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Reproduzimos abaixo o capítulo do livro “História da Revolução Russa”, de Leon Trotsky, sobre as jornadas de julho e a questão do poder.

A manifestação proibida pelo Governo e pelo Comitê Executivo foi colossal. No segundo dia, não menos de quinhentas mil pessoas participaram. Sukhanov, que não podia achar palavras fortes o suficiente para “o sangue e a sujeira” das jornadas de julho, não obstante, escreve: “Fora os resultados políticos, era impossível não ver com admiração este movimento espetacular das massas populares. Embora julgando-o fatal, não se poderia deixar de sentir entusiasmo por seu alcance gigantesco e espontâneo”. Segundo os cálculos da Comissão de Inquérito, 29 homens foram mortos e 114 feridos – cerca de um número igual de cada lado.

Que o movimento começou da base, independentemente dos bolcheviques – e numa certa extensão contra seu desejo –foi primeiro reconhecido até pelos conciliadores. Mas na noite de 3 de julho, e ainda mais no dia seguinte, a opinião oficial começou a mudar. O movimento foi declarado uma insurreição, os bolcheviques seus organizadores. “Sob a palavra de ordem ‘Todo o poder aos sovietes’”, escreve Stankevitch, homem próximo a Kerensky, “ocorria uma insurreição organizada dos bolcheviques contra a maioria dos sovietes, constituído nesta época de partidos defensistas”. Esta acusação de organizar uma insurreição era algo mais do que um método de luta política. Durante o mês de junho, convenceram-se muito bem da forte influência dos bolcheviques sobre as massas, e eles agora simplesmente se recusavam a acreditar que um movimento dos operários e soldados pudesse ter surgido por cima das cabeças dos bolcheviques. Trotsky tentou explicar a situação numa sessão do Comitê Executivo: “Acusam-nos de criar a opinião das massas; isto é errado, apenas tentamos formulá-la”. Em livros publicados por seus inimigos após a Revolução de Outubro, especialmente em Sukhanov, pôde-se achar a afirmação de que os bolcheviques cobriram seu verdadeiro objetivo apenas por conta da derrota da insurreição de julho, escondendo-se atrás do movimento espontâneo das massas. Mas seria possível esconder, como um tesouro enterrado, os planos de uma insurreição armada que arrastou em seu turbilhão centenas de milhares de pessoas? Não foram os bolcheviques obrigados em outubro a apelar abertamente às massas para a insurreição e fazer preparativos para isso antes aos olhos de todos? Se ninguém descobriu tal plano em julho, foi apenas porque não havia nenhum. A entrada dos metralhadores e homens de Kronstadt na Fortaleza de Pedro e Paulo com a permissão de sua guarnição permanente – sob cuja “tomada” os conciliadores especialmente insistiam – não foi em nada um ato de insurreição armada. Este edifício situado sobre uma ilha – mais uma prisão do que um posto militar – podia talvez servir de refúgio para homens em fuga, mas não oferecia nada para forças em ofensiva. No seu caminho para o Palácio de Tauride, os manifestantes passaram calmamente pelos mais importantes prédios governamentais – para ocupá-los, o destacamento de Putilov da Guarda Vermelha teria sido uma força adequada. Eles tomaram posse da Fortaleza de Pedro e Paulo exatamente como tomaram posse das ruas, postos de sentinelas, praças públicas. Um motivo adicional foi sua proximidade do Palácio de Kchesinskaia, para cuja ajuda poderiam vir em caso de necessidade.

Os bolcheviques fizeram todo esforço para reduzir o movimento de julho a uma manifestação. Contudo ele, não obstante, pela própria lógica das coisas, não transcendeu estes limites? Esta questão política é mais difícil de responder do que a acusação criminal. Apreciando as jornadas de julho logo após seu término, Lenin escreveu: “Uma manifestação antigoverno – esta seria a descrição formalmente mais precisa dos eventos. Mas a questão é que não foi uma manifestação comum. Foi consideravelmente algo mais que uma manifestação e menos do que uma revolução”. Quando as massas assimilam alguma idéia, elas querem realizá-la. Embora confiando no partido bolchevique, os operários, e ainda mais os soldados, não tinham ainda adquirido uma convicção de deviam sair apenas sob os apelos do partido e sob sua liderança. As experiências de fevereiro e abril lhes ensinaram antes o oposto. Quando Lenin disse em maio que os operários e camponeses eram cem vezes mais revolucionárias que o partido, ele sem dúvida generalizou esta experiência de fevereiro e abril. Mas as massas também generalizaram a experiência a seu próprio modo. Os manifestantes estavam totalmente prontos nas jornadas de julho a liquidar o governo oficial se isso tivesse parecido necessário no curso dos eventos. No caso de resistência da burguesia, elas estavam prontas a empregar armas. Neste sentido, havia um elemento de insurreição armada. Apesar disso, se ela não foi levada nem a meio caminho – para não dizer até o fim – é porque os conciliadores confundiram todo o quadro.

No primeiro volume desta obra, descrevemos em detalhes o paradoxo do regime de fevereiro. Os democratas pequeno-burgueses mencheviques e socialistas revolucionários receberam o poder das mãos do povo revolucionário. Eles não se impuseram à tarefa de ganhá-lo. Eles não conquistaram o poder, tomaram posse dele contra sua vontade. Contra o desejo das massas, tentaram entregar este poder à burguesia imperialista. O povo não confiava nos liberais, mas confiava nos conciliadores. Os conciliadores, contudo, não confiavam neles mesmos. E nisto eles estavam certos. Mesmo entregando todo o poder à burguesia, os democratas continuaram a ser alguma coisa. Mas quando tomaram o poder em suas próprias mãos, eles ficaram reduzidos a nada. Dos democratas, o poder quase automaticamente deslizou para as mãos dos bolcheviques. Isso era inevitável, pois tinha origem na insignificância orgânica da democracia russa.

Os manifestantes de julho queriam entregar o poder aos sovietes, mas para isso os sovietes tinham que concordar em tomá-lo. Contudo, mesmo na capital, onde a maioria dos operários e os elementos ativos da guarnição já eram a favor dos bolcheviques, a maioria no soviete – por conta da lei da inércia que se aplica a qualquer sistema representativo – ainda pertencia aos partidos pequeno-burgueses, que consideravam um atentado contra o poder da burguesia um atentado contra eles mesmos. Os operários e soldados sentiam claramente a contradição entre seus sentimentos e a política do soviete – isto é, entre o seu hoje e o seu ontem. Ao saírem pelo governo dos sovietes, de modo algum davam sua confiança à maioria conciliadora naqueles sovietes. Mas eles não sabiam como se resolver com esta maioria. Derrubá-la pela violência teria significado dissolver os sovietes ao invés de dar-lhes o poder. Antes de acharem o caminho para uma mudança na composição dos sovietes, os operários e soldados tentaram sujeitar os sovietes ao seu desejo pelo método da ação direta.

Numa proclamação dos dois comitês executivos sobre as jornadas de julho, os conciliadores apelam com indignação aos operários e soldados contra os manifestantes, que, eles alegam, “tentaram pela força das armas impor sua vontade aos seus representantes eleitos”. Como se os manifestantes e os eleitores não fossem apenas dois nomes para os mesmos operários e soldados! Como se os eleitores não tivessem o direito de impor seu desejo aos que eles elegeram! E como se este desejo não consistisse na demanda de que eles cumprissem seu dever – isto é, tomar posse do poder no interesse do povo! As massas concentradas em torno do Palácio de Tauride gritavam aos ouvidos do Comitê Executivo a mesma frase que aquele operário anônimo endereçara a Tchernov com seu punho caloso: “Toma o poder já que dão a você!” Em resposta, os conciliadores enviaram os cossacos. Estes senhores da democracia preferiam uma guerra civil contra o povo a uma transferência incruenta do poder às suas próprias mãos. Foram os Guardas Brancos que atiraram primeiro, mas a atmosfera política da guerra civil foi criada pelos mencheviques e socialistas-revolucionários.

Encontrando esta resistência armada da própria instituição que desejavam entregar o poder, os operários e soldados perderam o sentido claro de sua meta. Deste poderoso movimento de massas, o eixo político foi arrancado. A campanha de julho foi reduzida assim a uma manifestação parcialmente feita com os instrumentos de uma insurreição armada. Ou, seria verdade também dizer: “Foi uma semi-insurreição, dirigida para metas que não permitiam outros métodos do que os adequados a uma manifestação”.

Embora recusando o poder, os conciliadores não o entregaram totalmente aos liberais. Foi tanto porque os temiam – o pequeno-burguês sempre teme o grande burguês – e também porque temiam por eles mesmos. Um ministério kadete puro seria derrubado imediatamente pelas massas. Além disso, como Miliukov corretamente apontou: “Na luta contra ações armadas independentes, o Comitê Executivo do Soviete estava fortificando seu próprio direito, proclamado nos tumultuosos dias de 20 e 21 de abril, a empregar por seu próprio critério as forças armadas da guarnição de Petrogrado”. Os conciliadores continuavam a roubar o poder dos próprios travesseiros. Para oferecer resistência armada aos que tinham escrito em suas bandeiras “Todo o poder aos sovietes”, o Soviete foi obrigado de fato a concentrar o poder em suas mãos.

O Comitê Executivo foi ainda mais longe nas jornadas de julho. Formalmente, proclamou sua soberania: “Se a democracia revolucionária julga necessária a mudança de todo o poder para as mãos dos sovietes”, diz sua resolução de 4 de julho, “a decisão desta questão pertence apenas a uma sessão plenária dos Comitês Executivos”. Embora declarando a manifestação, a favor do poder do Soviete, uma insurreição contra-revolucionária, o Comitê Executivo ao mesmo tempo constituía-se no poder supremo, e decidiu o destino do Governo.

Quando, na madrugada de 5 de julho, as “tropas leais” entraram no Palácio de Tauride, seu comandante relatou que seu destacamento submetia-se ao Comitê Executivo totalmente e sem reservas. Nem uma palavra sobre o Governo! Mas os rebeldes queriam também se submeter ao Comitê Executivo no caráter de um poder soberano. Ao entregar a Fortaleza de Pedro e Paulo, a guarnição considerava suficiente anunciar sua submissão ao Comitê Executivo. Ninguém exigiu uma submissão à autoridade oficial. As tropas chamadas do front também se colocaram totalmente à disposição do Comitê Executivo. Por que, neste caso, houve aquele derramamento de sangue?

Se este conflito tivesse ocorrido no final da Idade Média, ambos os lados que se massacravam um ao outro teriam citado o mesmo texto da Bíblia. Historiadores formalistas teriam depois chegado à conclusão de que eles lutavam pela interpretação correta dos textos. Os artesãos e camponeses analfabetos da Idade Média tinham uma estranha paixão, como se sabe, de se permitirem serem mortos pela causa de sutilezas filosóficas nas Revelações de São João, como os separatistas russos se submetiam ao extermínio para decidir a seguinte questão: se deveriam fazer o sinal da cruz com dois ou três dedos. Na verdade, estavam escondidos sob tais formulas simbólicas – na Idade Média não menos do que hoje –, um conflito de interesses vitais que precisamos descobrir. O mesmo verso do Evangelho significava servidão para alguns e liberdade para outros.

Entretanto, há uma analogia mais recente e moderna. Nas jornadas de julho de 1848, na França, o mesmo grito partia de ambos os lados das barricadas: “Viva a República!”. Para o idealista pequeno-burguês, portanto, a luta de junho parecia um mal-entendido causado pela desatenção de um lado, a exaltação de outro. De fato, a burguesia queria uma república para ela mesma, os operários uma república para todos. Palavras de ordem políticas freqüentemente servem para disfarçar interesses do que para chamá-los pelo nome.

Apesar do caráter paradoxal do regime de fevereiro – adornado com hieróglifos marxistas e narodniks pelos conciliadores – a verdadeira inter-relação de classes é muito fácil de ver. É apenas necessário manter em vista a natureza híbrida dos partidos conciliadores. A pequena burguesia educada se orientava para os camponeses e operários, mas tinha intimidades com os latifundiários nobres e donos de fábrica de açúcar. Enquanto formavam parte do sistema soviético, através dos quais as demandas das classes baixas encontravam seu caminho até o Estado oficial, o Comitê Executivo servia ao mesmo tempo como um biombo político para a burguesia. As classes possuidoras se “submetiam” ao Comitê Executivo enquanto este empurrasse o poder para o seu lado. As massas submetiam-se ao Comitê Executivo, na medida em que esperavam que ele pudesse se tornar um instrumento de poder dos operários e camponeses. Contraditórias tendências de classes entrecruzavam-se no Palácio de Tauride e ambas se cobriam com o nome do Comitê Executivo – um por confiança inconsciente, outra por um cálculo a sangue frio. A luta era nada mais nada menos do que sobre a questão de quem governaria o país: a burguesia ou o proletariado?

Mas se os conciliadores não queriam tomar o poder, e a burguesia não tinha força para tomá-lo, talvez os bolcheviques pudessem tomar o leme em julho? Ao longo daqueles dois dias críticos, o poder em Petrogrado caiu completamente das mãos das instituições governamentais. O Comitê Executivo sentiu então pela primeira vez a sua completa impotência. Em tais circunstâncias, teria sido fácil para os bolcheviques tomar o poder. Eles teriam tomado o poder, também, em certos pontos individuais nas províncias. Sendo este o caso, o partido bolchevique estava certo em renunciar a uma insurreição? Ele não poderia, fortificando-se na capital e em certos distritos industriais, ter subseqüentemente estendido seu governo a todo o país? É uma questão importante. Nada ajudou mais ao triunfo do imperialismo e da reação na Europa no final da guerra do que aqueles poucos meses do kerenskismo, extenuando a Rússia revolucionária e prejudicando imensamente sua autoridade moral aos olhos das massas laboriosas e Exércitos beligerantes da Europa que, esperançosamente, esperavam alguma palavra nova da revolução. Encurtar as dores do parto da revolução proletária em quatro meses teria sido um ganho imenso. Os bolcheviques teriam recebido o país em uma condição menos exaurida; a autoridade da revolução na Europa teria sido menos solapada. Isto não apenas teria dado aos sovietes uma vantagem enorme da condução das negociações com a Alemanha, mas teria exercido uma poderosa influência sobre a fortuna da guerra e da paz na Europa. A perspectiva era muito sedutora!

Todavia, a direção do partido estava completamente certa em não tomar a via da insurreição armada. Não é suficiente tomar o poder – deve-se mantê-lo. Quando em outubro os bolcheviques decidiram que a hora tinha chegado, os dias mais difíceis vieram após a tomada do poder. Eles exigiram a mais alta tensão das forças da classe operária para resistir aos inumeráveis ataques do inimigo. Em julho, nem mesmo os operários de Petrogrado possuíam ainda a disposição para uma luta indefinida. Embora capazes de tomar o poder, eles, não obstante, ofereceram-no ao Comitê Executivo. O proletariado da capital, embora inclinado para os bolcheviques em sua esmagadora maioria, ainda não rompera o cordão umbilical de fevereiro que o ligava aos conciliadores. Muitos ainda nutriam a ilusão de que tudo poderia ser obtido por palavras e manifestações – que, por intimidação dos mencheviques e socialistas-revolucionários, poder-se-ia obter deles uma política comum com os bolcheviques. Até os setores avançados da classe não tinham uma clara idéia de por que meios seria possível chegar ao poder. Lenin escreveu logo depois: “O erro verdadeiro de nosso partido, em 3 e 4 de julho, como os eventos agora revelam, foi apenas este… que o partido ainda considerava possível um desenvolvimento pacífico da transformação política por meio de uma mudança de política por parte dos sovietes. Na verdade, os mencheviques e socialistas-revolucionários já tinham se emaranhado e se ligado ao compromisso com a burguesia, e a burguesia se tornou tão contra-revolucionária, que não era mais possível falar de um desenvolvimento pacífico”.

Se o proletariado não era politicamente homogêneo e não suficientemente resoluto, ainda menos era o Exército camponês. Por sua conduta, em 3 e 4 de julho, a guarnição tornou totalmente possível para os bolcheviques tomar o poder, mas, não obstante, havia unidades neutras que, pela tarde do dia 4, se inclinavam decisivamente para o lado do partido patriótico. Em 5 de julho, os regimentos neutros tomaram posição pelo Comitê Executivo, e os regimentos que tendiam ao bolchevismo esforçavam-se para assumir uma cor de neutralidade. Isto, ainda mais que a chegada tardia de tropas do front, deu uma mão livre às autoridades. Se os bolcheviques, no calor do momento, tivessem tomado o poder na tarde de 4 de julho, a guarnição de Petrogrado não a teria mantido, e teria impedido os operários de defendê-lo contra o inevitável golpe de fora.

A situação parecia ainda menos favorável no Exército ativo. A luta por paz e terra tornou o Exército extremamente acessível – especialmente desde a ofensiva de junho – às palavras de ordem dos bolcheviques, mas o chamado bolchevismo “espontâneo” do soldado não se identificava em nada em sua consciência com um partido definido, com seu Comitê Central, ou seus líderes. As cartas dos soldados daqueles tempos claramente descrevem esta condição do Exército. “Lembrem-se, senhores ministros, e os principais líderes”, escreve a mão rugosa de um soldado do front, “não entendemos muito sobre partidos, apenas que o futuro e o passado não estão muito longe. O tsar enviou vocês para a Sibéria e os colocou na prisão, e nós os colocamos sobre nossas baionetas”. Nestas linhas, uma extrema amargura contra as esferas superiores que enganavam os soldados junta-se ao reconhecimento do próprio desamparo dos soldados. “Não entendemos muito bem sobre partidos”. O Exército se amotinava continuamente contra a guerra e os oficiais, fazendo uso das palavras de ordem do dicionário bolchevique. Mas ainda não estava pronto para uma insurreição que desse o poder ao partido bolchevique. Para subjugar Petrogrado, o Governo selecionou destacamentos confiáveis das tropas próximas da capital sem encontrar resistência ativa de outros destacamentos, e ele transportou os escalões sem resistência dos operários ferroviários. O Exército descontente, rebelde, facilmente excitável, era ainda informe politicamente. Ainda continha pouquíssimos núcleos bolcheviques compactos capazes de dar uma direção única ao pensamento e à atividade da massa inconsistente de soldados.

De outro lado, os conciliadores, para voltar o front contra Petrogrado e a retaguarda camponesa, fez uso vitorioso daquela arma envenenada que em março a reação tentara usar em vão contra o Soviete. Os socialistas-revolucionários e mencheviques diziam aos soldados do front: a guarnição de Petrogrado, sob a influência dos bolcheviques, recusa-se a enviar substitutos; os operários não querem trabalhar para as necessidades do front; se os camponeses ouvirem os bolcheviques e tomarem a terra agora, nada será deixado para os homens no front. Os soldados precisavam de alguma experiência suplementar antes de entender para quem o governo estava salvando a terra, se para os camponeses no front ou para os latifundiários.

Entre Petrogrado e o Exército ativo havia as províncias. Sua reação aos eventos de julho serve em si como um critério muito importante, a posteriori, para decidir a questão se os bolcheviques estavam certos em impedir uma luta direta pelo poder em julho. Até em Moscou o pulso da revolução era incomparavelmente mais fraco que em Petrogrado. Na sessão do comitê de Moscou dos bolcheviques, tempestuosos debates surgiram. Indivíduos pertencendo à extrema esquerda do partido – como, por exemplo, Bubnov – propuseram ocupar os correios, o telégrafo e as estações telefônicas, a redação do Russkoe Slov – isto é, tomarem o caminho da insurreição. O comitê, muito moderado em seu espírito geral, rejeitou decisivamente estas propostas, considerando que as massas de Moscou não estavam prontas para tal ação. Não obstante, decidiu-se manter uma manifestação, apesar do veto do Soviete. Uma multidão considerável de operários marchou para a praça Skobelevsky com as mesmas palavras de ordem de Petrogrado, mas muito longe do mesmo entusiasmo. A guarnição não reagiu em uníssono; unidades individuais uniram-se ao cortejo, mas apenas uma saiu totalmente armada. O soldado de artilharia Davidovsky, que depois teria um importante papel nas lutas de outubro, afirma em suas memórias que Moscou não estava preparada para as jornadas de julho, e os líderes da manifestação ficaram com um gosto ruim na boca por este insucesso.

Em Ivanovo-Voznesensk, capital têxtil onde o soviete já estava sob a direção dos bolcheviques, chegaram notícias dos eventos em Petrogrado, acompanhadas do rumor de que o Governo Provisório caíra. Na sessão noturna do Comitê Executivo, foi resolvido, como medida preliminar, estabelecer um controle sobre o telefone e o telégrafo. O trabalho foi interrompido nas fábricas em 6 de julho. Quarenta mil pessoas tomaram parte na manifestação, muitas delas armadas. Quando se soube que a manifestação de Petrogrado não levou à vitória, o soviete de Ivanovo-Voznesensk se apressou em bater em retirada.

Em Riga, sob a influência das notícias de Petrogrado, ocorreu um choque, na noite de 6 de julho, entre caçadores letões, inclinados para o bolchevismo, e o “Batalhão da Morte”, o batalhão patriótico sendo obrigado a se retirar. O soviete de Riga adotou, na mesma noite, uma resolução a favor de um governo dos sovietes. Dois dias depois, uma resolução similar foi adotada em Ekaterinburg, capital dos Urais. O fato desta palavra de ordem de poder soviético, que fora lançado nos primeiros meses apenas em nome do partido, tornar-se daí por diante o programa de diferentes sovietes locais, significou, sem dúvida, um gigantesco passo adiante. Mas de resoluções a favor do poder soviético à insurreição sob a bandeira dos bolcheviques, ainda havia um considerável caminho a seguir.

Em certas partes do país, os eventos de Petrogrado serviram como um estímulo a conflitos particulares. Em Nijni-Novgorod, onde alguns soldados de licença há muito resistiam em voltar para o front, junkers enviados de Moscou para reforçar as ordens acenderam a indignação de dois regimentos locais por sua violência. Ocorreram tiroteios, e homens foram mortos e feridos. Os junkers renderam-se e foram desarmados. As autoridades desapareceram. Uma expedição punitiva foi enviada de Moscou com três tipos de tropas. À sua frente estava o comandante do distrito de Moscou, o impulsivo coronel Verkhovsky – futuro ministro da Guerra de Kerensky – e o presidente do soviete de Moscou, o velho menchevique Khintchuk, homem de temperamento não militar, futuro chefe das cooperativas, e depois embaixador soviético em Berlim. Mas não acharam ninguém para subjugar, já que um comitê eleito pelos soldados amotinados restaurou totalmente a ordem quando eles chegaram.

Em Kiev, durante aproximadamente as mesmas horas da mesma noite, e pelo mesmo motivo – recusa de ir para o front –, soldados do regimento do atamã de Polubotko amotinaram-se, em número de cinco mil, e tomaram um arsenal, ocuparam a fortaleza e o quartel-general do distrito, e prenderam o comandante e o chefe da milícia. O pânico na cidade durou várias horas até que, pelos esforços combinados das autoridades militares, do comitê de organizações sociais, e as instituições da Rada central ucraniana, os prisioneiros foram soltos e a maior parte das tropas amotinadas, desarmadas.

Na distante Krasnoyarsk, os bolcheviques, graças ao sentimento da guarnição, sentiam-se tão fortes que, apesar da onda de reação que já avançava pelo país, organizaram uma manifestação em 9 de julho, em que participaram de oito a dez mil pessoas, a maioria soldados. Um destacamento de quatrocentos soldados com artilharia foi enviado de Irkutsk contra Krasnoyarsk, liderados pelo comandante do distrito militar, o socialista-revolucionário Krakovetsky. Durante os dois dias de conferências e negociações inevitáveis por um regime de duplo poder, o destacamento punitivo se tornou tão desmoralizado pela agitação dos soldados que o comissário apressou-se em enviá-los de volta a Irkutsk. Mas Krasnoyarsk ainda constituía uma exceção.

Na maioria das províncias e distritos, a situação era incomparavelmente menos favorável. Em Samara, por exemplo, a organização bolchevique local, ao saber das lutas na capital, “esperou o sinal para a ação, embora não houvesse quase ninguém com que podiam contar”. Um dos membros locais do partido disse: “Os operários começaram a simpatizar com os bolcheviques”, mas era impossível esperar que fossem lutar, e era ainda menos possível contar com os soldados. Sobre as organizações bolcheviques: “Elas eram muito fracas; éramos apenas um punhado. No soviete de deputados operários havia poucos bolcheviques, mas no soviete de soldados parece que não havia um só; e, além disso, o soviete consistia exclusivamente de oficiais”. A principal causa desta fraca e desfavorável reação do país estava no fato de que as províncias, tendo recebido a Revolução de Fevereiro das mãos de Petrogrado sem luta, eram ainda mais lentas que a capital em digerir novos fatos e idéias. Um período adicional era preciso antes que a vanguarda pudesse arrastar para sua própria posição as reservas pesadas.

Assim, o estado da consciência popular – fator decisivo na política revolucionária – tornava impossível a tomada do poder pelos bolcheviques em julho. Ao mesmo tempo, a ofensiva do front obrigava o partido a se opor à manifestação. O colapso da ofensiva era absolutamente inevitável. Na verdade, já havia começado, mas o país ainda não sabia disto. O perigo era que se o partido fosse imprudente, o governo poderia lançar a culpa sobre os bolcheviques pelas conseqüências de sua própria loucura. A ofensiva precisava de tempo para se esgotar. Os bolcheviques não tinham dúvida da violência com que as massas mudariam de opinião. Então estaria claro o que deveria ser feito. Este cálculo era absolutamente certo. Contudo, os eventos têm sua própria lógica, que não leva em conta os cálculos políticos e, desta vez, os eventos caíram cruelmente sobre as cabeças dos bolcheviques.

A falência da ofensiva tornou-se catastrófica em 6 de julho, quando os alemães romperam as tropas russas por um front de doze verstas[1] de largura e dez de profundidade. A fenda se tornou conhecida da capital em 7 de julho, no próprio auge das atividades punitivas e repressivas. Muitos meses depois, quando as paixões se apaziguaram um pouco ou pelo menos se tornaram um pouco mais sensatas, Stankevitch – que não era o mais violento inimigo do bolchevismo –, não obstante, ainda escrevia sobre a “misteriosa seqüência dos eventos” a ser observada na ruptura de Tarnopol logo após as jornadas de julho em Petrogrado. Esta gente não via, ou não queria ver, a verdadeira seqüência dos eventos – o fato de uma ofensiva desesperada começada sob o açoite da Entente só poderia levar a uma catástrofe militar e ao mesmo tempo, a uma explosão da indignação das massas ludibriadas em suas esperanças da revolução. Mas qual a diferença em saber a verdadeira concatenação dos eventos? A tentação de ligar a manifestação de Petrogrado com o infortúnio no front era muito forte. A imprensa patriótica não apenas não escondeu o revés, mas o exagerou com todo o seu poder, não hesitando nem em revelar os segredos militares – publicando os nomes das divisões e dos regimentos e indicando a sua posição. “Começando em 8 de julho”, confessa Miliukov, “os jornais começaram a publicar de propósito telegramas atrevidos do front que golpeou a sociedade russa como um estrondo de trovão”. E este era o seu propósito – chocar, assustar, aturdir, para mais facilmente ligar os bolcheviques com os alemães.

A provocação sem dúvida teve certo papel nos eventos do front, assim como nas ruas de Petrogrado. Após a Revolução de Fevereiro, o Governo jogou no Exército ativo um grande número de ex-gendarmes e policiais. Nenhum deles, é claro, queria lutar. Tinham mais medo dos soldados russos que dos alemães. Para terem seu passado esquecido, simulavam os sentimentos mais extremos do Exército, incitavam os soldados contra os oficiais, reagiam mais ruidosos do que os outros contra a disciplina, e freqüentemente se diziam abertamente bolcheviques. Ligados naturalmente uns aos outros como cúmplices, criaram um tipo especial de “Irmandade da Covardia e Vilania”. Através deles, penetravam e rapidamente se espalhavam pelo Exército os rumores mais fantásticos, em que o ultra-revolucionarismo era combinado com o espírito Cem Negros. Nas horas críticas, estas criaturas davam o primeiro sinal para o pânico. A imprensa mais de uma vez referiu-se a este desmoralizante serviço dos policiais e gendarmes. Referências não menos freqüentes deste tipo eram descobertas nos documentos secretos do próprio Exército. Mas o alto-comando silenciava, preferindo identificar os Cem Negros provocadores com os bolcheviques. E agora, após o colapso da ofensiva, este método foi legalizado e os esforços dos jornais mencheviques não ficavam atrás das folhas mais sujas dos chauvinistas. Com gritos sobre os “anarcobolcheviques” e agentes alemães, os ex-gendarmes conseguiram por um tempo abafar a questão da condição geral do Exército e da política de paz. “Nossa brecha profunda no front de Lenin”, o príncipe Lvov abertamente se vangloriava, “tem incomparavelmente mais importância para a Rússia, em minha firme opinião, do que a brecha feita pelos alemães no front sudoeste…” O respeitável chefe do governo era igual a Rodzianko, o Lorde Camareiro, na incapacidade de saber quando devia ficar calado.

Se fosse possível impedir as massas de se manifestar em 3-4 de julho, ela teria inevitavelmente estourado como resultado da brecha em Tarnopol. Contudo, um atraso mesmo de poucos dias teria trazido importantes mudanças na situação política. O movimento teria assumido um alcance mais amplo, tomando não apenas as províncias, mas também, em um grau considerável, o front. O Governo teria sido politicamente exposto, e teria visto que seria incomparavelmente mais difícil lançar a culpa sobre os “traidores” na retaguarda. A situação do partido bolchevique teria sido mais vantajosa em todos os aspectos. Contudo, mesmo neste caso, a coisa não teria sido levada ao ponto de uma conquista imediata do poder. Apenas uma coisa pode-se afirmar com certeza: se o movimento de julho tivesse estourado uma semana depois, a reação não teria obtido uma vitória tal como teve. Foi exatamente a “misteriosa seqüência” da data da manifestação e a data do colapso que contou pesadamente contra os bolcheviques. A onda de indignação e desespero que afluía do front encontrou-se com a onda de esperanças despedaçadas que irradiava de Petrogrado. A lição recebida pelas massas na capital era muito severa para qualquer um pensar numa renovação imediata da luta. Além disso, os amargos sentimentos causados pela derrota estúpida procuravam expressão, e os patriotas, em certa medida, conseguiram dirigi-la contra os bolcheviques.

Em abril, junho e julho, os principais atores eram os mesmos: conciliadores, liberais e bolcheviques. Em todas estas etapas, as massas tentavam expulsar a burguesia do Governo. Mas a diferença entre as conseqüências políticas da interferência das massas nos vários casos era enorme. Foi a burguesia que sofreu a conseqüência das “jornadas de abril”. A política de anexação foi condenada – pelo menos em palavras; o partido kadete foi humilhado; a pasta das Relações Exteriores foi tomada dele. Em junho, o movimento deu em nada. Um gesto foi feito contra os bolcheviques, mas o golpe não foi desferido. Em julho, o partido bolchevique foi acusado de traição, despedaçado, privado de comida e água. Se em abril Miliukov foi expulso do governo, em julho Lenin foi mandado para a clandestinidade. Qual foi a causa desta brusca mudança num período de dez semanas? É muito óbvio que nos círculos dirigentes uma mudança séria ocorreu para o lado da burguesia liberal. Contudo, no mesmo período – abril a julho – a opinião das massas mudou bruscamente para o lado dos bolcheviques. Estes dois processos opostos desenvolviam-se em estreita dependência mútua. Quanto mais os operários e soldados se reuniam em torno dos bolcheviques, mais resolutamente os conciliadores eram obrigados a apoiar a burguesia. Em abril, os líderes do Comitê Executivo, preocupados com sua própria influência, ainda podiam dar um passo para as massas e jogar fora Miliukov – suprindo-o, é verdade, com um confiável salva-vidas. Em julho, os conciliadores unidos à burguesia e aos oficiais atacavam os bolcheviques. A mudança na correlação de forças foi causada desta vez, também, pela mudança da menos estável das forças políticas – a democracia pequeno-burguesa – e seu movimento brusco para o lado da contra-revolução burguesa.

Mas se era assim, os bolcheviques estavam certos ao se unirem à manifestação e assumir a responsabilidade por ela? Em 3 de julho, Tomsky expôs o pensamento de Lenin: “É impossível falar de uma manifestação neste momento a menos que queiramos uma nova revolução”. Neste caso, como podia o partido, poucas horas depois, estar à frente de uma manifestação armada sem chamar as massas para uma nova revolução? Doutrinários verão uma inconsistência aqui – ou, ainda pior, leviandade política. Sukhanov, por exemplo, vê a questão deste modo e incorpora em suas Notas não poucas referências irônicas à vacilação da direção bolchevique. Contudo, as massas tomam parte nos eventos não sob as ordens dos doutrinários, mas na hora em que eles derivam inevitavelmente de seu próprio desenvolvimento político. A direção bolchevique entendeu que apenas uma nova revolução podia mudar a situação política, mas os operários e soldados ainda não entendiam isso. A direção bolchevique claramente via que as reservas pesadas – o front e as províncias – precisavam de tempo para fazer suas próprias deduções da aventura da ofensiva. Mas as fileiras avançadas corriam às ruas sob a influência desta mesma aventura. Elas combinavam o entendimento mais radical da tarefa com ilusões sobre seus métodos. Os alertas dos bolcheviques eram ineficientes. Os operários e soldados de Petrogrado tinham que testar a situação com sua própria experiência. E sua manifestação armada foi este teste. Mas o teste poderia, contra o desejo das massas, se transformar numa batalha geral e até mesmo numa decisiva derrota. Em tal situação, o partido não se atrevia a ficar de lado. Lavar as mãos na água da moral estratégica significaria simplesmente trair os operários e soldados aos seus inimigos. O partido das massas foi obrigado a ficar no mesmo lado em que estavam as massas, para, embora não compartilhasse em nada de suas ilusões, ajudá-las a fazer as deduções necessárias com o mínimo de perdas possível. Trotsky respondeu na imprensa aos vários críticos daqueles dias: “Não consideramos necessário nos justificar a ninguém por não ter ficado de lado esperando enquanto o general Polovtsev ‘conversava’ com os manifestantes. De qualquer modo, nossa participação não poderia aumentar o número de vítimas, ou converter uma manifestação armada caótica numa insurreição política”.

Um protótipo das jornadas de julho é encontrado em todas as velhas revoluções – com vários, geralmente falando, desfavoráveis e freqüentemente catastróficos resultados. Esta etapa é inerente ao mecanismo interno de uma revolução burguesa, visto que a classe que mais se sacrifica pelo sucesso da revolução e esperava mais dela é a que menos recebe. A lei natural do processo é perfeitamente clara. A classe possuidora que é levada ao poder pela revolução é inclinada a pensar que isto completa a missão da revolução e, portanto, mais do que todos, se preocupa em mostrar sua confiabilidade às forças da reação. Esta burguesia “revolucionária” provoca a indignação das massas populares pelas mesmas medidas com que tenta ganhar a boa vontade das classes que foram derrubadas. O desapontamento das massas segue-se muito rapidamente; até mesmo antes que sua vanguarda tenha se recuperado da última luta revolucionária. O povo imagina que com um novo golpe pode completar ou corrigir o que ele não realizou com decisão suficiente antes. Daí o impulso para uma nova revolução, uma revolução sem preparação, sem programa, sem estimativa das reservas, sem cálculo das conseqüências. De outro lado, aquelas camadas burguesas que chegaram ao poder estão apenas esperando um impulso tempestuoso de baixo, para tentar fazer um ajuste de contas definitivo com o povo. Tal é a base social e psicológica daquela semi-revolução complementar que mais de uma vez na História se tornou o ponto de partida para uma contra-revolução vitoriosa.

Em 17 de julho de 1791, no Champs de Mars, Lafayette atirou sobre uma pacífica manifestação de republicanos tentando levar uma petição à Assembléia Nacional, que estava engajada em esconder a traição do poder monárquico, assim como os conciliadores russos, 126 anos depois, escondiam a traição dos liberais. A burguesia realista esperava com um banho de sangue oportuno ajustar contas definitivas com o partido da revolução. Os líderes republicanos, ainda não se sentindo fortes o suficiente para a vitória, recusaram a batalha, o que era inteiramente razoável. Até se apressaram em se separarem dos peticionários – o que era, para dizer o mínimo, indigno e um erro político. O regime do terror burguês obrigou os jacobinos a ficarem quietos por vários meses. Robespierre abrigou-se com o carpinteiro Duplay. Desmoulins escondeu-se. Danton passou várias semanas na Inglaterra. Mas a provocação realista, contudo, falhou: a repressão no Champ de Mars não impediu o movimento republicano de alcançar a vitória. A grande Revolução francesa tece assim suas “jornadas de julho” – tanto no sentido político quanto no calendário.

Cinqüenta e sete anos depois, na França, as “jornadas de julho” ocorreram em junho e foram incomparavelmente mais colossais e trágicas. As chamadas “jornadas de junho” de 1848 originaram-se irresistivelmente da insurreição de fevereiro. A burguesia francesa proclamou na hora de sua vitória o “direito ao trabalho” – como em 1789 ela anunciou muitas coisas admiráveis, como em 1914 ela jurou que travava sua última guerra. Deste pomposo “direito ao trabalho” surgiram as lamentáveis oficinas nacionais onde cem mil operários, após conquistarem o poder para seus patrões, recebiam um salário de 23 soldos por dia. Apenas umas poucas semanas depois a burguesia republicana – generosa em palavras, mas mesquinha em dinheiro – não achava palavras insultantes o suficiente para estes “vadios” vivendo da ração de fome nacional. Na abundância das promessas de fevereiro e as provocações a sangue-frio pré-junho, os traços nacionais da burguesia francesa encontraram uma expressão admirável. Não obstante, mesmo sem provocação, o operário parisiense, com as armas de fevereiro ainda em suas mãos, não podia ainda reagir ao contraste entre o programa deslumbrante e a miserável realidade – o intolerável contraste que a cada dia roía seu estômago e sua consciência. Com que cálculo frio e má dissimulação Cavaignac, ante os olhos de toda a sociedade dominante, permitiu uma insurreição se desenvolver para melhor afogá-la em sangue! Não menos de doze operários foram mortos pela burguesia republicana, não menos de 20 mil foram presos, para privar os remanescentes da fé naquele “direito ao trabalho” que a burguesia proclamou. Sem plano, sem programa, sem direção, o movimento das jornadas de junho de 1848 parecia uma poderosa e desenfreada ação reflexa do proletariado. Privados de suas mais elementares necessidades e insultados em suas mais altas esperanças, os operários insurretos não foram apenas esmagados, mas caluniados. O democrata de esquerda Flaucon, seguidor de Ledru-Rollin, um predecessor de Tseretelli, assegurou à Assembléia Nacional que os revoltosos foram subornados por monarquistas e governos estrangeiros. Os conciliadores de 1848 nem mesmo precisaram da atmosfera de guerra para descobrir o ouro inglês ou russo nos bolsos dos rebeldes. Foi assim que os democratas abriram caminho ao bonapartismo.

A gigantesca explosão da Comuna tem a mesma relação com o golpe de setembro de 1870, que as jornadas de junho têm com a revolução de fevereiro de 1848. O levante de março do proletariado parisiense foi tudo, menos uma questão de cálculo estratégico. Resultou de uma trágica combinação de circunstâncias, completada por um daqueles atos de provocação em que a burguesia francesa é tão inventiva quando o medo estimula sua vontade malévola. Contra os planos da camarilha dirigente, que queria acima de tudo desarmar o povo, os operários queriam defender aquela Paris que eles, pela primeira vez, tentaram tornar sua. A Guarda Nacional deu a eles uma organização armada – muito próxima do tipo soviético – e lhe deu uma direção política na pessoa de seu Comitê Central. Em conseqüência de condições objetivas desfavoráveis e erros políticos, Paris ficou em oposição à França, incompreendida, não apoiada e parcialmente traída pelas províncias – e caiu nas mãos dos homens raivosos de Versalhes, com Bismarck e Moltke atrás deles. Os corrompidos e derrotados oficiais de Napoleão III provaram-se algozes indispensáveis a serviço da meiga Marianne, que os prussianos de botas grosseiras acabavam de libertar dos abraços de um falso Bonaparte. Na Comuna de Paris, o ato reflexo do proletariado contra a falsidade de uma revolução burguesa pela primeira vez subiu ao nível da revolução proletária – mas apenas para cair imediatamente.

A semana espartaquista, em janeiro de 1919, em Berlim, pertencia ao mesmo tipo de semi-revolução intermediária que as jornadas de julho em Petrogrado. Devido à posição predominante do proletariado na nação alemã, especialmente em sua indústria, a revolução de novembro transferiu automaticamente a soberania estatal para o Soviete de Operários e Soldados. Mas o proletariado era politicamente idêntico à socialdemocracia que, por sua vez, identificava-se com o regime burguês. O partido independente ocupou na revolução alemã o lugar que na Rússia pertencia aos socialistas-revolucionários e mencheviques. O que faltava era um partido bolchevique.

Cada dia após o 9 de novembro dava aos operários alemães um vívido sentimento de que algo escorregava de suas mãos, esquivando-se, escoando por seus dedos. O desejo de manter o que ganharam, fortificar-se, oferecer resistência, crescia dia a dia. E esta tendência defensiva estava na base das lutas de janeiro de 1919. A semana espartaquista começou, não do modo de uma estratégia calculada pelo partido, mas pela pressão das camadas baixas indignadas. Desenvolveu-se em torno de uma questão de terceira importância, a manutenção no posto de um chefe de polícia, embora fosse por suas tendências o início de uma nova revolução. Ambas as organizações participantes na direção – a Liga Spartakus e os Independentes de esquerda – foram pegas desprevenidas; foram muito além do que pretendiam e ao mesmo tempo não foram até o fim. Os espartaquistas eram ainda muito fracos para uma direção independente. Os Independentes de esquerda frustraram os únicos métodos que podiam levá-los até seu objetivo, vacilavam e brincavam com a insurreição, combinando-a com negociações diplomáticas.

Em número de vítimas, a derrota de janeiro ficou muito abaixo do quadro colossal das “jornadas de junho” na França. Contudo, a importância política não é medida apenas pelas estatísticas de mortos e executados. É suficiente que o jovem partido comunista fosse fisicamente decapitado, e o partido independente demonstrasse que, pela própria essência de seus métodos, era incapaz de liderar o proletariado até a vitória. De um amplo ponto de vista, as “jornadas de julho” repetiram-se na Alemanha em várias ocasiões diferentes: a semana de janeiro de 1919, as jornadas de março de 1921, a retirada de outubro de 1923. Toda a história subseqüente da Alemanha deriva destes eventos. A revolução inacabada foi trocada pelo fascismo.

No momento, enquanto estas linhas são escritas – começo de maio de 1931 – a incruenta, pacífica, gloriosa (a lista destes adjetivos é sempre a mesma) revolução na Espanha, está preparando, ante nossos olhos, suas “jornadas de junho” – se for pelo calendário francês – ou suas “jornadas de julho” – pelo russo. O Governo Provisório em Madri, banhado em frases – uma boa parte delas parece traduzida da linguagem russa – está prometendo amplas medidas contra o desemprego e a fome por terra, mas não se atreve a tocar numa só das velhas feridas sociais. Os socialistas de coalizão estão ajudando os republicanos a sabotar as tarefas da revolução. É difícil prever o febril crescimento de indignação entre os operários e camponeses? O movimento incompatível da revolução das massas de um lado, e a política das novas classes dirigentes de outro – esta é a fonte de um conflito irreconciliável que, ao se desenvolver, ou enterrará a primeira revolução, a de abril, ou levará a uma segunda.

Embora a maior parte dos bolcheviques russos sentisse, em julho de 1917, que além de certos limites era ainda impossível passar, o estado de espírito não era homogêneo. Muitos operários e soldados eram às vezes inclinados a estimar o movimento em desenvolvimento como uma ação decisiva. Metelev, em suas memórias escritas cinco anos depois, se expressa sobre o significado dos eventos nas seguintes palavras: “Nesta insurreição, nosso principal erro foi propormos ao Comitê Executivo conciliador tomar o poder… Não deveríamos ter proposto, mas ter tomado o poder nós mesmos. Nosso segundo erro pode ser considerado ser este, que passamos quase dois dias marchando nas ruas ao invés de ocupar imediatamente todas as instituições, os palácios, bancos, as estações ferroviárias, os escritórios telegráficos, prender todo o Governo Provisório etc”. Aplicados a uma insurreição, estas palavras seriam inquestionáveis, mas converter o movimento de julho em insurreição significaria quase certamente enterrar a revolução.

Os anarquistas que chamavam as massas à batalha afirmavam que “a Revolução de Fevereiro também ocorreu sem a direção de um partido”. Mas a Revolução de Fevereiro tinha suas tarefas preparadas elaboradas pela luta de gerações inteiras, e acima dela erigiam-se uma sociedade liberal oposicionista e uma democracia patriótica pronta para receber o poder. O movimento de julho, pelo contrário, tinha que desbravar um caminho histórico totalmente novo. Toda a sociedade burguesa, a democracia soviética inclusive, era implacavelmente hostil a ela. Esta diferença básica entre as condições de uma revolução burguesa e uma operária os anarquistas não viam, ou não entendiam.

Se o partido bolchevique, obstinadamente aderido a uma apreciação doutrinária do movimento de julho como “inoportuno”, tivesse virado as costas às massas, a semi-insurreição teria inevitavelmente caído sob a dispersa e descoordenada direção dos anarquistas, aventureiros, ou intérpretes acidentais da indignação das massas, e teria expirado convulsões sangrentas e estéreis. De outro lado, se o partido, após ter tomado o seu lugar à frente dos metralhadores e operários de Putilov, tivesse renunciado à sua própria apreciação da situação como um todo e deslizado para o caminho de uma luta decisiva, a insurreição teria sem dúvida tomado um alcance audacioso. Os operários e soldados, sob a direção dos bolcheviques, teriam conquistado o poder – mas apenas para preparar o subseqüente naufrágio da revolução. A questão do poder a uma escala nacional não teria sido decidida, como em fevereiro, pela vitória em Petrogrado. As províncias não teriam seguido a capital. O front não teria entendido ou aceitado a revolução. As ferrovias e os telégrafos teriam servido aos conciliadores contra os bolcheviques. Kerensky e o quartel-general teriam criado um governo para o front e as províncias. Petrogrado teria sido bloqueada e a desintegração teria começado dentro de seus muros. O governo seria capaz de enviar consideráveis massas de soldados contra Petrogrado. A insurreição seria encerrada, naquelas circunstâncias, com a tragédia de uma Comuna de Petrogrado.

Em julho, na bifurcação de vias históricas, a interferência do partido bolchevique eliminou duas variantes fatalmente perigosas – a das jornadas de junho de 1848 e a Comuna de Paris de 1871. Pelo partido ter tomado seu lugar corajosamente à frente do movimento, foi capaz de deter as massas no momento em que a manifestação começou a se transformar num teste armado de forças. O golpe desferido nas massas e no partido em julho foi considerável, mas não decisivo. As vítimas foram contadas em dezenas e não em dezenas de milhares. A classe operária não saiu do processo decapitada ou ferida de morte. Preservou totalmente seus quadros combativos, e estes quadros aprenderam muito.

Durante o levante de fevereiro, todos os muitos anos precedentes de trabalho dos bolcheviques frutificaram, e os operários avançados educados pelo partido descobriram seu lugar na luta, mas ainda não havia uma liderança direta do partido. Nos eventos de abril, as palavras de ordem do partido manifestaram sua força dinâmica, mas o movimento em si desenvolveu-se independentemente. Em junho, a enorme influência do partido revelou-se, mas as massas ainda funcionavam dentro dos limites de uma manifestação chamada oficialmente pelo inimigo. Apenas em julho o partido bolchevique, sentindo a pressão das massas, saiu às ruas contra todos os outros partidos, e não apenas com suas palavras de ordem, mas com sua direção organizada, e determinou o caráter fundamental do movimento. O valor de uma vanguarda de fileiras cerradas se manifestou totalmente pela primeira vez nas jornadas de julho, quando o partido – a um grande custo – defendeu o proletariado da derrota, e salvaguardou sua própria revolução futura.

“Como um processo técnico”, escreveu Miliukov, falando do significado das jornadas de julho para os bolcheviques, “a experiência para eles foi, sem dúvida, de valor extraordinário. Mostrou-lhes com que elementos tinham que lidar, como organizar estes elementos, e finalmente que resistência seria posta pelo Governo, o Soviete e as unidades militares… Era evidente que, quando chegasse a hora de repetir a experiência, eles a executariam mais sistemática e conscientemente”. Estas palavras corretamente apreciam o significado do experimento de julho para o desenvolvimento posterior da política dos bolcheviques. Contudo, antes de fazer uso destas lições de julho, o partido teria de passar por algumas semanas penosas, durante as quais pareceria ao inimigo míope que o poder do bolchevismo fora conclusivamente quebrado.

Fonte: Leon Trotsky. História da Revolução Russa. Tomo II. Capítulo 26. Tradução: Diego Siqueira. São Paulo: Editora Sundermann, 2007.

Nota:

[1]           Antiga medida russa para distâncias equivalente a 1,067 km.