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Com o passar dos dias, vemos como a crise do coronavírus está servindo para colocar na mesa e visibilizar problemas que JÁ existiam, e que a pandemia apenas agravou. Como as debilidades de um sistema de saúde, enfraquecido por anos de cortes e privatizações, especialmente pelos governos do PP, ou a extrema precariedade, característica do nosso mercado de trabalho, no qual as mulheres são a maior parte.

Por: Laura R.

Da mesma forma, essa crise colocou em evidência a enorme fragilidade e as desigualdades de gênero com as quais essa sociedade capitalista resolve as tarefas de cuidados de idosos, dependentes e menores.

O decreto governamental que impõe o fechamento das escolas de um dia para o outro pegou a maioria das famílias desprevenidas. Para a pergunta: “E agora, o que fazemos com as crianças?”, a resposta parecia inevitável: bem, o mesmo de sempre … que as avós e os avôs cuidem delas! Mas em poucas horas, a mesma ideia lógica passou por todas as redes: se os idosos são um grupo de risco nessa pandemia, essa solução era mais “problemática” do que o próprio problema.

O Governo decretou que todas as pessoas com menores ou dependentes sob sua responsabilidade tinham direito a uma adaptação de sua jornada de trabalho, como a redução da mesma ou mesmo a uma licença quando não houvesse a possibilidade de coordenação ou revezamento nos cuidados com outro progenitor, sabendo-se que essas duas últimas opções representam uma diminuição significativa na renda.

O Ministro da Inclusão, Seguridade Social e Migrações, José Luis Escrivá, declarou que o governo pretendia aprovar um benefício financeiro para ajudar as famílias em que um dos progenitores tinha que ficar em casa. Uma medida que ESTANCOU com a desculpa de que, com a imposição do Estado de Alarme, o governo estava promovendo a modalidade de trabalho online.

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Além do fato de que muitos trabalhos não podem ser realizados eletronicamente, quando muitos dos pais ou mães mudaram o escritório pela sala de casa, descobriram que combinar esse tipo de trabalho com o cuidado de crianças pequenas, que geralmente exigem atenção constante, é uma tarefa quase impossível.

Pagar alguém para ficar com os menores durante a jornada de trabalho também não está no alcance do bolso da maioria das famílias. E pior ainda para os quase dois milhões de famílias com apenas um progenitor, conformadas em 80% por mulheres solteiras e nas quais 61% já tinham sérios problemas econômicos antes desta crise.

Nessas semanas, houve dezenas de milhares de demissões e uma onda de Expediente de Regulação Temporária do Emprego (ERTEs) amparadas pelo governo e, por isso, o problema de quem cuida dos menores nesses dias passou a ser algo menor em muitos lares, diante da angústia de como chegar ao fim do mês ou inclusive o que dar de comer para eles.

Se levarmos em conta que as mulheres acumulamos a grande maioria dos contratos temporários e 74% dos contratos de meio período (e que também somos maioria no setor de serviços, onde primeiro aconteceu o fechamento), não é difícil adivinhar que estamos sendo um grupo especialmente atingido pelos referidos ERTEs e demissões.

Também fomos as mulheres que, na maioria das vezes, tivemos que aceitar uma redução da jornada de trabalho ou licenças para cuidar de outras pessoas desde o início do Estado de Alarme, abrindo ainda mais a disparidade salarial de gênero e a taxa de temporalidade feminina.

Isso tem a ver com o fato de que, nessa sociedade machista, continua se naturalizando a ideia de que as tarefas domésticas e de cuidados são tarefas próprias das mulheres. Um trabalho no âmbito “privado” que as mulheres fazemos de graça, que é funcional para o sistema capitalista porque com isso se economizam milhões de euros em saúde, dependência, etc…. e é garantido que os trabalhadoras e trabalhadores vão trabalhar todos os dias com suas necessidades básicas cobertas.

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O confinamento aumenta nossa opressão e o risco de violência machista

À sobrecarga habitual que significa ter a responsabilidade e a obrigação de realizar habitualmente essas tarefas, agora em período integral devido ao confinamento, acrescenta-se a de ter que ajudar nossos filhos e filhas em sua educação escolar, que também se transferiu para o lar.

Uma sobrecarga que é também emocional, porque nem todas as famílias têm computador e Internet, nem possuem condições materiais para que os menores possam assistir às aulas eletronicamente, o que aprofundará a maior taxa de reprovação escolar sofrida por meninas e meninos de famílias mais desfavorecidas.

Muitas mulheres e também crianças ainda são forçados a conviver em tempo integral com seus maltratadores ou agressores, o que os expõe ainda mais do que antes.

As mulheres, na vanguarda da luta contra o coronavírus… e pelas medidas que necessitamos.

Note-se que, não por casualidade, as mulheres somos maioria nos postos mais precárias tanto da saúde como nos chamados “trabalhos de assistência”, que se antes eram imprescindíveis, passaram a ser uma atividade essencial nesse alerta de saúde que vivemos, para conter a pandemia e proteger os setores mais “vulneráveis”.

É o caso de enfermeiras, faxineiras, zeladoras de hospitais, assistentes sociais em serviços de proteção social, bem como trabalhadoras domésticas, auxiliares de ajuda à domicílio e outras que trabalham em lares de idosos. Profissionais que estão estes dias na linha de frente realizando seu trabalho, muitas vezes sem os equipamentos de proteção individual necessários, com o consequente risco para elas e suas famílias. Em todo o mundo, as mulheres representam a maioria das pessoas empregadas no setor de serviços sociais e de saúde: elas são 70% nos 104 países analisados ​​pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

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Por tudo isso, sobram razões e motivos para que as mulheres trabalhadoras continuamos organizadas e, juntamente com o resto de nossa classe, nos coloquemos na vanguarda para exigir desse governo medidas para resolver essa crise – na qual os trabalhadores voltam a levar a pior – os trabalhadores e trabalhadoras e o povo pobre, e não as grandes empresas do IBEX 35, como estão fazendo.

E quando essa crise acabar, voltemos às ruas para exigir serviços públicos de saúde e educação e socio-sanitários 100% públicos e de qualidade, que acabem com a precariedade daqueles que neles trabalham e com a escravidão feminina do trabalho grátis de cuidados com o lar. Por isso, e pelo restante das demandas e reivindicações pelas quais nos mobilizamos no último 8M, não podemos permitir que, com a desculpa da crise econômica, estejam estacionados ou em segundo plano novamente.

Tradução: Tae Amaru