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Na apresentação do capítulo anterior da História da Revolução Russa, referente à manifestação de junho de 1917 (segundo o velho calendário russo), dissemos que os meses de junho e julho representaram um ponto de inflexão no processo revolucionário que levou a Outubro.

Os trabalhadores e as massas que haviam protagonizado a revolução de fevereiro compreendiam rapidamente que não havia sido suficiente derrubar o regime czarista para conseguir suas reivindicações (Paz, Pão e Terra). E os governos burgueses provisórios que se sucediam a partir de então (integrados e apoiados pelas correntes da esquerda reformista, como os mencheviques e os socialistas-revolucionários) não tinham nenhuma intenção de resolvê-las.”

A situação das massas piorava por causa do esforço bélico empreendido pelo ministro esserista Kerensky contra o exército alemão. A inflação e a falta de produtos essenciais tornavam esta situação praticamente insuportável.

Como consequência, os trabalhadores e as massas (essencialmente a base do exército) giravam à esquerda na compreensão do que deveria ser feito para resolver seus problemas, enquanto a direção dos soviets (mencheviques, esseristas e outras correntes) giravam cada vez mais à direita, abraçando a burguesia e tentando conter o curso da revolução.

Essa contradição era ainda mais aguda em Petrogrado (capital do país e vanguarda da revolução), onde os bolcheviques já tinham ampla maioria no soviet local de operários e peso de direção nos setores mais avançados da base das forças armadas (como a artilharia e a frota de marinheiros do Báltico).

O choque entre essas duas dinâmicas opostas havia se expressado em junho, numa manifestação pacífica em que ficou claro que a política bolchevique tinha peso majoritário entre as massas da capital.

Mas em julho explodiu de modo violento. No dia 3 de julho, setores muito importantes dos soldados das guarnições e das bases navais assentadas na capital e os operários das grandes fábricas coordenaram a realização de uma grande manifestação armada com a palavra de ordem de “Todo o poder aos soviets”. Estima-se que 500 mil pessoas participaram.

A dinâmica objetiva desta manifestação conduzia à insurreição e a choques violentos com as forças contrárias, colocando de modo agudo o problema concreto da tomada do poder. Como exemplo disso, Trotsky cita a frase ameaçadora de um velho operário a Chernov (o então presidente do soviet): “Tome o poder, já que o estão dando-lhe!”. Mas nem Chernov nem a direção majoritária dos soviets queriam o poder.

Trotsky dedica três capítulos do seu livro para descrever e analisar os acontecimentos de julho. No último deles, analisa que os bolcheviques poderiam ter encabeçado e realizado a tomada do poder em Petrogrado (e inclusive em alguns outros centros urbanos importantes do país), mas que a situação do país de conjunto, dos soldados do front e do campesinato pobre ainda não estava madura para uma nova revolução, ainda que avançassem rapidamente em direção a isso. Como assinala neste mesmo capítulo: “Não basta tomar o poder. É preciso mantê-lo”. A direção do partido considerou acertadamente que as coisas não haviam chegado a este ponto.

Com base nesta análise, a política da direção bolchevique foi, primeiro, buscar conter a manifestação. Logo, diante da comprovação de que sua realização era inevitável, colocou-se à cabeça para organizá-la e contê-la para evitar um choque prematuro destas características. Houve, claro, episódios militares menores pela ação de pequenos grupos armados contrarrevolucionários e ataques de franco-atiradores, bem como respostas a eles pelos manifestantes. Mas os bolcheviques conseguiram evitar um enfrentamento e uma derrota decisivos.

No entanto, o resultado das jornadas de julho representou uma derrota (a primeira e única) do processo revolucionário aberto em fevereiro. A partir delas se abre um curto intervalo reacionário em que os partidos conciliadores acreditaram ter “domesticado” as massas, e a burguesia considerou que havia chegado o momento de infligir à revolução uma derrota decisiva. Ambos os objetivos se expressaram nos ataques aos odiados bolcheviques: a sede e a imprensa do partido em Petrogrado foram atacadas, Lenin teve que passar à clandestinidade e Trotsky foi preso.

Mas, graças à acertada tática dos bolcheviques, tratou-se de uma derrota circunstancial e, poucos meses depois, a revolução voltaria com todas as suas forças e conduziria a Outubro. Uma das análises mais lúcidas do significado profundo das jornadas de julho foi feita posteriormente por Miliukov, o principal dirigente burguês daquela época, que as caracterizou como uma espécie de “ensaio geral” que logo se transformaria (corrigida e aumentada) na verdadeira tomada do poder.

As jornadas de julho: preparação e início

Leon Trotsky

Em 1915, a guerra custou à Rússia dez bilhões de rublos; em 1916, 19 bilhões; na primeira metade de 1917, 10 bilhões e meio; no início de 1918, o débito nacional teria chegado a 60 bilhões – isto é, teria quase igualado toda a riqueza do país, estimada em 70 bilhões. O Comitê Executivo Central preparava um projeto para um empréstimo de guerra, sob o nome adocicado de “empréstimo da liberdade”, enquanto o governo chegava à não muito complicada conclusão de que, sem um imenso empréstimo externo, não seria possível pagar não apenas os pedidos estrangeiros, mas nem mesmo honrar as obrigações domésticas. O passivo da balança comercial estava continuamente em ascensão. A Entente evidentemente estava pronta para deixar o rublo totalmente a seu destino. No mesmo dia, quando o apelo para o “empréstimo da liberdade” encheu a primeira página do Izvestia soviético, o Vyestnik[1] do governo anunciou uma brusca queda no valor do rublo. As impressoras não podiam mais acompanhar o ritmo da inflação. Para as velhas e respeitáveis cédulas, sobre as quais ainda restava o glamour do antigo poder de compra, acharam um substituto naqueles rótulos vermelhos de garrafas que ficaram conhecidos como kerenkis. E o burguês e o operário, cada um a seu modo, incorporavam naquele nome uma ligeira nota de repugnância.

Em outras palavras, o Governo adotou um programa de regulação estatal da indústria e até chegou a criar, no fim de junho, algumas instituições estorvantes para tal propósito. Mas a palavra e a ação do regime de fevereiro, como o espírito e a carne do piedoso cristão, estavam em contínuo estado de conflito. As instituições de regulação adequadamente selecionadas estavam mais preocupadas em proteger o capitalista dos caprichos de um poder estatal oscilante e vacilante do que refrear os interesses das pessoas privadas. O pessoal administrativo e técnico da indústria estava se tornando estratificado; as camadas superiores, assustadas pelas tendências niveladoras dos operários, dirigiam-se decisivamente para o lado do capitalista. Os operários adquiriram uma atitude de nojo com as encomendas de guerra com garantias de um ou dois anos de antemão às fábricas em desintegração. Mas os capitalistas também perdiam seu gosto pela produção que prometia mais problemas que lucros. O fechamento deliberado das fábricas a partir de cima se tornava agora sistemático. A produção de metal caiu em 40%, a indústria têxtil em 20%. O fornecimento de tudo o que era necessário à vida era inadequado. Os preços subiam no mesmo passo da inflação e do declínio da indústria. Os operários aspiravam ao controle daquele mecanismo administrativo-comercial que, às ocultas deles, decidia seus destinos. O ministro do Trabalho, Skobelev, pregava aos operários, em manifestos prolixos, a inconveniência de sua interferência na administração das fábricas. Em 24 de junho, o Izvestia anunciou uma nova proposta para o fechamento de várias plantas. Notícias similares chegavam das províncias. O transporte ferroviário sofria ainda muito mais do que a indústria. Metade das locomotivas tinha necessidade de capital de reparos; a maior parte do material rodante estava no front; faltava combustível. O ministro das Comunicações estava em estado de luta permanente com os operários e empregados das ferrovias. O abastecimento estava em contínuo declínio. Em Petrogrado, a reserva de farinha era adequada para dez ou quinze dias; em outros centros, para menos ainda. Com a semiparalisação do material rodante e a iminente ameaça de uma greve ferroviária, isso significava um contínuo perigo de fome. O futuro não continha um vislumbre de esperança. Não era isso o que os operários esperaram da revolução.

As coisas eram ainda piores, se isso é possível, na esfera da política. A indecisão é a pior condição possível na vida de governos, nações, classes – e também de indivíduos. Uma revolução é o mais violento de todos os métodos de resolução dos problemas históricos. Introduzir a ambigüidade numa revolução é a mais destrutiva política imaginável. O partido da revolução não se atreve a hesitar – não mais do que um cirurgião que afunda o bisturi num corpo doente. Contudo, aquele duplo regime – ou o regime da duplicidade – que saiu da reviravolta de fevereiro era a indecisão organizada. Tudo se voltava contra o Governo. Seus amigos qualificados tornavam-se adversários; seus adversários, inimigos; seus inimigos se armavam. A contra-revolução mobilizava-se abertamente – inspirada pelo Comitê Central do partido kadete, o estado-maior político de todos os que tinham algo a perder. O comitê diretor da Liga dos Oficiais, no Quartel-General em Moghiliev, representando cerca de cem mil oficiais descontentes, e o Conselho da União das Tropas Cossacas em Petrogrado, eram as duas alavancas militares da contra-revolução. A Duma do Estado, apesar da decisão do congresso de junho dos sovietes, resolveu continuar suas “conferências privadas”. Seu Comitê Provisório forneceu uma cobertura legal para o trabalho contra-revolucionário, que era amplamente financiado pelos bancos e pelas embaixadas da Entente. Os conciliadores eram ameaçados com perigos da esquerda e da direita. Olhando inquietamente nestas duas direções, o Governo secretamente resolveu fazer um desembolso para a organização de um serviço de inteligência pública – isto é, uma polícia política secreta. Nesta mesma época, em meados de junho, o governo designou 17 de setembro como a data para as eleições à Assembléia Constituinte. A imprensa liberal, apesar da participação dos kadetes no ministério, travou uma campanha obstinada contra a data oficialmente designada – em quem ninguém acreditava e que ninguém defendia seriamente. A própria imagem da Assembléia Constituinte, tão brilhante nos primeiros dias de março, dissolveu-se numa névoa turva. Tudo ia contra o governo, até suas próprias boas intenções anêmicas. Apenas em 30 de junho ele reuniu coragem para demitir os guardiões aristocráticos das aldeias, os zemsky nachalniks,[2] cujo próprio nome era odioso para todo o país, desde o dia de sua criação por Alexandre III. E esta reforma parcial, forçada e tardia, apenas marcava o Governo Provisório com um estigma de covardia desprezível. A nobreza por esta época recuperava-se de seu pavor. Os latifundiários se uniam e faziam pressão. Já no fim de junho, o Governo Provisório da Duma dirigiu ao Governo uma exigência de medidas decisivas para proteger os latifundiários dos camponeses incitados por “elementos criminosos”. Em 1.º de julho, reuniu-se em Moscou um Congresso Pan-Russo de Proprietários Rurais, contendo uma maioria esmagadora de nobres. O governo contorcia-se e tentava hipnotizar com palavras ora os mujiques, ora os latifundiários.

O pior de tudo, todavia, era a situação no front. A ofensiva contra o inimigo, que também se tornou o jogo decisivo de Kerensky na luta doméstica, agonizava em convulsões. Os soldados não queriam lutar. Os diplomatas do príncipe Lvov temiam olhar os diplomatas da Entente nos olhos. Precisavam desesperadamente de um empréstimo. Para mostrar firmeza, o governo condenado e impotente lançou uma ofensiva contra a Finlândia, empreendida, como em todos os seus serviços sujos, pelas mãos dos socialistas. Ao mesmo tempo, um conflito surgiu com a Ucrânia, que ameaçava caminhar para uma ruptura aberta.

Estes dias estavam muito longe daqueles em que Albert Thomas cantava hinos à luminosa revolução e a Kerensky. No início de julho, o embaixador francês, Paléologue, que cheirava muito fortemente aos aromas dos salões de Rasputin, foi substituído pelo “radical” Noulens. O jornalista Claude Anet deu ao novo embaixador um relatório introdutório sobre Petrogrado. Em frente à embaixada francesa – foi dito a ele – do outro lado do Neva, está o bairro Vyborg. “Este é um bairro de grandes fábricas que pertence totalmente aos bolcheviques. Lenin e Trotsky reinam ali como mestres”. No mesmo bairro estão localizados os quartéis do Regimento de Metralhadoras, totalizando dez mil homens e mais de mil metralhadoras. Nem os socialistas-revolucionários nem os mencheviques tinham acesso aos quartéis deste regimento. Os demais regimentos são ou bolcheviques ou neutros. “Se Lenin e Trotsky quiserem tomar Petrogrado, o que os impedirá?” Noulens ouvia com assombro. “Como o Governo pode tolerar tal situação?” “Mas o que ele pode fazer?”, respondeu o jornalista. “Deve entender que o Governo não tem nenhum poder a não ser o moral, e mesmo este me parece muito fraco…”

Não achando uma via, a energia despertada das massas gastava-se em atividades independentes, manifestações de guerrilha, tomadas esporádicas. Operários, soldados e camponeses tentavam resolver de um modo parcial os problemas que o poder criado por eles recusava-se a resolver. Mais do que qualquer outra coisa, a indecisão de seus líderes esgota os nervos das massas. A espera infrutífera as impele a bater cada vez mais insistentemente naquela porta que não abrirá para eles, ou a verdadeiras explosões de desespero. Já nos dias do congresso dos sovietes, quando os provincianos puderam reter com dificuldade as mãos de seus líderes esticadas contra Petrogrado, os operários e soldados tiveram plena oportunidade de descobrir o sentimento e a atitude dos líderes do soviete em relação a eles. Tseretelli, depois de Kerensky, tornou-se não apenas um estranho, mas uma figura odiada para a maioria dos operários e soldados de Petrogrado. Nas franjas da revolução crescia a influência dos anarquistas, cujo papel principal era desempenhado no comitê revolucionário autoconstituído na casa de verão de Durnovo. Mas até as mais disciplinadas camadas dos operários – até amplos círculos do partido – começavam a perder a paciência ou pelo menos a escutar os que já a perderam. A manifestação de 18 de junho revelou a todos que o Governo estava sem apoio. “Por que eles não trabalham lá em cima?”, perguntavam os soldados e os operários, tendo em mente não apenas os líderes conciliadores mas também os órgãos dirigentes dos bolcheviques.

Sob os preços inflacionários, a luta por salários excitava e enfraquecia os nervos dos operários. Durante o mês de junho, esta questão tornou-se especialmente aguda na fábrica gigante Putilov, onde 36 mil homens trabalhavam. Em 21 de junho, uma greve de operários qualificados estourou em certas partes da fábrica. A esterilidade destas explosões dispersas era muito clara apenas para o partido. No dia seguinte, uma reunião de representantes das principais organizações operárias, liderada pelos bolcheviques e com delegados de setenta fábricas, anunciou que “a causa dos operários de Putilov é a causa de todo o proletariado de Petrogrado”, mas apelou aos homens de Putilov a “restringir sua legítima indignação”. A greve foi adiada. Porém, os doze dias seguintes não trouxeram mudança alguma. A massa da fábrica inquietava-se, procurando uma saída. Cada planta tinha um conflito, e todos estes conflitos tendiam para cima, para o Governo. Um relatório do sindicato das brigadas locomotivas ao ministro das Comunicações dizia: “Pela última vez, dizemos: paciência tem limite; simplesmente, não podemos viver em tais condições…” Era uma queixa não apenas contra a miséria e a fome, mas contra a duplicidade, a falta de caráter e a impostura. O relatório protesta com raiva especial contra “a exortação interminável dos deveres do cidadão e da abstinência na fome”.

Em março, o poder foi transferido pelo Comitê Executivo ao Governo Provisório sob a condição de que as tropas revolucionárias não fossem removidas da capital. Mas estes dias estavam no passado. A guarnição moveu-se para a esquerda, os círculos soviéticos dirigentes para a direita. A luta com a guarnição nunca desapareceu da ordem do dia. Embora nenhuma unidade completa fosse transferida da capital, as mais revolucionárias – sob o pretexto de necessidades estratégicas – eram sistematicamente enfraquecidas por meio de substituição de companhias. Rumores do front sobre a dispersão de várias unidades por desobediência, por recusa a implementar ordens militares, chegavam continuamente à capital. Duas divisões siberianas – há pouco, não eram os caçadores siberianos considerados os melhores? – tiveram de ser dissolvidas pela força militar. Num caso de desobediência em massa, apenas no V Exército – o mais próximo da capital – 87 oficiais e 12.725 soldados foram acusados. A guarnição de Petrogrado – acumuladora de descontentamento do front, da aldeia, dos bairros operários e das casernas – estava em contínua fermentação. Quarentões barbudos exigiam com insistência histérica que fossem enviados para casa trabalhar nos campos. Os regimentos distribuídos pelo bairro de Vyborg – o 1.º de Metralhadores, 1.º de Granadeiros, o de Moscou, a 180.ª Infantaria, e outros – eram continuamente banhados pelos jatos quentes do subúrbio proletário. Milhares de operários passavam pelos quartéis, entre eles muitos incansáveis agitadores do bolchevismo. Sob os muros dilapidados e imundos improvisavam-se comícios quase continuamente. Em 22 de junho, antes das manifestações patrióticas desencadeadas pela ofensiva morrerem, um automóvel do Comitê Executivo imprudentemente passou pela avenida Sampsonevsky carregando o cartaz: “Avante por Kerensky!”. O Regimento de Moscou deteve os agitadores, rasgou o cartaz e transferiu o automóvel patriótico para o Regimento de Metralhadoras.

Em geral, os soldados eram mais impacientes que os operários – porque estavam diretamente ameaçados com a transferência para o front, e porque era muito mais difícil para eles entenderem considerações de estratégia política. Além disso, cada um tinha seu fuzil; e desde fevereiro o soldado estava inclinado a superestimar o poder independente de um fuzil. Lizdin, velho operário bolchevique, contou depois como os soldados do 180.º Regimento de reserva lhe falavam: “O que eles estão fazendo, estão dormindo no Palácio Kchesinskaia? Vamos lá, vamos expulsar Kerensky!”. Em reuniões de regimentos, resoluções eram adotadas continuamente proclamando a necessidade de tomar uma ação final contra o Governo. Delegações de fábricas individuais chegavam aos regimentos com a pergunta: “Os soldados sairão às ruas?”. Os metralhadores enviavam representantes a outras unidades da guarnição com um apelo de levante contra a continuação da guerra. Os mais impacientes destes delegados acrescentavam: “Os Regimentos Pavlov e Moscou e quarenta mil homens de Putilov sairão ‘amanhã’”. As admoestações oficiais do Comitê Executivo não tinham efeito. A cada minuto crescia o perigo de que Petrogrado, sem o apoio do front e das províncias, seria derrotada pouco a pouco. Em 21 de junho, Lenin apelou no Pravda para que os operários e soldados de Petrogrado esperassem até que os eventos trouxessem reservas de peso para o lado de Petrogrado. “Entendemos sua amargura, entendemos a excitação dos operários de Petrogrado, mas dizemos a eles: ‘Camaradas, um ataque imediato seria inoportuno’”. No dia seguinte, uma conferência privada de dirigentes bolcheviques – aparentemente, estando “à esquerda” de Lenin – chegou à conclusão de que, apesar do sentimento das massas operárias e dos soldados, não se devia aceitar a batalha: “Melhor esperar até os partidos dirigentes desgraçarem-se completamente com sua ofensiva, e então o jogo será nosso”. Assim relata o organizador de bairro Latsis, um dos mais impacientes naqueles dias. O Comitê Central cada vez mais freqüentemente era obrigado a enviar agitadores às tropas e às fábricas para evitar uma ação prematura. Com um confuso menear da cabeça, os bolcheviques de Vyborg queixavam-se a seus amigos: “Temos que desempenhar o papel de mangueira de incêndio”. Contudo, apelos para sair às ruas não cessaram um único dia. Alguns deles eram obviamente provocativos em caráter. A Organização Militar dos bolcheviques sentiu-se obrigada a se dirigir aos soldados e operários com um apelo: “Não confiar em qualquer chamado de sair às ruas em nome da Organização Militar. A Organização Militar não os está chamando para a ação”. E então, ainda mais insistentemente: “Exigir de qualquer agitador ou orador que os chama a sair em nome da Organização Militar credenciais assinadas por seu presidente e secretário”.

Na famosa praça Yakorny, em Kronstadt, onde os anarquistas levantavam suas vozes cada vez mais confiantes, era redigido um ultimato após o outro. Em 23 de junho, delegados da praça Yakorny, agindo por cima do soviete de Kronstadt, exigiram do Ministério da Justiça a libertação de um grupo de anarquistas de Petrogrado, ameaçando, em caso de recusa, que os marinheiros marchariam para a prisão. No dia seguinte, representantes de Oranienbaum informaram o Ministério da Justiça que sua guarnição estava muito perturbada com as prisões na casa de verão de Durnovo e Kronstadt, e que eles “já estavam limpando as metralhadoras”. A imprensa burguesa pegou estas ameaças no ar e as esfregou nos narizes de seus aliados conciliadores. Em 26 de junho, delegados do Regimento de Granadeiros da Guarda voltaram do front para seu batalhão-reserva com a seguinte proclamação: “O regimento está contra o Governo Provisório e exige a transferência do poder para os sovietes, recusa a ofensiva iniciada por Kerensky e expressa a apreensão de que o Comitê Executivo possa ter passado junto com os ministros socialistas para o lado da burguesia”. O órgão do Comitê Executivo publicou um relato repreensivo desta visita.

Não apenas Kronstadt fervia como uma chaleira, mas também toda a frota do Báltico com sua base principal em Helsingfors. O líder dos bolcheviques na Frota era sem dúvida Antonov-Ovseenko, que anos atrás, como jovem oficial, tomou parte no levante de Sebastopol, de 1905. Menchevique durante os anos da reação, internacionalista emigrado durante a guerra, colega de Trotsky no Nache Slovo[3], em Paris, uniu-se aos bolcheviques após seu retorno do estrangeiro. Politicamente inseguro, mas pessoalmente corajoso – impulsivo e desordenado, mas capaz de iniciativa e improvisação – Antonov-Ovseenko, embora ainda pouco conhecido naqueles dias, iria desempenhar um papel não pequeno nos futuros eventos da revolução: “Nós no comitê do partido em Helsingfors”, ele relata em suas memórias, “entendemos a necessidade de controle e de uma preparação séria. Além disso, tínhamos diretrizes neste sentido do Comitê Central. Mas víamos a total inevitabilidade de uma explosão, e olhávamos com alarme para Petersburgo”. Em Petersburgo, os elementos de uma explosão acumulavam-se dia a dia. O 2.º Regimento de Metralhadoras, menos avançado que o 1.º, adotou uma resolução exigindo a transferência do poder ao Soviete. O 3.º Regimento de Infantaria recusou-se a enviar 14 companhias substitutas. Os comícios nos quartéis adquiriam cada vez mais um caráter tormentoso. Um comício no Regimento de Granadeiros, em 1.° de julho, foi assinalado pela prisão do presidente do comitê e a obstrução de oradores mencheviques: “Abaixo a Ofensiva! Abaixo Kerensky!” No centro da guarnição estavam os metralhadores. Foram eles que abriram as comportas para a enchente de julho.

Já nos encontramos com o 1.º Regimento de Metralhadoras nos eventos dos primeiros meses da revolução. Chegando pouco depois do levante, tendo marchado de Oranienbaum para Petrogrado por iniciativa própria “para defender a revolução”, este regimento encontrou imediatamente a oposição do Comitê Executivo, que adotou uma resolução: agradecer o regimento e enviá-lo de volta a Oranienbaum. Os metralhadores recusaram-se obstinadamente a deixar a capital: “Contra-revolucionários podem atacar o Soviete e restaurar o velho regime”. O Comitê Executivo rendeu-se e vários milhares de metralhadores permaneceram em Petrogrado junto com suas metralhadoras. Eles ocuparam os quarteirões da Casa do Povo e preocupavam-se com seu destino posterior. Contudo, entre eles haviam um bom número de operários de Petrogrado, e não foi por acaso que o comitê bolchevique tomou para si o cuidado destes metralhadores. Por sua intervenção foram asseguradas a eles provisões da Fortaleza de Pedro e Paulo. Começou uma amizade que logo se tornou indestrutível. Em 21 de junho, os metralhadores adotaram, num comício de massas, a resolução: “No futuro, os destacamentos deverão ser enviados ao front apenas quando a guerra tiver um caráter revolucionário”. Em 2 de julho, o regimento chamou um comício de despedida na Casa do Povo para a “última” companhia substituta a partir para o front. Os oradores eram Lunatcharsky e Trotsky. As autoridades tentaram subseqüentemente atribuir um significado excepcional a este fato acidental. As respostas foram feitas em nome do regimento pelo soldado Jilin, e o velho bolchevique e suboficial Lachevitch. A atmosfera estava exaltada. Denunciaram Kerensky e juraram fidelidade à revolução – mas ninguém fez qualquer proposta prática para o futuro imediato. Contudo, nestes dias, a cidade persistia na expectativa de algo acontecer. As “jornadas de julho” projetavam sua sombra sobre ela. “Por todo lugar”, relembra Sukhanov, “em todas as esquinas, no Soviete, no Palácio Mariinsky, nas casas, nas praças e bulevares públicos, nos quartéis, nas fábricas, falava-se sobre algum tipo de manifestação esperada, se não hoje, amanhã… Ninguém sabia exatamente quem iria se manifestar, ou como, ou onde, mas a cidade sentia-se à beira de algum tipo de explosão”. E a explosão de fato chegou. O estímulo veio de cima – dos círculos dirigentes.

No mesmo dia em que Trotsky e Lunatcharsky falavam aos metralhadores sobre a bancarrota da coalizão, quatro ministros kadetes explodiram a coalizão, demitindo-se do Governo. Eles escolheram como pretexto um acordo que seus colegas conciliadores concluíram com a Ucrânia, um acordo inaceitável para suas ambições imperiais. A verdadeira causa desta ruptura demonstrativa estava no fato de que os conciliadores eram lentos em refrear as massas. O momento escolhido foi sugerido pelo colapso da ofensiva – ainda não oficialmente reconhecido, mas que não oferecia dúvida aos bem-informados. Estes liberais consideraram oportuno deixar seus aliados de esquerda face a face com a derrota e com os bolcheviques. O rumor da demissão dos kadetes se espalhou imediatamente pela capital, e politicamente generalizou todos os conflitos existentes em uma palavra de ordem – ou melhor, um grito furioso: “Vamos acabar com esta ladainha de coalizão!” Os soldados e operários consideraram que todas as outras questões – salários, preço do pão, e se era necessário morrer no front ninguém sabia porque – dependia da questão de quem governaria o país no futuro, a burguesia ou seu próprio Soviete. Nestas expectativas havia um certo elemento de ilusão – na medida em que as massas esperavam que uma mudança do poder obteria uma solução imediata para todos os problemas graves. Mas na análise final elas estavam certas: a questão do poder determinava a direção da revolução como um todo, e isso significava que ela decidia o destino de todos em particular. Imaginar que os kadetes não pudessem prever o efeito deste ato de aberta sabotagem ao Soviete decididamente seria subestimar Miliukov. O líder do liberalismo obviamente tentava arrastar os conciliadores para uma situação difícil da qual só haveria saída por meio das baionetas. Naqueles dias, Miliukov acreditava firmemente que a situação podia ser salva com uma audaciosa sangria.

Na manhã de 3 de julho, vários milhares de metralhadores, após interromper uma reunião dos comitês de companhia de seu regimento, elegeram entre eles um presidente e exigiram uma consideração imediata da questão de uma manifestação armada. A reunião foi tormentosa desde o primeiro momento. O problema do front cruzava-se com a crise no governo. O presidente do comício, o bolchevique Golovin, tentou um freio, propondo que tivessem uma conversa preliminar com outras unidades e com a Organização Militar. Mas cada sugestão de atraso enfurecia os soldados. Apareceu neste comício o anarquista Bleichman, pequena mas colorida figura no pano de fundo de 1917, com um equipamento muito modesto de idéias mas um certo sentimento para as massas – sincero em sua limitada mas inflamada inteligência – sua camisa aberta no peito e cabelo ondulado flutuando por todos os lados. Bleichman era saudado em cada comício com uma certa simpatia semiirônica. Os operários, é verdade, tratavam-no com alguma calma, um pouco impacientes – especialmente os metalúrgicos. Mas os soldados sorriam encantados em seus discursos, cutucando os cotovelos uns aos outros e estimulando o orador com comentários mordazes. Eles claramente gostavam desta excêntrica figura, sua determinação irracional, e seu sotaque judeu-estadunidense picante como vinagre. No fim de junho, Bleichman nadava em todos estes comícios improvisados como um peixe na água. Sua opinião era sempre a mesma: “É preciso sair de armas nas mãos”. “Organização? A rua nos organizará”. A tarefa: “Derrubar o Governo Provisório como derrubamos o tsar, embora nenhum partido exigisse isso”. Estas falas perfeitamente iam ao encontro dos sentimentos dos metralhadores naquele momento – e não só deles. Muitos bolcheviques não escondiam sua satisfação quando as bases iam contra suas admoestações oficiais. Os operários de vanguarda lembravam que, em fevereiro, seus líderes estavam prontos a bater em retirada às vésperas da vitória; que em março a jornada de oito horas foi ganha pela ação das bases; que em abril Miliukov foi derrubado pelos regimentos que saíram às ruas por sua própria iniciativa. A lembrança destes fatos aumentava a atmosfera tensa e impaciente das massas.

A Organização Militar dos bolcheviques, informada prontamente da ebulição do comício dos metralhadores, enviava um agitador após o outro. Logo veio o próprio Nevsky, líder da Organização Militar, um homem respeitado pelos soldados. Eles pareceram escutá-lo. Porém, a atmosfera deste comício interminável mudava com seus componentes. “Foi uma imensa surpresa para nós”, relata Podvoisky, outro líder da Organização Militar, “quando às sete da noite um cavaleiro chegou para nos informar… que os metralhadores resolveram sair de novo”. No lugar do velho comitê regimental eles elegeram um comitê revolucionário provisório, consistindo de dois homens de cada companhia, sob a presidência do subtenente Semachko. Delegados especialmente designados já faziam a ronda pelas oficinas e pelos regimentos com um apelo de apoio. Os metralhadores não se esqueceram, também, de enviar homens a Kronstadt. Deste modo, um passo abaixo das organizações oficiais e, parcialmente sob sua proteção, novas relações temporárias eram criadas entre os mais inquietos regimentos e as fábricas. As massas não tinham intenção de romper com o Soviete, pelo contrário, queriam que o Soviete tomasse o poder. Menos ainda queriam romper com o partido bolchevique. Mas elas sentiam que o partido estava irresoluto. Elas queriam dar um empurrão – sacudir o punho para o Comitê Executivo, dar aos bolcheviques um pequeno empurrão. Sistemas improvisados de representação foram criados, novos nós foram atados, novos centros de atividade formados – não permanentemente, mas para a situação dada. As mudanças nas circunstâncias e nos sentimentos ocorriam tão rápido e bruscamente que até organizações extremamente flexíveis, como os sovietes, inevitavelmente ficavam para trás, e as massas eram obrigadas a cada novo giro criar órgãos auxiliares para as demandas do momento. No curso destas improvisações, elementos acidentais e nem sempre confiáveis freqüentemente ganham proeminência. Os anarquistas punham lenha na fogueira. Mas também alguns bolcheviques novos e impacientes. Provocadores sem dúvida se misturavam a eles – talvez agentes alemães também, e com toda certeza agentes da polícia secreta cem por cento russa. Como se pode analisar a complicada rede de um movimento de massa em seus fios individuais? O caráter geral do evento emerge, não obstante, como clareza completa. Petrogrado sentia sua força, tensionava as correntes, não olhando nem para as províncias nem para o front, e até o partido bolchevique não era mais capaz de segurá-la. Apenas a experiência podia ensiná-la.

Ao chamar as fábricas e os regimentos para as ruas, os delegados dos metralhadores não se esqueciam de acrescentar que a manifestação seria armada. Sim, e como poderia ser diferente? Por acaso, pode-se apresentar a si mesmo desarmado aos golpes do inimigo? Além disso – e talvez fosse o principal –, devemos mostrar nossa força, e um soldado sem armas não é uma força. Sob este ponto, todos os regimentos e todas as fábricas tinham uma opinião: se sairmos, temos que estar cheios de chumbo. Os metralhadores não perderam tempo: tendo começado uma grande tarefa, pretendiam realizá-la o mais rápido possível. Os autos do processo subseqüentemente caracterizaram as atividades do subtenente Semachko, um dos principais líderes do regimento, nestas palavras: “Ele exigiu automóveis das fábricas, armou-os com metralhadoras, enviou-os ao Palácio de Tauride e outros pontos, designou sua rota, pessoalmente levou seu regimento dos quartéis para a cidade, dirigiu-se ao batalhão de reserva do Regimento de Moscou e o persuadiu a se manifestar, no que foi vitorioso, prometeu aos soldados do Regimento de Metralhadoras apoio dos regimentos da Organização Militar, manteve-se em contato contínuo com esta organização, sediada na casa de Kchesinskaia, e com o líder dos bolcheviques, Lenin, despachou sentinelas para a proteção da Organização Militar…” A referência a Lenin aqui é inserida apenas para preencher o quadro. Lenin não estava em Petrogrado naquele dia ou nos anteriores. Desde 29 de junho ele estava doente num bangalô na Finlândia. Mas, no resto, a linguagem concisa do funcionário da Justiça Militar transmite fielmente as febris preparações dos metralhadores. No pátio do quartel, um trabalho não menos febril processava-se. Distribuíam-se fuzis aos soldados que não os possuíam, davam bombas a alguns, instalavam três metralhadoras com operadores em cada caminhão fornecido pelas fábricas. O regimento sairia às ruas em total ordem militar.

E a mesma coisa acontecia nas fábricas. Chegavam delegados dos metralhadores ou de uma fábrica vizinha, e chamavam os operários às ruas. Parecia que há muito já se esperava pelos delegados. O trabalho parava instantaneamente. Um operário da fábrica, Renaud, conta sua história: “Após o almoço, vários metralhadores chegaram apressados com o pedido de entregarmos alguns caminhões. Apesar do protesto de nosso grupo (os bolcheviques) tivemos que entregar os veículos… Eles prontamente carregaram os caminhões com Maxims (metralhadoras) e correram para a Nevsky. Neste ponto não podíamos mais segurar nossos operários… Todos, como estavam, em macacões, saíram direto para as ruas…” Os protestos dos bolcheviques nas fábricas não eram sempre, podemos supor, muito insistentes. A luta mais longa ocorreu na fábrica Putilov. Às duas da tarde correu o rumor de que uma delegação da unidade de metralhadores apareceu e chamava uma assembléia. Cerca de dez mil homens reuniram-se. Aos gritos de encorajamento, os metralhadores disseram como receberam uma ordem de partir para o front em 4 de julho, mas eles decidiram “marchar não para o front alemão, contra o proletariado alemão, mas contra seus próprios ministros capitalistas”. O entusiasmo cresceu. “Vamos, vamos marchar!”, gritaram os operários. O secretário do comitê de fábrica, um bolchevique, objetou, sugerindo pedir instruções do partido. Protestos de todos os lados: “Abaixo! De novo você quer adiar as coisas. Não podemos mais viver assim”. Por volta das seis horas chegaram representantes do Comitê Executivo, mas tiveram ainda menos sucesso com os operários. O comício continuou, o interminável, nervoso e obstinado comício de uma massa inumerável procurando uma saída e que não admitia que dissessem que não havia uma. Foi proposto o envio de uma delegação ao Comitê Executivo – ainda outro atraso, mas, como antes, o comício não se dispersou. Nesta hora, um grupo de operários e soldados trouxe notícias de que o bairro de Vyborg já estava em direção ao Palácio de Tauride. Atrasar por mais tempo era impossível. Eles decidiram sair. Um operário de Putilov, Efimov, correu ao comitê de bairro do partido para perguntar: “O que faremos?”. A resposta foi: “Não nos uniremos à manifestação, mas não deixaremos os operários à sua sorte. Devemos ir com eles”. Neste momento, apareceu um membro do comitê, Chudin, anunciando que os operários em todos os bairros saiam às ruas, e que os militantes do partido deviam “manter a ordem”. Deste modo, os bolcheviques foram pegos pelo movimento e arrastados a ele, mas procurando alguma justificativa para uma ação que infringia a decisão oficial do partido.

Às sete da noite, a vida industrial da capital estava em completa paralisia. Uma fábrica após outra saía, alinhava e armava seu destacamento da Guarda Vermelha. “Em meio a uma inumerável massa de operários”, relata o operário de Vyborg Metelev, “centenas de jovens guardas vermelhos ocupavam-se carregando seus fuzis. Outros colocavam cartuchos nos pentes, amarravam seus cintos, ajustavam suas mochilas ou cartucheiras, arrumavam suas baionetas. E os operários sem armas ajudavam os guardas vermelhos a se arrumarem…” A avenida Sampsonevsky, principal artéria do bairro de Vyborg, estava lotada de gente. À direita e à esquerda havia sólidas colunas de operários. Em meio à avenida, marchava o Regimento de Metralhadoras, a espinha dorsal da procissão. À frente de cada companhia havia um automóvel com suas Maxims. Após o Regimento de Metralhadoras, vinham os operários. Cobrindo a manifestação na retaguarda, vinham destacamentos do Regimento de Moscou. Sobre cada destacamento flutuava uma bandeira: “Todo poder aos sovietes!”. o cortejo fúnebre em março e a do 1.º de maio eram provavelmente mais numerosas, mas o cortejo de julho era incomparavelmente mais impaciente, mais ameaçador, e mais homogêneo em sua composição. “Sob as bandeiras vermelhas marchavam apenas operários e soldados”, escreve um dos participantes. “As insígnias dos oficiais, os botões dourados dos estudantes, os chapéus das ‘senhoras simpatizantes’ não eram vistos. Tudo isso pertencia a quatro meses atrás, a fevereiro. No movimento de hoje, não havia nada disso. Hoje, apenas os escravos comuns do capital marchavam”. Como antes, automóveis corriam pelas ruas em todas as direções cheios de operários e soldados armados – delegados, agitadores, batedores, agentes de ligação, destacamento para chamar os operários e os regimentos. Todos tinham suas baionetas levantadas. Os caminhões eriçados de baionetas completavam um quadro das jornadas de fevereiro, eletrizando alguns, aterrorizando outros. O kadete Nabokov escreve: “As mesmas faces insanas, dementes, bestiais, que todos lembramos das jornadas de fevereiro” – isto é, dos dias da mesma revolução que os liberais tinham oficialmente declarado gloriosa e incruenta. Às nove horas, sete regimentos já se moviam para o Palácio de Tauride. A eles se uniam pelo caminho colunas das fábricas e novos destacamentos militares. O movimento do Regimento de Metralhadoras desenvolveu um poder colossal de contágio. As “jornadas de julho” começaram.

Realizaram-se comícios na marcha. Soaram tiros. Segundo um operário, Korotkov, eles “retiraram de um porão na Liteiny uma metralhadora e um oficial que mataram na hora”. Todos os rumores concebíveis correram à frente da manifestação. Temores caíam de todos os lados como raios de luz. Quanta fantasia não foi reportada pelos telefones dos distritos centrais assustados? Foi dito que às oito da noite um automóvel armado chegara apressado à estação de Varsóvia procurando Kerensky, que partira neste mesmo dia para o front, tencionando prendê-lo, mas o trem já saíra e a prisão não ocorreu. Este episódio foi depois repetido mais de uma vez como prova de conspiração. Quem estava no automóvel e descobriu suas misteriosas intenções, permaneceu desconhecido. Naquela noite, automóveis com homens armados corriam em todas as direções – e, sem dúvida, também para a vizinhança da estação de Varsóvia. Palavras fortes sobre Kerensky eram ouvidas em muitos lugares. Isso evidentemente serviu como base para o mito – se ele não foi totalmente forjado do início ao fim.

O Izvestia esboçou o seguinte esquema dos eventos de 3 de julho: “Às cinco da tarde saiu, armado, o 1.º Regimento de Metralhadoras, uma parte do de Moscou, uma parte dos Granadeiros, e uma parte do Pavlovsky. Juntaram-se a eles multidões de operários… Às oito da noite, partes separadas dos regimentos começaram a se reunir ao Palácio Kchesinskaia, armados até os dentes, e com bandeiras vermelhas e cartazes exigindo a transferência do poder aos sovietes. Discursos eram feitos da sacada… Às dez e trinta, um comício foi realizado na praça em frente do Palácio de Tauride… As tropas elegeram uma delegação ao Comitê Executivo Central Pan-Russo, que apresentou em seu nome as seguintes demandas: “Demissão dos dez ministros burgueses, todo o poder aos sovietes, fim da ofensiva, confisco das gráficas da imprensa burguesa, estatização da terra, controle estatal da produção”. Deixando de lado certas podas – “partes de regimentos” ao invés de regimentos, “multidões de operários” ao invés de fábricas inteiras – pode-se dizer que o relato oficial de Tseretelli e Dan não distorce o quadro geral do que aconteceu. Em particular, cita corretamente os dois focos da manifestação: a residência privada de Kchesinskaia e o Palácio de Tauride. Espiritual e fisicamente, o movimento girava em torno destes dois centros antagônicos: Ele vinha à casa de Kchesinskaia para instruções, direção, discursos inspiradores; ao Palácio de Tauride ele vinha apresentar as demandas e até ameaçar um pouco com seu poder.

Às três da tarde, dois delegados dos metralhadores chegaram à conferência geral municipal dos bolcheviques, sediada naquele dia na casa de Kchesinskaia, com a informação de que seus regimentos decidiram se manifestar. Ninguém esperava isso, e ninguém queria isso. Tomsky declarou: “Os regimentos que saíram agiram de uma maneira não camarada, não tendo convidado o Comitê Central de nosso partido a considerar a questão de uma manifestação. O Comitê Central propõe à conferência: em primeiro lugar, lançar um apelo para conter as massas; em segundo, preparar um memorando ao Comitê Executivo propondo que ele tome o poder em suas mãos. É impossível falar de uma manifestação agora sem querer uma nova insurreição”. Tomsky, velho operário bolchevique que garantiu sua lealdade ao partido com anos de trabalhos forçados – famoso depois como líder dos sindicatos – era em geral mais inclinado por caráter a restringir a ação das massas do que apelar para ela. Mas nesta ocasião ele estava apenas implementando o pensamento de Lenin: “É impossível falar de uma manifestação agora sem querer uma nova revolução”. Mesmo a tentativa de uma manifestação pacífica em 10 de junho foi denunciada pelos conciliadores como uma conspiração. Uma esmagadora maioria da conferência apoiava Tomsky. Devemos a todo custo adiar o conflito final. A ofensiva no front mantinha todo o país em alta tensão. Seu fracasso é inevitável – como também a determinação do governo de jogar toda a responsabilidade pela derrota sobre os bolcheviques. Devemos dar tempo aos conciliadores de se arruinarem completamente. Volodarsky respondeu em nome da conferência aos metralhadores que o regimento devia se submeter às decisões do partido. Os metralhadores partiram com um protesto. Às quatro horas, o Comitê Central confirmou a decisão da conferência. Seus membros dispersaram-se pelas fábricas e pelos bairros para impedir as massas de saírem. Apelos do mesmo tipo eram enviados ao Pravda para serem impressas na primeira página da manhã seguinte. Stalin foi apontado para levar a decisão à atenção da sessão conjunta do Comitê Executivo. Portanto, não restam dúvidas sobre as intenções dos bolcheviques. Seu Comitê Central dirigiu um apelo aos operários e soldados: “Pessoas desconhecidas… os chamam para saírem armados às ruas”, e isso prova que os apelos não partem de nenhum dos partidos soviéticos… Assim os comitês centrais – do partido e do Soviete – propunham, mas as massas dispunham.

Às oito da noite, o Regimento de Metralhadoras, e logo depois o Regimento de Moscou, saíram para o Palácio Kchesinskaia. Bolcheviques populares – Nevsky, Lachevitch, Podvoisky – falando da sacada, tentaram enviar os regimentos para casa. Eles foram respondidos de baixo: “Abaixo! Abaixo!”. Da sacada bolchevique, tais gritos ainda não tinham sido ouvidos; era um sinal alarmante. Por trás dos regimentos, as fábricas começaram a marchar: “Todo o poder aos sovietes!” “Abaixo os dez ministros capitalistas!”. Eram as bandeiras de 18 de junho, mas agora elas estavam cercadas de baionetas. A manifestação tornou-se um poderoso fato. Que fazer? Os bolcheviques poderiam ficar de lado? Os membros do comitê de Petrogrado, junto com os delegados da conferência e representantes dos regimentos e fábricas, passaram uma resolução: reconsiderar a questão, encerrar todas as tentativas infrutíferas de restringir as massas e guiar o movimento desencadeado de tal modo que a crise governamental possa ser decidida nos interesses do povo; com esta meta, apelar aos soldados e operários a irem pacificamente ao Palácio de Tauride, eleger delegados e, através deles, apresentar as demandas ao Comitê Executivo. Os membros do Comitê Central presentes sancionaram esta mudança de tática. Esta nova decisão, anunciada da sacada, foi acolhida com aclamações e com o canto da Marselhesa. O movimento foi legalizado pelo partido. Os metralhadores podiam dar um suspiro de alívio. Uma parte do regimento imediatamente partiu para a Fortaleza de Pedro e Paulo para influenciar sua guarnição e, em caso de necessidade, proteger de seus golpes o Palácio de Kchesinskaia, que era separado da fortaleza apenas pelo estreito canal de Kronverksky.

As principais fileiras da manifestação se moveram pela Nevsky, a artéria da burguesia, da burocracia e dos oficiais, como num país estrangeiro. Das calçadas, janelas, balcões, milhares de olhos espiavam com más intenções. O regimento seguia a fábrica, a fábrica seguia o regimento. Novas massas chegavam continuamente. Todas as bandeiras, em letras douradas sobre vermelho, gritavam com uma só voz: “Todo o poder aos sovietes!”. O cortejo transbordava pela Nevsky e desaguava como um rio cheio no Palácio de Tauride. Os cartazes “Abaixo a guerra” provocam a mais amarga hostilidade dos oficiais – entre eles, muitos inválidos de guerra. Sacudindo os braços e tensionando suas vozes, os estudantes, as colegiais, os oficiais, tentam persuadir os soldados que agentes alemães atrás deles querem que as tropas de Wilhelm entrem em Petrogrado para estrangular a liberdade. A estes oradores suas próprias conclusões parecem irrefutáveis. “Estão sendo enganados por espiões”, dizem os funcionários governamentais, apontando os operários, e a resposta dos operários é um resmungo rude. “Desviados por fanáticos!”, diziam os mais indulgentes. “Elementos ignorantes”, concordavam outros. Contudo, os operários tinham seu próprio modo de medir as coisas. Eles não aprenderam de espiões alemães as idéias que os levaram para as ruas hoje. Os manifestantes indelicadamente empurram para o lado seus importunos tutores, e seguem adiante. Isso deixa os patriotas da Nevsky fora de si. Grupos de choque, a maioria liderados por inválidos e Cavaleiros de São Jorge, caem sobre setores individuais da manifestação, tentando arrancar as bandeiras. Choques acontecem aqui e ali. A atmosfera esquenta. Soam tiros. De um lado, e de outro. De uma janela? Do Palácio Anichkin? A rua responde com uma descarga no ar, sem alvo fixo. Em pouco tempo, toda a rua está em confusão. Cerca de meia-noite – relata um operário da fábrica “Vulcão” –, enquanto o Regimento de Granadeiros passava pela Nevsky na vizinhança da Biblioteca Pública, alguém abriu fogo sobre eles de algum lugar, e o tiroteio continuou por vários minutos. Criou-se o pânico. Os operários dispersaram-se pelas ruas vizinhas. Os soldados se deitaram no chão – aprenderam isso na escola da guerra. Esta cena noturna na Nevsky, com granadeiros deitados sobre o pavimento, era um fantástico espetáculo. Nem Puchkin ou Gogol, poetas da Nevsky, jamais imaginaram isso. Além disso, havia uma realidade nesta fantasia: mortos e feridos ficaram no pavimento.

O Tauride vivia uma vida própria naqueles dias. Em vista da demissão dos kadetes, os dois comitês executivos, o dos operários-soldados e o dos camponeses, reuniram-se numa sessão conjunta para considerar um discurso de Tseretelli, de como jogar a água suja da coalizão fora sem o bebê. O segredo desta operação sem dúvida teria sido descoberto em longo prazo, se os incansáveis subúrbios não interviessem. Uma comunicação telefônica sobre a preparação da manifestação do Regimento de Metralhadoras produziu carrancas de raiva e irritação nas faces dos líderes. Será que os soldados e operários não podem esperar até que nossos jornais lhes tragam a salvação na forma de uma resolução? Olhares oblíquos foram dirigidos aos bolcheviques. Mas para eles também a manifestação foi uma surpresa. Kamenev e outros representantes do partido que estavam presentes até concordaram ao fim da sessão de saírem para as fábricas e os quartéis tentar impedir as massas de saírem. Este gesto posteriormente foi interpretado pelos conciliadores como um truque militar. O Comitê Executivo, como sempre, apressou-se a adotar uma proclamação declarando qualquer manifestação um ato de traição à revolução. Mas, mesmo então, como lidar com a crise governamental? Uma saída foi descoberta: deixariam o gabinete mutilado como estava, adiando toda a questão até os membros provinciais do Comitê Executivo se reunirem. Enrolar, ganhar tempo para suas próprias vacilações – não é a mais engenhosa de todas as políticas?

Apenas em sua luta contra as massas os conciliadores consideravam imprudente perder tempo. O aparato oficial foi imediatamente posto em movimento para se preparar contra a “insurreição” – pois assim nomearam a manifestação desde o início. Os líderes procuravam em todo lugar forças armadas para defender o Governo e o Comitê Executivo. Com a assinatura de Tchkheidze e outros membros do Presidium, foram enviadas demandas a várias instituições militares para trazerem ao Palácio de Tauride carros armados, canhões de três polegadas e bombas. Ao mesmo tempo, quase todo regimento recebeu ordens para enviar destacamentos armados para a defesa do palácio. Mas não se detiveram aqui. Seu birô telegrafou uma ordem no mesmo dia para o front –para o V Exército estacionado próximo à capital – para “enviar a Petrogrado uma divisão de cavalaria, uma brigada de infantaria e carros armados”. O menchevique Voitinsky, a quem foi confiada a tarefa de proteger o Comitê Executivo, revelou a coisa toda numa entrevista retrospectiva: “O dia de 3 de julho inteiro foi gasto em reunir tropas para fortificar o Palácio de Tauride… Nosso problema era trazer pelo menos umas poucas companhias… Chegou uma hora em que não tínhamos absolutamente nenhuma força. Seis homens ficaram na entrada no Palácio de Tauride, sem poder para conter a multidão…” E depois: “No primeiro dia da manifestação, tínhamos à nossa disposição apenas cem homens – não tínhamos outras forças. Enviamos comissários para todos os regimentos, pedindo-lhes soldados para formar uma patrulha… Mas cada regimento observava o outro para ver como ele reagia. Éramos obrigados a acabar a qualquer custo este ultraje, e chamamos tropas do front”. Seria difícil, mesmo com malícia premeditada, imaginar uma sátira mais brutal sobre os conciliadores. Centenas de milhares de manifestantes estavam exigindo a transferência do poder aos sovietes. Tchkheidze, estando à frente do sistema soviético, e assim o candidato lógico para premiê, procurava forças armadas para empregar contra os manifestantes. Este movimento colossal a favor do poder da democracia era denunciado pelos líderes democráticos como um ataque à democracia por um bando armado.

No Palácio de Tauride, ao mesmo tempo, a seção operária do Soviete se reunia após um longo intervalo. No curso dos últimos dois meses, esta seção tinha mudado tanto a sua composição, como resultado de eleições parciais nas fábricas, que o Comitê Executivo tinha boas razões para temer uma predominância dos bolcheviques. A reunião atrasada artificialmente – finalmente chamada poucos dias antes pelos próprios conciliadores – coincidia acidentalmente com a manifestação armada. Nisto os jornais viam a mão dos bolcheviques. Zinoviev, num discurso para a sessão, desenvolveu convincentemente o pensamento de que os conciliadores, aliados da burguesia, eram incapazes e irredutíveis em lutar contra a contra-revolução, já que esta palavra significava para eles apenas manifestações individuais de desordens Cem Negras, e não o que de fato era – uma união política das classes possuidoras para o propósito de estrangular os sovietes como centros de resistência das massas trabalhadoras. Seu discurso acertou o alvo. Os mencheviques, achando-se pela primeira vez em minoria no campo soviético, propunham que nenhuma decisão deveria ser tomada, e que deveriam se dispersar pelos bairros para preservar a ordem. Mas já era muito tarde! A notícia de que operários armados e metralhadores se aproximavam do Palácio de Tauride produziu uma poderosa excitação no salão. Kamenev subiu à tribuna: “Não apelamos para a manifestação”, ele disse. “As próprias massas populares saíram às ruas… mas já que as massas saíram, nosso lugar é entre elas… Nossa atual tarefa é dar ao movimento um caráter organizado”. Kamenev concluiu com a proposta de que elegessem uma comissão de 25 homens para a direção do movimento. Trotsky apoiou a moção. Tchkheidze temia uma comissão bolchevique, e insistiu em vão para a questão ser entregue ao Comitê Executivo. O debate tornou-se feroz. Convencidos finalmente de que todos eles juntos constituíam apenas um terço da assembléia, os socialistas-revolucionários e mencheviques deixaram o salão. Isso se tornava uma tática favorita dos democratas; começaram a boicotar os sovietes no momento em que perderam a maioria lá. Uma resolução apelando para o Comitê Executivo tomar o poder foi adotada na ausência da oposição por 276 votos. Realizam-se imediatamente eleições para os 15 membros da comissão. Dez lugares foram deixados para a minoria – e estes ficaram desocupados. Este fato da eleição de uma comissão bolchevique significava, para amigos e inimigos, que a seção operária do soviete de Petrogrado seria daí por diante uma base bolchevique. Um grande passo adiante! Em abril, a influência dos bolcheviques estendeu-se para aproximadamente um terço dos operários de Petrogrado; no Soviete, daqueles dias, eles ocuparam um setor totalmente insignificante. Agora, no início de julho, os bolcheviques davam à seção operária cerca de dois terços de seus membros. Isso significava que, entre as massas sua influência se tornou decisiva.

Pelas ruas próximas ao Palácio de Tauride transborda uma sólida coluna de homens e mulheres trabalhadoras e soldados, com bandeiras, cantos e músicas. A artilharia leve vem junto, seu comandante dizendo em meio ao entusiasmo que todas as baterias de sua divisão fazem coro com os operários. As passagens e a praça próxima do Tauride estão cheias de gente. Todos tentam se aproximar da tribuna da entrada principal do palácio. Tchkheidze apresentou-se aos manifestantes com o ar sombrio de um homem que foi desnecessariamente tirado de seu trabalho. O popular presidente do Soviete encontrou um silêncio inamistoso. Numa voz cansada e rouca, Tchkheidze repete aqueles lugares-comuns que há muito enrugavam sua boca. Voitinsky, que saiu em sua ajuda, não foi melhor recebido. “Trotsky, contudo”, segundo o relato de Miliukov, “tendo anunciado que chegara o momento do poder passar para os sovietes, recebeu aplausos sonoros”. Esta frase de Miliukov é propositadamente ambígua. Nenhum dos bolcheviques declarou que “o momento chegara”. Um maquinista da pequena fábrica Duflon, do bairro Petrogrado, disse depois sobre o comício sob o muro do Palácio de Tauride: “Lembro-me do discurso de Trotsky, que disse que ainda não era hora de tomar o poder em nossas mãos”. O maquinista relata a essência do discurso mais corretamente que o professor de História. Dos lábios dos oradores bolcheviques ouviram a vitória ganha na seção operária, e este fato deu uma satisfação quase palpável, como uma introdução da época do poder soviético.

A sessão conjunta do Comitê Executivo reuniu-se de novo um pouco antes da meia-noite (nesta hora, os granadeiros deitavam-se sobre a Nevsky.) Por uma moção de Dan, foi resolvido que apenas permaneceria na reunião os que se comprometessem de antemão a defender e implementar suas decisões. Era uma nova nota! De um parlamento dos operários e soldados, que era como os mencheviques chamavam o Soviete, eles tentavam convertê-lo num órgão administrativo da maioria conciliadora. Depois que ficaram em minoria – o que acontecerá em apenas dois meses – os conciliadores apaixonadamente defenderão o princípio da democracia no soviete. Hoje, contudo – como em todos os momentos decisivos da vida social –, a democracia foi posta na reserva. Vários mejrayontsi deixaram o salão como protesto. Os bolcheviques não estavam lá; estavam no Palácio de Kchesinskaia, preparando-se para amanhã. Durante o curso posterior da reunião, os mejrayontsi e os bolcheviques apareceram no salão com o anúncio de que ninguém poderia tomar-lhes o mandato dados a eles por seus eleitores. A maioria saudou este anúncio com silêncio, e a moção de Dan foi silenciosamente posta no esquecimento. A sessão arrastou-se como em agonia de morte. Com vozes cansadas, os conciliadores asseguravam uns aos outros que eles estavam certos. Tseretelli, como ministro dos Correios, queixava-se contra seus empregados: “Acabei de saber da greve dos trabalhadores dos telégrafos e correios… Como demanda política, suas palavras de ordem são as mesmas: ‘Todo o poder aos sovietes!’”.

Delegados dos manifestantes, agora cercando o Palácio de Tauride de todos os lados, exigiam admissão na sessão. Foram admitidos com alarme e hostilidade. Os delegados, contudo, acreditavam sinceramente que, desta vez, os conciliadores não poderiam deixar de se encontrar com eles. As edições daquele dia dos jornais mencheviques e socialistas-revolucionários, excitados com a demissão dos kadetes, não tinham exposto as intrigas e sabotagens de seus aliados burgueses? Além disso, a sessão operária se pronunciou a favor de um governo dos sovietes. O que mais esperar? Mas seus apelos ardentes, em que a esperança ainda se misturava com a indignação, caíam impotentes e inoportunas na atmosfera estagnada daquele parlamento do compromisso. Os líderes só tinham um pensamento: livrar-se o mais rápido possível dos convidados indesejados. Sugerir que se retirassem da galeria, mandá-los de volta para a rua, para os manifestantes, seria indiscreto. Na galeria, os metralhadores ouviam com surpresa o evoluir do debate, que tinha apenas um objetivo – ganhar tempo. Os conciliadores esperavam por regimentos confiáveis. “Um povo revolucionário está nas ruas”, gritava Dan, “mas este povo está engajado numa atividade contra-revolucionária”. Dan foi apoiado por Abramovitch, um dos líderes do Bund judeu, conservador pedante de quem cada instinto foi ultrajado pela revolução. “Somos testemunhas de uma conspiração”, ele afirma, em desafio ao óbvio, e propõe aos bolcheviques que abertamente anunciem que “isso é obra deles”. Tseretelli aprofunda a discussão: “Sair às ruas com a demanda ‘Todo o poder aos sovietes’ – isto é apoiar os sovietes? Se os sovietes desejarem, o poder passaria a eles. Não há obstáculo algum para o desejo dos sovietes… Tal ato não leva ao caminho da revolução, mas ao da contra-revolução”. Estas considerações os delegados operários possivelmente não podiam entender. Parecia a eles que os altos líderes estavam um pouco fora de si. A sessão finalmente confirmou mais uma vez, por todos os votos exceto onze, que uma manifestação armada seria uma punhalada nas costas do exército revolucionário etc. A sessão foi suspensa às cinco horas da manhã.

As massas gradualmente reuniam-se em seus bairros. Carros armados viajaram por toda a noite, unindo regimentos, fábricas e centros dos bairros. Como nos últimos dias de fevereiro, as massas passavam a noite fazendo o balanço da luta do dia. Mas agora eles fizeram isso com a ajuda de um complicado sistema de organizações – de fábrica, partido e regimento – que se conferiam continuamente. Nos bairros, era considerado evidente que o movimento não podia parar a meio caminho. O Comitê Executivo adiou a decisão sobre o poder. As massas consideraram isso como uma hesitação. A conclusão era clara: precisamos pressionar ainda mais. A sessão noturna dos bolcheviques e mejrayontsi, reunida no Palácio de Tauride simultaneamente com os Comitês Executivos, também fez o balanço do dia e tentou prever o que traria o amanhã. Relatos dos bairros testemunharam que a manifestação de hoje apenas pôs as massas em movimento, apresentando pela primeira vez às suas mentes a questão do poder de forma ampla. Amanhã as fábricas e os regimentos sairão atrás da resposta, e nenhuma força no mundo poderá mantê-las nos subúrbios. O debate não foi sobre apelar às massas para a tomada do poder – como afirmaram depois os inimigos –, mas se tentariam cancelar a manifestação pela manhã seguinte ou estariam à frente dela.

Tarde da noite, ou às três horas da manhã, a fábrica Putilov abordou o Palácio de Tauride – uma massa de oitenta mil operários, muitos com esposas e filhos. O cortejo começou às onze da noite, e outras fábricas se uniram a ela no caminho. Apesar da hora avançada, havia tal massa de pessoas no Portão de Narva, que parecia que ninguém ficou em casa naquela noite em todo o bairro. As mulheres exclamavam: “Todos devem ir – nós vigiaremos as casas”. Ao badalar da torre do sino da Igreja do Salvador, tiros dispararam em rajadas, como se deu uma metralhadora. De baixo, uma descarga atingiu a torre. “Perto da Gostiny Dvor[4], uma companhia de junkers e estudantes caiu sobre os manifestantes e tentou rasgar seus cartazes. Os operários resistiram. A multidão reuniu-se. Alguém atirou. O autor destas linhas teve sua cabeça fraturada, seus flancos e o tórax brutalmente pisados na marcha”. São as palavras do operário Efimov, já nosso conhecido. Atravessando toda a cidade, agora em silêncio, os homens de Putilov finalmente chegaram ao Palácio de Tauride. Graças aos insistentes esforços de Riazanov, estreitamente associado na época com os sindicatos, uma delegação foi admitida no Comitê Executivo. A multidão de operários, faminta e cansada, espalhou-se pela rua e no jardim, a maioria imediatamente se esticando, pensando em esperar lá por uma resposta. Toda a fábrica de Putilov deitada no chão às três horas da manhã em torno do Palácio de Tauride, onde os líderes democratas esperavam pela chegada de tropas do front – é um dos quadros mais chocantes oferecidos pela revolução no auge do trânsito entre fevereiro e outubro. Doze anos antes, muitos destes mesmos operários participaram no cortejo de janeiro ao Palácio de Inverno com ícones e símbolos religiosos. Séculos passaram desde aquela tarde de domingo; outras eras passarão durante os próximos quatro meses.

A sombria imagem dos operários de Putilov deitados no pátio pairava sobre a conferência de líderes e organizadores bolcheviques enquanto debatiam os planos para o dia seguinte. Amanhã o pessoal de Putilov se recusará a trabalhar — sim, e que trabalho seria possível após a noite de vigília? Zinoviev foi chamado ao telefone. Raskolnikov tinha chamado de Kronstadt para dizer que amanhã pela manhã a guarnição da fortaleza marcharia por Petrogrado e nada nem ninguém poderia detê-la. O jovem aspirante da Marinha se mantinha em suspense no outro lado do fio. O Comitê Central ordenaria a ele romper com os marinheiros e se arruinar aos seus olhos? À imagem da fábrica de Putilov como um acampamento cigano uniu-se o quadro menos sugestivo da ilha dos marinheiros prontos naquelas horas insones da noite a apoiar os operários e soldados de Petrogrado. Não, a situação era muito clara. Não havia mais espaço para manobras. Trotsky perguntou pela última vez: “Podemos, pelo menos, tentar fazer uma manifestação desarmada?”. Não, não há nenhuma chance disto. Um esquadrão de junkers pode dispersar dezenas de milhares de operários desarmados como um rebanho de ovelhas. Os soldados e operários também considerarão esta proposta uma cilada. A resposta foi categórica e convincente. Unanimemente, decidem chamar as massas em nome do partido para continuar a manifestação no dia seguinte. Zinoviev se apressa em aliviar o coração de Raskolnikov, debilitando-se no outro lado do telefone. Um apelo aos operários e soldados foi imediatamente redigido: “Para as ruas!” O apelo da tarde, do Comitê Central, para deter a manifestação, foi rasgado nas impressoras – mas muito tarde para ser substituído com um novo texto. Uma página em branco no Pravda na manhã seguinte será uma mortal evidência contra os bolcheviques: Evidentemente, ficaram assustados no último momento e retiraram o apelo para uma insurreição; ou talvez o contrário – talvez tenham renunciado ao apelo anterior de uma manifestação pacífica a fim de chamar uma insurreição. Enquanto isso, a verdadeira decisão dos bolcheviques apareceu em um panfleto separado. Chamava os operários e soldados “por meio de uma manifestação pacífica e organizada levar sua vontade à atenção dos Comitês Executivos agora em sessão”. Não, isto não era um apelo para a insurreição.

Notas:

[1] Vyestnik Pravtelstva, “Mensageiro do Governo”.

[2] Funcionários governamentais nomeados tendo tanto poder administrativo quanto judicial sobre a população camponesa local.

[3] “Nossa Palavra”. (N. E.)

[4] “Galeria dos comerciantes” (Eastman)

Fonte: Leon Trotsky. História da Revolução Russa. Tomo II. Capítulo 24. Tradução: Diego Siqueira. São Paulo: Editora Sundermann, 2007.