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A tensão vem crescendo em todo o país. Depois da “Consulta popular” convocada pela MUD – que teve uma importante participação –, e o “paro cívico” [paralisação cidadã], agora a MUD dobra a aposta, convocando uma “Greve Geral” de 48 horas esta semana e a ocupação de Caracas.

Por: UST

É impossível saber a real quantidade de pessoas que participaram desta consulta e quais foram as perguntas mais votadas; no entanto, serviu para a MUD se posicionar melhor e pressionar o governo para obrigá-lo à negociação, utilizando o sentimento de raiva e indignação popular. Sem dúvidas, o governo sofreu um forte impacto com esta medida.

Um dos objetivos fundamentais da MUD era tentar diminuir os níveis de pressão oriunda das ruas, mas a indignação é tão grande que não será fácil que consigam fazê-lo. Por outro lado, Maduro está jogando sua principal carta para se manter no poder com a instalação da fraudulenta Assembleia Nacional Constituinte (ANC), e dificilmente retrocederá em pelo menos instaurá-la. Deste modo, sua resposta, até agora, tem sido mais repressão: já se somam mais de 100 mortos, milhares de detidos e mais de 400 presos. Neste momento, estão detidos três advogados que foram nomeados, pela Assembleia Nacional, como parte do TSJ.

A oposição burguesa, organizada na MUD e com respaldo do imperialismo, está utilizando a raiva popular para validar seu projeto político de governo de “unidade nacional” como parte de uma transição. Apesar de a consulta ter começado com um rechaço à Constituinte de Maduro, as perguntas não tinham um caráter isolado umas das outras, mas eram um todo, um projeto político a ser validado. Um setor do “chavismo crítico” solicitou à MUD que fosse mantida apenas a primeira pergunta para que apoiassem a consulta. A proposta foi negada, evidenciando que o que seria votado era, na verdade, seu projeto. Por isso, nós, da UST, nos opusemos a participar desta manobra patronal da MUD.

O governo de Maduro, numa tentativa de impedir que a base chavista, cansada do governo, votasse na consulta da MUD e, além disso, para não perder a iniciativa, montou um “simulacro” não previsto no cronograma. Apesar das ameaças e pressões e de ter movido uma boa parte de sua “maquinaria”, não conseguiu criar grande entusiasmo e participação.

É que a miséria e a fome crescem, como cresce a crise econômica e social. Até mesmo os próprios chavistas, que pouco apoiavam Maduro, hoje se sentem derrotados e desmoralizados. O governo segue se vangloriando em cumprir “os compromissos internacionais”, pagando religiosamente a dívida externa, ainda que isso signifique não possuir dólares para importar alimentos e remédios. Ainda que a inflação chegue nas nuvens e nossos idosos não possam se curar.

Por isso, nenhum discurso entusiasma a base chavista. Por isso, a raiva explode nos bairros populares por comida, por falta de gás ou remédios. Por isso, o Fora Maduro! está mais presente do que nunca.

A “crise revolucionária” de Maduro

Com sua costumeira verborragia, Nicolás Maduro declarou: “estamos no centro de uma crise revolucionária. Que ninguém tenha medo dessas palavras”. De alguma maneira, o presidente reconhece que chegamos a um ponto de disputa pelo poder, de difícil retorno. A crise política se aprofundou a ponto de a Assembleia Nacional não reconhecer o poder de Maduro, reconhecer o Vice fiscal designado por Ortega Díaz, nomear os 33 juizes do Tribunal Supremo de Justiça e se comprometer a nomear os diretores do CNE. A jogada do governo de “unidade nacional”, é, além de tudo, uma pressão adicional e uma tentativa de mostrar a instauração de um “governo paralelo”.

Mas o que esta tremenda crise política reflete é a apresentação de dois projetos contrarrevolucionários. O [projeto] do governo de Maduro, que aplica um brutal ajuste, que tem levado os trabalhadores e o povo à fome e à miséria. E o projeto da MUD, que luta para apropriar-se do dinheiro do petróleo e implementar também um projeto pró-imperialista de aprofundamento dos ataques ao povo e entrega de nossos recursos, como Maduro faz.

O “pacote” da MUD

A MUD, com seu projeto antioperário, antipopular e a serviço do imperialismo, tenta manter as ruas sob seu controle e conduzir a indignação ao caminho passivo do voto, das negociações e dos acordos. A “consulta popular” e os “paros cívicos”, chamadas por cima, são a confirmação disso. Como dissemos, a MUD lançou seu pacote político buscando validar, com sua consulta, todo um projeto, que inclui as FANB, as resoluções da Assembleia Nacional e o governo de “unidade nacional”, sob a desculpa do rechaço à Constituinte. O mesmo acontece com este novo chamado à “Greve Geral” por 48 horas, “decretada” pelos meios de comunicação, por dirigentes que há muito não pisam em uma fábrica ou local de trabalho e outros que tampouco se animam a fazer assembleias para organizar a luta. Estes dirigentes obedecem as políticas da MUD, de “lutar junto aos patrões… pelos interesses políticos e econômicos dos patrões”. Por esse motivo, propomos que, nos locais de trabalho e de estudo, sejam realizadas assembleias que decidam se participamos ou não destas paralisações e como daremos continuidade de forma a preparar uma verdadeira greve geral.

As pressões do imperialismo

O imperialismo ianque e europeu lançaram uma campanha condenando a convocatória da ANC e [exigindo] o “retorno da democracia”. Donald Trump assegurou que “se Maduro instalar a Constituinte, tomará medidas contundentes”. Como deixaram transparecer, as medidas contra o governo incluiriam desde congelar ativos de ministros ou funcionários de alto escalão, como foi feito até agora, até suspender a compra de petróleo, que, como se sabe, é o que paga em dinheiro e permite ao governo obter dólares. Por sua parte, Almagro, Secretário-Geral da OEA, vem redobrando suas pressões. O parlamento europeu também exige que Maduro suspenda a Constituinte, senão também tomariam medidas punitivas.

Nós, socialistas, chamamos a não confiar em nenhum tipo de pressão proveniente do imperialismo e seus governos lacaios, como o de Peña Nieto, Macri ou o moribundo Temer. Nada de bom saíra daí. Os trabalhadores somente devem confiar na solidariedade dos trabalhadores do mundo para derrotar Maduro e seu governo de fome e miséria.

Nossa posição diante da chamada “hora 0”: Não vá votar no dia 30 de Julho! Os trabalhadores não devem cair na armadilha armada pela oposição burguesa e seus dirigentes sindicais.

Seguramente muitos companheiros opinarão que, com a MUD, tiraremos Maduro e depois poderemos lutar mais facilmente. Isso poderia ser assim se a maioria da MUD se propusesse a derrubar o governo. Mas, até o momento, seus principais porta-vozes esclarecem que buscam “negociar uma transição”. O deputado Freddy Guevara, em suas exigências, não lista a saída de Maduro: em uma reportagem, pede que o fim da Constituinte, o reconhecimento da Assembleia Nacional, a liberdade dos presos e o reconhecimento do novo TSJ nomeado pela AN, entre outros pontos.

Por isso, apesar dos duros discursos, o ex presidente Rodriguez Zapatero se entusiasma afirmando, que “há negociações e negociaremos”. É o que afirma Pompeyo, diretor da CIA ,quando diz que “Os EUA querem uma Venezuela estável e democrática”. Ou seja, nada mais distante de uma derrubada do governo por meio da mobilização das massas ou seus paros cívicos.

Devemos participar de todas as lutas, organizados e com nossas bandeiras. s, socialistas da UST, levantamos o Fora Maduro e chamamos a construção de uma greve geral desde os locais de trabalho: fazendo assembleias e reuniões nas fábricas; votando nossos programas de luta; denunciando o governo e também a MUD, porque tanto um como outro tem o plano de seguir pagando a dívida externa com o crescimento da fome e da miséria. Por isso não haverá salários dignos nem trabalho, medicamentos e alimentos. Nosso programa deve ser de enfrentamento aos patroes e burocratas. Deve ser por salários dignos, pela suspensão imediata do pagamento da dívida e investigação e repatriação dos capitais desviados, enviados ao exterior ou a bancos “nacionais”. Pela nacionalização total do petróleo e o fim, de uma vez por todas, das empresas mistas. Dinheiro para alimentos e medicamentos. Recuperação das empresas básicas e um plano de produção nacional de alimentos, etc.

Consideramos que setores de esquerda, como o companheiro Chirino, do PSL, cometem um erro ao chamar a participar das ações que a MUD está convocando, tanto a “consulta” do domingo 16 quanto o “apoio ao paro cívico”, por serem parte de uma política contrarrevolucionária. Por exemplo, na recente “consulta”, ninguém soube quantos votos foram dados em apoio ao governo de unidade nacional e ao rechaço à ANC. Somente [foi anunciado] um “contundente apoio à MUD”. Pior ainda, apoiar uma greve com os patrões, depois de 18 anos de um governo “socialista” junto aos patrões e militares “socialistas”, é equivocado e significa seguir alimentando a possibilidade de derrubar o governo ao lado desses setores [patronais], como a MUD tem defendido para a população.

Sabemos que, diante da polarização, é muito difícil estabelecer uma linha independente dos setores burgueses. Mas nossos esforços devem ser de estabelecer uma política de independência de classe. O exemplo dos companheiros administrativos da UNEG, que votaram em assembleia o rechaço à Constituinte, mostra que isso é possível. Nossa posição é participar de todas as lutas na medida em que se possa manter a independência de classe, por meio de programas votados em assembleias ou reuniões operárias e populares, a serviço da preparação da greve geral que necessitamos.

Em 30 de julho, não vá votar

Chamamos a todos os trabalhadores e setores populares, aos camponeses e toda população a não votar, no dia 30 de Julho, nesta Assembleia Constituinte fraudulenta, que não resolverá nenhum dos graves problemas que os trabalhadores e setores populares atravessam, mas servirá para prolongar o governo de Maduro e sua política de fome e repressão. Servirá para que sigam os corruptos e a destruição de nossas indústrias básicas. Por isso chamamos a nos organizarmos de forma independente, sem patrões nem militares, e que construamos uma alternativa política dos trabalhadores.

Não à fraudulenta Constituinte de Maduro!

Fora Maduro!

Por uma Greve Geral organizada desde baixo, com assembleias e reuniões para votar um programa operário e popular contra a crise!

Suspensão imediata do pagamento da dívida externa!

Verbas para salários dignos, medicamentos, educação e saúde!

Pela nacionalização do petróleo!

Fim das empresas mistas!

Não ao Arco Mineiro de Orinoco!

Plano mineiro consensual com as comunidades!

Por plenas liberdades democráticas. Liberdade a todos os presos por lutar!

Eleições sindicais imediatas, sem ingerência estatal!

Por um Venezuelaço, para começar a mudar o país!

Por um governo dos trabalhadores e do povo pobre para implementar este programa!

Tradução: Paula Parreiras