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Em setembro, foi divulgada a notícia sobre a compra da empresa norte-americana Monsanto pela alemã Bayer, pelo valor de 66 bilhões de dólares, o que foi, sem dúvida, a maior operação econômica da Alemanha nos últimos tempos, e que permite à empresa de Leverkusen alcançar o primeiro lugar em engenharia genética em escala global.

Por: Marta Morales

No entanto, ser o “número um” não significa, nem de longe, que aqueles que consomem os alimentos ou os produtos farmacêuticos de ambas as empresas em questão, ou das duas ao mesmo tempo, terão os seus problemas resolvidos. Pelo contrário.

De qualquer forma, o ambicioso plano de absorção da Bayer inclui as decisões que serão tomadas de agora em diante sobre os produtos químicos e a biotecnologia para a agricultura. E, desculpem-me pela desconfiança, mas estou longe de acreditar que isso será uma coisa boa para nós, simples mortais deste planeta vilipendiado e sujeito ao aquecimento global, à produção de agrotóxicos, herbicidas, pesticidas e todos os “idas” dessa viagem “de ida” rumo à “colheita digital” que querem impor, como se fosse uma moda, com o argumento de que, como a população mundial continua a crescer, será necessário o uso de novas tecnologias para aliviar a fome de milhões de bocas.

Sem dúvida, o crescimento da população mundial torna necessário o uso de novas tecnologias de produção (além da propaganda “verde” pequeno-burguesa do culto ao natural, que só resulta em produtos caríssimos). Trata-se do controle dessas tecnologias, para que ajudem verdadeiramente e sem riscos a aliviar a fome das massas, em vez de serem desenvolvidas somente em função do lucro das empresas.

E, no momento, tudo o que vejo como o objetivo dessa compra-fusão é aliviar a crise econômica mediante a unificação de capitais e de tecnologias que tornem possível manter o domínio desses mercados em escala mundial… mesmo que muitas pessoas morram de fome ou contaminadas com produtos cancerígenos.

Uma história temível

Ao longo dos 115 anos de existência da Monsanto, fundada em 1901, o que permaneceu inalterado foram os enormes lucros obtidos, também por meio dos alimentos transgênicos que causaram inúmeras doenças e até mesmo a morte de muitas pessoas. E se falarmos da “séria” companhia alemã que produz medicamentos como a aspirina que leva seu nome, a história não é muito diferente.

Em última análise, a aquisição de uma empresa pela outra apenas transformará a segunda na maior produtora de sementes e pesticidas do mundo e aumentará o temível expediente que ambas utilizam, a partir do uso de organismos geneticamente modificados.

E tudo isso com o aval, e o crédito, é claro, de bancos como Merrill Lynch, Goldman Sachs, Credit Suisse, JP Morgan e HSBC, em uma corrida infatigável da Bayer para ganhar de sua concorrente suíça Syngenta, devorada, este ano, pela ChemChina. Sem esquecer que nessa corrida de consolidação da indústria agroquímica houve outras fusões, como a das empresas canadenses Potash e Agrium, no ramo dos fertilizantes.

Vale lembrar que, enquanto a Bayer é mais forte do que a Monsanto no terreno dos pesticidas, a empresa norte-americana domina o mercado de sementes. Assim, tornar-se a “número um” representa para o grupo alemão dobrar as receitas que até então representavam quase a metade de seu faturamento global.

No meio disso, estão os milhões de “bocas famintas”, do presente e do futuro, com as quais estes senhores e suas empresas “tanto se preocupam” que não dormem pensando em como vão fazer para nos “garantir alimentos nos próximos anos”. Mesmo que esse alimento nos cause a morte. Ou seja, morreremos de fome ou de câncer? Talvez possamos até escolher!

A realidade é que não se pode falar dessas empresas sem dizer que são responsáveis pela criação e venda de produtos que, ao longo de sua existência, causaram problemas diversos, escândalos, processos judiciais e, acima de tudo, danos à saúde e até mesmo a morte de muitas pessoas.

A Monsanto, por exemplo, já nos anos 1970, foi acusada pelo Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos de provocar essa doença mediante a utilização da sacarina, que fabricava como substituto do açúcar para a empresa Coca-Cola. Também naquele período foi demonstrado que o líquido refrigerador para condensadores, motores e transformadores elétricos, que vinha fabricando desde os anos 1920, provocava câncer em animais e em seres humanos. E, embora a Monsanto tenha indenizado pelos danos os moradores de Anniston, Alabama, onde estava localizada a fábrica que produzia esses bifenilos policlorados — que constituíam o líquido utilizado e eram cancerígenos —, os problemas, os sofrimentos e as mortes causadas foram, evidentemente, irreparáveis.

Mais tarde, já nos anos 1980, a Agência de Proteção Ambiental (AMPA) proibiu a Monsanto de fabricar poliestireno sintético com o qual os alimentos são embalados. E digo que são embalados porque, apesar de todos os efeitos nocivos comprovados, este sintético ainda é fabricado.

Talvez um dos principais produtos que transformaram a Monsanto no que ela é, para o seu bem e para o mal de toda a humanidade, foi o Dicloro Difenil Tricloroetano (DDT), o inseticida usado para controlar pragas agrícolas e florestais que a empresa começou a produzir em meados dos anos 1940. Quando, em 1962, a bióloga norte-americana Rachel Carson escreveu seu livro A Primavera Silenciosa, advertiu sobre os perigos da contaminação ambiental e afirmou, por exemplo, que o DDT persiste por muito tempo no ambiente (em condições propícias, até 20 anos) e se acumula nos seres vivos, o que significa que, se em um campo for pulverizado um quilo de DDT, depois de duas décadas ainda conterá meio quilo de inseticida e quarenta anos depois ainda conterá 250 gramas. Não só isso, o DDT se espalhou por todo o planeta devido à sua elevada persistência, pelos ventos e correntes oceânicas, por isso hoje está presente até mesmo no gelo polar, e está comprovado que não só não eliminou as pragas da face da Terra, como se acreditava que era possível, como ainda seus efeitos em longo prazo sobre a saúde humana continuam a ser uma fonte de incerteza e preocupação.

Mas a lista é longa, não termina aqui. Poderia mencionar também a produção do agente laranja, que foi despejado no Vietnã durante a guerra de invasão norte-americana; o herbicida à base de dioxina, que se acumula sob a pele de animais cuja carne é depois consumida por seres humanos, e que pode interferir nos hormônios Y e também no sistema imunológico, causando câncer; a somatotropina bovina recombinante (rBGH), hormônio modificado para aumentar a produção de leite em vacas e que está relacionado com o câncer de mama, de cólon e de próstata, razão pela qual foi vetado em muitos países, incluindo a União Europeia e até a Argentina, passando por Japão, Canadá e outros países que, por serem economicamente mais fortes, têm mecanismos de controle mais ajustados.

Para completar este quadro sombrio e assustador que a Monsanto nos oferece, podemos acrescentar a denúncia da cientista Stephanie Seneff, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, que afirma que existe uma correlação entre o aumento do uso do herbicida Roundup, que contém glifosato, e o aumento da taxa de autismo em crianças. Ela assegura que nos EUA, “em 2025, uma em cada duas crianças será autista”, uma vez que o glifosato está presente no leite materno em níveis muito elevados. Este ingrediente ativo é um biomarcador de crianças com autismo e, como se não bastasse, o uso de Roundup tornou-se obrigatório nos cultivos com sementes geneticamente modificadas da Monsanto.

Sem contar, é claro, o que a multinacional ganhou em todos esses anos parasitando “tecnologias” e “invenções” alheias. Por exemplo, o milho é um cultivo desenvolvido por milhares de anos pela “tecnologia” indígena, mas esses povos não recebem nada por sua “invenção”. Mas bastou que a Monsanto alterasse um gene (os famosos transgênicos) para que, em muitos países, a lei determinasse o pagamento de uma taxa por cada tonelada de milho semeada com essas sementes.

E a Bayer não fica atrás. Sua história está repleta de escândalos, muitas vezes silenciados e outras nem tanto, incluindo os contraceptivos orais do tipo Yasmin, que podem causar embolia pulmonar, falta de ar, coágulos sanguíneos e outros efeitos colaterais, em particular os comprimidos da quarta geração, contendo drospirenona e outras progesteronas recentes.

A Bayer também “se preocupa com a nossa saúde”, colocando no mercado medicamentos como o Liposterol — fabricado sobre a base de cerivastatina —, que produz insuficiência renal e problemas psiquiátricos e que levou várias pessoas à morte. Entretanto, para provar como cuidam da nossa saúde, oferecem-nos também — para combater os coágulos e a trombose que alguns de seus produtos nos causam— um anticoagulante, o Xarelto, que produziu no Canadá a morte de cerca de 130 pessoas devido a sangramentos excessivos após o seu uso, mas cuja comercialização é permitida até mesmo nos Estados Unidos, com a condição de que na bula exista uma advertência de que seu consumo aumenta o risco de acidente vascular cerebral. Uma pequena joia da indústria! Não perca!

Não é exagero pensar, então, que se essa é a lista de problemas divulgados, deve haver outra, muito maior e mais grave, que essas “multinacionais preocupadas” desenvolvem para aliviar a necessidade de produção de alimento que o crescimento da população mundial ocasionará no futuro, e elas contribuirão para evitar “bocas famintas”. Creio que farão isso, de fato, enviando-nos para a sepultura.

Na rota do dinheiro e do lucro, o mal não se muda… expande-se

Em uma análise feita no Deutsche Welle, o jornalista Henrik Böhme afirma que a encarnação do mal, título concedido à Monsanto a partir de sua compra pela Bayer, iria mudar-se para a Renânia do Norte-Vestfália, onde os membros europeus da agroindústria poderão reclamar diretamente à Monsanto por sua forma controversa de fazer negócios, bem como pelas consequências que resultariam para a “comunidade” da UE. E o autor pergunta: “Era necessário colocar o vilão dentro de casa e, além do mais, pagar muito dinheiro por isso?”.

É revoltante ler a propaganda que essas empresas estão fazendo em seus sites institucionais. Dizem, por exemplo, que “a fusão seria verdadeiramente complementar”, que “os clientes se beneficiariam com a ampla carteira de produtos” e que a “Bayer se comprometeu a tornar possível que os agricultores produzam alimentos suficientes, saudáveis, seguros e acessíveis para alimentar a crescente população mundial”. “Diante do enorme desafio que é ter que operar em um mundo de recursos limitados, com uma instabilidade climática cada vez maior, torna-se claramente necessário produzir mais soluções inovadoras que promovam o avanço da agricultura de nova geração. Ao apoiar os agricultores de todos os tamanhos em todos os continentes, a empresa conjunta irá posicionar-se como o melhor parceiro para obter soluções superiores verdadeiramente integradas”, segundo Liam Condon, porta-voz do Conselho Diretivo da Bayer AG e chefe da divisão Crop Science.

E, ao contrário de Welle, não tenho nenhuma dúvida de que a encarnação do mal, a Monsanto, não muda de país ou de continente, apenas se expande… para a Bayer, na Alemanha. É o que a Bayer precisa e quer fazer, para obter, além de tudo, a hegemonia no mercado da moda: a “agricultura digital”.

Como a própria empresa diz: “A Bayer tem um longo histórico de sucessos na hora de colaborar com as autoridades de todo o mundo para garantir a obtenção das autorizações regulatórias necessárias, e uma grande experiência na integração de aquisições a partir de uma perspectiva empresarial, geográfica e cultural”.

Daqui se deduz claramente que o mundo globalizado pertence a eles, não só no aspecto empresarial, do que não há dúvidas depois da fusão com a Monsanto, e no geográfico, uma vez que suas empresas têm forte presença nas Américas, na Ásia e na Oceania, para não mencionar a sua posição na Europa, além do aspecto cultural, como eles mesmos dizem.

E o que isso significa? Significa a cultura da superexploração, da dominação dos poderosos sobre toda a humanidade de “bocas famintas”, da destruição das terras cultiváveis e do meio-ambiente pelo uso de fertilizantes, pesticidas, transgênicos e um interminável etcétera que enche os bolsos e contas bancárias dos capitalistas, enquanto aumentam as “bocas famintas”, os problemas, as doenças e as mortes para o resto dos mortais.

Em resumo, o que essa compra-fusão expressa é um processo crescente de centralização de capitais (menos burgueses que controlam capitais cada vez maiores). O que, para bom entendedor, significa que qualquer eficiência maior e uma gestão centralizada (processo natural) ocorrerão não em benefício da sociedade, de seu desenvolvimento e do direito de seus habitantes a comer todos os dias, mas sim do lucro dos monopólios.

Assim, os 66 bilhões de dólares em jogo na compra da multinacional de herbicidas e engenharia genética de sementes Monsanto, e os mais de 25 bilhões em negócios anuais conjuntos entre Bayer e Monsanto, com toda certeza não significarão nenhum benefício para os pobres do mundo, como mais saúde, escolas, habitação, e tampouco qualquer benefício para o meio ambiente, os ecossistemas e/ou para o combate ao aquecimento global.

A manipulação genética tem nome e sobrenome, bem como a manipulação ideológica a que tentam nos submeter para que aceitemos tranquilamente, silenciosamente, as aberrações de um sistema que, a cada dia, deixa mais expostas aos olhos de todos as atrocidades e os desastres que os poderosos do mundo não têm vergonha em apresentar como grandes obras para esse futuro que, se continuar por esse caminho, não chegaremos sequer a ver, cobertos pela poluição ambiental, famintos devido à ganância do mercado capitalista, doentes por causa dos produtos químicos e biotecnológicos, e que, se tivermos sorte, talvez consigamos amenizar com uma aspirina… da Bayer, porque “se é Bayer, é bom”1.

Uma nova sociedade

Por isso, é necessário e urgente construir uma nova sociedade. Não a mesma que temos hoje, que não se muda, mas que se “globaliza” e se espalha de um continente a outro para continuar aplicando as mesmas políticas, e repetindo as mesmas canalhices, causando os mesmos males que se multiplicam a cada dia como os lucros nos bolsos dos capitalistas asquerosos, a hipocrisia no discurso de seus porta-vozes e as ideologias sinistras que defendem, como, por exemplo, a de que uma Monsanto nos alimenta com suas sementes e que uma Bayer nos cura com suas aspirinas.

Precisamos construir um mundo novo, livre de transgênicos, de poluição ambiental, de pílulas para tudo, e cheio de possibilidades para que a humanidade desenvolva suas forças produtivas, para que seja possível alimentar e curar, para que a vida seja sustentável em um planeta com simples mortais, para que seja possível exigir de cada um segundo as suas possibilidades e dar a cada um segundo as suas necessidades. Um mundo novo e socialista, que acabe de uma vez com Monsantos e Bayers, e com aqueles que as sustentam e apoiam; que acabe com os agrotóxicos e elementos geneticamente modificados; com os privilégios de alguns construídos sobre as ruínas de todos os outros; sem sementes transgênicas e até mesmo, atrevo-me a dizer, sem aspirinas.

Nota:

  1. Na década de 1990, o slogan usado na Argentina e em outros países latino-americanos para a aspirina e outros produtos farmacêuticos da Bayer, que era bastante convincente e cativante, era “Se é Bayer, é bom”. E, ao menos na minha época, era muito comum dizer “Se é Bayer…” quando queríamos dizer que alguma coisa, qualquer coisa, era boa ou poderia terminar bem.

Fontes:

http://economia.elpais.com/economia/2016/09/14/actualidad/1473839060_359923.html

http://historiaybiografias.com/ddt/

http://www.bayer.com.ar/centro-de-prensa/noticias/bayer-presenta-una-oferta-para-adquirir-monsanto-y-crear-un-lider-mundial-en-agricultura.html

http://www.ambito.com/854955-nuevo-gigante-bayer-sello-la-compra-de-monsanto-en-us-66000-millones

Hedelberto López Blanch. “Bayer-Monsanto: una unión diabólica”. Disponível em: https://www.rebelion.org/noticia.php?id=217072.

Henrik Böhme. “Bayer alcanzó su meta: Monsanto”. Em Análisis&Opinión: http://www.americaeconomia.com/analisis-opinion/bayer-alcanzo-su-meta-monsanto

Tradução: Márcio Palmares