora foi brutalmente atacada. E a mesma coisa ocorreu com amplos setores das classes médias. As condições de vida e trabalho da imensa maioria social sofreu uma degradação substancial, em benefício exclusivo de uma pequena minoria parasitária de banqueiros e grandes empresários, agora mais concentrados e poderosos que antes da crise. E ainda assim, apesar de sua ofensiva antissocial, não só não conseguiram recuperar a economia, como mantiveram artificialmente a economia através do Banco Central Europeu, dedicado a comprar dívida pública e privada e a entregar de fundos ilimitados aos bancos a juros de 0%. Um remédio que a essas alturas já não serve mais.

A nova recessão que se anuncia se entrelaça também com a crise climática, cujos efeitos ambientais, sociais e econômicos crescem a cada dia. Uma crise climática que, para além dos gestos hipócritas, os capitalistas são incapazes de afrouxar porque isso choca de frente com sua razão de ser: a busca do máximo lucro.

A fragilidade da economia espanhola.

Em consonância com a Europa, a recessão industrial no Estado Espanhol já dura 6 meses. Nos sete primeiros meses deste ano, quase 30.000 trabalhadores industriais foram afetados pelos ERE´s (autorização para demitir ou suspender trabalhadores), 85% a mais que no mesmo período do ano passado. Destes, 5600 foram ERE´s por fechamento da empresa. Entre os setores afetados estão o automobilístico, com demissões, suspensão temporária, de turnos e de jornada, além da não renovação de contrato de milhares de trabalhadores temporários. No transporte aéreo enfrentamos os planos de demissões da Norwegian (660 trabalhadores) e Ryanair (512 trabalhadores). Apoiando-se na reforma trabalhista, as empresas podem despedir arbitrariamente sem nenhuma restrição legal.

A recessão que está vindo tem especial gravidade por várias razões. Esta vez a crise afeta de maneira direta a Alemanha, a locomotiva europeia que representa 28% do PIB da UE e 39% do valor agregado industrial. Afetada pelo conflito entre os EUA e a China, a economia alemã se organiza ao redor principalmente da exportação aos EUA e à China, de carros de luxo, maquinaria avançada. Por sua vez uma parte fundamental da indústria europeia é fornecedora desta máquina exportadora em crise. Este é o caso da indústria espanhola, cuja dependência é enorme, ainda mais depois da implantação do euro e da última crise.

A fragilidade industrial espanhola se expressa particularmente na indústria automotiva, de longe o principal setor manufatureiro. Esse setor depende inteiramente de multinacionais estrangeiras, concentra-se na montagem e não abriga nenhum centro tecnológico, exceto a SEAT. E o mais grave: nenhuma das multinacionais apresenta planos para fabricar seus carros elétricos aqui. Pelo contrário, eles querem continuar dedicando as fábricas à montagem de carros de combustão, em claro declínio.

A fragilidade também se reflete no peso exorbitante do turismo, em consonância com a “especialização” da economia espanhola. É o setor que mais contribui para o PIB espanhol (15%) claramente acima da indústria, com toda sua carga de trabalho temporário, salários baixos e más condições de trabalho. Em territórios como as Ilhas Baleares ou Canárias, mais de 30% do emprego depende do turismo. Agora, a falência da agência britânica Thomas Cook revelou a vulnerabilidade do setor, que pode entrar em colapso se a situação econômica piorar em países como Grã-Bretanha, Alemanha ou França.

Outro fator de fragilidade é a Dívida Pública, que atinge impressionantes 100% do PIB e que é apoiada pelo programa de compras massivas do Banco Central Europeu, que detém 25% da dívida espanhola e que fez com que seu custo fosse artificialmente muito baixo. Uma crise financeira desequilibraria completamente as contas do estado.

Chovendo no molhado

Ninguém sabe exatamente quando será a próxima recessão, nem em que medida serão capazes de controlá-la (na grande recessão de 2008-2013, 3,8 milhões de empregos foram destruídos no Estado espanhol). O que não tem dúvida é que significaria um forte aumento do desemprego e uma nova ofensiva contra os direitos trabalhistas, aposentadorias e serviços públicos.

O problema é que agora, ao contrário de 2008, choveria sobre o molhado, sobre uma classe trabalhadora à qual já foi imposto um enorme retrocesso trabalhista e social. Os serviços públicos estão longe de se recuperar dos grandes cortes sofridos, 27% da população vive abaixo da linha da pobreza, 14% dos trabalhadores são pobres e a precariedade afeta não apenas os serviços, mas também a indústria. A situação dos 14.000 “riders”, trabalhadores de aplicativos como Deliveroo, Glovo ou Ubereats, é a expressão de onde eles querem nos levar: forçados a se registrarem como trabalhadores independentes, sem a possibilidade de negociar as condições de trabalho e sujeitos a abuso sem controle, recebem salários de 900 euros, dos quais devem subtrair despesas trabalhistas de 450, incluindo a contribuição para a Seguridade Social.

O papel de Sánchez e o aparato sindical

É claro que, diante de uma nova recessão, os trabalhadores não podem esperar nada de bom de Pedro Sánchez, independentemente de ele presidir um governo apoiado por Pablo Iglesias ou pela direita. Sua política estará totalmente sujeita aos ditames da UE² e do Ibex 35 (Índice da Bolsa de Valores Espanhola). Não vai tocar na reforma trabalhista de Rajoy. Ele atacará o sistema público de aposentadorias com o argumento hipócrita da “sustentabilidade” e tentará implementar a “mochila austríaca”[1], precarizando ainda mais as contratações e ameaçando o já miserável pagamento de indenização. Suas promessas sociais serão fumaça e sua “transição ecológica” será uma fraude.

Já vimos isso nesses meses com o decreto de serviços mínimos que atentam frontalmente contra o direito à greve: 90% para os vigilantes, 78% para trabalhadores da AENA, 80% nas rotas da AVE e 65% em distância média, porcentagens semelhante na Ryanair.

Também vimos a submissão vergonhosa dos burocratas sindicais da CCOO, UGT e USO ( Centrais sindicais)  a esses decretos. São esses mesmos burocratas que neutralizam o último aumento do SMI de 8.000 trabalhadores de serviços auxiliares em Securitas e Prosegur, permitindo que os empregadores compensassem absorvendo adicionais salariais e não salariais. Quanto aos EREs, em vez de enfrentar e unificar a resposta, eles despertam o medo e aceitaram demissões desde o primeiro dia.

Devemos nos preparar

A resposta à recessão que está por vir tem que começar agora: enfrentar os planos de demissões e fechamento de fábricas que, em muitos casos, pertencem a multinacionais que ainda têm altos lucros; abordar seriamente aos serviços mínimos abusivos; unificar as lutas; deixando claro para Sánchez que “governe quem governar, os direitos são defendidos”.

Responder a uma nova recessão exigirá que tomemos passos substanciais na reconstrução do sindicalismo de classe e na recuperação do protagonismo das assembleias de trabalhadores. Isso exigirá vincular  as respostas imediatas a um programa de transformação socialista que inclua medidas de desapropriação de bancos, empresas de energia e outras empresas estratégicas e implemente um plano geral de reconversão ecológica da economia com base na garantia total dos direitos. dos trabalhadores afetados, em um planejamento democrático e sob o controle dos trabalhadores e usuários. Um programa com conteúdo europeu, é incompatível com a UE e nos leva a lutar por uma Europa socialista dos trabalhadores e povos.

[1] Esse é o nome de um sistema de garantia (ou compensação) de demissão com o qual as empresas necessariamente contribuem com uma certa quantia por mês para as contas de poupança individuais de cada um de seus trabalhadores, que podem ser resgatadas quando ocorre a demissão.

Tradução: Vitor Jambo