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A “nova normalidade” é uma retórica. Se é nova, não pode ser normal, porque o normal só se converte em uma forma de vida com o tempo; e se é “nova”, é que não existia, e, portanto, não teve tempo de adquirir essa característica. Está claro que com “nova normalidade” só expressam seu desejo de “voltar à normalidade”, sob novas condições, criadas pela pandemia do COVID 19.

Por: Roberto Laxe

Afirmar que há que voltar à normalidade significaria, nem mais nem menos, retornar ao que nos trouxe aqui. Às privatizações que desmantelaram os sistemas socio sanitários de proteção da saúde pública; às reformas trabalhistas que precarizaram o emprego deixando nas mãos dos empresários qualquer decisão, por cima da saúde pública; ao cerceamento da liberdade em todos os Estados, com as policiais/vigilantes/carabineiros transformados em garantidores dessa saúde pública.

À crise ecológica que significa o aquecimento global e a doentia relação do ser humano com a natureza, estimulada pelas relações sociais de produção capitalista, baseado no saqueio das riquezas humanas e naturais.

À família patriarcal como núcleo fundamental para manter a reprodução da espécie e a força de trabalho, baseada na relação hierárquica dominada pelo homem. Uma relação mantida em suas bases pelo mesmo capitalismo, que necessita de mão de obra barata.

Isto é o que significa “voltar à normalidade”, porque essa era a normalidade. Como isso não é possível, já que a pandemia veio para ficar; até que não haja vacina as medidas de exceção vão ser inevitáveis, e ninguém, nem os capitalistas nem seus opostos sociais, a classe operária, podem viver eternamente sem que a produção e distribuição de mercadorias estejam ativas.

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Como vivemos, gostemos ou não, no sistema capitalista, e a pandemia colocou em evidência a mais absoluta inutilidade do capitalismo e seus Estados para garantir a saúde pública, precisam inventar essa retórica da “nova normalidade”.

Visto o que significa a “normalidade” da exploração capitalista “que há de novo, velho?” se perguntaria um velho desenho animado. Porque não é verdade que vão nacionalizar todos os serviços públicos e a indústria essencial, como a farmacêutica, as elétricas, a têxtil, as empresas de serviços de saúde etc.

Como também não é garantido que vão revogar toda a legislação repressiva que eles têm usado para exibir durante as quarentenas. Não seriam os governos burgueses se renunciassem a essência do estado capitalista, a “máquina burocrática- militar”. Seria oura coisa.

Como não vão destruir a família patriarcal, tomando medidas de socialização do trabalho doméstico como creches, restaurantes públicos, lavanderias públicas que libertem a mulher do lugar físico no qual se manifesta sua opressão, o lar.

Cuidado, as lavanderias/negócio abertas ao público que existem hoje em todos os bairros nunca fecharam suas portas, foram consideradas essenciais.

A “nova normalidade” esconde um eufemismo da “velha normalidade” capitalista sob novas condições enquanto não haja uma vacina, a pandemia vai continuar, como a AIDS segue sendo uma pandemia. A burguesia e seus governos têm apostado que a pandemia vai ser “estacional”, que dizer, recorrentemente haverá que lidar com ela, como demonstra a afirmação do governo de Merkel, que para suavizar a quarentena diz que “já há leitos livres” nos hospitais.

Da mesma maneira que com a AIDS, pandemia que não fecharam porque continua havendo milhões de mortos todos os anos ao não a haver vacina (só tratamentos), eles assumem que a “nova normalidade” vai ser conviver com o COVID 19. A AIDS foi controlada nos estados imperialistas, enquanto que na África está descontrolada. Mas tudo bem, “só” são africanos, carne de patera (embarcação de imigrantes).

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A COVID 19, diferente da AIDS, que tem uma transmissão mais localizada por grupos sociais, é mais “democrática”, pode afetar todo mundo, razão pela qual seu controle social e delimitação geográfica vão ser muito mais difíceis. Mas para isso tem indústria farmacêutica que terá os tratamentos de retrovirais enquanto ninguém patenteie uma vacina, um negócio espetacular, como a Bayer, fabricante de teste para a COVID, que no primeiro trimestre aumentou seus lucros em 20%%.

 A “nova normalidade” que nos prometem é a “velha normalidade” capitalista, passada pela peneira da crise económica, que a aprofundou até extremos de depressão, e vai se manifestar em uma dívida pública e privada escandalosa – os 100 bilhões de “ajudas” às empresas são empréstimos dos bancos endossados pelo Estado -, e na perda de direitos dos trabalhadores e trabalhadoras agravada por um desemprego galopante, na privatização dos serviços públicos, etc.

Para evitar que esta “velha normalidade” enfeitada de “nova normalidade” desemboque em revoltas sociais de grandes dimensões, alimentadas pela evidência da inutilidade do capitalismo para garantir a saúde pública, as medidas repressivas adotadas para garantir o Estado de Emergência, legitimadas diante da população como “luta contra a pandemia”, se vão convertendo no eixo para garantir a ordem dessa “nova normalidade; como já aconteceu com as “atas patrióticas” e a medida “antiterroristas” adotadas depois dos atentados do 11 de setembro.

A classe operária e suas organizações precisam estudar a fundo qual vai ser essa “nova normalidade” capitalista, já que a luta, a partir de agora, vai acontecer sob esses novos parâmetros.

Tradução: América Riveros