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Quando a 4 de maio de 2014 a Troika saía de Portugal, deixava atrás de si um rasto de austeridade e pobreza. Hoje em 2020, o cenário da crise volta a bater-nos à porta.

Por: Em Luta – Portugal

Foram mais de 800 mil desempregados (meio milhão dos quais nesta situação há mais de 12 meses) e uma população ativa reduzida em 300 mil pessoas por via da emigração. Os que mantiveram os seus trabalhos viram os seus salários reduzidos e um incremento brutal na precarização do emprego.

Seis anos passados, eis que os trabalhadores portugueses estão prestes a serem chamados para o que tudo indica ser um tipo de Austeridade 2.0, que desta vez virá em nome do preço a pagar pela “saúde de todos”.

Uma crise com antecedentes…

Neste momento é impossível prever até que ponto irá a recessão econômica, que já se vinha anunciando desde final de 2019, mas que acabou por ser despoletada pela paragem da economia devido ao SARS Cov2. Mas todos os economistas burgueses concordam que ela será pior do que a crise iniciada em 2007-2008 e alguns avançam mesmo a possibilidade de esta ser mais profunda do que a tragicamente célebre crise de 1929.

Previsões à parte, cabe dizer que a possibilidade da economia mundial entrar novamente em recessão era algo já esperado. O vírus veio apenas acelerar aquilo que os principais representantes do capital internacional iam já avisando, ou seja: a economia mundial mostrava sinais de desaceleração e as taxas de crescimento pós crise de 2008 eram manifestamente insuficientes para garantir a taxa de lucro capitalista a médio prazo. E quando isso acontece a “crise” é uma questão de tempo.

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… mas com uma nova brutalidade

Para já os dados para o primeiro trimestre de 2020 indicam uma queda do PIB nacional de 2,4% face a igual período de 2019 e de 3,9% se comparado com o último trimestre do ano passado. De um modo geral, espera-se que o PIB tenha um recuo de 10% em termos anuais, valor que supera o verificado no período 2011-2014.

Numa economia em que o turismo representa cerca de 9% do PIB, 52% das exportações de serviços e 20% das exportações totais, só o efeito da paragem desta atividade econômica seria suficiente para temer o pior. Mas também o setor automóvel será mais um fator a influenciar a nível de recessão para a economia portuguesa. A indústria automóvel representa 6% do PIB , 8% do emprego na indústria e 16% da exportação de bens transacionáveis. Acresce ainda que os seus principais mercados são, por esta ordem, a Espanha, a França e a Alemanha, pelo que bem podem ser produzidos automóveis, mas falta saber onde eles vão ser vendidos.

Para já 2 milhões de trabalhadores estão a sofrer algum tipo de perda de rendimento. E se é verdade que o lay off tem servido, para já, para disfarçar o aumento do desemprego, só resta saber se no futuro a marca de 15% de desempregados, atingida com a troika, irá ou não ser ultrapassada.

As perspetivas são tão assustadoras que nos custa a acreditar que tudo isto possa ser provocado por um elementar vírus. A metáfora da guerra tem sido muito utilizada na aplicação de medidas sanitárias mas na verdade, até o momento, estamos longe da destruição da capacidade produtiva provocada pela da guerra de 1939-45. Também não se prevê o colapso no mercado de ações como o verificado na quinta feira negra de 1929 que levou ao encerramento de empresas. A economia americana atravessava até o seu momento mais dinâmico dos últimos 10 anos.

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Uma guerra ou um produto do capitalismo?

Não é uma guerra, pois a economia foi voluntariamente interrompida para enfrentar a pandemia. Num sistema econômico verdadeiramente controlado pela sociedade coletivamente, seria de supor que a produção e o comércio se reiniciassem de maneira ordenada após uma interrupção voluntária de dois ou três meses. Mais do que isso, seria de esperar que a riqueza acumulada durante os anos de crescimento permitisse vários meses sem produção de bens não essenciais para a vida quotidiana e com condições razoáveis de vida para todos.

Mas a economia capitalista é tudo menos racional e controlada. O capital está concentrado nas mãos de uma minoria de capitalistas privados que possuem todos os meios de produção, transporte e distribuição. Concorrendo entre si, cada um em busca dos fornecedores mais baratos, dos menores custos de produção, da maior clientela. Pelo que a crise é apenas a continuação da concorrência capitalista por outros meios e o desemprego dos trabalhadores um “mero dano colateral”.

José Luís Monteiro