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“Se deixamos que o livre mercado siga seu curso, isto levará com certeza a uma bancarrota desordenada.”

A frase acima não é de Karl Marx. Nem de Che Guevara ou de qualquer outro “líder comunista”. Essa frase foi pronunciada por George W. Bush, ex-presidente dos Estados Unidos, no dia 19 de dezembro de 2008, quando anunciava o resgate, pelo Estado, de várias empresas automobilísticas norte-americanas.

Por: David Espinoza

Há poucos anos, Trump ganhou as eleições nos Estados Unidos prometendo que seria o maior desregulador da história do país, com um discurso e programa políticos supostamente contrários à intervenção estatal na economia.

No entanto, as leis da vida e da história são duras e irremediáveis, até para os homens mais poderosos do mundo. Há poucos dias, Trump anunciou a maior intervenção estatal da história para salvar a economia norte-americana. Tudo indica que os valores anunciados para o salvamento ainda são pequenos para o que se necessita.

A pandemia do coronavírus só veio a antecipar uma realidade que muitos já sabíamos que chegaria: uma nova (e catastrófica) crise do sistema capitalista.

O sistema capitalista: uma máquina de concentração de riqueza

Poderíamos pensar que nossa sociedade funciona de acordo com as nossas necessidades. Seria lógico pensar assim. Se vivemos em sociedade, esta sociedade deveria ter um bom funcionamento, pelo menos para a grande maioria das pessoas que a compõem. Todas as regras, leis e governos deveriam servir para garantir esse bom funcionamento, coibindo as condutas e comportamentos que levam a sociedade à destruição ou que impedem esse bom funcionamento.

No entanto, a sociedade capitalista não funciona assim. A sociedade capitalista não tem como base solucionar as necessidades da maioria das pessoas. A sociedade capitalista funciona a partir da necessidade da acumulação de riqueza nas mãos de uma pequena minoria, que domina a sociedade. O que significa isso? Significa que se a riqueza (dinheiro, empresas, terras, produtos) não se concentra nas mãos de uma pequena minoria, a sociedade não funciona. Mas a sociedade também não funcionaria se toda a riqueza ficasse paralisada nas mãos de uma pequena minoria. Parte dessa riqueza tem que voltar a circular para que a sociedade possa também consumir e seguir existindo para alimentar a essa ínfima minoria. Essa riqueza que circula, no entanto, só pode circular com uma condição: que sirva para acumular mais riqueza nas mãos dessa minoria. Essa riqueza que circula e se transforma em mais riqueza se chama capital. Esse processo, no entanto, é completamente destrutivo.

Vejamos uma analogia.

Todos sabemos que a circulação do sangue pelo nosso corpo é fundamental para comunicar as diferentes partes do corpo e transportar uma série de substâncias vitais para o bom funcionamento do organismo humano. Se temos um problema de circulação e o sangue se concentra em alguma parte do corpo e não resolvemos esse problema rapidamente, isso nos pode levar à morte, devido à falta de sangue no resto do organismo. Se o sangue não chega a uma determinada parte, podemos ser levados a amputar essa parte do corpo para manter vivo o resto do organismo.

Imaginemos agora a sociedade humana como um grande organismo vivo. No capitalismo, o mercado cumpre o papel de transportar tudo o que a sociedade necessita para sobreviver. No entanto, esse mercado (que teria a mesma função do sangue em nosso corpo) transporta 90% da riqueza para uma parte do organismo e todo o resto tem que viver com menos de 10%. É como se nosso corpo transportasse 90% de tudo o que é necessário para que ele sobreviva e se desenvolva para um único lugar do corpo, uma mão, por exemplo. Isso seria muito estranho, certo? Nenhum organismo poderia sobreviver por muito tempo dessa forma.

A sociedade capitalista faz exatamente isso. Mas é pior. Porque na nossa analogia, não seria como se a maior parte do sangue fosse parar numa mão. É como se a maior parte do sangue fosse parar em um parasita exterior ao corpo. É como se tudo o que produz nosso organismo servisse para alimentar… um parasita. Esse parasita, na sociedade capitalista, se chama burguesia.

No sistema capitalista, a maioria da população trabalha. Alguns nas fábricas, outros em lojas, portos, bancos, escolas, etc. No entanto, a grande maioria da riqueza produzida por essa massa que trabalha (a classe trabalhadora), por vários mecanismos econômicos, vai parar na mão de algumas poucas pessoas. Um exemplo? Os 8 homens mais ricos do mundo concentram mais riqueza que 50% da população mundial, ou seja, mais de 3,5 bilhões de pessoas. As pessoas que concentram a maior parte da riqueza compõem essa burguesia. A riqueza vai parar nas mãos deles porque eles são os donos dos meios de produção, ou seja, dos meios de produzir riqueza (minas, fábricas, portos, bancos, etc.).

Concentração de riqueza: é só avareza?

Mas… por que a sociedade capitalista precisa concentrar riqueza para funcionar? É porque os que têm muito dinheiro querem ter mais dinheiro?

Não. Não estamos diante de um problema ético (ou de falta de ética) ou psicológico. Estamos diante de um problema econômico.

Para entender porque a sociedade capitalista necessita a acumulação de riqueza para existir, temos que explicar como essa sociedade funciona.

A sociedade capitalista, depois da revolução industrial, há mais de 3 séculos, significou uma revolução completa com relação às sociedades humanas anteriores. A acumulação de capital que aconteceu nas mãos da burguesia nos séculos anteriores à revolução industrial possibilitou o investimento dessa massa de capital em novas tecnologias, na ciência, em fábricas modernas, novos sistemas de navegação e comércio, etc. A burguesia investia seu capital para buscar novos mercados, produzir mais, ganhar mais. Para isso, impulsionou o estudo e desenvolvimento de novas técnicas e métodos de produção, que possibilitaram que os seres humanos produzissem cada vez mais coisas e de melhor qualidade. Houve um avanço espetacular na ciência. O capitalismo foi fundamental para desenvolver as forças produtivas, ou seja, a capacidade dos seres humanos de entenderem e dominarem a natureza através da técnica, da ciência e dos meios de produção para avançar na solução das necessidades humanas.

Esse desenvolvimento, no entanto, não foi planificado ou centralizado. O que estimulava o desenvolvimento era a competição entre a própria burguesa. Cada burguês, para sobreviver, tinha que revolucionar sua própria produção. Buscava produzir produtos cada vez mais baratos para superar a competição. Para isso, tinha que investir em tecnologias e explorar mais seus operários (pagando salários mais baixos, com jornadas de trabalho mais longas, empregando crianças, etc.). Se um burguês decidisse não competir, estaria morto como burguês e teria que transformar-se em trabalhador, o pior pesadelo de qualquer burguês.

A competição levava a burguesia a investir mais, produzir mais mercadorias, buscar novos mercados, criar novas tecnologias e máquinas mais avançadas etc. Essa expansão avançou para todo o planeta. A necessidade cada vez maior de fazer enormes investimentos para existir como burguesia começou a gerar grandes monopólios, empresas que concentravam grande parte do capital em suas mãos. As pequenas empresas já não tinham possibilidade de competir nos setores mais importantes da economia devido à necessidade de possuir enormes quantidades de capital.

Para ver como isso é assim, basta tomar um exemplo atual. Quantas pequenas empresas existem hoje na produção de petróleo, automóveis, energia, aviões, etc.? Nenhuma. Por que nenhuma? Porque para competir nesses mercados é necessário ter uma ENORME quantidade de capital, que só a grande burguesia (ou os Estados) possuem.

Essa lógica de investimento, produção em massa, venda e lucro é a lógica necessária do funcionamento da sociedade capitalista. Esse processo é chamado de reprodução ampliada do capital. O dinheiro entra, as empresas produzem, as mercadorias são vendidas e o dinheiro retorna em quantidade superior ao que entrou inicialmente na produção. Esse dinheiro que retorna tem que reiniciar o processo de forma ampliada – se a produção se estanca por muito tempo, a tendência é a crise e a falência. Parte desse dinheiro volta também em forma de lucro e vai diretamente para as mãos dos donos e/ou acionistas das empresas.

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Com o tempo, essa grande massa de capital acumulado começou a ser controlada pelos bancos, que são instituições que existem para administrar o dinheiro. Administrando essa grande massa de capital, os bancos foram transformando-se em donos da maior parte das empresas. Eles tinham a capacidade de decidir onde investir e onde não investir. Essa é a mesma lógica das AFPs (Administradora dos Fundos de Pensão, a aposentadoria privada). Nenhum trabalhador decide onde seu dinheiro acumulado será investido. As AFPs o administram e decidem onde será aplicado. Na verdade, elas são as donas do nosso dinheiro e com ele a burguesia financia seus negócios.

Os bancos, com um grande acúmulo de capital, passaram a ter condições de decidir, então, a quem emprestariam esse dinheiro. As empresas, para investir quantidades cada vez maiores de dinheiro, buscavam os empréstimos nos bancos. A maior concorrência pelo dinheiro ou capital determinava as taxas de juros (preço pelo empréstimo do dinheiro). Os bancos emprestavam com expectativas de que iam ganhar mais no futuro. Para os bancos, as empresas deveriam produzir mais, vender mais, etc. Um ciclo sem fim. O problema é que esse ciclo sem fim tem um fim.

Como todas as empresas e setores da economia têm um limite de crescimento, já que os recursos naturais são finitos e a quantidade de mercadoria que podem vender também é finita (dado a capacidade de compra das pessoas), grande parte dessa massa de capital que se acumulava não podia ser reinvestida na produção. No entanto, essa enorme massa de capital acumulado não poderia ficar parada, pois seria uma enorme perda de dinheiro. Aqui surge o mercado financeiro. O mercado financeiro é um mercado baseado não na economia de hoje, mas na economia de amanhã. É um mercado de expectativas no futuro. É uma massa de capital que começa a ser investida em empresas, títulos de dívida, seguros ou qualquer outra coisa que aparentemente será rentável no futuro.

O sistema financeiro tem a capacidade de criar um mercado futuro, baseado em expectativas e a partir dele enriquecer ainda mais os setores da burguesia que controlam o dinheiro que circula. Tudo isso, no entanto, é fictício, nada existe, é tudo especulação sobre como será o futuro. E a especulação gera lucro por um tempo, mas se trata de um mercado de ilusões, já que não produz riqueza real nem permite que o capital se reproduza. O que esse mercado faz é criar mais dinheiro. No entanto, essa massa de dinheiro que vai se reproduzindo começa a afastar-se cada vez mais da produção real de riqueza e da reprodução do capital. E toda essa bolha de repente explode.

No mercado financeiro a vida é uma maravilha, até que se torna um inferno. Esse inferno começa quando alguma das extremidades desse jogo perigoso de circulação de dinheiro, ações, moedas e “valorização” artificial do capital vem abaixo. São os chamados “choques” na economia.

E por que essa bolha explode?

Porque todo o sistema está sustentado em contradições muito profundas, que em algum momento vão explodir. As crises capitalistas são como os terremotos. Os terremotos são somente o resultado das contradições subterrâneas – o movimento das placas tectônicas que as fazem chocar. Esse choque vai acumulando, acumulando, acumulando energia. Até que toda essa energia explode em um forte tremor de terras. A crise capitalista é igual. Mas quais são as placas tectônicas sociais que estão se chocando?

A principal contradição da economia capitalista

Para entender a crise capitalista temos que entender que a economia capitalista se sustenta em uma forte contradição. Dois elementos opostos, que se chocam, eventualmente se reacomodam, mas inevitavelmente explodem

A principal contradição da economia capitalista é o choque entre o desenvolvimento das forças produtivas e as relações de produção. Os nomes são complicados, mas a ideia é fácil de entender.

O capitalismo necessita revolucionar-se o tempo inteiro para produzir mais e acumular mais. Na medida em que investe na produção e novas tecnologias (desenvolvimento das forças produtivas), necessita menos trabalhadores para produzir. Cada máquina ou nova tecnologia substitui centenas ou milhares de trabalhadores. Em escala mundial, milhões.

 

No entanto, os únicos que podem consumir a massa de mercadorias que são produzidas é a massa trabalhadora. Os bilhões de trabalhadores que existem no mundo. É o mercado mundial. A burguesia, ainda que possua aviões, helicópteros, casas na praia, ilhas, roupas de luxo, as melhores comidas, etc., não pode consumir tudo o que a sociedade capitalista produz. Eles necessitam que a maioria da população consuma. No entanto, uma parte dessa massa de trabalhadores não pode consumir porque está permanentemente sendo expulsa do mercado de trabalho.

Isso acontece porque os capitalistas necessitam que uma grande quantidade de trabalhadores esteja desempregada. Isso pressiona o valor da força de trabalho para baixo. Ou seja, um patrão que não quer aumentar seus “gastos” com salário pode sempre ameaçar seus trabalhadores com a demissão, já que há um exército de desempregados esperando para trabalhar com salários mais baixos. O desemprego não é algo que o capitalismo quer combater, é algo necessário para a manutenção do funcionamento econômico. Essa massa de desempregados, necessária para a reprodução do capital, não pode consumir na velocidade que o capitalismo produz. Por outro lado, a massa de trabalhadores que tem emprego não pode receber salários muito altos para consumir porque isso acabaria com a competitividade das empresas, o que as destruiria.

Assim, ao mesmo tempo que produz cada vez mais mercadorias, o capitalismo não cria as condições para que as pessoas as consumam. Ou seja, necessita ampliar cada vez mais o mercado, mas não cria as condições para que ele exista! Necessita o mercado, mas o destrói.

Como a maioria das pessoas não tem condições de consumir tudo o que necessita (necessidade do estômago ou da fantasia, como dizia Marx), os bancos lhes emprestam dinheiro. No entanto, os empréstimos são para ser pagos, geram expectativas (e essas expectativas de pagamento são negociadas nas bolsas de valores). Tudo isso é muito arriscado, porque ao mesmo tempo que o sistema empurra o trabalhador pra baixo, necessita que o trabalhador esteja em cima para consumir e pagar seus empréstimos. Além disso, o capital acumulado vai avançando para “colonizar” todos os setores da economia, transformando tudo em mercadoria: educação, saúde, etc. Isso significa que o trabalhador terá também que pagar por todos esses “serviços”.

Esse forte desenvolvimento das forças produtivas, necessário para a reprodução do capital, se choca com as relações que existem na produção (base da economia), que estão mediadas pela propriedade privada dos meios de produção. Ou seja, como os capitalistas são donos de todas as empresas, eles ficam com o produto final produzido pelos trabalhadores e lhes devolvem somente uma minúscula parte do que estes produzem – o salário. Toda essa diferença entre o que o trabalhador produz e o que recebe no final do mês se chama mais-valia. Essa mais-valia, a enorme massa de riqueza produzida pelo trabalhador, termina nas mãos dos capitalistas, o que faz com que a riqueza se concentre.

As relações de produção entre trabalhadores e capitalistas, ainda que sejam “iguais” perante a lei, não o são na realidade, dado que a propriedade privada das empresas dá aos capitalistas o direito a ficar com quase tudo o que os trabalhadores produzem.

Essa relação de exploração entre capitalistas e trabalhadores e concentração de riqueza nas mãos de um pequeno setor da população se choca com o desenvolvimento das forças produtivas, ou seja, a ampliação cada vez maior da capacidade de produzir novas riquezas. No entanto, o avanço das forças produtivas não pode parar ou o sistema colapsa.

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Essa contradição fundamental do capitalismo é o que o leva à crise. A superprodução de mercadorias (que se transforma em superprodução de dinheiro) se acumula em um polo da sociedade e impede que o sistema siga funcionando. Então tudo vai pelos ares. Para que todo esse processo se reinicie, é necessário destruir de uma forma colossal as forças produtivas.

A destruição das forças produtivas (meios de produção, natureza e seres humanos) começa pela queima de capital fictício (especulativo), por isso a queda nas bolsas de valores. Depois se transforma em quebra das empresas, demissões em massa, perda da capacidade produtiva pela ociosidade, etc. A primeira e a segunda guerras mundiais foram processos massivos de destruição de forças produtivas. Para garantir essa destruição massiva, o capitalismo começou a desenvolver suas forças destrutivas – armas de destruição em massa que podem acabar com países completos em questão de minutos. A indústria da guerra.

Para fazer uma analogia, é como se os operários construíssem um prédio e quando o terminassem, tivessem que destruí-lo para construí-lo novamente. O capitalismo funciona assim. Mas cada vez em escala mais absurda. Hoje já estamos destruindo a maioria das espécies de seres vivos do planeta e a nós mesmos – toda a sociedade. O capitalismo leva a humanidade rapidamente por esse caminho.

Estamos no início de uma nova destruição massiva de forças produtivas. Essa destruição foi iniciada pela pandemia do coronavírus, mas todos os economistas (e governos) já sabiam que a crise estouraria de alguma forma e seria brutal. A pandemia foi o sintoma imediato que veio para colocar uma sociedade já doente na UTI.

Pandemia e crise econômica

A economia chinesa foi, nas últimas décadas, um dos motores da economia mundial. Após a restauração do capitalismo na China (fim dos anos 70 e início dos anos 80) e no Leste Europeu (ex União Soviética), a economia capitalista mundial ganhou um novo fôlego, já que mais de um terço da humanidade estava até então, em grande medida, fora do mercado capitalista. A restauração do capitalismo nesses países possibilitou que o capital avançasse vorazmente para colonizar novas áreas. As empresas e bancos capitalistas tomaram conta de quase toda a economia desses países. E, além disso, conquistaram um novo e enorme mercado consumidor. A China, com mais de um bilhão de habitantes, se transformou na grande fábrica do mundo, onde milhares de empresas se instalaram para produzir todo tipo de mercadorias com uma mão de obra muito barata. Um governo altamente repressor, um enorme mercado consumidor e uma gigantesca massa de mão de obra barata. Nada melhor para o capital. O capital então migrou para a China e a transformou em um dos motores da economia mundial.

No entanto, como tudo na vida termina, e no capitalismo os finais são trágicos, o ciclo de crescimento chinês também começou a chegar a seu fim. Não só começou a chegar ao fim, como a própria China, nas últimas décadas, desenvolveu uma importante burguesia, que começou a competir com as burguesias imperialistas, em particular com a burguesia norte-americana. Um ciclo de acumulação que vai chegando ao fim e uma nova e potente burguesia competindo pelo mercado mundial. A fórmula da explosão. A guerra comercial já era um forte indício dessa ruptura que está por vir.

A pandemia começa na China. Em uma China que já vinha desacelerando seu ritmo e em uma economia mundial já doente (por excesso de produção e acumulação, não por falta). As previsões de uma nova crise econômica já eram debatidas entre todos os economistas sérios da própria burguesia.

O rápido avanço do vírus paralisa um setor importante da economia chinesa. Fábricas param de produzir, o comércio fecha suas portas, os voos são cancelados. Muitas empresas, principalmente as menores, começam a quebrar. Demissões em massa. O governo chinês reage, com alguma demora, mas consegue controlar, com relativo sucesso, a pandemia. Não podemos nos esquecer que a pandemia começou na “maior fábrica do mundo” – que produz grande parte do que o mundo necessita para combatê-la. Além disso, a ditadura do Partido Comunista (que de comunista só conserva o nome) permite tomar medidas de forma muito mais rápida do que nas economias capitalistas com menor intervenção estatal.

A pandemia avança. Da Ásia à Europa e à América. Chega no coração do sistema capitalista. A história se repete. Menos produção, menos consumo, empresas fecham, demissões, etc.

É claro que, em qualquer sociedade, se não há produção e distribuição do que foi produzido, a sociedade colapsa. No entanto, o maior problema para sociedade capitalista não é que muitas pessoas vão morrer ou não terão condições de comer no fim do mês. A sociedade capitalista já condena uma parte enorme da humanidade a essa condição. O maior problema é que o capital não circulará e tampouco se valorizará. O mecanismo “infinito” de produção em massa, consumo em massa, valorização do capital, mais produção, mais consumo, empréstimos, expectativas, acumulação, etc., tudo isso, de repente, parou. Enquanto a pandemia avança, o capital para.

O consumo de muitas mercadorias e serviços diminuiu drasticamente. A produção também, mas em menor medida, o que rapidamente gerará um problema enorme de acumulação de mercadorias. E pior, em um momento onde há uma drástica diminuição no consumo e demissões em massa (o que afeta ainda mais a capacidade de consumir). As expectativas imediatas de lucro dos empresários caem ladeira abaixo. O mercado de expectativas minguou, o valor das empresas, principalmente das mais afetadas pela quarentena, caiu bruscamente. Há um choque entre a economia das expectativas (bolsa de valores) e a economia do mundo real.

Os capitalistas que tinham seu capital investidos em ações, que aumentavam seu “valor” com base nas expectativas de crescimento, agora veem seu dinheiro se transformar em fumaça. O capital começa a fugir dessas empresas. Começam as vendas de ações, as bolsas caem, o pânico toma conta. Os capitalistas buscam um lugar seguro: o dinheiro, em particular, o dólar e também, pasmem, o ouro. O capital para de circular e se concentra. Onde? Na mão da burguesia, obviamente. O que acontece então? Falta dinheiro, porque a burguesia acumulou tudo. Qual é o problema? A liquidez. Os Estados então são chamados a injetar trilhões de dólares na economia. Necessitam que o capital circule novamente. Mas a perspectiva para a circulação e valorização do capital, por uns bons meses, é sombria. A tendência é que rapidamente esse dinheiro se concentre novamente nas mãos da própria burguesia. A grande discussão entre os economistas burgueses é essa. Onde e como colocar esse dinheiro na economia para que ele não pare de circular e possa se valorizar.

E além de toda essa catástrofe econômica, há uma pandemia para combater. Mas aqui vem outro problema. O capital não serve para combater pandemias. Ele serve pra circular e se valorizar. O combate à pandemia exige medidas que vão no sentido contrário à reprodução do capital.

A crise sanitária e a crise capitalista mostram, aos que querem ver, qual é o melhor caminho a seguir. Esse caminho é a planificação econômica, a economia socialista. Para os que não gostam do nome “socialismo”, podem escolher outro, o nome não importa. O que importa é o conteúdo.

Como combater a pandemia: Racionalidade ou Irracionalidade?

As medidas de todos os governos do mundo neste momento estão em dois “frontes”, que se relacionam e se chocam: o combate à pandemia e o combate à crise econômica.

As medidas necessárias para combater a pandemia se chocam completamente com a lógica de reprodução do capital, de cima a baixo. E as medidas para combater a crise econômica também. É claro, os remédios devem servir para combater a doença. Mas, no nosso caso, a doença é o próprio capitalismo.

Antes de entrar na discussão das medidas ou “remédios” que estão tomando os governos, é importante esclarecer que toda a “prevenção” à doença não existiu. Como assim?

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A possibilidade de uma pandemia mundial não era algo novo ou imprevisível. De fato, na história da humanidade, já existiram várias. As mais importantes mataram milhões de pessoas, como a peste bubônica ou peste negra, que matou quase a metade da população europeia no século XIV (há uns 600 anos). Nos últimos anos, muitas pesquisas e estudos mostravam a possibilidade de uma pandemia mundial. E não só os cientistas sabiam disso. Essa informação estava acessível a qualquer um que começasse a “fuçar” um pouco no Netflix ou no youtube, já que existem vários documentários sobre o tema.

Então por que não nos preparamos antes? Porque na sociedade em que vivemos o que importa não é a vida das pessoas, é o lucro da burguesia. Mesmo nos países mais ricos do mundo ou naqueles onde o Estado ainda garante alguns direitos básicos, como o direito a saúde, isso não é uma prioridade. Não há investimentos suficientes justamente porque a saúde não dá lucro. E nos países onde a saúde foi privatizada para dar lucro, ela é exclusiva aos que tem dinheiro para pagar (e muitas vezes ainda é de má qualidade). É claro que combater uma pandemia é um enorme desafio. No entanto, mesmo com um “pouco” mais de esforço, poderíamos evitar milhares ou mesmo milhões de mortes.

Um exemplo. No Brasil, o homem mais rico do país (Jorge Paulo Lemann) possui uma riqueza de 104 bilhões de reais. Em 2019 o Estado brasileiro gastou aproximadamente 102 bilhões de reais com o SUS (Sistema Único de Saúde) que atende a cerca de 150 milhões de brasileiros. Ou seja, somente com a riqueza do homem mais rico do país seria possível dobrar o investimento na saúde pública. Isso significaria ter mais hospitais, mais equipamentos, mais médicos, enfermeiros, etc. Dessa forma, hoje poderíamos estar em condições muito superiores para combater a pandemia. Mas, claro, isso não foi feito. “Os ricos são ricos porque merecem”, não importa que milhões estejam morrendo. “Eles trabalharam duro”, puderam acumular enormes fortunas e “têm o direito de gastar no que quiserem”. Eles podem ter 10 ou 20 casas, ainda que só possam usar uma de cada vez. Mas, bom, paciência. A propriedade privada é sagrada.

Pois bem, então, não estávamos preparados para a pandemia. Porque a sociedade capitalista não está preparada para defender a humanidade, pelo contrário, ela é a doença da humanidade.

Já não estávamos preparados e a pandemia nos pegou. Agora os governos têm que tomar medidas. A maioria deles não queria tomar nenhuma medida, já que isso significaria “paralisar a economia”. No entanto, foram obrigados, porque a pandemia é grave.

As medidas sanitárias tomadas, ainda que sejam totalmente insuficientes, vão contra a lógica do capital.  Não só porque paralisam sua circulação, devido à quarentena. Mas principalmente porque essas medidas têm que ser racionais e articuladas.

Para combater a pandemia de forma eficaz é necessário coordenar todas as iniciativas sanitárias – a investigação sobre o comportamento do vírus e da doença, o desenvolvimento de possíveis medicamentos e vacinas, a produção de insumos (testes, ventiladores mecânicos, máscaras, etc), a habilitação de hospitais de campanha, a distribuição desses insumos, o cumprimento das medidas de quarentena, o enterro dos mortos, etc. A única instituição que pode coordenar essa imensa tarefa é o Estado. O setor privado não tem nenhuma condição de fazer isso, porque está totalmente fragmentado. Sua lógica é a da concorrência, do lucro.

Os próprios governos capitalistas vêm sendo obrigados a tomar medidas urgentes de centralização, coordenação e planificação, mas essas medidas são totalmente conjunturais, parciais e insuficientes.

Exemplos. Há alguns dias, Trump, ressuscitando uma lei norte-americana que não era usada desde a Guerra da Coreia, obrigou a General Motors dos Estados Unidos a deixar de fabricar carros e passar a fabricar ventiladores mecânicos. Isso mesmo, a General Motors vai fabricar ventiladores mecânicos para os hospitais. Trump perdeu a paciência com a própria burguesia e disse que a GM estava “perdendo tempo”, já a empresa tentava negociar o preço que o governo pagaria pelos ventiladores. Outro exemplo. A Organização Mundial da Saúde vem defendendo a necessidade de que todas as empresas farmacêuticas e laboratórios que estão fazendo pesquisas para desenvolver remédios e vacinas contra o vírus ponham seus conhecimentos à disposição de todos os pesquisadores do mundo – ou seja, que não imponham patentes sobre esses estudos e fármacos.

Essas medidas, totalmente racionais, vão no sentido contrário à lógica da sociedade capitalista, que é irracional. A lógica do mercado, como procurei demonstrar anteriormente, é totalmente irracional e incapaz de solucionar os problemas sociais, ainda mais durante uma pandemia.

Todas as medidas que deveriam ser tomadas pelos Estados para enfrentar a pandemia vão no mesmo sentido: centralizar, coordenar e planificar as iniciativas. E esse caminho, aonde levaria? À estatização do conjunto da economia, a tirar as empresas das mãos do setor privado e colocá-las sob controle  estatal. Obviamente isso não será feito. E se for feito, de forma pontual, será por um curto período de tempo até que a pandemia passe, deixando atrás de si um saldo de centenas de milhares ou milhões de mortos.

Em relação à crise econômica, as medidas são similares. A própria lógica dos acontecimentos está levando os Estados a centralizarem todas as iniciativas econômicas – decidirem quais setores da economia seguem funcionando e quais não, imprimindo dinheiro para injetar nas empresas e para garantir que a maior parte da força de trabalho não morra de fome etc. Os Estados imperialistas (Alemanha, Japão, Estados Unidos) têm muito mais capacidade de tomar essas medidas, já que controlam a maior parte dos recursos disponíveis no planeta. Os Estados semicoloniais ou de “Terceiro Mundo”, como se queira chamar, não tem condições de tomar as mesmas medidas, a não ser que rompam com toda a cadeia de exploração econômica que os submete aos Estados imperialistas.

Assim, as exigências do combate à pandemia e à crise econômica levam, pela própria lógica dos acontecimentos, à necessidade de uma forma superior de organização da sociedade. A economia de mercado, baseada na concorrência entre diferentes atores privados, está demonstrando seu completo fracasso. Não apenas no combate ao coronavírus, mas na própria manutenção da sociedade.

No entanto, a economia capitalista não passa, automaticamente, à sua própria superação. Ela deixa as contradições evidentes, mostra os caminhos e também cria os sujeitos que podem realizar essa imensa obra. Isso é assim porque, ao mesmo tempo em que toda a lógica dos acontecimentos caminha em um sentido, os que detêm o poder político, militar e econômico caminham em outro. De um lado, temos a grande burguesia, seus políticos, as igrejas e toda sua parafernalha ideológica e militar. Do outro, temos os cientistas, os trabalhadores da saúde e a imensa massa trabalhadora que faz com que a sociedade possa seguir funcionando. Enquanto os de baixo não chegarem à conclusão de que necessitam destruir a burguesia e seus Estados e governar os países e o mundo de outra forma, com base nas necessidades humanas e não nas necessidades do capital, a história não vai mudar.

A boa notícia é que a barbárie criada pelo sistema capitalista vai gerar cada vez mais raiva e organização nos que sobreviverem à catástrofe sanitária e econômica. Essa raiva e organização serão o motor da destruição do capitalismo e da construção de uma sociedade socialista, organizada com base em outros valores e de forma racional.