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As organizações feministas que vão participar da preparação deste 8M defendem que esta é uma luta contra o patriarcado ou contra o capitalismo patriarcal. Há uma vivência de que as instituições não estão acabando com o machismo e que estas são, de fato, parte do problema. Mas também há um repúdio às organizações políticas, inclusive da esquerda, posto que todas elas têm, segundo dizem, uma “estrutura patriarcal” de “relações hierárquicas”.

Por: Laura Requena

Esta visão tem, em parte, apoio na realidade, já que sabemos que, infelizmente, a influência do estalinismo, que alcança toda a esquerda, trouxe consigo o desprezo aos direitos democráticos das mulheres e o machismo generalizado dentro das organizações, o que também alcançou muitas das organizações trotskistas, que pagam um alto preço por isto.

Como consequência, muitas teorias feministas que se desenvolveram nos anos 60 e 70 tenderam, injustamente, a identificar o marxismo e o socialismo, ou o comunismo em geral, com o estalinismo, repudiando-os por igual. Ao não ter uma perspectiva de classe, muitas dessas organizações feministas ou suas dirigentes acabaram sendo cooptadas pelo imperialismo, limitando a luta das mulheres a uma rebelião para conseguir a igualdade dentro do contexto da democracia burguesa, objetivo cada vez mais impossível na medida em que o capitalismo em crise, para implementar seus planos, precisa aumentar todas as formas de opressão.

Também está muito presente a influência do pós-modernismo como ideologia, que influencia direta ou indiretamente boa parte da esquerda. O pós-modernismo nega a luta de classes e a necessidade da organização, defendendo o conjuntural e o espontâneo.

O patriarcado é um conceito que pode ter definições diferentes. É um termo que se usa de forma comum ou coloquial como sinônimo de machista ou sexista, para indicar que a opressão das mulheres se dá em todas as esferas da vida pública e privada e de forma cotidiana. Nesse sentido, todas as organizações falam de Patriarcado ou de que vivemos em uma sociedade patriarcal. Temos acordo com esta definição de uso comum.

Mas além deste significado descritivo de uma realidade óbvia, que não há como negar, esta definição encerra um componente teórico:  O patriarcado – para muitas teorias feministas – é a sociedade onde as relações de poder estão colocadas a serviço dos homens ou do sexo masculino em seu conjunto, onde todos os homens dominam, oprimem e/ou exploram as mulheres, e esta divisão hierarquizada entre homens e mulheres, e não de classes sociais, seria, segundo estas teorias, a divisão principal que estrutura a sociedade.

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Partindo disto, falam de patriarcado como ideologia, como estrutura social ou até mesmo como modo de produção. Deste modo, para a maior parte do movimento feminista, a luta das mulheres contra a violência e a desigualdade passa pela destruição do patriarcado.

É certo que as organizações feministas que se consideram marxistas ou socialistas denunciam os fundamentos reformistas, defendendo que não é possível chegar à igualdade sem combater o capitalismo e, em sua explicação da opressão às mulheres, combinam as relações de classe do capitalismo com as relações patriarcais. Mas, ainda que concordem com a necessidade de acabar com o capitalismo, não sustentam a centralidade da classe operária como sujeito social da revolução nem a estratégia da unidade da classe operária combatendo todas as opressões, e sim a unidade das mulheres na luta contra sua opressão. Seu objetivo é unificar e coordenar todas as lutas (a do movimento feminista, do movimento operário, o movimento ecologista, o movimento estudantil, etc.), situando no mesmo plano de hierarquia, por assim dizer, todas elas.

Como as relações patriarcais são anteriores ao capitalismo, para todo o feminismo, nos encontramos com duas lutas que são paralelas, mas diferentes.

Nossa posição diante das opressões

Nós, como organização revolucionária, retomamos a tradição marxista-leninista em relação à opressão, que é oposta pelo vértice ao estalinismo, mas também a todas essas posições que acabam sendo reformistas. Defendemos que não haverá emancipação das mulheres sem fazer a revolução socialista, mas também que esta não é possível sem a participação das mulheres trabalhadoras em igualdade de condições. Defendemos a unidade e a centralidade da classe trabalhadora nessa revolução socialista, porque é a única classe social capaz de levar a cabo uma revolução desse tipo, que vá até o final em expropriar a burguesia e acabar com as classes sociais e toda forma de opressão. Isto significa que defendemos que a luta contra o machismo é necessária antes, durante e depois dessa revolução.

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Nós, socialistas, não cremos que haja vários sistemas paralelos contra os quais temos que lutar. Para os marxistas, há um único sistema: o capitalismo, que se constituiu em um sistema de saque e rapina imperialista há mais de 100 anos e que hoje, diante da crise econômica mundial, tenta recolonizar países e continentes. Um capitalismo que efetivamente é machista ou patriarcal, é imperialista, racista e um montão de coisas mais.

A opressão da mulher e as demais opressões são anteriores ao capitalismo, mas este potencializou, mais que nenhum outro sistema na história, o uso de todas as opressões, inclusive criando novas formas de opressão, a serviço do fim que o move: a exploração da classe trabalhadora para obter lucros. Isto é, as opressões estão subordinadas à exploração, que é o pilar do sistema capitalista. Diferenciamos a opressão e a exploração como categorias diferentes porque ambas têm uma existência social própria e semiautônoma. Mas, para nós, as relações dominantes, as que estruturam a sociedade, são as classes sociais, que decidem, em última instancia, quais opressões são necessárias e quais não e que, ademais, podem ir mudando dependendo das necessidades da classe dominante em um determinado modo de produção. A luta contra a opressão das mulheres e contra todas as opressões é parte e se subordina à luta de classes e à revolução socialista.

Unidade de todas as mulheres ou da classe trabalhadora?

É possível que um movimento de todas as mulheres, das ricas que nos exploram com as operárias exploradas, obtenha a liberação das pobres, da metade da humanidade trabalhadora?

Nós, da Corriente Roja e da LIT-QI, o questionamos. Diante da “ sororidade” ou “irmandade das mulheres” do movimento feminista, defendemos a “irmandade de classe”: organizar as mulheres trabalhadoras como vanguarda de uma luta do conjunto, contra a opressão destas, com um programa independente da burguesia.

E o melhor exemplo disso encontramos na história. Clara Zetkin, precursora do movimento socialista de mulheres, membro do Partido Socialdemocrata Alemão e uma das fundadoras da Segunda Internacional, lutou por toda sua vida para organizar as mulheres trabalhadoras, quando, na Alemanha e em outros lugares, as mulheres eram proibidas até mesmo de participar na política. Ela e outras socialistas batalharam fortemente para que seus partidos lutassem pelo sufrágio feminino e pelas demandas que uniam a todas as mulheres na luta. E, para isso, se apoiaram na melhor tradição teórica do socialismo, nas obras de Bebel ou Marx e Engels que afirmavam que não há possibilidade alguma de conquistar a emancipação da humanidade se não lutarmos, ao mesmo tempo, pela emancipação das mulheres.

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Todas elas, e isso é possível comprovar nos escritos de Zetkin e outras revolucionárias, tinham muito estabelecida a fronteira de classe entre as operárias e as mulheres da classe proprietária. Tinham muita certeza de até onde podiam chegar em sua luta, fazendo unidade de ação na rua com as mulheres da burguesia – que nunca apoiaram as reivindicações operárias das trabalhadoras –, mas formando parte de organizações separadas.

Nós chamamos a todas as mulheres trabalhadoras, desempregadas ou em trabalho informal, estudantes ou aposentadas, a construir conosco a Corriente Roja e da LIT-QI, um partido e uma Internacional que estejam ao lado da mulher trabalhadora, que façam parte de suas lutas. E, se nos chamamos, com orgulho, de revolucionárias, é porque sabemos que a luta pelos nossos direitos não termina no oito de março, e sim que temos uma tarefa cotidiana e enorme à frente, a tarefa de todos os dias para construir, em cada luta, em cada batalha, o caminho até uma revolução socialista, como a que encabeçaram as mulheres no oito de março de 1917 na Rússia, para livrar o conjunto da classe operária da exploração e a mulher da opressão.

Tradução: Lilian Enck