COMPARTILHAR

O que foi o período da Unidade Popular (UP) e o golpe de Estado ainda gera muita controvérsia. É verdade – como dizem alguns – que sob o governo de Allende havia caos no país? Houve socialismo durante o governo de Allende?

Por: MIT-Chile

Lutas operárias e camponesas: anterior ao governo da UP

Na década de 60, houve um profundo processo de mobilizações operárias, populares e estudantis reivindicando seus direitos. Esse foi um processo internacional: o famoso Maio francês de 1968 (protestos iniciados por estudantes aos quais posteriormente se uniram operários industriais e sindicatos) ou a Revolução cubana (que provocou a queda do regime do ditador Fulgencio Batista) estabeleceram precedentes para a classe operária em nível internacional. Houve fortes lutas no marco de uma economia capitalista em crise.

No Chile, cresceu a mobilização no campo por promessas não concluídas que ficaram do governo de Frei. Entre 1967 e 1973 os trabalhadores sindicalizados aumentaram quase em 200 mil. Com isso, aumentaram ainda mais as lutas, especialmente as greves ilegais. Foi um avanço gigante tanto no âmbito da organização como da consciência do movimento operário, já não estavam mais dispostos a continuar aguentando abusos de governos e exploradores. Isto é, se os empresários falam que foi um período de “caos”, foi pelo seu status quo, pois os trabalhadores começaram a questionar os privilégios de seus patrões e a lutar pelo que lhes era de direito. Foi um processo que deixou muitos ensinamentos às e aos trabalhadores.

Toda essa base social explosiva fez com que houvesse candidaturas com programas mais de “esquerda”, como a UP, que em 1970 chegou ao governo com Salvador Allende. A UP estava composta pelo Partido Comunista (PC), o Partido Socialista (PS), mais um pequeno partido dissidente da Democracia Cristã (DC), o Movimento de Ação Popular Unificado (MAPU) e pequenas agrupações empresariais, como o Partido Radical.

O Programa de Allende e a UP NÃO eram socialistas

No marco deste ascenso, para tentar responder, a UP tinha um programa de reformas (mudanças graduais) básicas, que incluía: meio litro de leite por dia como porção para todas as crianças; matrícula completamente gratuita, livros, cadernos e material escolar sem custo, para todas as crianças do ensino básico; aceleração da reforma agraria – segundo a mesma lei aprovada no governo de Frei – e; nacionalização completa do cobre. Quanto à indústria, propuseram dividi-la em três áreas: privada, mista e área de propriedade social (APS) a que não estava sob controle operário. Os bancos seriam também nacionalizados. Estas medidas ainda que graduais para o ritmo da luta e necessidades dos trabalhadores, foram importantes conquistas e uma ameaça para os empresários.

Leia também:  Chile | Carta de mulheres e simpatizantes do MIT para trabalhadoras/es da mineração e setores produtivos!  Por uma greve geral no 8M!

Mas o fato de que um programa tenha algumas medidas a favor dos trabalhadores e questione alguns privilégios de empresários, não significa que seja socialista. Por exemplo, o método preferido da UP para nacionalizar era o de comprar as ações das empresas, o que foi feito, em especial, com os bancos. Isso não tinha nenhuma semelhança com uma nacionalização de caráter socialista, expropriação sob controle democrático dos operários e sem indenização a aqueles que tinham se apoderado por muitos anos da riqueza produzida por seus trabalhadores.

É importante esclarecer isto, pois a maioria dos empresários proclamam a UP como marxista, e a própria UP se auto definia assim. Não era socialista, já que o socialismo tem pilares básicos que estiveram ausentes, por exemplo:

1. A UP não foi um governo composto e dirigido pelos/as trabalhadores, em lugar disto, o programa fazia uma referência vaga a uma “transição ao socialismo” respeitando as leis e as instituições empresariais (parlamento, Forças Armadas, etc).

2. Não houve planificação da economia, isto é, o que seria produzido ou não, não era sob um plano nacional resolvido democraticamente entre trabalhadores, com o objetivo de produzir o que a humanidade necessitasse. A produção continuou sendo, em grande medida, definida pelos interesses empresariais e seus lucros. Algo que desafiou isso foi a existência dos cordões industriais (que se organizaram por fora da UP) e que explicaremos depois.

3. Não houve monopólio estatal do comercio exterior, isto é, não era só o Estado quem resolvia o comercio com outros países, e sim, principalmente, os empresários através de seus negócios.

4. Não houve estatização dos principais ramos da economia sob controle operário. As nacionalizações foram com indenização e sem controle democrático dos operários.

O papel dos cordões industriais  

Os cordões industriais eram organizações de trabalhadores, que se organizavam em assembleias, para em um primeiro momento, unificar suas lutas e, depois assumir um papel ativo no controle da produção.

EM CERRILLOS ESTAVA A PRINCIPAL CONCENTRAÇÃO FABRIL DE SANTIAGO. ESSE MOVIMENTO SE CHOCAVA FRONTALMENTE COM OS NOVOS PLANOS DA UNIDADE POPULAR DE FREAR AS NACIONALIZAÇÕES. O CORDÃO CERRILLOS FOI FORMADO COMO UMA COORDENAÇÃO ENTRE OS SINDICATOS DE FÁBRICAS E CAMPONESES DA REGIÃO, PASSANDO POR CIMA DA LEI SINDICAL E PELA ESTRUTURA DA CUT.

Leia também:  O fantasma da revolução percorre o mundo

A plataforma de fundação do cordão já anunciava uma nítida pressão para radicalizar o processo, demandando, além da transferência de muitas fábricas para a Área de Propriedade Social (APS), o controle operário sobre todas as demais empresas na cidade e no campo e o estabelecimento de uma assembleia popular em substituição ao parlamento empresarial-burguês. Mas ainda tinham certa confiança no governo, consideravam apoiá-lo só “na medida em que este entendesse as lutas e as mobilizações dos trabalhadores”. Posteriormente, organizaram-se cerca de 30 cordões industriais em Santiago e no país.

O fracasso da via pacífica ao socialismo

Allende e a UP, diziam que chegariam ao socialismo por uma via pacífica. Mas, este ascenso da luta operária chegou a incomodar extremamente o empresariado chileno e norte-americano demonstrando com isso o fracasso de uma via pacífica ou conciliadora entre empresários e trabalhadores, em direção ao socialismo.

Assim, os empresários começaram uma guerra contra os trabalhadores: impuseram uma greve de caminhoneiros privados, à qual se juntaram associações de profissionais, estabelecimentos comerciais, o transporte urbano e a patronal industrial. Isto e mais o fechamento de empresas e o fato de esconderem produtos de primeira necessidade (através do mercado negro), ficou conhecido como o lockout patronal.

O governo e a CUT reagiram sem tomar iniciativa, mas os trabalhadores decidiram que a conspiração empresarial para paralisar o país não prosperaria e decidiram tomar a produção em suas mãos através dos cordões industriais. As fábricas foram ocupadas, os meios de transporte foram, em muitos casos, requisitados, muitos comércios foram abertos à força, começaram a organizar, massivamente, formas de controle de preços e de distribuição direta. O lockout patronal havia fracassado! E nunca antes a classe trabalhadora chilena havia expressado tal combatividade, união e energia! Os cordões industriais foram um nítido exemplo de que os trabalhadores e o povo podiam se autogovernar e controlar a produção sem necessidade de patrões.

Mas os dirigentes da UP não se moviam na mesma direção dos trabalhadores, nem mesmo das suas bases (que lutaram com heroísmo contra a ditadura). Em vez de apoiarem-se na mobilização, para encurralar e derrotar a burguesia e seus partidos, optaram pelo caminho da conciliação. Frente ao primeiro ensaio de golpe de Estado, Allende se apegou à institucionalidade empresarial: se ancorou nos generais que, junto com Prats, haviam sido os “heróis” que haviam impedido o triunfo do golpe (entre eles, incrivelmente, o próprio Pinochet) e declarou o Estado de Emergência, o que dava aos militares o controle do país. E usando a lei de controle de Armas, apreendeu o pouco armamento que os trabalhadores tinham para sua defesa. Por outro lado, os marinheiros de Valparaíso que advertiram o governo de um possível golpe e estavam à dispostos a combatê-lo, foram ignorados e inclusive reprimidos.

Leia também:  Direto do Chile | Retomada da Praça Dignidade no Podcast Opinião

O fracasso de toda esta tática de tentar se conciliar com os empresários, teve um resultado trágico: uma ditadura que matou mais de 2000 pessoas e torturou e fez desaparecer muitas mais.

Por que a via pacífica ao socialismo fracassou?

– Porque se confiou nas instituições do empresariado para fazer mudanças a favor dos trabalhadores

– Se menosprezou o nível de resposta dos empresários quando veem seus privilégios ameaçados: podem impor até uma ditadura

– Nesse contexto, o governo de Allende desarmou os trabalhadores e os chamou para “estar em seus locais de trabalho” e em suas casas.

– Não houve uma política nem por parte da UP nem do MIR (Movimento de Esquerda Revolucionária) para tentar com que rompesse um setor das  Forças Armadas para combater o golpe e lutar em defesa dos trabalhadores.

– Os cordões industriais foram um embrião que desafiou o poder do governo, por isso se dizia que havia duplo poder no país. Significaram o mais avançado da classe operária e popular. Entretanto, o processo teve uma grande e principal carência: a inexistência de uma corrente revolucionária, que pudesse ter acumulado experiência durante o processo para poder propor a construção de uma alternativa política à UP. Um partido que chamasse e guiasse os trabalhadores para que tomassem totalmente o poder através dos cordões industriais e exercesse sua autodefesa em armas, com uma revolução socialista.

Tradução: Lilian Enck