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Segundo dados da OIM (Organização Internacional para as Migrações), os migrantes equivalem a 3,5% da população mundial. A migração nos últimos anos teve um crescimento significativo por diferentes razões, como conflito, violência, crise econômica e política.

Por: MIT-Chile

O trabalho é a principal razão da migração, levando muitas pessoas a arriscarem deixar seus países de origem em busca de melhores condições de vida, em países com renda mais alta. No entanto, muitos dos imigrantes se deparam com uma realidade muito diferente do que o esperado. No Chile, vivem 1.492.522 migrantes, a grande maioria dos quais trabalha em empregos informais e precários. Um relatório da Clapes-UC aponta que apenas 20% dos imigrantes trabalham em empregos qualificados e de acordo com o mesmo relatório isso não é devido à falta de qualificação ou educação.

O panorama dos imigrantes desde que chegam ao país é desfavorável em muitos aspectos: burocracia e desinformação no momento da solicitação de visto, empregos informais, sem possibilidade de acesso ao seguro desemprego ou à saúde, condições precárias de moradia e superlotação, por não poder pagar aluguel com preços exorbitantes ou simplesmente por não ter acesso a melhores opções de moradia devido à instabilidade no trabalho. Ser forçado a condições de vida que não chegam a ser sequer mínimas. Expondo sua vida na maioria das vezes, apenas com o objetivo de gerar uma renda para suas famílias.

Segundo as informações fornecidas pelo INE e pelo DEM, os principais grupos de estrangeiros residentes no Chile são da Venezuela (30,5%), Peru (15,8%), Haiti (12,5%), Colômbia (10,8%) e Bolívia (8,0%).

A pandemia acentuou a opressão dos imigrantes nos setores mais pobres

A pandemia, além de demonstrar a face mais cruel da saúde no sistema capitalista, agudizou e evidenciou as opressões e a precariedade da vida dos migrantes em todo o mundo. Por exemplo, nos Estados Unidos, a maioria das hospitalizações e mortes é da população negra e latina. Em vários países europeus, o coronavírus tem sido usado como argumento pelos governos para dificultar e até impedir que imigrantes e refugiados entrem nesses países, deixando a deriva centenas de pessoas que não podem retornar aos seus países de origem. Também vimos a sugestão racista, feita por dois médicos franceses, de fazer da África um laboratório de testes para vacinas contra o coronavírus.

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No Chile, esse cenário não foi diferente. Se a situação dos imigrantes já estava era complicada antes do surto de COVID-19, não é muito difícil prever que piorou. Como detalhamos no início, os empregos que sustentam os imigrantes são principalmente informais, portanto, hoje eles não têm nenhuma segurança contra a pandemia, e também não têm renda para sobreviver. Vimos nas últimas semanas a grande concentração de pessoas em frente aos vários consulados, à espera de ajuda para retornar aos seus países de origem, porque eles não têm mais condições de ficar aqui.

Além de aprofundar a precariedade da vida dos imigrantes, também mostra racismo e xenofobia. Testemunhamos como Piñera pronunciou “Queremos agradecer às Forças Armadas que protegeram as fronteiras para que os imigrantes não tragam a infecção do Covid-19”, quando sabemos que aqueles que trouxeram o vírus não eram imigrantes.

Um dos exemplos mais explícitos que revela a xenofobia e o racismo da situação dos imigrantes no país é o que aconteceu em Quilicura há algumas semanas.

Com uma cobertura digna dos “Parlamentares reduzindo seu salário”.  Foi transmitido pela rede nacional de canais, um por um, incentivando o racismo e a violência contra imigrantes, sugerindo que mesmo quando casos da mesma gravidade ou pior surgiram – como ir de helicóptero para comprar mariscos de San Antonio -, estes não são o foco de notícias como o “Confirmam surto de COVID-19 em uma comunidade haitiana em Cité em Quilicura”, que apenas contribuem para exacerbar o racismo e a discriminação pública e massiva.

Na luta entre medos, dores, preconceitos, necessidades, possibilidades e direitos, um conjunto de questões se abre. Como acreditar nas soluções propostas pelas mesmas instituições que os expuseram, divulgando a foto do portão da residência nas redes sociais? Como acreditar em instituições que, por negligência e racismo, foram responsáveis ​​pela morte de Joane Florvil (que foi falsamente acusada de abandonar a filha, foi presa e depois morreu na Posta Central), Rebeka Pierre (morta em via pública, depois que a mandaram para casa do Hospital Felix Bulnes) e Monise Joseph (que morreu esperando atendimento médico no Hospital Barros Luco)?

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Quais são as medidas governamentais em relação aos imigrantes que não estão com seus documentos legalizados? Os imigrantes podem ter o direito de, pelo menos, acessar os serviços de saúde no Chile? Os imigrantes podem cumprir a Quarentena Obrigatória, se não têm renda para sobreviver?

Precisamos exigir que cada imigrante tenha os mesmos direitos de serem tratados no sistema de saúde que qualquer outro chileno ou chilena, que não sejam despejados se estiverem alugando e não tiverem como pagar o aluguel (como no caso recente de um imigrante haitiano que foi baleado e morto por não poder pagar seu locador), que aqueles que desejem retornar ao seu país tenham o livre direito de fazê-lo com medidas adequadas de segurança e saúde (como no caso dos venezuelanos que acampam há mais de duas semanas na porta da embaixada). E se não puderem garantir as condições de retorno que possam passar sua quarentena em hotéis ou residências equipadas para evitar contágio com um salário garantido. Se os proprietários não quiserem ceder suas instalações, deverão ser expropriados para garantir a vida acima de seus interesses financeiros.

Avançar em uma proposta de luta contra todos os tipos de opressão e exploração

Desde Marx, passando por outros teóricos, se fala sobre o papel da emigração para os países que “produzem mais”, as pessoas se movem em busca de melhores oportunidades para sobreviver, mesmo que isso signifique morrer no caminho, viver sem documentos ou viver sem direitos muitas vezes para sustentar suas famílias que permanecem no país de origem.

Hoje querem nos enfatizar que os imigrantes são uma minoria quando comparados à população chilena, que são os que vêm “roubar nosso trabalho”, que são – nas palavras de Piñera – os que trouxeram o vírus. Não devemos cair no jogo deles para dividir a classe trabalhadora.

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A única minoria é um punhado de ricos que se apropriam do trabalho da grande maioria da população, aumentando seus lucros, usando a xenofobia e o racismo para melhor dividir e explorar a classe trabalhadora.

A única possibilidade de avançar na luta contra a opressão dos imigrantes, dos negros, é que essa seja parte da luta conjunta das trabalhadoras e dos trabalhadores contra esse punhado de ricos. Não há possibilidade de unificar nesta luta os trabalhadores imigrantes com os imigrantes que hoje fazem parte da burguesia.

Precisamos lutar pela unidade dos trabalhadores e das trabalhadoras, o que significa lutar arduamente contra posições xenofóbicas e racistas nos espaços em que estamos ligados, lutando contra as lideranças burguesas e reformistas que os colocam como a causa de todos os nossos males, mascarando a verdadeira razão que perpetua e aprofunda essas opressões: O sistema capitalista.

Devemos nos organizar a partir da solidariedade de classe, em cada comunidade, em cada comitê de emergência, para avançar a que a classe trabalhadora e os setores explorados e oprimidos tomem o poder e parem imediatamente a barbárie em que o sistema capitalista nos afunda.

Pela saúde, pelo pão, pelo trabalho para garantir a vida da classe trabalhadora oprimida e explorada! Quarentena total já com salário garantido! Que a crise seja paga pelos ricos!

Referências

https://www.ine.cl/prensa/detalle-prensa/2020/03/12/seg%C3%BAn-estimaciones-la-cantidad-de-personas-extranjeras-residentes-habituales-en-chile-bordea-los-1-5-millones-al-31-de-diciembre-de-2019

https://clapesuc.cl/assets/uploads/2018/07/09-07-18-doc-trab-48-inmigrantes-jul-2018-vf.pdf

https://publications.iom.int/books/informe-sobre-las-migraciones-en-el-mundo-2020

Tradução: Nea Vieira