Cronologia da vida de Moreno

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Hugo Miguel Bressano Capacete, conhecido politicamente como Nahuel Moreno, nasceu em 24 de abril de 1924 em Juan Bautista Alberdi (povoado agrícola e de pecuária da província de Buenos Aires, Argentina). Faleceu em 25 de janeiro de 1987, em Buenos Aires.

Quando Nahuel Moreno morreu, seu antigo companheiro e adversário político Ernest Mandel o recordou com as seguintes palavras: “Com ele desaparece um dos últimos representantes do grupo de quadros dirigentes que, após a Segunda Guerra Mundial, mantiveram a continuidade da luta de Leon Trotsky em condições difíceis…”

Nada mais verdadeiro. O mérito de Moreno foi justamente ter sido um continuador – em nossa opinião o mais digno dos tantos que existiram – da luta de Leon Trotsky. Continuador dessa longa marcha que tem um ponto de referência no triunfo da gloriosa Revolução Russa, que continuou na III Internacional, na Oposição de Esquerda e depois na fundação da IV Internacional.

Só é possível entender a vida e obra de Moreno no marco dessa batalha, que a partir daí cada um de seus atos se mescla com grandes acontecimentos ocorridos em uma época pródiga em guerras e revoluções.

1939 – Moreno começa sua militância em 1939: aos quinze anos de idade ingressa ao trotskismo através de um operário marítimo chamado Faraldo que, em 1977, foi sequestrado pela ditadura militar de Videla e atualmente está desaparecido. Junto a Faraldo e três militantes anarquistas, participa da fundação de um centro cultural: o Teatro da Lua.

1941 – Incentivados pelo militante norte-americano Terence Phelan, representante do secretariado da Quarta Internacional, a maioria dos pequenos grupos trotsquistas argentinos unificam-se no PORS (Partido Operário da Revolução Socialista), como seção da IV no país.

Hugo Bressano incorpora-se ao PORS, organização que, como todo o trotskismo argentino da época, está completamente afastado da classe operária e se limita a reuniões intermináveis em bares e cafés de Buenos Aires. Moreno tenta romper com essa marginalidade, tomando contato com o movimento operário. Na fábrica têxtil Alpargatas conhece um dirigente que lhe causa uma enorme impressão: Fidel Ortiz Saavedra, um boliviano semianalfabeto, grande orador e com muito talento político.

1942 – Bressano rompe com o PORS. Explica suas razões no artigo intitulado Três meses de vida no confusionismo. Critica os métodos do PORS (intrigas e calúnia) e sua política. Defende a tese de Liborio Justo (conhecido como Quebracho) para quem a tarefa central nos países semicoloniais devia ser a luta pela libertação nacional contra o imperialismo. Entra na LOR, a organização de Liborio Justo, que lhe põe o nome que adotaria pelo resto de sua vida política (Nahuel significa “tigre” no idioma araucano e Moreno pela cor de seu cabelo). Na LOR conhece Mateo Fossa, dirigente operário que se encontrou com Trotsky em 1938, no México. Moreno questiona Quebracho por seu método de fazer acusações pessoais para dirimir diferenças políticas. Liborio Justo expulsa-o da LOR.

1943 – Moreno começa a reunir-se com um grupo de adolescentes, em sua maioria operários de origem judia. Com eles estuda o Que fazer? de Lênin e leva-os ao trotskismo com a ajuda de Fidel Ortiz Saavedra. O grupo realiza sua primeira atividade internacionalista: publica a Carta a Bolívia, em solidariedade aos exilados desse país na Argentina.

Em um ato do Primeiro de Maio o grupo forma uma pequena coluna de quatro ou cinco integrantes, desfila ao grito de Quarta! e são agredidos pela Juventude Socialista. O PORS desaparece e a LOR fica reduzida a dois militantes.

Moreno escreve seu primeiro texto partidário, a brochura O Partido, no qual assinalava como conclusão central: “O urgente, o imediato, hoje como ontem é: aproximar-nos da vanguarda proletária”.

1944 – Com esse grupo de jovens operários, funda o GOM (Grupo Operário Marxista). Mateo Fossa ajuda-os a penetrar no movimento operário. No 1º de Maio aparecem os primeiros cartazes do GOM e da IV Internacional.

1945 – O GOM tem uma importante atuação no apoio à greve do frigorífico Anglo Ciabasa (uma das fábricas mais importantes do país, com 12.000 operários). Ao finalizar a greve, um grupo de ativistas e dirigentes da fábrica incorporara-se ao GOM.

Após essa greve, Moreno e grande parte dos militantes do GOM rompem definitivamente com o “trotskismo boêmio” dos bares e vão viver na Vila Pobladora, um bairro da cidade de Avellaneda, a concentração operária mais importante do país. Em pouco tempo, Vila Pobladora converte-se em uma “fortaleza trotsquista”. Moreno é eleito secretário geral do clube do bairro e ali os militantes do GOM ensinam os operários a ler e escrever e dão cursos sobre as revoluções francesa e russa.

1946 – Juan Domingo Perón é eleito pela primeira vez presidente da Argentina e ganha cada vez mais prestígio e peso na classe operária. O GOM edita seu primeiro jornal (Frente Proletária) e chega a quase 100 militantes, a maioria de operários.

1948 – O II Congresso da IV Internacional (o primeiro após a Segunda Guerra Mundial) reúne-se em Paris. O debate central é a questão do caráter social da URSS. Os novos acontecimentos (expropriação da burguesia no Leste europeu e Revolução Chinesa) não são discutidos. Moreno participa como delegado do GOM. Ali conhece os dirigentes do movimento trotsquista internacional: o grego Michel Raptis (Pablo), os ingleses Gerry Healy e Bill Hunter, o belga Ernest Mandel, os franceses Pierre Lambert e Pierre Frank, os norte-americanos Joe Cannon, Joseph Hansen, Farrel Dobbs e George Novack. Participa de três comissões e é informante do ponto sobre a América Latina.

Após o Congresso, o GOM realiza uma importante atividade internacional e organiza uma reunião com delegados das organizações trotsquistas do Peru, Bolívia, Uruguai, Brasil, Chile e os três grupos argentinos. Nessa reunião, surge o BLA (Birô Latino-americano) com o objetivo de construir a IV Internacional no Cone Sul.

Em Avellaneda, Nahuel Moreno é um dos oradores nos atos organizados pelo GOM em homenagem a Leon Trotsky, nos quais participam entre 200 e 500 pessoas. Em base à experiência acumulada o GOM decide transformar-se em partido e, em dezembro, realiza-se o Congresso de Fundação do POR (Partido Operário Revolucionário).

Moreno escreve seu primeiro trabalho teórico: Quatro teses sobre a colonização espanhola e portuguesa na América, no qual questiona a visão da maioria da esquerda, que considerava que a colonização tinha um caráter feudal e não capitalista. Também escreve A situação agrária argentina, Tese industrial e Tese Latino-americana.

1949 – No interior da IV Internacional surge um importante debate sobre o caráter social dos novos Estados do Leste europeu onde a burguesia havia sido expropriada. Há duas posições opostas: Mandel e Cannon afirmam que continuam sendo estados capitalistas. Por outro lado, Pablo, Hansen e Moreno afirmam que são novos Estados operários.

1951 – Moreno e José Speroni participam como delegados do POR no III Congresso da IV Internacional. Com a oposição de Moreno e outros delegados, é aprovada a política de Michel Pablo de “entrismo” nos Partidos Comunistas tradicionais para militar ali.

O Congresso reconhece o grupo encabeçado por José Posadas (que defendia as posições de Pablo e Mandel) como seção oficial argentina. Frente a este fato, os delegados do SWP dos EUA propõem uma modificação dos Estatutos da Internacional de modo a permitir a existência de seções simpatizantes. A proposta é aprovada e o POR é reconhecido como seção simpatizante.

Em polêmica com o posadismo, Moreno escreve O grupo Quarta Internacional, agente ideológico do peronismo.

1952 – Explode a revolução boliviana: uma insurreição popular na qual as milícias populares venceram o Exército boliviano. A luta era dirigida pela Central Operária boliviana (COB), apoiada pelo Partido Operário Revolucionário (POR), seção boliviana da IV. Moreno defende a política de lutar por “Todo poder à COB”; Pablo, Mandel e os próprios dirigentes do POR optam por apoiar criticamente o governo nacionalista burguês de Víctor Paz Estenssoro.

A situação interna da IV explode em um conflito quando Pablo ordena à seção francesa que inicie sua política de entrismo no PC francês e expulsa aqueles que se negam (a maioria).

Perón ganha a eleição presidencial argentina pela segunda vez.

1953 – A política de Pablo e Mandel frente ao stalinismo e aos ataques à seção francesa provoca a divisão da IV Internacional. O POR argentino, com Moreno, rompe com Pablo e o Secretariado Internacional, bem como os trotsquistas ingleses, norte-americanos (SWP, o maior partido da época), e a maioria dos militantes franceses e sul americanos. Forma-se o Comitê Internacional (CI).

Moreno escreve Carta de ruptura com o pablismo. Continua a polêmica sobre a Bolívia e Moreno publica Duas linhas, a oportunista e a revolucionária, frente às massas bolivianas.

1954 – O SI de Pablo e Mandel realiza seu Congresso Mundial no qual se reafirma a orientação de capitulação ao stalinismo. Por sua vez, o Comitê Internacional, encabeçado pelo SWP, apesar da batalha de Moreno para que atuasse como uma direção para reagrupar o trotskismo ortodoxo e enfrentar decididamente o pablismo, não chama a realização de nenhum encontro internacional. O POR argentino começa a organizar os trotsquistas ortodoxos do Cone Sul e, com militantes chilenos e peruanos, constituem o CLA (Comitê Latino-americano), um organismo para centralizar a atividade na região.

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Na Argentina, o POR, que atua na clandestinidade, tenta aproveitar alguns resquícios legais e começa um “entrismo” no PSRN (Partido Socialista da Revolução Nacional), onde dirige a Federação da Província de Buenos Aires e edita o jornal A Verdade.

Moreno escreve 1954, ano chave para o estudo do peronismo.

1955 – Desde A Verdade, os trotsquistas dirigidos por Moreno denunciam permanentemente a preparação de um golpe pelo imperialismo, a oligarquia e outros setores contra o governo peronista. Exigem que Perón entregue armas aos operários e que a central sindical (CGT) abandone sua passividade para enfrentar o golpe.

Quando este se dá (16 de setembro), Perón é obrigado a exilar-se. O POR lança milhares de panfletos chamando os trabalhadores a enfrentar o golpe, particularmente em 17 de outubro (dia histórico do peronismo) com uma greve geral. Um setor do peronismo acata o chamado, que tem ampla repercussão (com adesão de 70% do proletariado industrial). Com a posição da direção do PSRN contra a greve, a Federação Bonaerense rompe com este partido e integra-se à chamada Resistência Peronista.

Moreno escreve Carta ao Comitê Latino-americano (CLA) sobre Bolívia.

1956 – Três anos após a morte de Josef Stalin, o discurso do secretário geral do PCUS, Nikita Krushchev, no XX Congresso, provoca um profundo impacto no movimento comunista mundial e também no trotskismo. Moreno opina que este discurso é uma manobra da burocracia. Pablo e Mandel, ao contrário, veem um curso progressista da burocracia da URSS.

Na Argentina, o governo militar decreta a ilegalidade do PSRN. Os trotsquistas dirigidos por Moreno apresentam-se como POR e, nos materiais públicos como Socialismo Revolucionário Trotsquista. Começam a publicar um novo jornal: Unidade Operária.

1957 – Explode uma importante greve metalúrgica no país. O POR, a partir de seu peso nas fábricas, codirige a greve. Apesar de não ser metalúrgico, Moreno participa do Comitê Nacional de Greve. A greve é derrotada e muitos operários, entre eles militantes do partido, são demitidos e, inclusive, presos.

Moreno escreve Depois de Perón, o quê?, onde assinala que a tarefa fundamental para a Argentina é reorganizar o movimento operário a partir das comissões internas e corpos de delegados das fábricas e expulsar os interventores da ditadura militar dos sindicatos e da CGT.

1958 – O SI pablista realiza seu “V Congresso Mundial da IV Internacional”. O Comitê Internacional realiza uma Conferência na cidade de Leeds (Inglaterra). Moreno participa como representante do SLATO (Secretariado Latino-americano do Trotskismo Ortodoxo, continuador do CLA) e apresenta a Tese de Leeds, sobre a tática de FUR (Frente Única Revolucionária). Na Conferência, centralmente, trava uma dura discussão com os delegados do SWP dos EUA sobre a necessidade de enfrentar e derrotar o “pablismo”. Iniciam-se conversas entre o SI e o SWP para reunificar a IV Internacional. Moreno opõe-se.

Na Argentina, o POR e um importante setor de ativistas operários peronistas constroem o MAO (Movimento de Agrupamentos Operários), que publica o jornal Palavra Operária. Trata-se de uma Frente Única Revolucionária que, com a tática do “entrismo”, atua dentro do movimento peronista.

Em La Plata (Argentina) um estudante peruano, chamado Hugo Blanco, entra na Palavra Operária. Anos mais tarde Hugo Blanco se converteria em seu país, (segundo Moreno) no “maior dirigente de massas trotsquista após Trotsky”. Nos anos seguintes, Hugo Blanco retorna ao Peru e vai trabalhar em uma fábrica em Lima. Após participar em uma violenta manifestação contra a visita de Richard Nixon, a polícia ordena sua prisão e Blanco refugia-se em Cuzco, onde se desenvolvia uma importante ascensão das lutas populares. Ali trabalha como vendedor de jornais e rapidamente organiza o Sindicato Único de Vendedores de Jornais. Como representante desse sindicato, incorpora-se à Federação de Trabalhadores do Cuzco (FTC), une-se a seu setor mais combativo, os camponeses, e inicia um trabalho nesse setor.

Moreno escreve O marco histórico da revolução húngara; Quem soube lutar contra a Revolução Libertadora dantes de 16 de setembro de 1955?; Comentários de algumas teses do marxismo sobre os movimentos nacionais e A estrutura econômica argentina.

1959 – A Revolução Cubana abre um novo debate nas filas do trotskismo e da IV Internacional. Pablo apoia o movimento 26 de Julho, encabeçado por Fidel, desde o início. O resto tem uma atitude mais reticente. Inicialmente, Nahuel Moreno tem uma posição equivocada e compara o triunfo de Fidel ao golpe militar contra Perón. Meses depois, começa a mudar de posição e reconhece que a Revolução Cubana era parte da luta anti-imperialista.

1960 – À medida que passa o tempo, o movimento trotsquista aproxima-se a uma posição comum sobre Cuba. O VI Congresso Mundial do SI define Cuba como um “Estado operário”. O mesmo faz o SWP. No interior do SLATO Moreno propõe uma resolução onde se lê: “a defesa ativa da Revolução Cubana é uma tarefa importante de nossas seções”. Em Cuzco, Peru, Hugo Blanco organiza a primeira greve camponesa, que se converte na vanguarda da ocupação de terras. Moreno escreve Cuba, política e luta de classes.

1961 – O SLATO aprova uma resolução que afirma que em Cuba há “um governo operário e camponês” e um “Estado operário em transição”.

Nessa mesma reunião, discute-se a situação peruana e as mobilizações camponesas. Os delegados peruanos, presentes na reunião do SLATO, regressam a seu país com uma extensa carta de Moreno a Hugo Blanco. Nos meses seguintes, ante o avanço das lutas camponesas e o papel de direção que joga Hugo Blanco, o POR argentino envia vários dirigentes e militantes para ajudar o POR peruano. A direção do SLATO muda-se para Lima, para apoiar e desenvolver o processo revolucionário peruano. O POR argentino tenta conectar-se diretamente à direção cubana. Nahuel Moreno encontra-se em Punta del Este (Uruguai) com o Che Guevara, mas não encontra grande receptividade. Depois viaja ao Peru, onde a organização do SLATO tinha incorrido em um desvio foquista.

Moreno escreve Cuba sacode a América e Cuba, vanguarda da revolução.

1962 – No Peru, Moreno tenta frear o desvio putschista da FIR (Frente de Esquerda Revolucionária), mas não consegue. Pouco depois, um comando de nove militantes da FIR realiza um assalto espetacular em uma agência bancária de Lima.

Um dos assaltantes é identificado. Logo depois começa a perseguição a FIR e vários de seus militantes são presos. Hugo Blanco fica completamente isolado no campo. Moreno, é detido na Bolívia com um pedido de extradição pelo governo peruano, que o acusa de ser o “cérebro” do assalto ao banco de Miraflores. As organizações operárias desse país exigem sua liberdade e conseguem-na um mês depois.

Hugo Blanco começa a ser perseguido no campo.

Moreno volta, clandestinamente, a seu país e encontra um desvio putchista no POR argentino que, em sua ausência, decidiu iniciar a luta armada. A tarefa central era a instrução militar e vota-se que um importante grupo de quadros, encabeçado por Ángel Bengoechea, viaje a Cuba para receber treinamento guerrilheiro. Após uma longa discussão, Moreno consegue reverter a situação. Vota-se que cinco companheiros viajem a Cuba, mas para pedir ajuda material para impedir que Hugo Blanco seja preso pela repressão. Moreno é detido em Buenos Aires, sob a mesma acusação do assalto ao banco em Peru, e só o libertam seis meses depois.

Moreno escreve A revolução latino-americana.

1963 – Em junho, realiza-se o Congresso de Reunificação da IV Internacional. A maioria das correntes trotsquistas do Secretariado Internacional e do Comitê Internacional, que reconhecem que em Cuba surgiu um novo Estado operário, unificam-se dando origem ao Secretariado Unificado da IV Internacional. Ficam de fora as correntes encabeçada pelo inglês Gerry Healy e o francês Pierre Lambert.

O POR argentino, apesar de ser parte das correntes que opinam que Cuba é um Estado operário, não ingressa neste momento ao SU por suas diferenças políticas e metodológicas com o pablismo, e também com o SWP norte-americano que dissolve burocraticamente o CI sem nenhum tipo de balanço do pablismo nem do próprio CI. Ante o fato consumado, e para não ficar isolado, o POR argentino, entra no SU um ano depois, apesar de suas diferenças.

Em Cuba os cinco militantes do POR argentino não cumprem a resolução e realizam um duro treinamento guerrilheiro no qual se destacam. Ángel Bengoechea e o resto do grupo são ganhos por Guevara para a ideia de construir um foco guerrilheiro na província de Tucumán. Pouco depois de regressar de Cuba, o grupo rompe com o POR.

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No Peru, a guerrilha de Hugo Blanco percorre os vales, impulsionando a reforma agrária. Pouco depois, cai preso e, mais tarde, será julgado e condenado à morte. Sua prisão origina uma grande campanha internacional que consegue que as autoridades peruanas comutem a pena de morte por 25 anos de prisão.

Na Argentina, Nahuel Moreno entrevista-se com Mario Roberto Santucho, dirigente da FRIP (Frente Revolucionária Indo-americanista Popular). Concorda-se em iniciar um trabalho comum em Tucumán entre os trabalhadores do açúcar.

Moreno escreve Peru: duas estratégias e o livro Argentina, um país em crise.

1964 – O POR ingressa no SU. Ángel Bengoechea e quatro militantes de seu grupo morrem em uma explosão acidental de um depósito de explosivos. Nahuel Moreno e vários dirigentes são investigados pela polícia.

Palavra Operária dá por terminado o “entrismo” no peronismo e forma-se uma Frente Única Revolucionária com o FRIP, tendente à unificação.

Moreno escreve Dois métodos frente à revolução latino-americana.

1965 – Reúne-se o VIII Congresso Mundial da IV Internacional (o segundo desde a reunificação). Participam delegados de 20 países.

Na Argentina, realiza-se a fusão entre Palavra Operária e a FRIP e forma-se o PRT (Partido Revolucionário dos Trabalhadores). Nas eleições da Argentina um militante do PRT, Leandro Fote, dirigente dos trabalhadores do açúcar, é eleito deputado provincial na província de Tucumán. É o primeiro deputado trotsquista no país.

Moreno escreve o livro Bases para a interpretação científica da história argentina.

1966 – Moreno escreve A situação latino-americana e o livro A luta recomeça, ante um novo golpe militar na Argentina.

1967 – Na Argentina, o PRT divide-se. Um setor, encabeçado por Moreno, defende que a luta armada está subordinada à luta de classes e que o partido deve ser cada vez mais unido à classe operária. O outro setor, encabeçado por Santucho, defende o início da luta armada independentemente do nível da luta de classes e impulsiona a militarização do partido. Surgem, por um lado, o PRT (A Verdade), dirigido por Moreno e, pelo outro, o PRT (O Combatente), dirigido por Santucho. Anos depois, o PRT (O Combatente) construiria o ERP (Exército Revolucionário do Povo).

Moreno escreve o livro As revoluções Chinesa e Indochinesa e América Latina e a OLAS.

1968 – Produz-se o Maio Francês. No CEI da IV Internacional começa o debate a favor e contra o guerrilheirismo. A maioria do SU apoia esta posição.

1969 – Na Argentina, produz-se uma semi-insurreição operária e estudantil na cidade de Córdoba, o “Cordobazo”, e se abre uma etapa pré-revolucionária no país.

Na França, realiza-se o IX Congresso da IV Internacional. Participam delegados e observadores de 30 países. Moreno e Ernesto González são os delegados do PRT-LV. Aprova-se a linha guerrilheirista com a oposição do SWP, do PRT-LV e outras organizações (a “minoria”). O congresso reconhece o PRT-ERP como seção oficial por suas posições guerrilheiristas. Anos depois, esta organização rompe com a IV Internacional.

Moreno é detido novamente durante vários meses no Peru. Na prisão escreve a brochura Moral bolche ou espontaneísta e, já libertado, Após o Cordobazo.

1970 – No Chile, a Frente Popular encabeçada pelo socialista Salvador Allende ganha a eleição presidencial.

Moreno escreve o livro Lógica marxista e ciências modernas.

1972 – Moreno impulsiona uma posição muito polêmica na esquerda argentina: utilizar as margens legais conquistadas a partir do Cordobazo. O PRT-A Verdade abre sedes semilegais e chega a um acordo com um setor de esquerda do socialismo reformista para legalizar um novo partido e participar das eleições. O novo partido é o PST (Partido Socialista dos Trabalhadores).

No Chile, um grupo de exilados brasileiros forma o grupo Ponto de Partida. Por intermédio de Hugo Blanco (que havia sido libertado e estava nesse país) entram em contato com a IV Internacional e com Moreno.

Moreno escreve Argentina e Bolívia: um balanço (coautor), a brochura Uma campanha eleitoral revolucionária e Lora renega o trotskismo.

1973 – No Chile, o golpe militar encabeçado por Augusto Pinochet derruba o governo de Salvador Allende e desata uma violenta repressão. O grupo de exilados brasileiros Ponto de Partida sofre as consequências do golpe: Túlio Quintiliano é assassinado: Enio é preso no Estádio Nacional, mas consegue asilo na França; Zezé, Jorge Pinheiro e Waldo Mermelstein fogem para a Argentina, onde entram no PST. Com o objetivo de retornar ao Brasil, fundam a Liga Operária e começam a publicar o jornal Independência Operária.

O PST, ao contrário da maioria da esquerda argentina, desenvolve uma campanha eleitoral vitoriosa, multiplica várias vezes seu número de militantes (supera os mil) e transforma-se em um dos maiores partidos trotsquistas do mundo. O velho dirigente dos operários madeireiros, Mateo Fossa, entra no partido.

Em torno do documento Argentina e Bolívia: um balanço forma-se a TLT (Tendência Leninista Trotsquista) encabeçada pelo PST argentino e o SWP. Em agosto a TLT transforma-se em FLT (Fração Leninista Trotsquista).

Moreno, polemizando com Ernest Mandel, escreve Um documento escandaloso, trabalho mais conhecido como “O Morenazo” e que foi posteriormente publicado como livro com o título O Partido e a Revolução.

1974 – Na Argentina, um setor do governo peronista, chamado lopez-reguismo, impulsiona a Tríplice A (Aliança Anticomunista Argentina) que publica listas de militantes de esquerda e populares e exigem que saiam do país. Nahuel Moreno encabeça uma das primeiras listas. Quem não acata começa a ser assassinado, entre eles, militantes do PST como o “Índio” Fernández, um operário metalúrgico. As sedes do PST são metralhadas e atacadas com bombas. Um comando fascista ataca uma sede e assassina três operários do partido. A direção do PST exige publicamente do governo que entregue armas pesadas ao PST para defender suas sedes. O governo não responde. Em um importante ato nos funerais dos três militantes mortos, Nahuel Moreno chama publicamente a esquerda a formar grupos de autodefesa comuns para proteger as sedes dos diferentes partidos de esquerda. A esquerda não responde.

O grupo de exilados brasileiros retorna ao Brasil onde continuam construindo a Liga Operária e publicando o jornal Independência Operária.

1975 – Na Argentina, uma greve geral contra o governo de Isabel Perón derruba seus dois ministros mais importantes: Celestino Rodrigo e José López Rega. Os ataques contra o PST multiplicam-se: metralham a sede central e na cidade de La Plata um comando sequestra e assassina oito militantes. A partir desse fato, a direção do PST decide fechar as sedes e passar toda a militância à clandestinidade.

Moreno visita Portugal e toma contato direto com a revolução portuguesa. Escreve a brochura Revolução e contrarrevolução em Portugal. As diferenças sobre a revolução portuguesa e as surgidas a partir da luta anticolonial em Angola provocam a ruptura com o SWP e a dissolução da FLT.

1976 – Em março, produz-se um sangrento golpe militar na Argentina. Milhares de ativistas operários e populares são presos, torturados e assassinados, entre eles mais de cem militantes do PST.

Moreno sai clandestinamente da Argentina e instala-se em Bogotá (Colômbia). Ali funda a Tendência Bolchevique (TB) que pouco tempo depois se transforma em fração (FB). Moreno ganha o Bloco Socialista da Colômbia para a IV Internacional e para a Tendência Bolchevique e, pouco depois, é fundado o Partido Socialista dos Trabalhadores da Colômbia. Com essa nova localização, Moreno e um grupo de quadros argentinos e a direção do PST colombiano impulsionam a construção de organizações revolucionárias em vários países da América Latina e Europa.

1977 – A luta contra o ditador Somoza generaliza-se na Nicarágua. A FSLN (Frente Sandinista de Libertação Nacional) ganha peso. A FB levanta a palavra de ordem Vitória para a FSLN! O SWP critica a FB por esta política e ataca duramente a FSLN, Mandel não se pronuncia. No Brasil, a Liga Operária cresce e chega aos 300 militantes.

Moreno viaja à Europa. Na Espanha, acompanha de perto os primeiros passos da conformação do Partido Socialista dos Trabalhadores (PST) e impulsiona a defesa da República contra a monarquia.

Escreve Angola: a revolução negra em marcha.

1978 – Na Nicarágua, generaliza-se a insurreição popular contra Somoza e várias cidades são tomadas pela população. No Brasil, o Movimento Convergência Socialista, impulsionado pela Liga Operária realiza sua Primeira Convenção Nacional com mais de 1200 pessoas presentes. Moreno participa desse evento.

Como uma forma de acompanhar mais de perto a heroica luta do PST contra a ditadura militar na Argentina, Moreno reúne-se em várias oportunidades, no Brasil, com a direção argentina. Em um dessas viagens, após participar da convenção da Convergência Socialista, cai preso com vários militantes brasileiros. Uma campanha internacional, à qual aderem personalidades de todo mundo, impede que a ditadura brasileira o envie à Argentina onde, seguramente, seria preso ou “desaparecido”. Finalmente, o governo brasileiro deporta-o para a Colômbia e proíbe-o de voltar ao Brasil.

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Nessa época, Moreno recomenda que os trotsquistas brasileiros chamem os sindicalistas e os trabalhadores a construir um PT (Partido dos Trabalhadores).

Moreno escreve o livro A ditadura revolucionária do proletariado em polêmica com o trabalho de Mandel Democracia Socialista e Ditadura do Proletariado.

1979 – No Peru, várias forças de esquerda, em sua maioria trotsquistas, formam o FOCEP (Frente Operária Camponesa e Estudantil Peruana) cuja figura mais destacada é Hugo Blanco. Nas eleições, apesar da fraude, a FOCEP consegue 11% dos votos. O trotskismo ganha um grande destaque. Hugo Blanco (unido nessa época às posições do SWP) e o ex-operário metalúrgico Enrique Fernández (da Fração Bolchevique) são eleitos deputados; Ricardo Napurí (do POMR, lambertista) é eleito senador.

No Brasil, os militantes da CS seguem a orientação de Moreno e chamam a construir um PT. No IX Congresso dos Metalúrgicos do Estado de São Paulo, José Maria de Almeida, um operário metalúrgico da Convergência Socialista, propõe um manifesto que chama “todos os trabalhadores brasileiros a unir-se na construção de seu partido, o Partido dos Trabalhadores”. A moção é aprovada e assim começava a construção de um dos maiores partidos operários do mundo.

Na Colômbia, o Partido Socialista dos Trabalhadores, por proposta de Moreno, chama publicamente a formação da Brigada de Voluntários Simón Bolívar para juntar-se à FSLN na luta armada contra Somoza. Mais de mil pessoas (a maioria colombianos, mas também costa-riquenses, panamenhos, equatorianos, bolivianos, argentinos e chilenos) respondem ao chamado e mais de 100 entram na Nicarágua e se incorporam à luta armada (três deles morrem combatendo e vários ficam feridos). Após 45 dias de greve geral, as colunas da FSLN entram em forma triunfal em Manágua. Uma parte da Brigada Simón Bolívar entra em Manágua junto da coluna sul do sandinismo e outra parte toma e liberta a cidade de Bluefields (o principal porto do Oceano Atlântico).

Os sandinistas formam um governo de Reconstrução Nacional integrado também por setores da burguesia opositora. Após a queda de Somoza, a Brigada Simón Bolívar dedica-se a organizar sindicatos. A atividade é tão vitoriosa que, quando se funda a central sindical, sandinista 70% dos sindicatos presentes era formado pela Brigada. Nesse momento, uma marcha de mais de 3.000 nicaraguenses acompanha os brigadistas que solicitam que o governo os reconheça como cidadãos nicaraguenses. Mas os sandinistas detêm os brigadistas e expulsam-os do país entregando-os à polícia panamenha. No Panamá são presos, agredidos e torturados.

A Fração Bolchevique pede que o Secretariado Unificado repudie a repressão à Brigada Simón Bolívar, mas o SU nada faz. Ao contrário, o SU envia vários de seus mais importantes dirigentes à Nicarágua para entrevistar-se com os sandinistas a quem entregam uma carta na qual condenam a Brigada Simón Bolívar.

Ante esta grave transgressão, tanto aos princípios políticos como à moral revolucionária, a FB rompe com o SU. Por sua vez, o CC da OCI francesa (lambertista) e outras correntes trotsquistas solidarizam-se com a FB e com a Brigada Simón Bolívar. A partir daí, forma-se o Comitê Paritário entre a FB, o CORQUI (a organização internacional encabeçada por Pierre Lambert) e a TLT (uma pequena fração do SU), que tem como objetivo testar a possibilidade de unificar essas três correntes em uma organização internacional comum e assim dar um salto na reconstrução da IV Internacional.

1980 – O Comitê Paritário define-se pela unificação das três correntes. Moreno é o encarregado de elaborar o programa da nova organização internacional. Nesse enquadramento, a FB realiza uma Conferência onde vota sua dissolução. Em Paris realiza-se o congresso de fundação da nova organização internacional que se denomina CI-QI (Comitê Internacional – Quarta Internacional).

Como parte de seu trabalho de elaborar as bases programáticas da CI-QI, Moreno escreve o livro Teses para a Atualização do Programa de Transição.

1981 – Na França, a Frente Popular encabeçada por François Mitterrand ganha a eleição presidencial. A OCI francesa, principal organização do ex-CORQUI, capitula ao governo de Mitterrand. Começa uma dura discussão no interior da CI-QI, sobre a política que devem ter os revolucionários na França, brutalmente interrompida por Lambert, que expulsa os críticos de seu partido. A CI-QI explode. O ex-CORQUI reagrupa-se e o mesmo faz a ex-Fração Bolchevique, à qual se aproximam dois importantes dirigentes públicos do lambertismo: o peruano Ricardo Napurí e o venezuelano Alberto Franceschi.

No Brasil, funda-se o Partido dos Trabalhadores (PT). Na Espanha, Moreno leva a cabo uma dura polêmica com a direção do PST na qual alerta contra o enorme engano que supõe considerar o regime surgido com o pós-franquismo como “democrático burguês” e a imperiosa necessidade de relocalizar o combate contra a monarquia.

Moreno escreve Considerações gerais sobre a revolução latino-americana; Complemento ao projeto de resolução sobre a Polônia; O governo de Mitterrand: Suas perspectivas e nossa política e América Central: seis países, uma nação, uma revolução.

1982 – Em Bogotá (Colômbia), Moreno dirige a conferência de fundação da LIT-QI. Participam delegados de 18 países (a maioria da ex-FB) e também aderem Ricardo Napurí e Alberto Franceschi com um grupo importante de militantes provenientes do lambertismo.

Em abril, começa a Guerra das Malvinas entre a Argentina e a Inglaterra. Moreno e o PST tomam uma posição muito polêmica na esquerda argentina e mundial: seguindo os ensinamentos de Trotsky, chama a classe operária argentina a colocar-se, do ponto de vista militar, no campo da ditadura assassina contra o “democrático” império inglês. Durante a guerra, dois dos presos mais antigos da ditadura e importantes dirigentes operários do PST argentino (o “pelado” Matosas e o “petiso” Páez) oferecem-se como voluntários para lutar contra os ingleses nas Ilhas Malvinas.

A Argentina é derrotada pelos ingleses e a ditadura fica ferida de morte.

Moreno regressa à Argentina e dedica-se a impulsionar a construção de um novo partido: o MAS (Movimento ao Socialismo), formado a partir dos militantes do PST.

Moreno escreve as Teses de Fundação da LIT, 1982: Começa a Revolução, Por que Fidel negocia em segredo com Reagan?; Algumas reflexões sobre a revolução polonesa e A Traição da OCI.

1983 – O MAS desenvolve-se rapidamente: abre quase 300 sedes, ganha um importante número de militantes e realiza atos em grandes estádios esportivos com milhares de pessoas. Em poucos anos, transforma-se na principal organização da esquerda argentina.

1984 – Moreno viaja à Espanha para ajudar o PST a superar uma importante crise. A orientação fundamental que propõe ao partido espanhol é orientar-se em direção ao movimento operário e suas lutas. Seguindo esta orientação, o PST intervém em cheio na grande greve dos estaleiros.

No Brasil, a Convergência Socialista encabeça uma lista sindical que ganha um dos mais importantes sindicatos operários do país, o dos metalúrgicos de Belo Horizonte e Contagem.

Moreno escreve As Revoluções do Século XX; Problemas de Organização; Projeto de Teses sobre a Situação Mundial; Teses sobre o Guerrilheirismo e Nossa Experiência com o Lambertismo.

1985 – Após sete anos, Moreno pode retornar legalmente ao Brasil e toma contato com os principais trabalhos operários da Convergência Socialista. Recomenda à organização centrar sua atividade nas lutas operárias e nas oposições sindicais.

A partir dali, listas encabeçadas pela CS vencem as eleições do Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro e dos Metalúrgicos de São José dos Campos.

1986 – Moreno viaja à Europa e entrevista-se com importantes dirigentes do Workers Revolutionary Party da Grã-Bretanha. Na Espanha, Moreno acompanha o processo de mobilizações pelo referendo da OTAN contra o governo de Felipe González e ajuda a orientar o PST nas eleições gerais (onde obtém 84.000 votos) e nas eleições sindicais.

Publica-se Conversando com Moreno, sob a forma de entrevista, e escreve Conceitos Políticos Elementares; e O Sandinismo e a Revolução.

1987 – Em 25 de janeiro, aos 62 anos, Nahuel Moreno morre surpreendentemente em Buenos Aires por insuficiência cardíaca. Em seu velório participam vários milhares de militantes e uma coluna de 10.000 acompanha o translado de seu corpo ao cemitério da Chacarita. Chegam cartas de condolências da maioria dos partidos trotsquistas do mundo, bem como das centrais sindicais de Espanha, Bolívia, Brasil e Colômbia.