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A Guarda Vermelha foi construída pela classe operária no processo da revolução russa. Sua origem vem da revolução de 1905. Ela renasce com a revolução de Fevereiro de 1917, cai na semiclandestinade durante um curto período, depois dos levantes de julho; volta à tona e se fortalece na resistência ao golpe de Kornilov, como força de resistência aos golpistas; e se legaliza às vésperas da tomada do poder, no qual cumpre um papel decisivo.

Por: Américo Astuto

Na insurreição de Outubro, foi ela quem garantiu a tomada dos prédios públicos e do Palácio de Inverno, sede do governo de Kerensky; assegurou os serviços essenciais; e a segurança dos dirigentes soviéticos no Instituto Smolny. Foram os operários armados que mostraram iniciativa, resolução e firmeza durante o levante.

Lenin dava muita importância à sua formação. Em Cartas de longe, de 11 (24) de março de 1917 (que não deveria se tornar pública), solicitava aos operários que montassem suas milícias o mais rápido possível e não deixassem que a polícia fosse restabelecida. “Impedir a restauração da força policial! Não deixe os órgãos do governo local escapar de suas mãos! Estabelecer uma milícia que abrace realmente todo o povo, seja realmente universal e seja liderada pelo proletariado! – essa é a tarefa do dia, tal é o slogan do momento que igualmente se conforma com os interesses devidamente entendidos de promover a luta de classes, o movimento revolucionário e o instinto democrático de todo trabalhador, de cada camponês, de todos os trabalhadores explorados que não podem deixar de odiar os policiais, as patrulhas da polícia rural, os conselhos de aldeia, o poder sobre o povo. (…)

Uma verdadeira milícia popular, isto é, que consiste, primeiramente, em toda a população, de todos os cidadãos adultos de ambos os sexos. E, segundo, uma que combina as funções de um exército popular com funções policiais, com as funções de principal e fundamental órgão de ordem e administração pública“.1

Formação a partir das fábricas

As “guardas operárias” ressurgem a partir das fábricas e dos bairros operários para a autodefesa da classe. Muitas vezes com o papel de polícia, já que os aparatos de repressão do Estado estavam se esfacelando. Obtinham suas armas através de roubos dos arsenais czaristas (foi denunciado o desaparecimento de trinta mil revólveres e quarenta mil fuzis durante a revolução de fevereiro), o desarmamento da polícia burguesa e doações de regimentos e fábricas que simpatizavam com a revolução.

Nas fábricas, operários armados destituíam chefes, encarregados e engenheiros, prendendo-os quando era necessário. Reprimiam a sabotagem feita por proprietários e administradores que conspiravam contra a revolução. Treinavam nos seus arredores, ainda que com parcos recursos, em regime de revezamento e recebiam seus salários por isso. Faziam vigilância dia e noite nas fábricas e nos bairros. Todos os seus membros eram voluntários, centenas deles jovens.

Depois da constituição formal das Guardas Vermelhas, para um operário ser admitido era necessário que fosse apresentado por um partido socialista, um comitê de fábrica ou um sindicato. Se faltasse três vezes era excluído. Um tribunal de trabalhadores julgava as infrações e indisciplinas, como a de utilizar armas sem autorização. Todos os guardas tinham um cartão numerado de identificação. Os comandantes eram indicados pelos comitês de fábrica, organizações operárias e pelos sovietes (conselhos) do distrito, e eleitos por seus pares.2

Fábricas como a Putilov tinham batalhões inteiros, com técnicos, motoristas, telegrafistas, responsáveis de artilharia e pessoal da manutenção. Levavam seu armamento a toda parte, mesmo quando trabalhavam em seus tornos e fresas. Nos bairros operários, como Viborg, o soviete local se encarregava de requisições e aquisição de material.

Dadas as circunstâncias, a Guarda tinha muitas debilidades: a maioria dos seus membros era mal preparada, o armamento e a munição eram poucos, consequentemente o treinamento era insuficiente e irregular, o serviço de comunicação tinha muitos buracos e a assistência médica era precária.

Mas a presença de comunistas bolcheviques em seus destacamentos lhes dava firmeza política. Além disso, o contato cotidiano entre operários e soldados e marinheiros completava algumas das debilidades técnicas.

Em Moscou, por causa do entrave que as organizações reformistas (mencheviques e socialistas-revolucionários) colocaram à sua formação, foi mais difícil constituí-las, o que cobrou seu preço no momento da revolução. Nesta cidade, a tomada do poder foi mais sangrenta que em Petrogrado. A maioria do trabalho teve que ser feito de maneira clandestina pelos bolcheviques.

Se o surgimento dos guardas operários foi de maneira mais ou menos espontânea, sua centralização não foi, pois os bolcheviques tiveram política para isso. O operário metalúrgico Alexander Schliapnikov passou para a história como o que tomou esta tarefa em Petrogrado, sistematizando a organização espontânea, unificando-a no que seria a Guarda Vermelha.

A história da Guarda Vermelha é em grande medida a história da dualidade de poderes: esta, por suas contradições internas e seus conflitos, facilitava aos operários a criação de uma importante força armada desde antes da insurreição”.3

Idas e vindas da organização militar

As jornadas de julho se iniciaram com operários “incomparavelmente” mais decididos, mais ameaçadores e mais homogêneos que em fevereiro. Mas os bolcheviques achavam que ainda não era o momento do levante, particularmente porque o interior do país não estava ganho para a revolução e, mesmo na capital, a experiência com os reformistas ainda não havia se completado. Estavam certos e, apesar da radicalidade da vanguarda, o movimento teve que recuar.

Com o retrocesso, o governo prendeu os representantes dos operários e soldados, confiscou suas armas e isolou os bairros da cidade. Muitos guardas vermelhos foram desarmados, abertamente e à força.

Mas os operários não entregaram todas as suas armas, esconderam-nas, algumas enterradas, e os destacamentos da Guarda passaram à clandestinidade, cada vez mais ganhos pelos bolcheviques.

Quando veio o levante de Kornilov, em agosto, e sua tentativa de golpe burguês, pela direita, contra o governo provisório, tudo muda. Para se defender, o governo precisou dos operários, estes são rearmados e se enfrentam com os golpistas. Ocupam e vigiam as fábricas, bairros, rodovias e estações e linhas de trem. Os que não têm armas cavam trincheiras, constroem redutos e alambrados.

Putilov se converte no centro da resistência do bairro de Peterhof. Em Viborg, distribuem munições e armas por toda noite. As fábricas trabalham dia e noite montando novos canhões para os proletários. A fábrica de pólvora de Schlüsselburg fornece granadas e explosivos diretamente à Guarda Vermelha “Contra Kornilov!”. O sindicato dos ferroviários arma seus membros, ocupa ferrovias e levanta barricadas; o dos metalúrgicos monta um Comitê de Defesa; o dos motoristas disponibiliza o transporte para as milícias operárias. Sovietes se reorganizam, como o de Kronstadt, desarticulado em julho.

Mais um passo à frente

Quando os bolcheviques ganham a maioria do Soviete de Petrogrado, a Guarda Vermelha ganha legalidade. Transforma-se no órgão oficial do Soviete.

Um mês antes do levante, já se realizam exercícios militares abertamente, especialmente de tiro, em dezenas de fábricas. Em setembro, ensina-se o manejo de armas em 79 fábricas de Petrogrado. Em muitas delas todos os operários iam armados.4

No momento da tomada do poder, a Guarda Vermelha está mais organizada e treinada. O prédio do Instituto Smolny, centro da revolução e dos sovietes, é guardado por ela. O seu Estado-Maior permanece no Soviete de Viborg, um bairro completamente controlado pelos operários revolucionários, onde o inimigo não se atreve a aparecer.

Formalmente, a Guarda Vermelha continua sendo independente dos partidos. Mas, quanto mais próxima está a tomada do poder, mais os bolcheviques a controlam, é seu núcleo central, têm o comando em suas mãos.

Em 22 de outubro, na Conferência da Guarda Vermelha de Petrogrado, uma centena de delegados representava aproximadamente 20 mil combatentes.5 Divididos em batalhões de 400 a 600 membros, cada um com três companhias, alguns até com carros blindados. Os estatutos adotados nesta conferência definem a Guarda como “a organização das forças armadas do proletariado para combater a contrarrevolução e defender as conquistas da revolução“.6

O centro do plano para a tomada do poder consistia em juntar os marinheiros do Báltico com os operários de Viborg para as ações finais. Os marinheiros chegariam pela estrada de ferro à Estação Finlândia, situada neste bairro operário, e daí a insurreição se estenderia aos outros bairros, com os destacamentos da Guarda e os regimentos da guarnição ocupando pontes, e finalmente entrando no centro da cidade para tomar o Palácio de Inverno.

A arte da insurreição

Ora, a insurreição é uma arte, exatamente como a guerra ou qualquer outro tipo de arte. A insurreição submete-se a certas regras cuja inobservância conduz à ruína da parte que é por ela responsável”.7

Neste texto, publicado em 1852, Engels já alertava que “Em primeiro lugar, não se pode jamais jogar com a insurreição, caso não se esteja firmemente decidido a assumir todas as consequências do jogo. A insurreição é um cálculo com grandezas altamente indeterminadas cujos valores podem-se modificar, a cada dia.

As forças do adversário possuem todas as vantagens da organização, da disciplina e da autoridade tradicional, situadas do seu lado. Não sendo possível confrontá-las com forte superioridade, o resultado é a derrota e a aniquilação.

Em segundo lugar, tendo-se uma vez tomado o caminho da insurreição, há de se agir com a maior resolução e assumir a ofensiva. A defensiva é a morte de toda e qualquer insurreição armada. Essa última já resulta perdida, ainda mesmo antes de ter medido suas forças como as dos inimigos”.

Lenin e Trotsky estavam totalmente convencidos disso e faziam questão também de se diferenciar dos reformistas que os chamavam de “blanquistas”, lembrando que estes negavam a “preparação consciente da insurreição, o plano, a conspiração”, pois defendiam a manutenção da sociedade capitalista. E reivindicavam o texto de Louis Auguste Blanqui, Instruções para uma Insurreição Armada, publicado em 1861, por ter sido fruto de “observações e meditações sobre os fiascos de numerosos levantamentos dos quais ele tomou parte ou testemunhou”, e que levava a certas regras táticas, sem as quais a vitória da insurreição se torna extremamente difícil, ou mesmo impossível, ainda que devam ser modificadas de acordo com as “condições sociais e a técnica militar”, mas que, de maneira alguma, por si só são regras “golpistas” ou “aventureiras”.8

O erro deBlanqui foi acreditar que a insurreição seria somente um problema militar e que, se seguisse certas regras, esta seria vitoriosa.

Para Lenin: “Para ter êxito, a insurreição deve apoiar-se não numa conjura, não num partido, mas na classe avançada. Isto em primeiro lugar. A insurreição deve apoiar-se no ascenso revolucionário do povo. Isto em segundo lugar. A insurreição deve apoiar-se naquele ponto de viragem na história da revolução em crescimento em que a atividade das fileiras avançadas do povo seja maior, em que sejam mais fortes as vacilações nas fileiras dos inimigos e nas fileiras dos amigos fracos, hesitantes e indecisos da revolução. Isto em terceiro lugar. Estas são as três condições da colocação da questão da insurreição que distinguem o marxismo do blanquismo”.

A partir disso, “uma vez que existem estas condições, negarmo-nos a tratar a insurreição como uma arte significa trair o marxismo e trair a revolução”.9

Assim como para Trotsky, “A conspiração não substitui a insurreição. A minoria ativa do proletariado, mesmo bem organizada que seja, não pode amparar-se do poder independentemente da situação geral do país: nisso, o blanquismo é condenado pela história. Mas somente por isso. O teorema direto conserva a sua força. Na conquista do poder, ao proletariado não lhe basta uma insurreição das forças elementares. É preciso uma organização correspondente, falta-lhe um plano, precisa de uma conspiração. É assim que Lenin coloca a questão”.10

A tomada do poder, tanto por sua significação histórica como por seus métodos, de fato é um golpe de Estado, realizado por conspiradores. Mas, para que não seja uma ação superestrutural, deve estar baseada em uma insurreição de massas.

O levante

Após a tentativa de golpe dos generais em agosto, houve um fortalecimento do Soviete e dos bolcheviques e um aumento da crise do governo. Os soldados já não queriam mais ir para a guerra. O Soviete os apoiava e se negava a aceitar a proposta do governo de retirar as tropas de Petrogrado e enviá-las ao front, afinal eram as mais leais à revolução, e seriam trocadas por tropas do interior do país, mais conservadoras.

Para sair deste impasse, os reformistas apresentaram ao Soviete a proposta de criar um “Comitê de Defesa Revolucionária” do qual participariam os operários, que analisaria as propostas apresentadas pelo governo de Kerensky. Queriam aprovar aí as propostas de movimentação das tropas e conseguir legitimidade para isso.

Por isso, ficaram surpresos quando os bolcheviques aceitaram essa proposta tão facilmente. Não entenderam que estes visualizaram que quem dirigisse este Comitê decidiria como seria feita a defesa da capital, e que isso interessava a eles.

O objetivo dos bolcheviques era transformar este organismo em órgão da insurreição, subordinado ao Soviete, mas que por sua composição, legalidade e funcionamento poderia cumprir o papel de Estado-Maior da revolução. Este organismo adotou o nome de Comitê Militar Revolucionário (CMR) e foi regulamentado no dia 9 de outubro.

No dia seguinte, o Comitê Central bolchevique, em reunião secreta, adota a resolução de Lenin sobre a insurreição armada como objetivo a ser colocado em prática imediatamente.

Para “camuflar”, o Comitê colocou um socialista-revolucionário de esquerda à frente, “o jovem e modesto Lazimir”, que na verdade já tinha aderido aos bolcheviques. Com ele, Trotsky montou o projeto da tomada do poder, aprovado pelo Comitê Executivo do Soviete de Petrogrado, sem ser explícito, mas com os mencheviques contra, pedindo para constar em ata sua posição contra o projeto. Ele incluía o controle da defesa da cidade, dos armazéns, das comunicações, e demais coisas. “Todo mundo compreendia do que se tratava; mas, ao mesmo tempo, ninguém podia reclamar (…) O que antes servia para a política da conciliação, conduzia agora à guerra civil”.11

A seguir, o Comitê Executivo criou oficialmente a Guarda Vermelha. Assim, o armamento dos operários, que havia sido abandonado e perseguido, passou a ser oficial e legal. Os arsenais contavam com o controle operário para a entrega de armas.

O CMR começou a funcionar no dia 20 de outubro, integrado por bolcheviques e socialistas-revolucionários de esquerda. Contava com Trotsky, Podvoiski, Antonov-Ovseenko, Laschevich, Sadovski e Mejonochin, e ligava-se a Sverdlov nas questões principais. Este era o verdadeiro Estado-Maior da insurreição. Soldados e Guarda Vermelha passaram a ser subordinados ao Comitê Militar Revolucionário.

Foram nomeados comissários para os regimentos da guarnição, instituições, depósitos e armazéns. Só se cumpriam ordens emitidas pelos comissários. Ficavam nas sentinelas os soldados de mais confiança. Nas vésperas da insurreição, deu-se a ordem de prender os oficiais que não reconhecessem a autoridade do CMR, o que ocorreu.

Sverdlov montou um intenso serviço de informação que ligava os bairros operários, fábricas e guarnições militares, através de sovietes e comitês do partido, para saber tudo o que estava ocorrendo, as etapas e todos os episódios da luta. “O inimigo não pode pegar as massas desprevenidas”. Dzerjinsky passou a ser o chefe da central telegráfica, ocupando-a com o regimento Keksholm.

A repressão burguesa procurava intensamente Lenin para prendê-lo. Ele estava escondido em Viborg, o bairro operário que abrigava o Estado-Maior da Guarda Vermelha.

Trotsky inicialmente chamou a tomada do poder no Comitê Executivo dos Sovietes, os reformistas se contrapuseram, chamaram-no de golpista, mas o governo não teve força para prendê-lo. As instituições governamentais foram ocupadas uma atrás da outra, sem que houvesse resistência. Tomaram a central telefônica e depois o Banco de Estado com apenas 40 marinheiros.

Às 10 horas da manhã do dia 24 de outubro, o Smolny lançou para todo o país a comunicação de que: “O governo provisório foi derrubado. O poder passou para as mãos do Comitê Militar Revolucionário“. Mas o governo ainda existia no Palácio de Inverno, no Quartel General, nas províncias, e o Congresso dos Sovietes não havia se instalado.

Ao meio-dia, as tropas leais ao CMR ocuparam as ruas ao redor do palácio Mariinski, onde estava instalado o Conselho da República, ou o Pré-parlamento. Eram os regimentos da Lituânia e Keksholm. Os membros fugiram com a maior rapidez, ninguém foi preso, e entre eles estavam os que iriam organizar o Exército Branco na guerra civil.

Às 14 horas e 30 minutos, abriu-se a sessão extraordinária do Soviete de Petrogrado com um informe de Trotsky. Lenin, depois de quatro meses na clandestinidade, apareceu nesta sessão.

O objetivo era tomar o Palácio de Inverno. Mas, como até o meio-dia os marinheiros de Kronstadt não haviam chegado, esta foi adiada para as 15 horas. Com o atraso, os sitiados receberam reforços. Teve que ser novamente adiada. Podvoiski assegurou que se daria às 18 horas “custasse o que custasse”. Mas ainda a esta hora não se deu o desenlace. Podvoiski e Antonov se negaram a dar outro prazo. Trotsky queria que, no momento que se instaurasse o Congresso dos Sovietes de toda a Rússia, o Palácio estivesse ocupado e toda a capital estivesse nas mãos do Comitê Militar Revolucionário. Adiaram o início do Congresso.

Os atrasos tinham várias causas, desde a falta da lanterna vermelha que anunciava a fortaleza de Pedro e Paulo o seu cerco, soldados da fortaleza que se recusavam a atirar sobre o Palácio (tiveram que buscar marinheiros em Kronstadt, que não sabiam operar aqueles canhões, por isso os tiros partiram do cruzador Aurora), e mesmo estes tiveram medo de provocar muitas mortes.

Lenin, furioso, exigia a imediata tomada do Palácio. Podvoiski discutia fortemente com ele. Abriram fogo. De trinta e cinco tiros disparados só dois atingiram o alvo, e mesmo assim somente o revestimento de alvenaria.

Finalmente, Antonov conseguiu tomar o Palácio através de um assalto, com as forças de resistência praticamente extintas. Às 2 horas e 10 minutos do dia 25 para 26 de outubro, Antonov prendeu os membros do governo. O ritual estava encerrado com a tomada do último reduto de um regime desfeito definitivamente.12

O Comitê Militar Revolucionário, dono absoluto da capital, declarou que entregaria o poder somente aos verdadeiros representantes do povo. Este era o Congresso Nacional dos Sovietes.

Depois da revolução

Logo depois da tomada do poder, a Guarda Vermelha continuou a cumprir um papel fundamental na defesa do recém-fundado Estado soviético contra as tentativas de golpe da burguesia e do imperialismo.

O primeiro deles foi o levante Kerensky-Krasnov no mesmo outubro de 1917, desbaratado pela Guarda Vermelha de Petrogrado, Moscou e Karkov, sob o comando de Antonov-Ovseenko e apoiadas por marinheiros de Kronstadt e pela Divisão Letã de Yan Berzin.

Em julho de 1918, veio a tentativa de golpe dos SRs de esquerda, que não aceitavam o acordo de Brest-Litovsk. Moscou estava praticamente sem tropas, que haviam sido enviadas para o front. Foram derrotados pela Guarda Vermelha, pelo regimento dos carabineiros letões comandados pelo coronel Vatzetis e por uma unidade de internacionalistas prisioneiros de guerra austro-húngaros, convertidos à revolução, comandados por Bela Kun.13

Na guerra civil, a Guarda também esteve em muitos combates contra o Exército Branco, no Don, na Ucrânia e em Kiev na Frente Sul. Mas Denikin os estava derrotando em Donetz e Karkov, quando chegou a 300 quilômetros de Moscou. Foi derrotado, em fevereiro de 1920, por Tukhachevsky, o V Exército e a cavalaria vermelha.

Em Petrogrado, Trotsky derrotou Yudenich, lutando rua a rua e casa a casa, com batalhões de guardas vermelhos e os destacamentos de mulheres.14

Dissolução

Mas, com o desenvolvimento da guerra civil e a necessidade de um exército cada vez mais centralizado, por proposta de Trotsky, a Guarda Vermelha foi dissolvida, junto com os destacamentos camponeses e organizações guerrilheiras, na medida em que as forças contrarrevolucionárias as derrotavam, pois era necessário planejamento e tropas com organização e disciplina centralizadas.15

O álcool

Victor Serge conta que, durante um período, a burguesia imperialista descobriu a arma mais mortífera para a revolução: o álcool. Antes de afogar a revolução em sangue, ela pretendia afogá-la em vinho. O povo começou a saquear as adegas e depósitos de vinhos, dos palácios, restaurantes, hotéis e em toda parte. Para contê-los, foi necessário formar destacamentos selecionados de guardas vermelhos e marinheiros que colocaram metralhadoras nas adegas para impedir o acesso.

Mas, mesmo assim, muitos destes capitulavam aos prazeres do vinho. Com isso, tinha-se que trocar a tropa com urgência. “Os atos mais graves ocorreram nas adegas do Palácio de Inverno. O regimento Preobrajenski, encarregado de sua custódia, ficou bêbado, e não serviu para nada. O regimento Pavlovski, um dos mais revolucionários, também não resistiu. Enviamos destacamentos de homens tomados de diferentes regimentos: ficaram bêbados. Os próprios Comitês também não resistiram. Se enviaram blindados para dispersar a multidão; mas também estes logo titubearam. Ao cair da tarde, aquilo era um bacanal. ‘Bebamos o que ficou dos Romanov’, gritavam alegremente alguns na multidão. Finalmente restabeleceu-se a ordem graças aos marinheiros chegados de Helsingfors, homens de caráter férreo, que haviam jurado se matar antes de beber. No bairro de Vasili-Ostrov, o regimento de Finlândia, dirigido pelos elementos anarco-sindicalistas, resolveram fuzilar no ato os saqueadores e voar o depósito de vinho.16

Muitas vezes, o consumo de álcool era premeditado pela burguesia imperialista. “De repente apareceram na frente quantidades enormes de álcool. Chegavam em vagões-tanques que tinham o rótulo de petróleo ou gasolina”. Eram dezenas de vagões enviados para o Exército Vermelho, com etiquetas de aveia, madeira ou qualquer outra coisa.

Notas:

1 Lenin. Cartas de longe. 11 de março de 1917 – Sobre uma milícia proletária. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/lenin/1917/03/20.htm

2 Victor Serge. El Año I de la Revolución Rusa. Disponível em: https://facundoaguirre.files.wordpress.com/2017/01/el20ano20i20de20la20revolucion20rusa.pdf

3 Trotsky. História da Revolução Russa. Tomo II, Capítulo 43 A arte da insurreição, p.931. Editora Sundermann.

4 Victor Serge. El Año I de la Revolución Rusa. Disponível em: https://facundoaguirre.files.wordpress.com/2017/01/el20ano20i20de20la20revolucion20rusa.pdf

5 Isaac Deutscher, em Trotsky, O Profeta Armado, cita que eles realmente não passavam de 4 mil em Petrogrado e 3 mil em Moscou. Trotsky, em várias passagens, também observa que nunca chegaram a 20 mil de fato, de maneira ativa. Leonard Schapiro, em De Lenin a Stalin, fala em 70 mil, e há autores que chegam a 200 mil.

6 Trotsky. História da Revolução Russa. Tomo II, Capítulo 43 A arte da insurreição, p.931. Editora Sundermann.

7 Friedrich Engels. A Insurreição: Regras Fundamentais, publicado em Revolução e Contrarrevolução na Alemanha, Capítulo XVII. Der Aufstand (A Insurreição) in: Marx und Engels Werke (Obras de Marx e Engels), Vol. 8, Berlin: Dietz Verlag, 1960, p.95. Disponível em: http://www.scientific-socialism.de/ArteEngelsIns.htm

8 Trotsky. História da Revolução Russa. Tomo II, Capítulo 43 A arte da insurreição, p.931. Editora Sundermann.

9 Lenin. O Marxismo e a Insurreição. Carta ao Comitê Central, 26-27 de Setembro de 1917. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/lenin/1917/09/27-1.htm. Texto redigido nos dias 13 e 14 de setembro de 1917, às vésperas da insurreição, veio a ser publicado somente em 1921

10 Trotsky. História da Revolução Russa. Tomo II, Capítulo 43 A arte da insurreição, p.931. Editora Sundermann.

11 Trotsky. História da Revolução Russa. Tomo II, Capítulo 41 O Comitê Militar Revolucionário, p.865. Editora Sundermann.

12 Trotsky. História da Revolução Russa. Tomo II, Capítulo 46 A Insurreição de Outubro, p.1023. Editora Sundermann.

13 Leon Trotsky. Escritos militares. Como se armou a revolução. Vol. 1. A guerra civil na RSFSR em 1918. Disponível em: https://www.marxists.org/espanol/trotsky/em/rev-arm/volumen1-1918.pdf

14 Isaac Deutscher. Trotsky, O Profeta Armado. p.473. Civilização Brasiliense.

15 Leon Trotsky. El Camino del Ejército Rojo. in: Escritos militares. Como se armou a revolução. Disponível em: https://www.marxists.org/espanol/trotsky/em/rev-arm/volumen1-1918.pdf

16 Antonov-Ovseenko. Notas acerca de la guerra civil in: Victor Serge. El Año I de la Revolución Rusa. Disponível em: https://facundoaguirre.files.wordpress.com/2017/01/el20ano20i20de20la20revolucion20rusa.pdf