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Após a tomada do poder, o governo soviético entendia que existiam duas grandes frentes de batalha para enfrentar a contrarrevolução no contexto da Guerra Civil.

Por: Américo Gomes[1]

Uma “frente externa”, no campo militar, contra o Exército Branco e as tropas imperialistas. Um conflito que chegou a envolver 21 países, com seus oficiais czaristas, assessores militares internacionais, guardas-brancos, cossacos e kulaks[2]. Outra “frente interna”, dentro da própria União Soviética, onde espiões, provocadores, agentes estrangeiros e sabotadores tentavam minar o nascente Estado Operário.

Esta frente interna estava carente de classe operária, pois mais de 380 mil operários deixaram a produção para ir para a Guerra Civil. A fábrica Putilov, em Petrogrado, perdeu quatro quintos do seu contingente.

Criaram-se, então, instituições que aplicaram a coerção, a repressão, a violência e o terror para se defender. Trotsky foi o principal organizador do Exército Vermelho. Félix Dzerjinsky, também chamado de Félix de Ferro, foi o encarregado de montar a Cheka[3], que tinha a missão de exterminar os agentes da contrarrevolução e a burguesia enquanto classe no interior do Estado.

Nas palavras de Trotsky: “a revolução exige da classe destinada a realizá-la que utilize todos os meios para alcançar seus fins: mediante a insurreição armada, se for preciso; com o terrorismo, se for necessário. A classe operária que conquistou o poder com armas nas mãos deve desfazer-se pela violência de todas as tentativas encaminhadas para arrebatá-lo[4].

Brest-Litovsk dividiu águas

Os Socialistas Revolucionários [SRs] de esquerda e Martov junto com os mencheviques internacionalistas apoiaram a tomada do poder pelos Sovietes, e os bolcheviques os chamaram a entrar no governo. Martov não aceitou, mas os SRs de esquerda sim. Ocuparam cargos no Conselho de Comissários, no Exército e até na polícia política, a Cheka.

Mas ficaram contra a assinatura do Tratado de Brest-Litovsk. Alardeavam que havia um acordo entre os bolcheviques e os alemães, e que esta era uma política contra a revolução mundial. Quando da sua assinatura, em 3 de março de 1918, os SRs rompem com o governo e passam à luta armada contra a Ditadura do Proletariado.

Combater os golpes

Os países imperialistas aliados não aceitavam o acordo de paz e que a Rússia saísse da guerra. Por isso, passaram a conspirar contra o governo para derrubá-lo. O Serviço Secreto Alemão e a Missão Militar Francesa, particularmente, atuavam junto às organizações tradicionais de direita, mas também com seus aliados de esquerda, como os Socialistas Revolucionários de direita (SRs) e os mencheviques. O embaixador alemão Wilhelm Von Mirbach[5] estava no centro de todos os complôs. Juntaram armas e organizaram Junkers (Kadetes), cossacos, antigos oficiais do exército czarista e a juventude burguesa.

A primeira tentativa de derrubada do governo foi o levante Kerensky-Krasnov já em outubro de 1917, apoiados pelo “motim dos Junkers” em Petrogrado. Foi desbaratado pela Guarda Vermelha de Petrogrado, Moscou e Karkov, sob o comando de Antonov-Ovseenko, apoiadas por marinheiros de Kronstadt e a Divisão Letã, de Yan Berzin. Kerensky fugiu. Krasnov foi preso, posto em liberdade depois de jurar “nunca mais pegar em armas contra o povo[6]. Assim que fugiu voltou a conspirar.

Na repressão a este levante, Trotsky declarou: “Mantemos os kadetes como prisioneiros e reféns. Se os nossos homens caírem nas mãos do inimigo, que saibam que por cada trabalhador e cada soldado (morto) exigiremos cinco kadetes… (seremos) impiedosos quando se trata de defender as conquistas da revolução[7].

Na altura da Revolução Francesa, homens mais honestos que os kadetes foram guilhotinados pelos jacobinos por se oporem ao povo[8].

Inicia a Guerra Civil

No mesmo mês de outubro, o general Aleksei Kaledin organiza o Exército Branco e inicia a Guerra Civil no sudeste da Rússia. Outros exércitos e generais atacam em outras frentes, apoiados pelas potências imperialistas, o partido burguês dos Kadetes, e os de esquerda: SRs de direita e mencheviques. O governo soviético colocou na ilegalidade o partido Kadete. No entanto, de início tentou negociar com SRs e mencheviques. Foram dois anos de guerra e um custo de dez milhões de vidas.

O Terror Branco

Nos territórios ocupados pelo Exército Branco imperava o seu terror. O primeiro massacre de operários ocorreu três dias depois da tomada do poder quando os Junkers resistentes à revolução tomaram o Kremlin em Moscou.

Na Finlândia, o Exército Branco fuzilou cerca de 20 mil trabalhadores, entre mulheres e crianças, e fez cerca de 70 mil prisioneiros em campos de concentração. Nestes campos, quase 37.000 pessoas morreram, das quais 16% tinham entre 14 e 20 anos de idade, resultado do tratamento desumano. Aproximadamente 20.000 crianças ficaram órfãs[9].

No sudeste da Rússia, Kornilov afirmava estar decidido a atear fogo em metade do país para restabelecer o capitalismo. Ele morreu num ataque à bomba em Ekaterinodar, capital da região que ele comandava. Quando o Exército Vermelho retomou a cidade, desenterraram o seu caixão, arrastaram o seu cadáver até a praça principal e queimaram o seu corpo no lixo.

O exército de Denikin era conhecido pelas execuções em massa e pilhagem. Só na pequena cidade de Fastov, na região de Kiev, matou mais de 1.500 judeus, em sua maioria idosos, mulheres e crianças[10]. Winston Churchill advertiu, pessoalmente, que seu antissemitismo limitava o apoio inglês a suas tropas. Enquanto ele chamava Woodrow Wilson e Lloyd George de “judeus” pelo pouco apoio que recebia.

O almirante Kolchak, na Sibéria Ocidental, dava ordem de fuzilar todos os bolcheviques que encontrassem e seus colaboradores, mesmo que fossem mulheres e crianças. Depois do golpe de Estado que deu na região, mandou fuzilar também os SRs e os mencheviques. Os que sobraram foram presos e exilados.

A Legião Checoslovaca degolou centenas de comunistas por onde passou na Sibéria, no Volga e nos Urais. Em Kazan, os checos cassavam os soldados vermelhos guiados por delatores, degolando os que fossem encontrados.

Mesmo o governo “democrático-burguês” dos SRs e mencheviques, na região do Volga, massacrou os bolcheviques e as cidades ficaram em estado de sítio. Em Simbirsk, dirigiram uma verdadeira epidemia de linchamentos.

Os mencheviques, em muitas partes, se aliaram à burguesia e ao imperialismo contra o poder soviético. Constituíram, em 1918, a República Democrática da Geórgia, em acordo com o Império Alemão e, depois da sua queda, com a Grã-Bretanha, que os protegiam em troca do transporte de armas e mantimentos para o Exército Branco por seu território. Nele, matavam bolcheviques e faziam atrocidades étnicas contra povos minoritários, particularmente os armênios.

Para Lenin: “Ao terror branco dos inimigos do governo operário e camponês, os operários e camponeses responderão com o terror vermelho massivo, contra a burguesia e seus agentes[11].

Anarquistas contra a revolução

Victor Serge observa que: “A insignificância da influência dos anarquistas entre as massas operárias é atestada pelo pequeno número de cadeiras que ocupavam nos Sovietes e no Congresso dos Sovietes, onde, em regra, nunca somavam mais de meia dúzia[12]. Mas, entre os meses de abril e maio de 1918, houve uma verdadeira batalha campal em Moscou sob o slogan da necessidade da “Terceira Revolução“. Foram centenas de militantes armados. Conhecidos monarquistas se juntaram a eles, como normalmente acontecia quando a “Liga da Defesa da Pátria e Liberdade” infiltrava seus membros nos clubes anarquistas, pois “os princípios libertários não permitiam que se fechasse a porta das Organizações a ninguém, nem que se estabelecesse um verdadeiro controle sobre os atos de ninguém[13].

O chefe da Cheka, Félix Dzerjinsky, pediu aos Sovietes a liquidação da Guarda Negra, anarquista. Com esta autorização, invadiu suas sedes entre 11 e 12 de abril. Enfrentando-se com suas metralhadoras, em combates que duraram até dez horas, 600 pessoas foram presas e algumas dúzias foram mortas e feridas[14].

Conspirações dos SRs

Em dezembro de 1917, o dirigente SR Nikolai Avkxentiev foi preso, junto com outros militantes, por organizar uma conspiração contra o governo soviético. Foi o primeiro “socialista” preso pelo regime soviético[15]. Ele havia presidido o Comitê Executivo Central dos Sovietes de Camponeses e servido como ministro do Interior durante o governo Kerensky.

No VII Congresso, em maio de 1918, os SRs de direita aprovaram o apoio à intervenção estrangeira contra o governo bolchevique. Decidiram pela política da “União da Regeneração”, uma frente para “organizar a resistência democrática à ditadura bolchevique”, e libertar o país do jugo “germano-bolchevique“. Esta frente era composta por: socialistas populares, socialistas revolucionários de direita e políticos burgueses. Abandonaram qualquer política de independência de classe pela política de salvação nacional, contra o governo soviético, defendendo um levante para reconvocar a Assembleia Constituinte.

Quando as Legiões da Checoslováquia derrotaram os bolcheviques na Sibéria, Urais e Volga, os SRs o tornaram seu centro. Declaram a Assembleia Constituinte em Samara, em junho, e, com apoio dos mencheviques, formaram o Governo Provisório da Autônoma Sibéria.

O V Congresso dos Sovietes de Toda a Rússia, em 4 de Julho de 1918, aprovou a proposta de colocar na ilegalidade todos os partidos que conspiravam contra o governo[16]. Zinoviev e Trotsky apresentaram a proposta: “A salvação da República é a lei suprema. Quem se opuser a ela será eliminado. (…) todos os agitadores que, depois da publicação desta instrução, continuarem a fomentar a insubordinação ao governo soviético serão presos, trazidos a Moscou e julgados pelos Tribunais Extraordinários. Todos os agentes do imperialismo estrangeiro que conclamam por uma ação ofensiva (contra a Alemanha) e oferecerem resistência armada às autoridades soviéticas devem ser fuzilados (…) Por toda parte em que houver complô armado, um atentado, uma revolta, a repressão será implacável[17].

Em meio a este Congresso, os SRs de esquerda organizaram uma insurreição a partir de destacamentos militares comandados por seus militantes e membros da Cheka. Mataram o embaixador alemão, Mirbach, tomaram o prédio do Comissário do Povo para Correios e Telégrafos. Daí bombardearam o Kremlin e enviaram boletins e telegramas declarando que tinham tomado o poder. Dzerjinsky e outros chekistas foram à sede dos insurrectos, sem nenhuma arma, “com o cavalheirismo que lhe era característico, tomou sobre si (a tarefa), apesar das advertências de seus amigos[18]. Mesmo sendo cavalheiro, Dzerjinsky foi preso pelos SRs insurrectos.

O V Congresso votou pela supressão imediata da insurreição. A capital estava praticamente sem tropas, pois haviam sido enviadas para a frente. Os SRs foram derrotados pelos Guardas Vermelhos, chefiados por Antonov-Ovseenko; o regimento dos carabineiros letões, comandados pelo coronel Vatzetis; e uma unidade internacionalista de prisioneiros de guerra austro-húngaros, comandados por Bela Kun. A rebelião foi sufocada em 7 de julho, com 300 prisioneiros[19]. Alguns foram executados por traição, entre eles Alexandrovitch, um quadro SR importante que esteve à frente das lutas de Petrogrado em 1917, mas como comandante da Cheka utilizou-se de seu posto para assassinar Mirbach, e desviou 500.000 rublos para o Comitê Central dos SRs de esquerda, com a finalidade de organizar a revolta.

Trotsky defendeu a indulgência com os revoltosos, que chamou de “filhos desorientados”, somente os que ocupavam postos de comando foram fuzilados. “Os conspiradores presos foram tratados com clemência pela Cheka, as execuções foram em casos absolutamente excepcionais[20]. Os SRs de esquerda foram colocados na ilegalidade, seus deputados foram presos.

Os SRs de direita mantiveram uma organização terrorista (“grupos de combate”) chefiada por Avram Gotz[21], associados aos Kadetes e mencheviques na Liga do Renascimento. Trabalhando junto com Boris Savinkov da “Liga da Defesa da Pátria e Liberdade”, foram financiados pela França e Checoslováquia[22].

A ousadia de Savinkov o levou a instalar infiltrados nas instituições soviéticas, particularmente no fornecimento de alimentos e no exército. Um de seus agentes chegou a ser motorista de Lenin. Preparava o sequestro e assassinato de Lenin e Trotsky, mas a Cheka, “ainda composta por um pequeno número de cerca de 150 pessoas inexperientes[23], conseguiu descobrir a conspiração.

Depois da repressão que sofreram nas mãos das tropas imperialistas de Koltchak, em fevereiro de 1919, o Exército Popular dos SRs se juntou ao Exército Vermelho. O Comitê Executivo dos Sovietes devolveu a legalidade dos SRs, exceto àqueles que continuaram a apoiar direta ou indiretamente a contrarrevolução.

Novamente, em agosto de 1920, encontraremos SRs à frente da revolta camponesa de Tambov, contra a colheita forçada. A rebelião foi esmagada pelo Exército Vermelho, em meados de 1921, dirigido por Mikhail Tukhachevsky, e o Comissário Político Antonov-Ovseenko.

Assassinatos e atentados

Os Comissários Soviéticos eram recebidos à bala em algumas localidades do interior; Rakovsky foi ameaçado com bombas durante a negociação de paz com a Rada ucraniana de direita; o Comissário de Informação Soviético, Moises V Volodarsky, foi assassinado em 20 de junho de 1918; em 17 de agosto, mataram Moisei Uritsky, o chefe da Cheka em Petrogrado e dirigente do partido bolchevique[24]; e, finalmente, em 30 de agosto, Lenin sobreviveu a uma tentativa de assassinato por Fanny Kaplan. Fanny atirou em Lenin duas vezes. Uma bala perfurou parte de seu pulmão esquerdo, parando perto de sua clavícula direita, e a outra atingiu seu ombro esquerdo.

Esses crimes deixaram o partido chocado e explícito que era necessário defender-se melhor. Esses fatos desencadearam o “Terror Vermelho”: “Cada gota de sangue de Lenin deve custar centenas de mortes aos burgueses e aos brancos (…) Os interesses da revolução exigem o extermínio físico da classe burguesa. Eles não têm piedade, não tenhamos piedade[25].

Sentia-se que havia soado a hora derradeira, a revolução não tinha alternativa senão matar ou ser morta[26].

O editorial do Krassnai Gazeta de Petrogrado, de 31 de agosto, explicou o que significaria o Terror Vermelho: “Sangue por sangue! Mas não faremos massacres, não! (…) Havia o perigo de que caíssem pessoas estranhas à burguesia e de que nos escapassem inimigos autênticos do povo. Seria organizado como iremos buscar os burgueses barrigudos e seus colaboradores”. Organizar o terror era limitá-lo. Centenas de SRs e outros opositores políticos foram executados sem julgamento. Kaplan e Kaneguisser foram fuzilados.

Em 2 de setembro, a Cheka dá um golpe na conspiração estrangeira, detendo o espião, funcionário da missão britânica Bruce Lockhart, e o adido britânico em Petrogrado foi morto em um ataque à embaixada. Lockhart foi desmascarado por Yan Berzin, comandante letão, que fez reuniões regulares com ele covencendo-o que queria derrubar o governo soviético, recebeu 1.200.000 rublos para sua empreitada, entregues imediatamente a Dzerjinsky [27].

“A Espada e o Escudo da Revolução”

Em 2 de novembro de 1918, um decreto regularizou as Chekas. Seus membros eram nomeados pelos Sovietes e seu presidente respondia ao Comissariado do Interior. Suas tarefas: “Liquidar todas as atividades contrarrevolucionárias e de sabotagem e todas as tentativas em toda a Rússia, entregar contrarrevolucionários e sabotadores aos tribunais revolucionários, desenvolver medidas para combatê-los implacavelmente. (…) A comissão foi autorizada a aplicar tais medidas de repressão como ‘confisco, privação de cartões de ração, publicação de listas de inimigos do povo, etc.’[28].

Nos primeiros meses, era composta por apenas 40 funcionários; uma equipe de soldados, do regimento de Sveaborgesky; e um grupo de Guardas Vermelhos. Seus membros principais eram: os poloneses, Félix Dzerjinsky e Yosef Unszlicht; o letão Martin Latsis; o britânico-letão Yakov Peters e o ucraniano Moises Uritsky, que compunham um colegiado dirigido por Gregory Petrovsky[29] até novembro de 1918, quando foi para a linha de frente na Ucrânia. Dzerjinsky assumiu o comando e nomeou o britânico-letão Yakov Peters como seu braço direito.

De início, a Cheka praticamente não cometia assassinatos e tentava, acima de tudo, negociar com a contrarrevolução, utilizando-se mais do medo do que dos atos de violência. Até novembro de 1918, orientava-se que se libertassem até mesmo os membros do partido Kadete se não tivessem tido atividade política de destaque.

Com os ataques terroristas a repressão aumentou. A função da Cheka não era de dosar ou medir a culpabilidade de cada um, mas sim reprimir a conspiração de uma classe social. Nas palavras de Dzerjinsky: “Não pense que estou à procura de formas de justiça revolucionária. Não precisamos de justiça agora[30]. Ou como expressou Latsis [31]: “A Comissão Extraordinária não é uma comissão de inquérito, nem um tribunal. (…) Não julga o inimigo, ela o abate[32].

A Cheka tinha o direito de prender, fazer buscas, apreensões e outras medidas preventivas contra os contrarrevolucionários e sabotadores. Realizar as investigações preliminares e entregar os casos aos Tribunais Revolucionários. Por proposta de Lenin, foi aprovada a subordinação ao Conselho de Comissários do Povo. Funcionava em Moscou, no edifício de uma antiga e grande companhia de seguros, na praça Lubyanka.

Os inquéritos eram sumários, corriam em segredo quase absoluto, as sentenças de morte somente poderiam ser tomadas por unanimidade por uma comissão especial. Muitas execuções eram também feitas em segredo, rápidas e sem alarde.

Também atuava atrás das linhas inimigas, na resistência revolucionária. Por exemplo, contra as tropas do Koltchak na Sibéria ou no combate às forças do General Wrangel na Crimeia. Realizava um trabalho de localização e extermínio dos inimigos contrarrevolucionários. Na Campanha da Polônia de 1920, Dzerjinsky foi pessoalmente à Varsóvia, com uma delegação da Cheka, para localizar e sufocar as conspirações e motins brancos, assegurando às Forças Armadas Vermelhas posições favoráveis.

Muitos revolucionários questionaram a sua existência, entre eles Kamenev, dentro do partido bolchevique, e Maximo Gorki e Victor Serge fora dele. Mas Lenin e Trotsky rejeitaram suas preocupações. Bukharin apresentava muitas dúvidas, mas reconsiderou quando os anarquistas bombardearam uma reunião em Moscou, onde ele estava falando e 12 pessoas foram mortas e 55 feridas, incluindo o próprio Bukharin.

Dzerjinsky explicava: “A Cheka é a defesa da revolução, tal como o Exército Vermelho; assim como na Guerra Civil o Exército Vermelho não pode parar para perguntar se pode causar dano a indivíduos particulares, antes tem que tomar em conta apenas uma coisa, a vitória da revolução sobre a burguesia, também a Cheka tem que defender a revolução e dominar o inimigo, mesmo que a sua espada caia, ocasionalmente, sobre as cabeças inocentes[33].

Os bolcheviques acreditavam na revolução mundial e na iminente revolução proletária na Europa Ocidental, por isso viam a Cheka como um expediente temporário.

O controle da violência sempre foi uma preocupação e sua evolução foi de acordo com os ataques sofridos, a tal ponto que, no primeiro semestre de 1918, ocorreram somente 22 execuções, em contrapartida ao segundo semestre, quando foram 6 mil. Calcula-se que em três anos (1918, 19 e 20) foram executadas 12 mil pessoas; evidentemente estes números correspondem às atividades centralizadas. No Exército Vermelho, houve ao redor de três milhões de desertores, um milhão e trezentos mil foram capturados principalmente pela Cheka.

Lenin defendeu o trabalho de Dzerjinsky e Peters declarando publicamente: “O que me surpreende sobre os uivos sobre os erros da Cheka é a incapacidade de ter uma visão ampla da questão. Temos pessoas que se aproveitam de determinados erros cometidos pela Cheka, fazendo barulho sobre eles … Quando eu considero a atividade da Cheka e comparo-a com os ataques que sofremos, eu digo que isso é tacanho, conversa fiada que não vale nada[34].

Em novembro de 1921, no VI Congresso de Sovietes da Rússia, foi aprovada uma anistia, ordenando a libertação dos detidos pela Cheka que não estivessem mais envolvidos em conspirações; e dos reféns, que não fossem necessários para garantir a troca por reféns detidos por seus inimigos. Assim como a resolução “Sobre a Legalidade Soviética”, que limitava o trabalho da Cheka.

Em 8 de fevereiro de 1922, o Comitê Executivo dos Sovietes publicou um decreto que abolia a Cheka e suas comissões locais, transferindo suas funções para o Comissariado do Povo para Assuntos Internos e criando a administração política do Estado (Gosudarstvennoe Politicheskoe Upravlenie) (GPU). Com isso, as funções de julgar da Cheka passaram definitivamente para os tribunais, não podia executar pessoas consideradas contrarrevolucionárias; por outro lado, a GPU tinha poderes mais arbitrários para se ocupar de crimes políticos.

Notas:

[1] The Sword and the Shield, artigo de Américo Gomes.

[2] Camponeses ricos, eram os fazendeiros donos de grandes extensões de terras e que faziam uso do trabalho assalariado.

[3] VtchK na língua russa, abreviatura de “Vcerossiskaaia Tchrezvytchainaia Komissia po Borbe s Kontrrerevoliutsiei, Spekuliatsiei i Sabotajem”, “Comissão Extraordinária de Toda a Rússia para o Combate da Contrarrevolução, da Especulação e da Sabotagem”.

[4] Leon Trotsky. Terrorismo y Comunismo (Anti-Kautsky), p.30.

[5] Foi assassinado por Yakov Blumkin, agente da Tcheka, a mando do Comitê Central dos SRs de esquerda em 1918.

[6] E.H. Carr. A Revolução Bolchevique, História da Rússia Soviética. Vol. 1, p.176, Ed. Afrontamento/Porto.

[7] Izvestya, 30 de outubro, in E.H. Carr, A Revolução Bolchevique, História da Rússia Soviética. Vol. 1, p.182 , Ed. Afrontamento.

[8] Izvestya, 6/19 de dezembro, in E.H. Carr, A Revolução Bolchevique, História da Rússia Soviética. Vol. 1, p.182 , Ed. Afrontamento.

[9] Victor Serge. O Ano I da Revolução Russa. p.240. Editora Boitempo.

[10] History of Jewish communities in Ukraine, http://jewua.org/fastov/

[11] Pyatsi Sozyv VTsIK (1919), in Izvestya, 30 de outubro, in E.H. Carr, A Revolução Bolchevique, História da Rússia Soviética. Vol. 1, p.193. Editora Afrontamento.

[12] Victor Serge. O Ano I da Revolução Russa. Editora Boitempo.

[13] Victor Serge. O Ano I da Revolução Russa. Editora Boitempo.

[14] Izvestya, 30 de outubro, in E.H. Carr, A Revolução Bolchevique, História da Rússia Soviética. Vol. 1, p.182. Editora Afrontamento.

[15] E.H. Carr. A Revolução Bolchevique, História da Rússia Soviética. Vol. 1, p.136. Ed. Afrontamento/Porto.

[16] Foram excluídos os mencheviques por se associarem aos contrarrevolucionários e “organizar ataques armados contra os trabalhadores e camponeses“.

[17] Victor Serge. O Ano I da Revolução Russa. p.331. Editora Boitempo.

[18] Leon Trotsky. Escritos militares. Como se armou a revolução. Vol. 1. A guerra civil na RSFSR em 1918.

[19] Leon Trotsky. Escritos militares. Como se armou a revolução. Vol. 1. A guerra civil na RSFSR em 1918.

[20] Victor Serge. O Ano I da Revolução Russa. Editora Boitempo.

[21] Gotz e outros 33 líderes dos SRs foram levados ao chamado “Trial of the SRs Right”, em 1922; Theodor Liebknecht, irmão de Karl, foi o advogado de defesa, auxiliado por Karl Kautsky. Foram sentenciados à morte, mas as sentenças foram suspensas. Gotz foi novamente preso em 1937, e desta vez morto pela GPU.

[22] Provocador com uma vida turbulenta, em 1906 matou o ministro do Interior russo e participou no assassinato do Grão-Duque Sergei Alexandrovich, preso e condenado à morte. Conseguiu escapar da prisão em Odessa. Passou a ser o chefe da organização de combate SR em 1908, quando foi descoberto que o antigo chefe Azef era um agente da Okhrana. Participou como um voluntário no Exército francês na Primeira Guerra. Retornou à Rússia em abril de 1917e em julho tornou-se ministro adjunto da Guerra de Kerensky. Demitiu-se e foi expulso dos SRs devido ao seu apoio a Kornilov. Foi preso anos depois através da Operação Trust, em 1924, admitiu ter planejado o ataque contra Lenin através de Fanny Kaplan e ter recebido dinheiro do presidente da Checoslováquia, Tomáš Garrigue Masaryk. Condenado à morte, sua sentença foi comutada para dez anos. De acordo com a versão oficial, ele cometeu suicídio na prisão de Lubyanka, em Moscou. Mas há outras versões de que foi morto pela GPU.

[23] Victor Serge, O Ano I da Revolução Russa, Editora Boitempo.

[24] O infiltrado Leonid Kannegisser, ligado a Savinkov.

[25] 31 de agosto de 1918, Krasnaya Gazeta de Petrogrado, o jornal bolchevique, in Victor Serge, O Ano I da Revolução Russa. p.369. Editora Boitempo.

[26] Victor Serge, O Ano I da Revolução Russa. p.369. Editora Boitempo.

[27] Em 1918, Lockhart escapou do julgamento por uma troca de agentes com o russo Maksim Litvinov. Escreveu Memoirs of a British Agent.

[28] Mozokhin, O.B. Out of history of activities of VChK, OGPU, NKVD, MGB, http://mozohin.ru/article/a-4.html

[29] Ex-deputado da 4ª Duma Estadual em 1912, membro do CC em 1913, editor-chefe do Pravda.

[30] Novaia Zhizn (14 de julho de 1918).

[31] Bolchevique desde 1905, foi preso em 1937, acusado de contrarrevolucionário e fuzilado em 1938.

[32] “Dois anos de luta na Frente Interna”, Moscou: Gos IZD-VO, 1920, “It does not serve to judge the enemy, but strikes it”. Escrito no jornal da Tcheka “The Red Sword”, in Victor Serge, O Ano I da Revolução Russa. p.392. Editora Boitempo.

[33] Citado em Karl Radek, Portrety i Pamflety (1933) in Izvestya, 30 de outubro, in E.H. Carr, A Revolução Bolchevique, História da Rússia Soviética. Vol. 1, p.192. Editora Afrontamento.

[34] Communist Secret Police: Cheka – Spartacus Educational, http://spartacus-educational.com/RUScheka.htm