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Toda mulher trabalhadora, todas aquelas mulheres jovens, que fazem parte de algum coletivo feminista, toda lutadora e lutador a quem nos une a necessidade de enfrentar a violência machista galopante, os planos de austeridade, a retirada de direitos, a ameaça constante do desemprego e a precariedade do mesmo, a corrupção desenfreada, a exploração sem limite e a crescente opressão, precisamos estudar os ensinamentos da revolução que fizeram as operárias e os operários,  as camponesas e os camponeses pobres e os soldados da Rússia em 1917.

Por: Rosa Cecilia Lemus

Faz 100 anos, esta revolução abalou o mundo. Hoje estamos testemunhando, justo no ano de seu centenário, uma luta crescente e massiva das mulheres contra a opressão machista, contra os feminicídios, contra a desigualdade salarial, que se expressou de forma contundente no dia 8 de março. Junto com elas, os trabalhadores de diferentes continentes vão às ruas em manifestações de massa contra os gasolinazos, como no México, contra as demissões e planos de ajuste, como na Argentina, contra as reformas trabalhista e da previdência, como no Brasil e no Chile, contra os planos de austeridade dos governantes da União Europeia e contra Trump, que está mostrando abertamente a verdadeira face do imperialismo.

Nesta luta atual se volta a discutir o que fazer. Greve geral! exigiram os trabalhadores em 7 e 8 de Março na Argentina. Greve Geral! pediram no Brasil no dia 15 de março. Dia 26 do mesmo mês, milhares de pessoas se mobilizaram em cerca de 100 cidades da Rússia de Putin contra a corrupção e repressão. E esse “O que fazer?” tem muito a ver com esta primeira revolução operária de cem anos atrás, porque ela nos ensinou o caminho.

Hoje como ontem, setores de mulheres propõem: Irmandade de mulheres de todas as classes por nossos direitos, os setores reformistas de “esquerda” clamam: unidade eleitoral da esquerda contra a direita! Unidade com os Democratas Progressistas! Com a ilusão, no primeiro caso, que um movimento de todas as mulheres de todas as classes pode acabar com a opressão machista. Com a ilusão, no segundo caso, que com as eleições e o voto os explorados e oprimidos podem acabar com a miséria, a fome, as guerras e a exploração.

Essas mesmas propostas foram feitas 100 anos atrás na véspera e no meio da primeira revolução operária vitoriosa. E essas mesmas propostas se escutam hoje porque, definitivamente, os interesses das diferentes classes em luta continuam sendo os mesmos.

A Revolução Russa de 1917 foi vitoriosa porque o Partido Bolchevique, o mais revolucionário que proporcionou a história, soube defender intransigentemente os interesses do proletariado e ganhar as massas operárias, as mulheres trabalhadoras, os camponeses e os soldados para um programa socialista, internacionalista, que exigia uma profunda transformação nas estruturas do regime burguês existente. Eles tiveram que disputar a direção do movimento com todos os tipos de reformistas, que propunham um programa de conciliação e de alianças entre os diferentes interesses de classe e com os setores burgueses  “progressistas”.

E essas concepções ainda persistem hoje dentro da esquerda e do vasto movimento feminista, pelo menos em algumas de suas expressões organizadas.

Mas vejamos as lições da Revolução de Outubro com relação à libertação feminina ou à questão feminina, como costumavam denominar os bolcheviques. A maneira como a resolveram continua plenamente válida e, sem dúvida, nos serve para encarar o problema em nossa luta atual.

As mulheres operárias na vanguarda da revolução

Os bolcheviques resumiram em três palavras todo o programa revolucionário: Paz, Pão e Terra. Durante a Primeira Guerra Mundial imperialista, milhares de homens eram obrigatoriamente alistados nas filas do exército, a maioria deles, como sempre, provenientes do proletariado e dos camponeses. Esta situação produziu a um afluxo maciço de mulheres como trabalhadoras, que no sector agrícola chegou a 72% e nas indústrias constituíam 50% da força de trabalho em 1917.

As condições de vida, já miseráveis para a imensa maioria sob o czarismo, pioraram com a guerra, causando uma verdadeira escassez de alimentos e forçando as mulheres a suprir o trabalho dos homens. Às jornadas de 10 a 12 horas nas fábricas se somava o fato que não tinham nada para alimentar seus filhos, vendo morrer a muitos deles sem, sequer, chegar ao seu primeiro ano de idade. Por isso, elas foram as primeiras a exigir o fim da guerra e pão para seus filhos. Estas duas primeiras consignas dos bolcheviques foram tomadas pelas mulheres trabalhadoras, e forjadas nas longas filas das padarias. O setor mais oprimido, e, portanto, mais sensível do proletariado, iniciava a revolução com uma greve das fábricas têxteis de Petrogrado, justo no dia da mulher, à qual se juntaram os metalúrgicos gritando “PÃO”. Os trabalhadores organizados nos sovietes (conselhos), que já eram parte de sua experiência desde a revolução de 1905, rapidamente estenderam os protestos para todo o país. Poucos dias depois, o Czar abdicou e foi substituído por um governo provisório liderado pela burguesia.

Elas também desempenharam um papel importante para ganhar os soldados para a causa, já que muitos deles eram seus maridos. Não é por acaso que isso aconteceu, pois as mulheres trabalhadoras, educadas na submissão e obediência transformam estas em rebelião aberta, quando em épocas turbulentas os sofrimentos as levam ao limite.

Foram as mulheres operárias, como parte de sua classe, que começaram a revolução. Não foi um movimento das mulheres em geral. Pelo contrário, durante a revolução as mulheres, dependendo de sua classe, estavam em barricadas opostas: de um lado, as operárias, as camponeses pobres junto com seus companheiros de classe e o partido bolchevique, e do outro, as mulheres burguesas e dos partidos reformistas que apoiaram o governo provisório entre fevereiro e outubro 1917.

Neste período, os bolcheviques deram uma batalha paciente contra as ilusões das massas no Governo Provisório dentro dos sovietes, dirigidos majoritariamente pelos reformistas mencheviques e social revolucionários, argumentando que esse governo não iria atender a nenhuma das expectativas das massas rebeladas. Nem com o fim da guerra, nem com o pão, nem com a terra. Só a tomada do poder pelos sovietes de operários em aliança com os camponeses pobres poderia fornecer uma solução para suas demandas.

Isso confirma a visão marxista de que as reivindicações das mulheres, particularmente as da mulher trabalhadora, sempre aparecem como expressão e parte do movimento mais geral pela libertação dos explorados e oprimidos como um todo, e que as mulheres estão localizados no processo da luta de classes não como um movimento homogêneo, mas sim defendendo os interesses da classe a que pertencem.

Outubro: começa a libertação

Em outubro, se materializa a consigna bolchevique: Todo o poder aos sovietes! Esta organização de Conselhos de operários, camponeses pobres e soldados, expressão democrática das massas mobilizadas, dirigidas pelo partido bolchevique, começa imediatamente exercer o poder, promulgando as primeiras diretrizes do novo governo para resolver os problemas mais básicos pelos quais aconteceu a insurreição: o fim da guerra, confisco dos alimentos nas mãos de proprietários privados atravessadores e especuladores, a distribuição de terras aos agricultores pobres, a restituição da liberdade de imprensa e de expressão. Isto é, as orientações destinadas a implementar o programa de Paz, Pão e Terra.

Estas primeiras medidas não estavam ausentes das preocupações das mulheres operárias e camponesas, ao contrário, significavam começar a resolver seus sofrimentos mais imediatos: pão para os seus filhos, volta de seus maridos (os que sobreviveram) da frente de batalha e terra para os camponeses pobres. Com isso se dava o primeiro passo na revolução, vencendo a vontade das mulheres operárias e camponesas, que já faziam parte ativa dos sovietes.

Em dezembro do mesmo ano, pouco mais de um mês da tomada do poder, o governo soviético aprovou uma série de leis destinadas a colocar em primeiro plano os problemas específicos das mulheres.

Wendy Goldman, em seu livro A Mulher, O Estado e a Revolução, argumenta que os bolcheviques apresentaram uma resposta objetiva para a opressão das mulheres: “suas medidas, apesar de uma aparente simplicidade, foram baseadas em premissas complexas sobre as raízes e o significado de libertação”.[1]

Eles estabeleceram o casamento civil no lugar do religioso, o reconhecimento dos filhos ilegítimos com plenos direitos, o direito ao divórcio com um simples pedido de qualquer das partes, o direito ao aborto livre, voluntário e gratuito, plena igualdade jurídica e de direitos políticos do homem e a mulher. Um ano depois, em outubro de 1918, foi emitido um código completo sobre o casamento, a família e a tutoria. A legislação soviética tornou-se assim a mais avançada do mundo em relação ao reconhecimento da mulher e sua igualdade. Várias destas primeiras medidas nem mesmo eram socialistas, eram medidas democrático-burguesa, mas já demonstravam a profunda convicção dos bolcheviques de que a burguesia em decadência era incapaz de realizar as tarefas democráticas que sob o lema “igualdade e fraternidade” serviram de sustentação para as revoluções burguesas contra a nobreza, e que a verdadeira e completa libertação das mulheres só era possível sob o socialismo.

Nem mesmo os países capitalistas mais avançados tinham, nem tem hoje em dia, uma legislação assim. Lenin, referindo-se à luta pelo direito ao divórcio, em 1916, expressava essa convicção da seguinte forma:

Os marxistas, porém, sabemos que a democracia não suprime a opressão de classe, mas torna a luta de classes mais pura, mais ampla, mais aberta, mais nítida, que é justamente o que precisamos. Quanto mais ampla seja a liberdade de divórcio, mais claro será para a mulher que a fonte de sua ‘escravidão doméstica’ é o capitalismo e não a falta de direitos”.[2]

Acabar com a escravidão doméstica

Esta compreensão do problema da opressão feminina, estas suposições complexas de suas causas, das que fala W. Goldman estão na base das medidas tomadas pelo poder soviético. A falta de direitos, como diz Lenin, não é a causa de sua opressão, isso é apenas uma consequência dela. O responsável pela sua escravidão doméstica é o capitalismo. Os bolcheviques encararam resolutamente o ataque direto às bases materiais da opressão da mulher. Estas bases materiais estavam assentadas sobre uma contradição de ferro, que Marx e Engels já tinham indicado:

Quanto menos habilidade e força exige o trabalho manual, ou seja, quanto maior o desenvolvimento da indústria moderna, maior a proporção em que o trabalho dos homens é suplantado pelo das mulheres e crianças. No que se refere à classe operária, as diferenças de idade e sexo perde todo o significado social. Não há mais do que instrumentos de trabalho, cujo custo varia de acordo com idade e sexo”.[3]

Isto significa que o capitalismo, com o desenvolvimento da grande indústria, havia colocado a mulher operária, e até mesmo as demais profissionais, em uma enorme contradição. Quanto mais elas eram submetidas a vender sua força de trabalho no mercado capitalista como instrumentos diretos de exploração pelo capital, sua condição de mães e esposas se tornava uma carga tripla que o capitalismo não era, nem será capaz de libertá-las.

O capitalismo, ao torna-las parte da produção, lançou as bases para a sua libertação, mas, ao mesmo tempo, em função das leis que regem o lucro, converteu as mulheres no setor mais explorado e oprimido do proletariado.

Superexploração porque a entrada maciça de mulheres e crianças nos processos produtivos foi utilizada, e é utilizada, pelos capitalistas para reduzir o valor da força de trabalho (salários) do conjunto do proletariado, e das mulheres ainda mais, pois foi e ainda é considerado como salário complementar.

Ao mesmo tempo, submete-a de maneira indireta dentro da família a assumir os custos da reprodução da força de trabalho, de sua reposição e do cuidado dos membros improdutivos da sociedade. Isto significa que a opressão da mulher, especialmente da trabalhadora, se eleva para níveis extraordinários no capitalismo e no seio da família operária. Não acontece o mesmo com mulher burguesa ou dos setores mais altos da pequena burguesia, porque elas podem resolver este problema pagando pelos serviços de outra ou outras mulheres. Outra grande diferença, as burguesas não reproduzem a força de trabalho, pois em suas famílias nascem os herdeiros do capital.

O afluxo maciço de mulheres e crianças como assalariados foi muito difícil de entender por parte do movimento operário e sua vanguarda política, pois significava uma forte concorrência por empregos, a tal ponto que as últimas décadas do século XIX foram marcadas pela exigência do proletariado masculino de um “salário familiar”.

Wendy Goldman descreve em seu livro, citado anteriormente: “Os sindicatos artesãos montaram uma série de batalhas perdidas na sua tentativa de dar a volta no relógio, e as exigências por um salário familiar podia ser ouvido em toda a Europa até a Primeira Guerra Mundial”. O proletariado se recusava a aceitar esta nova regra de exploração capitalista, exigindo salários mais altos para que ele pudesse sustentar sua família. Continuava acreditando que o provedor era ele e a mulher deveria ficar em casa cuidando dos filhos.

O poder soviético tinha que resolver esta complexa contradição e o fez “expropriando aos expropriadores”, ou seja, eliminando a propriedade privada capitalista para colocar os meios de produção sob o controle dos produtores legítimos: a classe operária. Frente ao problema da propriedade da terra e sua coletivização, o processo foi muito mais complicado, com avanços e retrocessos, devido à necessidade de resolver o problema da fome e da produção de alimentos no meio da guerra imperialista, primeiro, e da guerra civil, mais tarde.

Junto com isto se estabeleceu o trabalho social obrigatório para homens e mulheres. Com esta medida se pretendia preservar e maximizar o papel das mulheres na produção e o trabalho social, para tirá-las das quatro paredes de sua casa, privada e individual, envolvendo-as em todas as tarefas de construção da nova sociedade. Ao mesmo tempo, foram aprovados, de acordo com diferentes situações, normas que proibiam o trabalho noturno das mulheres, foram regulamentadas as horas de trabalho, e se iniciou uma luta titânica para fornecer as condições materiais para a proteção à maternidade e às crianças abandonadas.

Liberar as mulheres do trabalho privado doméstico só foi possível através da organização de uma rede de serviços sociais assumidos por toda a sociedade proletária e organizado pelo Estado soviético: maternidades, creches, jardins de infância, restaurantes, lavanderias, clínicas, hospitais, sanatórios, organizações desportivas, cinemas, teatros, escolas públicas, etc., pelos quais se responsabilizariam funcionários assalariados dos dois sexos. Foi, como coloca Trotsky:

A absorção completa das funções econômicas da família, pela sociedade socialista, ao unir toda uma geração pela solidariedade e assistência mútua, devia proporcionar à mulher e, consequentemente, ao casal a emancipação real do jugo secular”.[4]

A questão da família

Os bolcheviques eram conscientes de que com a tomada do poder se abriria apenas uma fase de transição para o socialismo, que a realização de suas políticas e a construção do socialismo dependiam de uma série de fatores tanto internos como externos. Tinham a esperança de que a revolução logo triunfasse nos países mais desenvolvidos da Europa, o que iria permitir dar um grande salto no desenvolvimento das forças produtivas e derrotar a guerra imperialista. Também sabiam que as leis que outorgavam a igualdade de direitos entre os sexos, por si mesmas, não resolviam o problema das condições materiais necessárias para a sua consolidação.

Somente após a conquista do poder pela classe operária começam a pôr em prática as condições que podem transformar a vida até seus cimentos mais profundos ….

É mais evidente ainda que a transformação radical da vida (a emancipação da mulher da escravidão doméstica, a educação pública das crianças, a abolição das restrições econômicas que pesam sobre o casamento, etc.) não avançará, se não em conjunto com a acumulação social e do predomínio crescente das forças econômicas socialistas sobre as do capitalismo”.[5]

O problema do desenvolvimento de novas relações familiares e, portanto, da liberação das mulheres operárias e camponesas do trabalho doméstico estavam intimamente ligadas. Houve muita polêmica entre os bolcheviques sobre a abolição da família, o processo de extinção ou substituição por novas formas e as relações entre os sexos. Todos concordaram que era básico libertá-las do jugo servil do trabalho doméstico e que era necessária a socialização dessas funções econômicas da família. Mas a realização dessas tarefas dependia do crescimento e acumulação dos recursos econômicos e do sucesso em subverter os velhos costumes herdados do capitalismo e de seu desenvolvimento mais atrasado ​​no campo onde persistiam costumes medievais ainda mais arcaicos e onde vivia a grande maioria da população.

Trotsky acreditava que a família não podia ser abolida: tinha de ser substituída porque “a verdadeira emancipação da mulher era impossível no terreno da miséria socializada”. Alexandra Kollontai, Comissária do Povo para a Assistência Pública, era muito mais otimista e considerava que, em relação à velha família, as conquistas obtidas nos primeiros anos da revolução tinham jogado raízes suficiente para resistir aos altos e baixos:

O estado do processo de se livrar das tradições da sociedade burguesa podia ser visto mais claramente do que antes por causa das consequências que produzia a NEP na União Soviética. Durante os três anos da revolução, em que os pilares fundamentais da sociedade burguesa foram demolidos e obstinadamente se tentava construir o mais rapidamente possível as bases para a sociedade comunista, reinava uma atmosfera na qual as tradições ultrapassadas se extinguiam com incrível rapidez. (…) O desenvolvimento de uma produção socialista causa a dissolução da família tradicional e, assim, torna possível uma igualdade crescente de direitos e uma posição mais livre da mulher na sociedade”.[6]

Mas o processo não foi fácil, teve avanços e retrocessos. A rede de serviços sociais, restaurantes, lavanderias, creches, hospitais, era totalmente insuficiente para atender às necessidades. A economia de guerra forçou a que muitos recursos fossem investidos na defesa do nascente Estado operário, sitiado por 14 exércitos de países capitalistas europeus, e a comida era escassa. Nem todos os centros de atenção dos trabalhos domésticos conseguiam ser de boa qualidade e isso fazia com que novamente se voltasse para a “lar”. A Nova Política Econômica (NEP), concebida como uma medida temporária para incentivar a produção, produzia diferenças na cidade e certa acumulação no campo, girando novamente a atenção dos setores favorecidos à “mesa da família”. No entanto, apesar de todos os avanços e retrocessos nesta área, a Revolução Russa mostrou que no que diz respeito à libertação das mulheres nenhum país capitalista, mesmo os mais desenvolvidos países imperialistas, podem chegar aos seus pés. Os bolcheviques fizeram uma verdadeira revolução para acabar com a opressão. Eles lançaram as bases de novas relações humanas e entre os sexos, sobre novas bases econômicas e sociais.

As mulheres receberiam pelo menos a mesma educação e salários que os homens e podiam se concentrar em seus próprios objetivos e desenvolvimento individual. Sob tais circunstâncias, o casamento se tornaria supérfluo. Os homens e mulheres se uniriam e se separariam quando desejassem, sem as pressões deformadoras da dependência e a necessidade econômicas … a família despojada de suas funções sociais anteriores, se extinguiria gradualmente, deixando em seu lugar indivíduos plenamente autônomos, com igualdade e liberdade para eleger seus companheiros sobre a base do amor e o respeito mútuos”.[7]

A erradicação da prostituição

Os bolcheviques se basearam em estudos e análises da família realizadas por Marx e Engels para desenhar uma política que enfrentasse o fenômeno da prostituição. Nestas análises, eles assinalavam que a monogamia tinha se estabelecido apenas para as mulheres, como uma garantia de que os herdeiros da propriedade privada fossem filhos “legítimos” do pai e não de outro, e que para os homens se manteria a liberdade sexual: “O que para as mulheres é um crime de graves consequências legais e sociais, é considerado muito honroso para o homem”, portanto, a prostituição pública tornou-se seu complemento, a antítese da mesma instituição familiar. Esta continua sendo assim hoje, onde a mulher deve fidelidade absoluta ao marido ou cônjuge, e é causa de muitos feminicídios. É preciso destacar que a prostituição tem tomado âmbitos extraordinárias neste sistema, produto do desemprego e da expulsão violenta do aparato produtivo de amplas camadas de mulheres proletárias, que não encontram nenhuma outra maneira de sobreviver que vendendo seu próprio corpo.

Na Rússia czarista a prostituição estava generalizada e tinha sido regulado desde a década de 1840. Os bolcheviques começaram revogando esta legislação, que na verdade a legalizava, porque não a consideravam “um trabalho” mas a expressão mais extrema de exploração e degradação da mulher, uma forma comparada com a escravidão, que reduzia a mulher ao papel de objeto de desejo masculino, uma das expressões mais violentas de desigualdade social, destinada a desaparecer com a extinção da propriedade privada. Coerente com essa visão se deram uma política de não criminalizar as mulheres que a exerciam, às que consideravam vítimas, mas sim proibir e punir o proxenistismo ou manter um prostíbulo.

Eles tomaram uma série de medidas, todas elas destinadas a resolver as causas materiais que causavam prostituição.

Dentro do Partido Comunista se estabeleceu em 1919 uma seção feminina (zhenotdel) que considerava a eliminação da prostituição como um dos seus objetivos principais. Em 1919, o Comissariado do Povo da Saúde formou, pela primeira vez, uma comissão contra a prostituição, que foi reorganizada em 1923 …também se criaram Conselhos de luta contra a prostituição em nível provincial … os conselhos de luta contra a prostituição organizavam o trabalho em âmbito local, com diferentes graus de êxito. Proporcionavam moradias temporárias à mulheres desempregadas e à camponesas que migravam para as cidades. Ambos os grupos de mulheres eram vistas como populações vulneráveis ​​que poderiam recorrer à prostituição”.[8]

Estabeleceram-se hospitais onde eram atendidas gratuitamente as mulheres com doenças venéreas. Estabeleceram-se percentagens significativas para que as mulheres entrassem nos cursos de formação técnica para elevar o seu nível cultural e melhorar suas possibilidades de emprego.

Esta batalha dos bolcheviques, nos primeiros anos da revolução, sofreria um primeiro revés com a implementação da NEP, que produziu uma diminuição do emprego e resultou em um aumento nos índices de prostituição, que tinha desaparecido durante os primeiros três anos da revolução.

Marxismo e feminismo: uma polêmica necessária

A Revolução de Outubro e a concepção marxista posta em prática pelo Partido Bolchevique, nos primeiros anos da revolução e antes da degeneração causada pela burocracia stalinista a partir de 1924, após a morte de Lenin, que analisaremos em outro artigo, conservam hoje toda a sua riqueza e atualidade. Não é simplesmente uma discussão de ideias. É a melhor experiência do movimento operário no poder: A Revolução Russa foi e continua sendo uma experiência qualitativa no caminho para a libertação das mulheres, uma vez que se propôs a eliminar as bases materiais da opressão, além de conceder igualdade absoluta nos direitos democráticos. E isso se confirma ainda mais com a restauração do capitalismo, tanto na ex-URSS como nos outros Estados operários.

Queremos, a partir desta experiência, reivindicar sua atualidade e deixar expostas algumas diferenças com distintos setores do feminismo. Somos conscientes de que o “feminismo” não é homogêneo e está integrado por muitas concepções e nuances, e que em seu seio também se expressam interesses de classe e de setores de classes diferentes. Embora as várias correntes se coloquem como tarefa a igualdade política e social das mulheres, tarefa plenamente reivindicada pelos socialistas, propõem, na maioria dos casos, uma estratégia que consideramos equivocada: a necessidade de construir um amplo movimento de mulheres como sujeito político e social para lutar contra o patriarcado ou, para outras, contra o capitalismo patriarcal. Nós defendemos que a libertação das mulheres é uma tarefa da classe trabalhadora como um todo, e não apenas das mulheres trabalhadoras.

Com relação ao conceito de patriarcado ou família patriarcal temos diferenças teóricas profundas, pois consideramos pouco dialético e, não explica como se combinam e se desenvolvem as relações de gênero e de classe, as de opressão e exploração. Poderíamos encher páginas e páginas com citações não só de marxistas, mas de outros pesquisadores sérios que mostram que o capitalismo manteve a opressão das mulheres, transformando as instituições sociais e ideológicas que a sustentavam para dar-lhe um novo caráter de classe.

O capitalismo destruiu a forma de família patriarcal que se manteve até as sociedades pré-capitalistas, nas quais cumpriu uma função produtiva ligada à agricultura e artesanato, para se tornar um espaço não produtivo, mas mantendo a escravidão doméstica para cumprir as tarefas necessárias de reprodução da força de trabalho. A família como instituição social sofreu mudanças profundas na medida em que as relações de produção da vida material se transformam.

Em seu estudo sobre a evolução do pensamento de Marx e Engels em relação à família, Wendy Goldman, coloca que ambos os pensadores: “sugeriram que a família era mais do que um conjunto de relações naturais ou biológicas, adotando uma forma social correspondente com o modo produção. Eles insistiram que a família devia ser analisada empiricamente em todas as etapas históricas, e não como um conceito abstrato”.[9]

Nossa diferença com correntes feministas, neste terreno, tem uma utilidade prática, não queremos fazer um debate no terreno abstrato. É fundamental determinar qual é o inimigo que as mulheres trabalhadoras têm que enfrentar na atualidade e, para nós, é o sistema capitalista e seu modelo de família, com todas as suas determinações quanto às relações familiares concretas e as relações sociais e humanas entre os sexos.

O capitalismo não só corrói todos os direitos conquistados, mas ameaça destruir as famílias trabalhadoras pelas condições de superexploração. Estas contradições do sistema, que desenvolvemos neste artigo, estão ocasionando um sofrimento cada vez maior às mulheres trabalhadoras que têm que deixar seus filhos sozinhos ou na rua porque, caso se dediquem a cuidá-los, não têm nada para alimentá-los.

Esta realidade provoca situações terríveis de violência doméstica na qual sofrem as mulheres e crianças e onde ainda se conservam os privilégios para os homens. Este sistema elevou para níveis incríveis o conceito de mulheres como objeto sexual, aumentando a violência contra ela, em todos os terrenos. Muitas mulheres no mundo de hoje são mães e responsáveis pela família, tendo que lidar sozinhas com o ônus dos filhos. Ou seja, a opressão para a mulher trabalhadora aumenta, enquanto diminui a da mulher burguesa. Nos últimos 100 anos, desde a Revolução Russa até hoje, as mulheres burguesas resolveram quase todas as reivindicações que colocava Clara Zetkin: direito de voto e participação política, autonomia na gestão dos seus bens e propriedades, e liberação do trabalho doméstico. Muitas, inclusive, dirigem suas próprias fábricas e negócios, são políticas e até presidentes.

Então, hoje, o principal inimigo das mulheres trabalhadoras são os governos burgueses (liderados por homens ou mulheres) que atacam a nossa classe e perpetuam a opressão. O “feminismo” burguês (ou liberal)  do “empoderamento” já não é nem reformista, mas ao apoiar abertamente a esses governos e presidentes no poder (Merkel, Clinton, Bachelet, Dilma) tornaram-se um claro obstáculo para qualquer alternativa de libertação real.

Ainda assim, estamos dispostas a fazer unidade de ação pelas reivindicações democráticas comuns, por exemplo, contra os feminicídios e o direito ao aborto, com todos os setores do movimento de mulheres, incluindo setores burgueses. Nesta luta enfrentamos com determinação e coragem o machismo dos nossos companheiros de classe, para que eles compreendam que este nos divide e enfraquece nossa força, da mesma forma que o racismo, a xenofobia e a lgbtfobia. Portanto, acreditamos que esta política de conciliação de classe das feministas, no terreno feminino desarma e confunde as trabalhadoras para enfrentar abertamente as causas profundas de sua opressão e violência. As mulheres socialistas, por outro lado, nos diferenciamos, estabelecemos uma linha  de classe frente ao problema da opressão.

Embora possamos nos encontrar em ações e mobilizações com setores burgueses, somos totalmente contra a organizar um movimento político comum com nossas inimigas de classe, em nome da irmandade das mulheres.

Por outro lado, alguns grupos feministas radicais ou socialistas propõem redistribuição de tarefas domésticas entre homens e mulheres no seio da família. Ainda que estejamos de acordo que é uma medida útil e necessária, é insuficiente e limitada porque permanece nos marcos do regime burguês.

A nossa estratégia é a dos bolcheviques, que com a revolução demonstraram que se trata de tirar as funções domésticas do âmbito familiar privado para transferi-las para a economia social sob controle operário. Muito menos concordamos com aqueles que propõem a legalização da prostituição com o argumento de proteger as mulheres que por necessidade têm de recorrer a ela.

Estamos, como os bolcheviques, contra a criminalização e discriminação da mulher, mas exigimos o desmantelamento das redes de tráfico e do negócio da prostituição, exigimos o pleno emprego e formação, exigimos condições de vida decentes para as mulheres! Compartilhamos com o que levantou Clara Zetkin: “provisões econômicas e educacionais que permitam a recuperação das prostitutas, essa herança da ordem burguesa, resgatando-as do lumpem proletariado e reincorporando-as à comunidade de trabalhadores.

A estratégia socialista para a libertação das mulheres hoje envolve retomar o caminho de Outubro. Isso exige, em primeiro lugar, dar um duro combate ao machismo nos sindicatos, locais de trabalho, universidades, etc., e conseguir que as organizações da classe trabalhadora e o movimento estudantil e popular se coloquem na vanguarda da luta pelos direitos das mulheres e contra toda discriminação. Mas também exige revolucionar as bases materiais da sociedade, para acabar com a exploração e reorganizar o trabalho com igualdade de participação e direitos, socializando o trabalho doméstico. Tudo isso é impossível sem a construção de um partido dos trabalhadores, socialista e revolucionário, que se coloque na cabeça de uma tarefa tão gigantesca: a libertação total das mulheres trabalhadoras e, com elas, de toda a humanidade.

Nós convidamos os nossos leitores a visitar o nosso site. Lá encontrarão uma série de artigos que desenvolvem de maneira ampla distintos aspectos relacionados com a Revolução Russa e a libertação feminina.

Notas:

[1] GOLDMAN, Wendy. La mujer, El estado y La Revolución. Cap. 1 p. 35

[2] El marxismo y la cuestión de la mujer. Cecília Toledo (Org.). San Pablo: Ediciones Marxismo Vivo, p. 158 (destaque nosso)

[3] MARX, K. y ENGELS, F. Manifiesto del Partido Comunista. Cap. I, “Burgueses y Proletarios”, publicado por CITO 1998, p. 85 (destaque nosso)

[4] TROTSKY, León. La revolución traicionada. San Pablo: Ediciones Marxismo Vivo, 2011, p. 133.

[5] TROTSKY, León.Problemas de la vida cotidiana”. México: Siglo XXI. Cuadernos de Pasado y Presente, p. 183.

[6] KOLLONTAI, Alexandra. “La Mujer en el desarrollo Social”, prólogo Oslo 1925, edición española, Guadarrama.

[7] GOLDMAN, Wendy. Op. cit., p. 29.

[8] FRENCIA, Cintia; GAIDO, Daniel. El marxismo y la liberación de las mujeres trabajadoras de la Internacional de Mujeres Socialistas a la Revolución Rusa, Ariadna ediciones EIRL, 2016.

[9] GOLDMAN, Wendy. Op. cit., p. 52.