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Queria começar dizendo que é uma honra falar a vocês sobre a revolução russa e os metalúrgicos. Como vocês devem saber, os metalúrgicos jogaram um papel crucial o movimento revolucionário russo antes de 1917 e durante o ano revolucionário. Tentarei resumir alguns dos eventos e contribuições dos metalúrgicos a este movimento.

Kevin Murphy, da Universidade de Massachusetts, Boston, EUA.

O desenvolvimento econômico russo começou muito tarde na segunda metade do século 19. O maior desenvolvimento foi nos anos 1890 durante a construção do sistema ferroviário russo e continuou até 1917. As duas maiores cidades, Moscou e São Petersburgo, tinham apenas 500 mil habitantes nos anos 1860, mas no começo da I guerra mundial, 50 anos depois, tinham cerca de dois milhões cada uma. Aço era fundamental para a industrialização, para o sistema ferroviário, para a construção de fábricas, metalúrgicas e para a produção de guerra.

Isto era mais importante em São Petersburgo, depois chamada de Petrogrado em 1914 no início da guerra. Petrogrado e seus subúrbios tinham 400 mil operários em 1917, dos quais 240 mil eram metalúrgicos, isto é, 60% da força de trabalho. O desenvolvimento industrial atrasado da Rússia significou que fábricas muito modernas e grandes foram construídas em um período bem curto. 70% dos operários de Petrogrado trabalhavam em fábricas com mais de 1000 operários, mais que o dobro em relação aos Estados Unidos. Algumas das metalúrgicas eram enormes, a Fábrica de Tubulações empregava 19 mil; a Obukhov, de fabricação de máquinas, 13 mil; os estaleiros do Báltico, 8 mil. Petrogrado era mais importante centro militante industrial durante a revolução de 1905, durante a onda de greves de 1912 a 1916 e durante o ano revolucionário. Não é exagero dizer que os metalúrgicos foram o coração deste movimento.

Os metalúrgicos jogaram um papel crucial no início da revolução de 1905. Antes do domingo sangrento em 9 de janeiro de 1905, os socialistas eram uma pequena minoria no movimento operário. Numa tentativa de minar a influência dos socialistas, o chefe da polícia secreta czarista, Sergei Zubatov, organizou sindicatos policiais que eram leais ao czar e que tentaram conquistar alguma justiça social.

De fato, os sindicatos controlados por Zubatov organizaram a primeira greve geral em Odessa em 1903. A Assembleia de Operários de Fábricas e Usinas da Rússia do Padre Gapon era semelhante. Gapon era, na verdade, um agente da polícia, e sua Assembleia tinha simpatizantes que superavam de longe a influência dos socialistas. Os oradores social-democratas eram constantemente obrigados a se calarem e algumas vezes eram removidos à força por operários raivosos nos encontros da Assembleia.

A demissão de 4 metalúrgicos da gigante Metalúrgica Putilov detonou uma onda de greves de quase 400 fábricas em torno a várias reivindicações econômicas e políticas. Em 9 de janeiro de 1905, a Assembleia de Gapon dirigiu uma passeata de cerca de 50 mil ao Palácio de Inverno para apresentar uma petição ao czar Nicolau II que começava:

Nós, os operários e habitantes de São Petersburgo, de várias regiões, nossas mulheres, nossas crianças e nossos velhos pais sem esperança vêm a vós, Senhor, em busca de justiça social e proteção. Nós estamos empobrecidos; somos oprimidos, sobrecarregados com impostos excessivos, desprezados…

As reivindicações operárias eram bem radicais: assembleia constituinte eleita por sufrágio universal, liberdades civis a todos, direito de organização de sindicatos e jornada de oito horas. As tropas do governo tiveram ordem de atirar nos manifestantes, matando 139 pessoas. A resposta foi uma revolta imediata: “Assassinos! Parasitas! Carrascos! Vocês fugiram dos japoneses, mas atiram em seu próprio povo”. Este novo ódio ao czar significava que os dias de petições humildes a um czar benevolente chegavam ao fim. Petições como a seguinte não apelavam mais ao czar:

Reivindicações dos metalúrgicos de Ekaterinoslav à Duma de Deputados.

1 – Introdução de lei de proteção do trabalho

2 – Introdução imediata da jornada de 8 horas por lei, mantendo os salários atuais

3 – Abolição de horas extras obrigatórias

4 – Estabelecimento de escritórios locais de mediação [de disputas trabalhistas, NT] em todos os ramos industriais, com representantes dos operários e da administração

5 – Anistia para todos presos políticos e abolição da pena de morte

6 – Liberdade completa de consciência, expressão, imprensa, reunião, greve e sindical.

Pode se ver, pelo modo que as reivindicações são apresentadas, que o Domingo Sangrento foi um ponto culminante para o movimento operário. Os operários não viam mais o czar como um ditador benevolente e os sindicatos controlados pela polícia não lideravam mais os operários. A partir dali, os socialistas iriam dirigir o movimento operário. Este foi um ponto de inflexão para os operários russos. As outras lições importantes da revolução de 1905 foram a greve de massas como uma arma política e a formação do Soviete de deputados Operários de Petrogrado em outubro [de 1905, NT] que surgiu da greve de massas. Os metalúrgicos foram fundamentais para a greve e para o Soviete.

Com a derrota da revolução de 1905, vieram anos de repressão nos quais o ativismo operário esteve em baixa. Depois da revolução de 1905, 3 mil presos políticos foram executados e outros 57 mil foram exilados ou presos. Cerca de 2,8 milhões de operários fizeram greve em 1905, quase a metade eram metalúrgicos. Em 1910, apenas 37 mil operários fizeram greves.

Como consequência de 1905, alguns metalúrgicos participaram de atividades legais que ajudaram a fortalecer a rede de ativistas. Estas incluíram cooperativas de ajuda mútua e trabalho sindical. Os sindicalizados dos sindicatos de metalúrgicos chegaram a 11 mil em São Petersburgo e 3 mil em Moscou em 1914, números muito baixos. Isto se dava porque os sindicatos tinham o direito legal de representar os trabalhadores, mas não podiam fazer greve. Esta situação dos sindicatos empurrou os operários a formas mais militantes de organização ilegal.

Como em 1905, o ponto de virada do ativismo operário foi o massacre de operários em greve pelo governo. Os mineiros da mina de ouro Lena trabalhavam 15 horas por dia por baixos salários em condições de trabalho muito perigosas. Em 4 de abril de 1912, 2500 mineiros marcharam em protesto e as tropas do governo abriram fogo contra os grevistas da mina Lena, matando 270 mineiros. Em alguns dias, as notícias do massacre e a ameaça do ministro de Assuntos Internos, Makarov – “Assim foi e assim será no futuro” -, espalharam-se como fogo. Nas 3 semanas seguintes, o massacre acordou o movimento operário adormecido, com mais greves em São Petersburgo que em todo o império nos 3 anos anteriores. O movimento de greves políticas, de abril de 1912 a janeiro de 1917, interrompido brevemente pelo início da guerra, foi a onda de greves mais espetacular da história mundial. Mais de 9 mil greves, envolvendo 4,5 milhões de operários e mais de 12 milhões de dias de greve, incluindo 32 ondas de greves políticas.

Eu quero enfatizar 3 pontos desse movimento grevista. Primeiro, antes de 1916, mulheres e jovens operários não eram muito ativos no movimento grevista, em parte porque os militantes não levavam suas preocupações muito a sério. Um operário escreveu que “eles ganhavam pouco e ficavam de fora do movimento e não participavam das greves”. Ainda durante a guerra, como os homens eram convocados para o exército, mais e mais jovens e mulheres começaram a trabalhar na indústria metalúrgica. Na Metalúrgica Moscou, para ter unidade contra a chefia, era necessário que os metalúrgicos adultos começassem a encaminhar as preocupações das mulheres e jovens, antes ignoradas. Em maio de 1916, quando toda a fábrica fez greve, as reivindicações incluíam o salário mínimo para mulheres e jovens aprendizes. Melhor organização também significava lutar contra a perseguição, isto é, a demissão de operários que o serviço secreto czarista identificava como líderes das greves. Em outubro de 1916, outra greve de mil operários mostra novamente o nível crescente de solidariedade, novamente envolvendo as antes marginalizadas mulheres e os jovens e, desta vez, e para evitar a perseguição, os operários organizaram um comitê de greve.

Em segundo lugar, a participação nas greves de operários em fábricas e mesmo em setores específicos dependia do trabalho e da agitação dos militantes. Se havia um grupo de militantes, a fábrica participava. Eles o faziam apesar das batidas policiais pela Okhrana (polícia política) depois de cada greve. Eu pesquisei os relatórios policiais. Em toda greve, os relatórios policiais listam os nomes dos militantes, normalmente bolcheviques, que eram presos e exilados para a Sibéria.

Terceiro, a maioria das greves políticas da Rússia neste período ocorreram em Petrogrado envolvendo metalúrgicos. O relatório anual de 1912 dos proprietários de fábricas reclamava sobre a “frequência das greves e manifestações, que aconteciam uma depois da outra, e a variedade incomum e diferença de importância dos motivos pelos quais os operários julgavam ser necessário entrar em greve”. Esta variedade e solidariedade continuaria pelos próximos cinco anos, com uma breve interrupção no começo da guerra. Em novembro de 1913, os militantes metalúrgicos da fábrica Obukhov foram a julgamento e 83 mil operários pararam em solidariedade. Em março de 1914, as operárias da fábrica de borracha Treugolnik ficaram doentes devido à falta de ventilação, 130.000 operários fazem greve em solidariedade. Em abril de 1914, os deputados socialistas eleitos foram expulsos da Duma e 74 mil pararam. Em setembro de 1915, o czar Nicolau fecha a Duma e 60 mil operários fazem greve. Em outubro de 1916, 90 mil operários entram em greve por causa da falta de alimentos. Na semana seguinte, os marinheiros do Báltico são presos e mais de 100 mil operários de Petrogrado param o trabalho.

Dias após dia, o estado czarista atacava a classe operária e os metalúrgicos de Petrogrado dirigiam a luta de solidariedade, em resposta. A polícia política czarista informou que “os elementos mais ativos e corajosos, capazes de lutar incansavelmente, de resistência e organização constante, são essas pessoas concentradas em torno a Lenin”. Como eu mencionei, depois de cada greve, a polícia perseguia os militantes nas fábricas metalúrgicas, prendia-os e exilava-os para a Sibéria. No entanto, esses sacrifícios na organização das 32 ondas de greves políticas ajudaram a moldar o movimento revolucionário e abriram caminho para 1917.

Nos dias anteriores à revolução de fevereiro de 1917, a raiva dos trabalhadores em toda Petrogrado foi aumentada pela escassez de pão e pelo alto custo de vida durante a guerra. Em 20 de fevereiro, metalúrgicos de várias seções da enorme fábrica Putilov entraram em greve por aumento salarial e a greve espalhou-se para outras fábricas metalúrgicas. Depois de uma grande assembleia de operários no pátio da fábrica, a administração temeu por uma greve de toda a fábrica emitiu uma ordem: “em vista da sistemática perturbação da ordem, a fábrica será fechada por tempo indeterminado”.

A greve mais importante na história mundial começou com as mulheres operárias têxteis em Petrogrado no Dia Internacional da Mulher de 1917. Trabalhando até treze horas por dia, enquanto seus maridos e filhos estavam na frente de guerra, essas mulheres tinham que sustentar suas famílias sozinhas e esperavam em filas por horas em temperaturas abaixo de zero na esperança de obter pão. Os líderes bolcheviques não acreditavam que era hora para uma greve de massa, que eles deveriam continuar a construir uma manifestação no Primeiro de Maio. Em 22 de fevereiro, o líder bolchevique Kaiurov dirigiu-se a uma reunião de mulheres no distrito militante de Vyborg, instando as mulheres a não fazer greve no Dia Internacional da Mulher e a ouvirem “as instruções do partido”. Ele reclamou que as mulheres bolcheviques em cinco fábricas têxteis escolheram ignorá-lo e saíram em greve na manhã seguinte.

As mulheres da Tecelagem Neva gritaram: “Às ruas! Chega! Estamos fartas!”, abriram os portões da fábrica e dirigiram centenas de mulheres para as fábricas metalúrgicas próximas. Jogando bolas de neve na fábrica da Metalúrgica Nobel, milhares de mulheres convenceram os trabalhadores a se juntarem, agitando os braços e gritando: “Venham, parem o trabalho!” As mulheres também marcharam para a Fundição Erikson, onde os trabalhadores se juntaram a elas. O apoio dos trabalhadores metalúrgicos às mulheres têxteis ajudou a transformar esta greve em uma grande passeata que marchou pelas as pontes até o centro da cidade. Em dois dias, ela transformou-se em uma greve geral e em cinco dias a revolução tinha o controle da cidade e alguns dias depois o czar abdicava. A maioria dos grevistas durante a Revolução de Fevereiro era metalúrgica.

Os operários metalúrgicos também estavam representados no Soviete dos Operários e Soldados de Petrogrado. Durante os oito meses seguintes, a principal questão política era quem governaria: os Sovietes dos Operários e Soldados ou o Governo Provisório. No início, os operários e soldados não viam diferença entre os vários partidos socialistas representados no Soviete. Mas, com o passar do tempo, como os socialistas menos radicais continuavam a negociar com os capitalistas e os proprietários de terras e evitavam resolver as principais questões da guerra, da terra e de quem deveria possuir as fábricas, aumentou o apoio aos bolcheviques radicais.

Os operários com salários mais baixos foram os mais atingidos pela crise econômica em 1917. Na Metalúrgica Moscou, uma assembleia geral em 23 de abril aprovou por unanimidade que os trabalhadores qualificados deveriam recusar aumentos salariais excessivos e exigiram que esses fundos fossem distribuídos a operários não qualificados. Um estudo sobre os operários de Petrogrado encontrou demandas similares de salário mínimo em fábricas metalúrgicas de lá. A tendência pré-revolucionária [isto é, antes de fevereiro de 1917, NDT] de envolver uma força de trabalho mais diversificada continuou; as preocupações de 439 mulheres da Metalúrgica Moscou simplesmente não poderiam ser ignoradas. Uma pauta de reivindicações de junho abordava especificamente os problemas das mulheres, incluindo chuveiros separados, seis semanas de licença-maternidade paga, além de um abono especial pelo nascimento de um filho.

A dinâmica do movimento na Metalúrgica Moscou mostra que, uma vez que os operários adquiram o senso de seu poder, eles dão as cartas na luta de classes, pois nem as concessões da gerência nem a intransigência impedem o crescente senso de poder dos operários. Uma operação tartaruga por aumento salarial também levou a um confronto renovado em torno à contratação e demissão de operários, e mostra como questões aparentemente dispares se sobrepunham à medida que o movimento operário crescia em confiança. O comitê da fábrica resolveu que nenhum empregado poderia ser demitido sem sua autorização. Então, eles decidiram que eles também tinham o direito de nomear e demitir os gerentes e chefes. A administração da fábrica queixou-se de que, no dia 23 de maio, “os operários do departamento de fundição anunciaram ao chefe do departamento, Mattis, que eles não queriam tê-lo como gerente e o demitiram desta posição”.

Esta crescente sensação de confiança durante um período revolucionário foi reconhecida pela administração. No dia 9 de junho, a administração da Metalúrgica Moscou queixou-se ao Governo Provisório sobre a militância dos trabalhadores:

Os representantes dos trabalhadores declararam que não estão dispostos a esperar, que se reservam a liberdade de agir e a ameaça de violência contra a administração da fábrica ficou bastante clara. A Câmara de Conciliação recusou-se completamente em considerar a questão da remoção do pessoal do escritório. Isso foi algo compreensível, dado que os trabalhadores fizeram novas ameaças de violência na câmara de manutenção da paz.

Na sexta-feira, 2 de junho … na assembleia geral de trabalhadores, seus representantes informaram que a Câmara não satisfez as demandas dos trabalhadores. Os trabalhadores ficaram agitados e começaram a defender a ocupação imediata da fábrica pela força e o uso das medidas mais violentas contra a administração e o pessoal de escritório que vivia na fábrica.

Kolikov, representante responsável pela distribuição de metais, conseguiu persuadir os trabalhadores a adiar a realização da ocupação pela força pelo menos até segunda-feira, para que todo o caso fosse considerado pela Comissão de Fábrica da Região de Moscou no sábado.

(…)

Que o perigo para a gerência foi bem fundamentado tornou-se evidente quando Kolikov persuadiu o diretor da fábrica a fugir.

A administração estava preocupada com a violência dos trabalhadores, mas enquanto os trabalhadores ameaçavam o uso de força, o número real de casos envolvendo força era realmente muito baixo. O que é mais importante é que vemos aqui que os operários começam a assumir algumas das funções de gerenciamento – isso se tornou conhecido como o movimento pelo controle operário. Isso não significava que os operários operassem as fábricas, mas que os comitês da fábrica começaram a assumir cada vez mais responsabilidade pela gestão das fábricas, como a contratação e demissão, e também na obtenção de matérias-primas para manter as fábricas em funcionamento. Em face de tal militância, a administração da fábrica tentou fechar a Metalúrgica Moscou. Mas, como o aço era crucial para o esforço de guerra, o governo provisório nacionalizou a fábrica e foi obrigado a ficar ao lado dos operários. No final do verão de 1917, bloqueios e fechamentos de fábrica tornaram-se uma tática dos empregadores. Os capitalistas reconheceram que, diante de um movimento operário militante e organizado, não podiam vencer.

Na militante Petrogrado, a seção operária do Soviete tomou partido dos bolcheviques no final de junho. É assim que Leon Trotsky descreve os operários da fábrica Putilov durante os dias de julho, quando eles e suas famílias marcharam para a reunião do Soviete no Palácio Tauride exigindo que o Soviete assumisse o poder:

Perto de três horas da manhã, a fábrica Putilov aproximou-se do Palácio Tauride – com suas esposas e filhos, uma massa de oitenta mil. A passeata começou às onze horas da noite e outras fábricas juntaram-se a eles na estrada. Apesar da hora tardia, havia uma massa de pessoas no Portão Narva, sugerindo que ninguém ficou em casa naquela noite em todo o distrito… Toda a fábrica Putilov, deitada no chão às três da manhã em torno do Palácio Tauride, onde os líderes democráticos estavam esperando a chegada das tropas do front – essa é uma das imagens mais surpreendentes oferecidas pela revolução nesta fronteira da passagem de fevereiro para outubro. Doze anos antes, um não pequeno grupo destes mesmos trabalhadores havia participado da passeata de janeiro ao Palácio de Inverno com imagens e estandartes religiosos. Os anos passaram desde aquele domingo à tarde; outros anos passarão nos próximos quatro meses.

O dia seguinte foi mais ativo. Fora do Palácio Tauride, o líder socialista revolucionário Chernov pedia calma, mas foi preso por marinheiros de Kronstadt e apenas liberado após a intervenção de Trotsky. Operários armados da fábrica Putilov entraram e vasculharam o Palácio Tauride em busca do menchevique defensor da guerra Tsereteli e depois invadiram a sessão do Soviete, onde alguns dos delegados ficaram aterrorizados. Um dos operários subiu na plataforma dos oradores e, agitando seu rifle, declarou:

Camaradas! Por quanto tempo nós, os trabalhadores, defenderemos essa traição? Vocês estão aqui debatendo e fazendo negócios com os capitalistas… Vocês estão ocupados traindo a classe operária. Bem, apenas entendam que a classe operária não vai concordar com isso! Somos 30.000 da fábrica Putilov. Vamos abrir o nosso caminho. Todo o poder para os Sovietes! Nossos rifles estão bem seguros em nossas mãos! Seus Kerenskys e Tseritelis não nos enganarão!

Após as manifestações das Jornadas de Julho, os capitalistas e os proprietários de terras decidiram que era hora de esmagar a Revolução. Todos os não-socialistas alinharam-se com o general Kornilov como o ditador potencial. Antes de sua tentativa de golpe militar, Kornilov argumentou: “É hora de enforcar os agentes e espiões alemães, em primeiro lugar Lenin, e dispersar o Soviete”. Se necessário, “enforcar todos os membros do Soviete dos Deputados de Operários e Soldados”.

O sindicato de metalúrgicos desempenhou um papel crucial na derrota de Kornilov no final de agosto. Os sindicatos e o Soviete de Petrogrado organizaram um Comitê de Defesa para armar 40 mil trabalhadores e preparar-se para a batalha. Metalúrgicos de fábricas de armas também fabricaram armas para a batalha. Um operário da fábrica Putilov escreveu: “Nesses dias, trabalhamos dezesseis horas por dia. Fabricamos cerca de 100 canhões”. O sindicato de metalúrgicos colocou todos os seus funcionários para trabalhar para o Comitê de Defesa para organizar as comunicações, especialmente com os trabalhadores ferroviários para interromper o movimento das tropas contrarrevolucionárias. A tentativa de golpe de Kornilov nunca levantou voo.

O ministro do Trabalho menchevique, Skobelev, tentou limitar o poder dos comitês da fábrica. Ele emitiu uma ordem determinando que o direito de contratação e demissão fosse exclusivo da administração. Cinco dias depois, Skobelev emitiu um segundo mandato que proibiu os comitês de fábrica de se reunirem durante o horário de trabalho regular. Assembleias em grandes fábricas metalúrgicas, como a Putilov e a Almirantado, criticaram o Ministério do Trabalho por capitular para “às exigências contrarrevolucionárias dos patrões”. Os operários metalúrgicos da fábrica Langerzippen emitiram uma resolução: “Rejeitamos com indignação as calúnias maliciosas do Ministro do Trabalho de que o trabalho do Comitê de Fábrica reduz a produtividade do trabalho”.

A derrota de Kornilov revigorizou a extrema-esquerda, já que a escolha era clara: a ditadura militar da extrema-direita ou o poder soviético. Em Petrogrado, as poucas grandes fábricas metalúrgicas que permaneceram fortalezas mencheviques destituíram seus deputados soviéticos e os substituíram por bolcheviques, como a enorme Fábrica de Tubos e a fábrica Obukovsky.

Em outubro, os sovietes de operários e soldados de toda a Rússia agora defendiam o poder soviético. Quando o Segundo Congresso dos Sovietes se reuniu em 25 de outubro, 505 dos 670 delegados estavam comprometidos em transferir “todo o poder aos sovietes”. Esses deputados representavam 402 sovietes de operários e soldados, incluindo suas famílias, dezenas de milhões de pessoas. Doze anos antes, os metalúrgicos acreditavam em um czar benevolente, em dia 25 de outubro acreditavam no socialismo. Os operários metalúrgicos desempenharam um papel crucial na radicalização da classe operária russa durante os anos revolucionários.

Intervenção de Kevin Murphy no III Congresso da CSP-Conlutas

Tradução: Marcos Margarido