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A história da Tendência Marxista Internacional (TMI) confunde-se com a história de seu fundador, Ted Grant, considerado por seus apoiadores um dos maiores teóricos marxistas e por trotskistas ingleses que não seguiram sua trajetória como objetivista e politicamente centrista.

Por: Marcos Margarido

Edward “Ted” Grant nasceu na África do Sul, mas passou a maior parte de sua vida militante na Inglaterra. Morreu em 20 de julho de 2006 com 93 anos. Foi fundador da Tendência Militant, interna ao Labour Party (LP – Partido Trabalhista inglês), e do Socialist Appeal, em 1992. No plano internacional, fundou a TMI.

A melhor maneira de conhecer a TMI é seguir os passos de Ted Grant e do principal partido onde ele militou, o Militant. Ele é parte das primeiras gerações de trotskistas ingleses, como Gerry Healy, Bill Hunter, Dave Finch, Rachel Ryan, Millie Lee, Jock Haston e outros. Após uma decisão do RCP (Partido Comunista Revolucionário) de fazer entrismo no LP, em 1949, Grant, contrário àquela política, deixa o partido[1].

Após a divisão da IV Internacional, em 1953, devido à política revisionista de Michel Pablo e Mandel de praticar o chamado entrismo sui generis nos partidos comunistas[2], o trotskismo inglês se junta ao SWP norte-americano no Comitê Internacional. Porém, Ted Grant e Sam Bornstein fundam a Revolutionary Socialist League (RSL – Liga Socialista Revolucionária) em 1956, que se torna a seção da IV Internacional pablista na Grã-Bretanha.

Grant, que em 1949 havia sido contra o entrismo tático no LP, para colocar o partido em contato com a classe operária e construir a direção revolucionária, agora concordava com o entrismo estratégico de Pablo, que previa forças irresistíveis que forçariam o stalinismo a tomar o poder. Em função disso, os partidos trotskistas deveriam entrar nos partidos comunistas para acompanhar esta evolução, que faria o stalinismo transformar-se em uma corrente revolucionária.

Segundo o documento Ascensão e Queda do Stalinismo, aprovado pelo IV Congresso da IV Internacional (1953):

Em países onde os PCs são majoritários na classe operária, eles podem, sob condições excepcionais (desintegração avançada das classes proprietárias) e sob a pressão de um poderoso levante revolucionário das massas, ser levados a projetar uma orientação revolucionária contra as orientações do Kremlin, sem abandonar sua bagagem teórica e política herdada do stalinismo. Nessas condições, a desintegração do stalinismo não deve ser entendida no estágio imediatamente posterior como uma desintegração organizativa desses partidos ou como um rompimento público com o Kremlim, mas como uma transformação interna gradual, acompanhada por uma diferenciação política em seu meio.”

Tudo o que os partidos trotskistas deveriam fazer era esperar o momento dessa transformação interna e ganhar todo o partido stalinista para o trotskismo.

Para Ted Grant, o mesmo raciocínio deveria ser aplicado em relação ao Partido Trabalhista, que era majoritário na classe operária inglesa. No documento A Situação e Nossas Tarefas, publicado em 1957, a RSL afirma que situações de crise na indústria e de reação da classe operária atingiriam o LP, abrindo a possibilidade de um rompimento “se sua ala direita mantivesse o controle do aparato partidário. É, no entanto, mais provável que a esquerda ganhe a maioria e transforme o LP em uma organização centrista de massas. Em qualquer caso, o trabalho dos marxistas revolucionários no período à frente precisa ser o de preparação e formação dos quadros tendo em vista esta perspectiva[3].

Como o documento alertava que esta situação de crise ainda não estava dada, a RSL deveria limitar-se a fazer propaganda e esperar o dia da transformação do LP chegar. Após 61 anos a política continua a mesma.

Fazendo uma retrospectiva, pode-se dizer que a política de Ted Grant é uma continuação da tática de entrismo sui generis de Pablo, porém transformada em estratégia permanente de construção, válida para todos os países e partidos e em qualquer situação política. Tinha razão Bill Hunter quando diz que a criação da LSR baseava-se em “uma concordância com as concepções mais importantes do pablismo. Havia um acordo sobre a natureza do entrismo na Grã-Bretanha. Para nós, era uma tática, dentro da estratégia de sair do isolamento e construir uma direção trotskista para levar a classe operária ao poder. Para Pablo [e Grant], era a participação em forças irresistíveis que empurrariam o stalinismo e o centrismo para tomar o poder pela classe operária[4].

O desenvolvimento do Militant

Para explicar como mantém essa perspectiva apesar da trajetória do LP que, ao contrário de suas previsões, manteve-se um partido de sustentação do capitalismo imperialista inglês cada vez mais à direita, a TMI desenvolveu uma explicação: o dia da transformação tinha chegado, mas foi desperdiçado pela política sectária da maioria da direção do Militant. Vejamos.

A RSL[5] iniciou seu entrismo sui generis na organização de juventude do LP, a Labour Party Young Socialists (LPYS), em 1960 e chegou a ganhar a maioria de sua direção em 1972, aproveitando-se do descontentamento da base do LP com o governo trabalhista ultraliberal de Harold Wilson (1964-1970). Foi fundamental para seu crescimento os anos de 1968-1969, quando em toda a Europa – e particularmente em Paris, em maio de 1968 –  a juventude se rebelava contra o sistema capitalista, que começava a dar os primeiros sinais de esgotamento do boom do pós-guerra. Nesse período a RSL lançou o jornal Militant, nome pelo qual o partido tornou-se conhecido em todo o mundo.

Por dirigir a juventude do partido, o Militant teve um posto no Comitê Executivo Nacional do LP e, ao ter a orientação acertada de ir à classe trabalhadora a partir da juventude, conseguiram ter certa influência no movimento sindical. No congresso da 1982 da Associação de Servidores Públicos (CPSA), um de seus membros foi eleito presidente e outros fizeram parte de sua executiva nacional. Também tinham membros nas direções nacionais do Transport and General Workers Union (trabalhadores do setor de transporte), Fire Brigades Union (bombeiros), National Local Government Workers Union (funcionários públicos municipais). Também elegeram três membros do Parlamento inglês, os primeiros da história do trotskismo daquele país.

Porém, essa influência política – inclusive nas conferências anuais do LP – tinha seu preço. Evitavam qualquer confronto direto com a direção do partido para não correrem o risco de ser expulsos. Por exemplo, aceitavam que os documentos submetidos às conferências dos Jovens Socialistas fossem escritos pelo Departamento de Pesquisas do LP e não pela direção da juventude[6]. O mesmo ocorria nos sindicatos em relação à fortíssima burocracia sindical do TUC (Trades Union Congress, a central sindical britânica) que, na prática, dava as cartas no Labour Party.

Em 1982 o Militant dizia ter entre 4000 e 5000 membros, com forte presença em Liverpool. Foi nessa cidade que a política de entrismo sui generis mostrou sua limitação. Na eleição municipal de 1983 o Militant elegeu 15 dos 51 conselheiros municipais do LP[7], atraindo a atenção nacional. Foi uma vitória eleitoral inédita para um partido trotskista, mas devido à sua estratégia o Militant passou a participar do governo da cidade como membros leais do LP, procurando dar respostas administrativas e fazer manobras jurídicas para enfrentar os ataques do governo Thatcher. Recusaram-se a fazer cortes no orçamento social e aumentar os impostos municipais, mas não ofereceram uma alternativa revolucionária, que só poderia ser recorrer aos trabalhadores em uma luta nacional contra o governo conservador.

Um exemplo bastante ilustrativo foi a política de demitir todos os funcionários públicos ante o bloqueio financeiro promovido pelo governo central. A ideia era “simples”: os trabalhadores passariam a receber um salário desemprego por algumas semanas devido à demissão coletiva. Terminado esse período, eles seriam recontratados e pagos com o dinheiro economizado naquelas semanas. Foram emitidas 31 mil cartas de demissão, mas o sindicato da categoria negou-se a aceitar essa medida, que não pôde ser efetivada[8]. Ao invés de chamarem os funcionários públicos e todos os trabalhadores à luta contra o governo nacional, preferiram uma manobra jurídica que só serviu para jogar confusão na classe e bloquear sua mobilização.

Ficava claro que governar uma cidade como parte de um partido reformista, aceitando defender sua política, mesmo que com uma política de “esquerda”, só poderia levar ao reformismo e não a uma política revolucionária.

Essa política tinha um fio condutor, o mesmo seguido por Ted Grant em toda sua vida militante: esperar pela transformação do LP e pela expulsão de sua ala de direita pró-capitalista. Mas a ala esquerda era igualmente pró-capitalista, como a burocracia sindical da Grã-Bretanha, na qual o Militant identificava um aliado.

Em 1968 Grant previa que uma nova crise econômica levaria os sindicatos – isto é, a burocracia sindical – e o LP a um giro à esquerda e que o setor parlamentar do partido iria se dividir, com a ala direita juntando-se aos Tories (o Partido Conservador). Por isso, era necessário, permanecer no LP a todo custo.

Em 1985, logo após a conferência nacional do LP que aprovou a expulsão de oito militantes e abriu o período de “caça às bruxas” contra o Militant – medida que recebeu o decisivo apoio da burocracia sindical – um encontro nacional da organização aprovou a palavra de ordem “Depois de Kinnock, nossa vez”, estampada como campanha central da organização na edição seguinte de seu jornal. Neil Kinnock era o líder nacional do LP. O motivo era que naquela mesma conferência nacional foi aprovada a chamada “resseleção” dos candidatos do partido ao Parlamento. Isto é, os atuais parlamentares deveriam ser referendados em encontros locais de sua jurisdição eleitoral (na Grã-Bretanha vigora o sistema de eleição distrital), sem poderem se candidatar automaticamente à reeleição. Segundo o Militant, isto significava que o domínio da direita do partido, exercido por Kinnock, estava com os dias contados e bastava esperar pela resseleção que a vez deles chegaria.

Como se vê, o entrismo permanente em um partido reformista ou – como dizia Lenin referindo-se ao LP – em um partido burguês-operário, só poderia resultar em uma enorme ilusão parlamentar. Mesmo após a experiência frustrada em Liverpool essa ilusão continuou. Para Grant, todos os partidos trotskistas que atuavam fora do LP estavam afastados do movimento de massas e eram seitas. Ele escreveria que “a praga das pequenas seitas, resultantes de rupturas de seitas maiores, como o IMG, o SWP e o WRP, desenvolveu-se como consequência de seus erros… Conforme o marxismo torna-se uma força importante na classe operária e ganha seu apoio, as seitas farão menos danos do que fizeram no passado[9]. O problema desse raciocínio é que o único marxismo, para Ted Grant, é o seu próprio, e a única política marxista é o entrismo permanente em partidos reformistas e nacionalistas burgueses.

A ruptura do Militant

O Militant sofreu uma ruptura importante em 1992, que teve como resultado a expulsão de Ted Grant da organização. Ele discordou da decisão de terminar o entrismo no Labour Party, mas foi seguido por uma pequena minoria em nível nacional, embora tenha levado a maioria dos militantes em países como a Espanha e o Paquistão.

A ruptura foi precedida por um dos mais rápidos crescimentos de um partido de tradição trotskista na história, durante a campanha contra o Poll Tax, que levou o partido a ter entre sete a oito mil militantes segundo seus dirigentes e, com uma política correta, poderia ter avançado ainda mais.

Margaret Thatcher resolveu estabelecer um Community Charge (imposto sobre a comunidade), conhecido como Poll Tax, que estabelecia um valor igual para cada adulto do país. Evidentemente esse imposto pesava mais sobre as famílias mais numerosas e mais pobres. O imposto começaria a ser cobrado na Escócia e, depois de um ano, seria implantado no resto do Reino Unido.

O Militant lançou uma campanha de desobediência civil, que teve uma adesão de massas. No dia da introdução do Poll Tax na Inglaterra e no País de Gales, 31 de março de 1990, a Federação Nacional Contra a Poll Tax, dirigida pelo Militant, organizou um ato em Londres, do qual participaram 250 mil pessoas, e outro em Glasgow, com 50 mil[10]. No fim de 1990 cerca de 18 milhões de pessoas estavam boicotando o imposto, que finalmente foi cancelado devido à reação do movimento de massas.

Porém, o Militant, preso em sua própria armadilha de associar a crise do capitalismo com a “transformação” dos partidos reformistas, não percebeu que a luta contra o Poll Tax estava ultrapassando os muros da legalidade burguesa e ameaçava os dez anos de repressão ao movimento de massas sob o comando de Thatcher. Assim, jogaram todas suas fichas exclusivamente na luta pelo fim do imposto, sem oferecer uma perspectiva estratégica de continuidade da luta contra o sistema capitalista, e não contra apenas um de seus males.

O ato de Londres foi um marco dessa armadilha de manutenção da legalidade, que punha em jogo sua manutenção no LP. O Militant previa a presença de 20 mil pessoas no ato de Londres em seus documentos internos[11], mas havia centenas de grupos independentes organizados pela juventude pobre dos bairros de periferia que foram ao ato conformando uma frente única contra o Poll Tax, que passava por fora do controle do Militant. Esses grupos enfrentaram a repressão policial, que tentava manter 250 mil pessoas em uma praça – Trafalgar Square – onde só cabiam 60 mil. A resistência transformou o ato em uma rebelião, conhecida como a Batalha de Trafalgar, que resultou em mais de 500 presos e um número não calculado de feridos, entre os quais 77 policiais.

A resposta do Militant não poderia ser pior. Do microfone, Tommy Sheridam, o principal dirigente da campanha na Escócia, atacava os ativistas que lutavam contra a polícia e a tropa de choque, reclamando que era um ato pacífico. No dia seguinte, Steve Nally, secretário da Federação Nacional Contra o Poll Tax, afirmou em um programa de TV que iria “fazer uma investigação e dar os nomes” dos supostos desordeiros. Ambos eram membros da direção do Militant.

Quando um partido coloca sua legalidade acima da luta de classes, chegando ao ponto de atacar e ameaçar denunciar os ativistas que lutavam contra a polícia – em atitude de autodefesa – porque havia feito um acordo prévio com as autoridades de realizar um ato pacífico, só uma conclusão é possível. Os anos de militância no Labour Party, e a eleição de Parlamentares e de Conselheiros em Liverpool, fizeram do Militant uma organização defensora e adaptada ao regime democrático burguês.

Após a Batalha de Trafalgar, o Militant, já em crise, perdeu seu papel de direção da campanha e esta ficou fragmentada, resultando no refluxo do movimento.

Rob Sewell, um ardoroso defensor de Ted Grant e atual dirigente da TMI, fez um balanço da ruptura do Militant[12], onde afirma que a campanha contra o poll Tax foi uma grande vitória, mas “havia sérios problemas começando a se desenvolver na tendência. Nosso trabalho na campanha contra o Poll Tax punha uma enorme pressão sobre os camaradas, principalmente nas regionais, e a carga, que aumentava, caia sobre cada vez menos ombros. Nós estávamos começando a ser vítimas das limitações da política de ‘eixo único’ e o trabalho estava cada vez mais desequilibrado. Isto teve consequências muito negativas”.

Isto é, o Militant caia vítima de uma política economicista, cujo eixo único era a luta contra o Poll Tax. Para Sewell, “era necessário explicar aos camaradas as limitações da campanha e a necessidade de uma perspectiva planejada de como a Tendência iria se desenvolver, não apenas hoje, mas também amanhã e depois de amanhã”.

Porém, Sewell falha completamente ao procurar as causas desse problema. Sua única resposta foi a necessidade de educação teórica dos novos quadros dirigentes. Mas a educação teórica não pode ser abstrata, principalmente em meio ao turbilhão de uma campanha que arrastava o partido e exigia respostas políticas e programáticas para enfrentar os novos desafios.

Ao invés de tentar entender os erros políticos eventualmente cometidos por seu partido e as limitações impostas por sua estratégia de entrismo, para então desenvolver um programa que superasse os erros e limitações, Sewell preferiu acusar alguns militantes de cair em uma embriaguez pelo sucesso alcançado: “O problema foi que nossas vitórias na campanha contra o Poll Tax subiram às cabeças de alguns camaradas. Para usar uma frase de Stalin, eles ficaram ‘tontos com o sucesso’”.

O principal alvo de suas críticas foi Peter Taaffe, o secretário geral da organização e atualmente o principal dirigente do Socialist Party (seção do CIO na Inglaterra). Para Sewell, ele “ficou obcecado com sua própria importância. Ele até revelou privadamente que o destino da revolução britânica estava inteiramente sobre seus ombros!” Frases desse tipo são desenvolvidas em vários parágrafos, para explicar que a crise do Militant seria resultado de uma disputa pelo poder e não das enormes pressões sofridas – e das respostas políticas erradas dadas contra essa pressão – por estarem fazendo entrismo em um partido reformista, capitulando à sua direção, em um momento em que ela e a grande maioria de sua bancada parlamentar eram contrárias à campanha contra o Poll Tax.

Porém, o próprio Rob Sewell admite que a única estratégia de seu setor era se manter no LP, ao afirmar:

Isto alienou de forma crescente outros setores da esquerda e trabalhadores comuns fieis ao LP. Isto não era preocupante para o grupo ao redor de Peter Taaffe. Eles acreditavam seriamente que nós poderíamos de alguma forma ignorar o Labour Party. Que nós poderíamos fazer tudo isso por conta própria.”[13]

Ante um processo intenso de mobilizações que poderia levar à derrubada de Thatcher pelo movimento de massas e abrir o caminho a uma situação revolucionária no país, a política dos precursores da TMI era de não enfrentar a direção do LP, enquanto esta trabalhava para derrotar a campanha. O governo conservador teve que ceder, mas nove meses depois a situação foi canalizada para a via eleitoral com a renúncia de Thatcher, pressionada pelo seu próprio partido, em um processo que foi afinal controlado pela burguesia, com a colaboração plena do LP.

A TMI

O fim do Militant foi provocado pela derrota de sua política frente às oportunidades abertas pelo movimento de massas na campanha do Poll Tax. Ao negar seus erros e explicar tudo como uma disputa pessoal pelo poder no partido, que sem dúvida existiu, os dirigentes da minoria[14] basearam sua nova organização internacional, a Tendência Marxista Internacional, nas mesmas concepções e, portanto, nos mesmos erros que levaram à destruição do Militant.

No entanto, a maioria do Militant decidiu sair do Labour Party por questões táticas, sem mudar sua estratégia política. A seção brasileira do CIO, a LSR, por exemplo, está no PSOL há vários anos.  Na Inglaterra, o Socialist Party (Partido Socialista), embora fora do Labour Party, afirma que o “caminho para o socialismo” está aberto com a eleição do reformista Jeremy Corbyn para a liderança do LP. Sua estratégia é apoiar os candidatos do LP nas próximas eleições gerais, em 2020, ou em eleições antecipadas, para que Jeremy Corbyn se torne primeiro ministro. Um futuro artigo sobre a trajetória do CIO será publicado no especial de comemoração dos 80 anos da IV Internacional.

O programa da TMI[15], escrito por Ted Grant em 2004, propõe-se a seguinte pergunta: “Como então a Internacional será construída?

Nós dissemos muitas vezes que na Grã-Bretanha o movimento somente será construído com base na realidade. Isto se aplica com pelo menos a mesma força para a questão da Internacional.

E continua explicando, em detalhes, como é de seu feitio, o futuro da construção da Internacional. Tomemos um parágrafo de seu longo texto:

Sob as marteladas da realidade, o desenvolvimento de agrupamentos centristas de massas nos partidos socialdemocratas e stalinistas é inevitável. Rupturas de massas dessas correntes estarão na ordem do dia nas próximas duas décadas. Acontecimentos na Rússia podem transformar a situação internacionalmente. Similarmente, nos Estados Unidos e em outros países industriais do ocidente. O desenvolvimento dos agrupamentos centristas de massas com muitos trabalhadores procurando por uma direção revolucionária será um meio favorável ou uma estufa para a recepção de ideias marxistas. Nós precisamos tentar e alcançar estas pessoas internacionalmente com as ideias e métodos de Trotsky.[16]

O início deste texto afirma que muitos caracterizavam Ted Grant como objetivista. O parágrafo acima mostra por que. Ele é uma repetição de suas ideias sobre o desenvolvimento do Labour Party, sob as marteladas da realidade, agora elevadas à escala internacional.

A realidade vai se encarregar de tudo, inclusive da construção do partido revolucionário. Suas marteladas vão gerar as massas “desenvolvidas dentro dessas organizações” que acudirão para o partido revolucionário para ouvir suas ideias marxistas. A tarefa do partido revolucionário é “adubar” estas massas, como em uma estufa, esperando que elas cresçam. Mas, para cuidar da estufa, segundo Grant, é preciso estar dentro das organizações stalinistas e socialdemocratas, desenvolvendo boas relações com estes traidores abjetos e comportando-se lealmente frente a todas as traições que esses partidos cometem, para não correr o risco de ser expulsos.

É verdade que em situações revolucionárias sempre há um desprendimento das massas de suas direções tradicionais, pois sem isso nenhuma revolução seria possível. Também é verdade que é preciso aproveitar as oportunidades que as marteladas da realidade nos oferecem. A questão, no entanto, é com que política nos aproximamos das massas, pois sem a denúncia permanente – combinada com exigências – das direções reformistas é impossível construir o partido revolucionário. Em geral, apenas uma minoria das massas está organizada nos partidos reformistas. Elas seguem sua política pela influência que estas organizações adquiriram, e votam nesses partidos, mas em geral estão fora deles. Estão em sindicatos, em associações de bairros, em ocupações de terras e de casas, etc. É uma obrigação do partido revolucionário militar nessas organizações de massas, para estar junto a elas e disputá-las permanentemente apresentando nossa política revolucionária contra a política dos dirigentes traidores. Mas não se pode confundir estas organizações sindicais e democráticas de frente única, onde diferentes correntes políticas atuam, com os partidos reformistas, controlados com mão de ferro pela burocracia sindical ou pela bancada parlamentar e, no caso de partidos nacionalistas de massas, pela burguesia. É um crime político não estar nas organizações de massas de frente única, mas é uma questão tática, e sempre de curta duração, como nos ensinaram Lenin e Trotsky, entrar em partidos reformistas para ganhar uma parte de sua vanguarda mais ativa.

Mas qualquer tática de entrismo só pode ser vitoriosa a partir da existência de um partido revolucionário consolidado, mesmo que pequeno, com total independência e conspirativo. O entrismo é uma conspiração dos revolucionários contra a direção dos partidos reformistas, visando tirar deles seu setor mais avançado e destruí-los. Não é um acordo de cavalheiros de convivência pacífica no interior do partido reformista.

A TMI faz o contrário disto. E, para justificar sua posição, afirmam[17] que Lenin aconselhou os comunistas ingleses a entrarem no Labour Party. O que não é dito é que aquele conselho era para um curto período durante as eleições gerais na Inglaterra em 1920. E, acima de tudo, que havia uma condição de princípio da qual Lenin não abria mão: “O Partido Comunista só pode afiliar-se ao LP sob a condição de manter toda sua liberdade de criticar aquele partido e de conduzir sua própria propaganda[18].

Quanto a isso, Lenin é enfático:

Deve-se levar em conta que o LP inglês está em uma posição especial: é um tipo de partido bem original ou, pelo menos, não é um partido no sentido comum do termo. É composto pelos membros de todos os sindicatos, com quatro milhões de filiados, e permite uma liberdade relativa a todos os partidos políticos afiliados. Inclui, então, a imensa maioria dos trabalhadores ingleses que seguem a direção dos piores elementos burgueses, os social-traidores, que são ainda piores que Scheidemann, Noske e gente desse tipo. Ao mesmo tempo, no entanto, o LP permite que o Partido Socialista britânico fique em suas fileiras, tenha seus próprios jornais, nos quais membros do próprio LP podem livremente e abertamente declarar que os líderes do partido são social-traidores”.[19]

Mas a TMI lembrou-se apenas do conselho de entrar no LP, e de forma permanente…

O confronto da TMI com a realidade

No parágrafo citado acima, Ted Grant afirma que “rupturas de massas dessas correntes [stalinistas e socialdemocratas] estarão na ordem do dia nas próximas duas décadas. Acontecimentos na Rússia podem transformar a situação internacionalmente”.

Apesar da data de publicação do texto na internet ser de 2004, fica claro que foi escrito – ao menos esta parte – antes dos grandes acontecimentos sintetizados pela derrubada do Muro de Berlim em 1989. Isto é, antes dos processos revolucionários que se deram após a restauração capitalista da ex-URSS e do Leste Europeu, que culminaram com a dos governos dos partidos comunistas que estiveram à frente destas restaurações e com o fim do stalinismo como aparato contrarrevolucionário mundial centralizado pelo Kremlin.

Os acontecimentos na Rússia realmente transformaram a situação internacionalmente. Ocorreu uma ruptura espetacular das massas com o aparato stalinista. Os partidos comunistas europeus foram praticamente varridos do mapa político. Alguns deixaram de existir, como o PC italiano, o maior partido comunista da Europa ocidental.

Porém, não se desenvolveram “agrupamentos centristas de massas” a partir da destruição dos partidos comunistas. As massas operárias lutaram como nunca, mas a crise de direção revolucionária cobrou seu preço. Foram lutas descoordenadas, sem uma direção que pudesse centralizar os milhões de trabalhadores que rompiam politicamente com o stalinismo. A falta de uma Internacional, da IV Internacional reconstruída como continuidade da III Internacional, foi fatal do ponto de vista de reorganização revolucionária das massas. Mas estas não tinham mais um aparato mundial contrarrevolucionário que, em nome da convivência pacífica com o imperialismo, traísse e derrotasse suas lutas.

Ao adotar a estratégia de acompanhar as direções reformistas, a TMI foi parte daqueles que, embora se reivindicassem trotskistas, contribuíram (como o SU) para que não houvesse uma IV Internacional e nem partidos revolucionários com uma força maior para poder intervir nesses processos e aproveitar a colossal crise do stalinismo e da socialdemocracia.

A crise econômica mundial iniciada em 2008 mostrou isso com clareza. Surgiram processos revolucionários em várias partes do mundo, além de mobilizações de massas contra a guerra social promovida pelo capitalismo contra a classe trabalhadora. Neste processo, as massas europeias também se desprenderam das organizações socialdemocratas, mas não na forma de agrupamentos centristas de massas oriundos da transformação das velhas organizações reformistas.

Existem hoje mais e melhores condições de construir o partido mundial da revolução. Mas não dentro das organizações reformistas tradicionais, que são cascas vazias de conteúdo. Tampouco dentro dos partidos neorreformistas, que surgiram no vácuo deixado pelo fim do poderio eleitoral da socialdemocracia. O neorreformismo não surgiu como corrente centrista de trabalhadores saídos dos aparatos reformistas, mas sim como novos aparatos eleitorais reformistas, sem base operária, defensores do capitalismo e da União Europeia, que rapidamente perdem o prestígio adquirido perante as massas por suas traições descaradas quando são eleitos. O exemplo mais acabado é o Syriza, mas todo o “Partido da Esquerda Europeia”, esta reunião de pequenos aparatos neorreformistas europeus, segue pelo mesmo caminho. Basta ver o que faz o Bloco de Esquerda de Portugal, com seu apoio ao governo da “Geringonça” que, segundo uma deputada do Bloco, é geringonça, mas funciona…

Apesar de não terem surgido correntes centristas de massas trabalhadoras em nenhum desses processos recentes, os partidos da TMI mantêm, no entanto, a mesma política de entrismo permanente nas organizações reformistas esperando pelas marteladas da realidade. Cabe lembrar, mais uma vez, que o entrismo, como tática de curta duração, continua inteiramente válido, mas com a condição imprescindível de que existam setores centristas girando à esquerda nas organizações reformistas.

As seções da TMI

Uma breve pesquisa na internet[20] revela este fato. Entre as 34 organizações declaradas como seções da TMI, vinte fazem entrismo em algum partido de massas. Entre estes, chamam a atenção na América Latina o MAS boliviano, a FMLN de El Salvador, o PSUV venezuelano. No Brasil, sua pequena seção ficou anos no PT e recentemente passou a fazer parte do PSOL, um partido eleitoral neorreformista.

Isto é, na América Latina a TMI estava, no caso do Brasil, e continua, nos outros casos, militando em partidos atualmente no poder. O MAS, com Evo Morales, na Bolívia; a FMLN, com Salvador Sánchez Cerén, em El Salvador; o PSUV, com Maduro, na Venezuela. Todos eles aplicam os planos neoliberais e políticas antioperárias receitados pelo imperialismo através de suas agências, como o Banco Mundial, o FMI e a ONU, para fazer com que os trabalhadores paguem pela crise econômica que atravessa o mundo. E a TMI comporta-se como um aliado fiel, dando conselhos sobre como estes governos burgueses poderiam adotar políticas “socialistas”, como é o caso da Venezuela. Ou seja, repete a política traidora de Milerrand na França em 1899, dos socialdemocratas desde a I Guerra Mundial e dos stalinistas pós 1935 com a orientação da Frente Popular.

O entrismo em partidos nacionalistas ou populistas burgueses torna-se, em alguns países, uma política delirante. No Canadá, a seção da TMI faz entrismo no New Democratic Party (Novo Partido Democrático), um partido pró-imperialista que já apoiou o primeiro ministro Pierre Trudeau (pai do atual primeiro ministro). No Paquistão, militava no Partido Popular do Paquistão (PPP), comandado pela família Bhutto, até que perdeu a maioria de sua seção em 2015. Mas no Paquistão essa política teve consequência práticas bem mais graves.

Em 2007, no Paquistão, a TMI não apoiou a luta pela derrubada da ditadura de Pervez Musharraf, que havia dado um golpe em 1999, e pretendia continuar no poder contando com a anuência da Suprema Corte. Em 9 de março de 2007, Musharraf removeu o Chefe de Justiça Muhammad Chaudhry, sob a alegação de corrupção, para garantir sua continuidade. Isso levou a um movimento de advogados, que lançaram uma campanha chamada Ativismo Judicial pela manutenção do Chefe de Justiça. Mas o movimento logo ultrapassou o objetivo inicial e enormes manifestações contra o ditador estenderam-se pelo país.

No entanto, a TMI, através de Alan Woods, argumentou que o movimento estava sem direção, pois os advogados eram parte da classe média, e criticou os partidos de oposição burguesa por afirmarem que, se o ditador não renunciasse, ele seria derrubado do poder. Segundo Woods estas eram apenas palavras ao vento e o movimento iria acabar em um beco sem saída.

Ao criticar a direção da campanha sem enxergar a dinâmica que o movimento estava adquirindo, Woods capitulou completamente a esta direção e, em vez de apesentar um programa dirigido aos trabalhadores para superá-la e colocar o movimento sob a direção da classe, defendeu generalidades como a necessidade do socialismo e da nacionalização da indústria sem ligá-las à situação concreta. Para a TMI, o movimento dos advogados, sem os trabalhadores, estava fadado ao fracasso, mas nada fez para levar aquele movimento muito progressista de derrubada da ditadura à vitória. Ao contrário, sua política apontava para a derrota.

A seção paquistanesa da TMI, que fazia entrismo há vários anos no PPP, dizia que o desfecho do movimento poderia ser a vitória eleitoral daquele partido burguês e caracterizava isso como positivo, pois iria aprofundar a crise e levar à revolução. Para a TMI, a canalização de um movimento pela derrubada da ditadura para a via morta da democracia burguesa era uma grande vitória. A adaptação à democracia burguesa não se restringia à Inglaterra, já havia se estendido a todas as seções daquela corrente. Em fevereiro de 2008 ocorreram eleições gerais que resultaram, de fato, na vitória do PPP, apenas para que este se tornasse o novo algoz do povo paquistanês.

O abandono da defesa da ditadura do proletariado

O caso de entrismo no PSUV da Venezuela é emblemático, pois a TMI, através de Alan Woods – hoje seu principal dirigente –, alcançou um papel político importante de “conselheiro informal” de Chávez e é uma das maiores defensoras do “socialismo do século 21”. Em seu último documento mundial[21] a TMI afirma que não pode “apoiar as políticas do governo [Maduro], que levam diretamente ao desastre e à derrota da revolução bolivariana”. Esta declaração contra a política de Maduro se dá no marco de manter o regime bolivariano inaugurado por Chávez, isto é, de manter um regime burguês. Além disso, embora diga não concordar com a política desenvolvida por Maduro, apoiou a repressão ao povo venezuelano sob o pretexto de luta contra a oposição burguesa.  Tanto é assim que, em seguida, joga suas esperanças em Eduardo Saman, “um ex-ministro que se mostrou um grande defensor do controle operário e oponente do grande capital e das multinacionais”.

Em poucas linhas, Woods comete um enorme número de erros graves. Mesmo nos tempos do “governo revolucionário” de Chávez nunca houve controle operário, mas sim controle da burocracia sindical chavista sobre os operários que, de alguma forma, resistiam às imposições do governo. Por exemplo, há vários anos não há eleições sindicais no sindicato dos trabalhadores da PDVSA, a estatal de petróleo da Venezuela, pois a burocracia chavista corre o risco de perder. O mesmo acontece na empresa metalúrgica estatizada Sidor. Além disso, não há controle operário sem a auto-organização dos operários em seus conselhos, construídos por eles próprios, e não outorgados pelo ministro de um estado capitalista.

Por fim, é necessário questionar o que a TMI entende por revolução, quando fala da revolução bolivariana. Em um longo artigo[22], Alan Woods afirma que “uma transformação pacífica da sociedade seria inteiramente possível se os dirigentes reformistas e sindicais usassem o poder colossal em suas mãos para mudar a sociedade… Nós nunca negamos a possibilidade de violência e guerra civil certa condições… Nós deixamos bem claro que somos favoráveis a uma transformação pacífica da sociedade, que estamos prontos para lutar por tal transformação, mas, ao mesmo tempo, nós avisamos que a classe dominante irá lutar para defender seu poder e privilégios”.

Convenhamos que esta é uma forma bastante ambígua de defender a necessidade de uma revolução socialista, ou uma transformação da sociedade, como dizem. Em primeiro lugar porque o reformismo e a burocracia sindical nunca vão usar o poder que têm nas mãos para dirigir uma revolução. O contrário é verdadeiro: vão usar este poder para desviar – ou esmagar, se necessário, como na revolução alemã de 1918 – qualquer ação revolucionária da classe operária e seus aliados[23]. O “reformismo do século 21” é, como foi no século passado, contrarrevolucionário. Jogar ilusões em reformistas e na burocracia sindical usando um “se” não é uma atitude marxista. Em segundo lugar, se a burguesia irá “lutar” – uma maneira muito suave para designar a guerra civil que a burguesia é capaz de fazer – por seu poder, porque colocar esta questão de uma forma condicional?

Alan Woods cita Marx, Engels, Lenin, Trotsky para defender sua tese de revolução pacífica. Lenin aventou a possibilidade, por um período curtíssimo, entre fevereiro e julho de 1917, da transferência do poder do governo provisório aos sovietes. Mas se tratava exatamente disso: transferência do poder, não da revolução socialista.

A discussão não é sobre essas possibilidades táticas que a luta de classes ofereceu e sempre vai oferecer aos revolucionários, mas de abordagem teórica do problema. Assim, os mesmos que Woods clama para defendê-lo sempre analisaram teoricamente a revolução como um episódio violento, pois nenhuma classe social abandona seu poder sem uma resistência feroz. E, em todas as revoluções reais que aconteceram – não as imaginadas pela TMI – a violência sempre esteve presente, tanto do lado revolucionário quanto do contrarrevolucionário. Como dizia Engels:

Esses cavalheiros já viram uma revolução na vida? Uma revolução é certamente a coisa mais autoritária que existe; é o ato pelo qual uma parte da população impõe sua vontade sobre a outra parte por meio de rifles, baionetas e canhões – meios autoritários, como nenhum outro; e se o lado vitorioso não quiser ter lutado em vão, precisa manter esta regra por meio do terror que suas armas inspiram nos reacionários.[24]

Voltando à Venezuela, podemos entender que, quando Woods afirma que “…Chávez, de maneira confusa, buscava e era empurrado em direção à mudança revolucionária[25] ele está se referindo à transformação pacífica da sociedade em direção ao socialismo. Como isso se daria?

Porém, é necessário aprofundar um pouco mais este raciocínio de transformação pacífica da sociedade, pelo menos para entender do se trata este tipo de transformação. Em seu texto Para Onde Vai a Revolução Venezuelana[26] Woods afirma que é necessário nacionalizar as grandes empresas, os bancos e os latifundiários para aprofundar a revolução e iguala as nacionalizações à “democracia do povo trabalhador, baseada na propriedade coletiva da terra, dos bancos e da indústria”.

Isto é, a transferência da propriedade burguesa para as mãos do estado burguês (as nacionalizações) é identificada, do ponto de vista econômico, com um sistema socialista (propriedade coletiva dos meios de produção). Esta interpretação é corroborada pelo historiador Robert J. Alexander, quando comenta sobre o Militant. Segundo ele, “eles confiam em que, uma vez que todos os meios de produção e distribuição sejam nacionalizados, não haveria mais o risco de que partidos como os Tories [o Partido Conservador da Inglaterra] sejam capazes de convencer os trabalhadores que o capitalismo deveria ser reestabelecido[27].

Se o capitalismo não pode ser reestabelecido por causa da nacionalização dos meios de produção e distribuição, então a Grã-Bretanha, no caso, já estaria em um sistema socialista, mas em um Estado capitalista!

Só há uma conclusão possível. É possível chegar ao socialismo pela via pacífica através da nacionalização dos meios de produção e de distribuição, sem que seja necessária uma revolução social que exproprie a burguesia e sem destruir o estado capitalista. Tudo isso de maneira democrática e, quem sabe, através de eleições, como na Grã-Bretanha, quando o Labour Party for “transformado” e sua ala esquerda estiver no comando. Para a TMI, esta hora já tem data marcada. Afinal, a “revolução de Jeremy Corbyn”, o atual líder do LP e tido como socialista, está a todo vapor e em 2020 haverá eleições gerais no país…

Em um país como a Venezuela, que tinha à sua frente um socialista confuso, mas revolucionário, bastava dar-lhe bons conselhos sobre a nacionalização da indústria, dos bancos e da terra para aprofundar a revolução e, assim, chegar ao socialismo. Maduro estragou esta utopia, mas é possível voltar às origens do chavismo apoiando Eduardo Saman.

Como vemos, este é um abandono total da teoria marxista de Estado, embora a TMI nunca admita esse abandono. No entanto, ela é franca em relação a mudar a teoria.

No texto O Papel do Estado e a Socialdemocracia, escrito para prefaciar uma edição do Estado e Revolução, de Lenin, Alan Woods afirma que:

Ao descrever o estado transicional entre capitalismo e socialismo, Marx falou da ‘ditadura do proletariado’. Este termo leva a uma grande confusão. Hoje em dia, a palavra ditadura tem uma conotação desconhecida para Marx… Para Marx, a palavra ditadura veio da república romana, onde significava uma situação que, em tempo de guerra, as regras normais eram deixadas de lado por um período temporário. A ideia de uma ditadura totalitária como a de Stalin na Rússia, onde o estado oprimia a classe operária para defender os interesses de uma casta privilegiada de burocratas, teria horrorizado Marx. Na realidade, a ‘ditadura do proletariado’ de Marx é meramente outro termo para o domínio político da classe operária ou uma democracia operária.”[28]

Alan Woods precisa realizar um jogo de palavras para renegar, de forma elegante, a ditadura do proletariado. É evidente que Marx não poderia imaginar que um estado operário (uma ditadura do proletariado), como a Rússia sob o comando de Stalin, poderia degenerar a ponto de se transformar em um estado totalitário e que teria se oposto a tal monstruosidade. Mas não era a isso que Marx, quando analisou a Comuna de Paris, Engels, em vários de seus escritos, e Lenin em o Estado e Revolução se referiam. Eles defendiam o estabelecimento de uma ditadura do proletariado, nos moldes da Comuna de Paris (Lenin falava de um estado-comuna) contra a ditadura da burguesia, cuja conotação Marx conhecia muito bem. O problema de Alan Woods é que a ditadura do proletariado só pode ser instalada após a destruição do estado burguês através de uma revolução violenta[29].

E defendiam a democracia operária, mas sem nenhuma democracia para a burguesia. A ditadura do proletariado é um estado mil vezes mais democrático do que a mais democrática das democracias eleitorais burguesas, porque é a democracia da enorme maioria da população trabalhadora contra a enorme minoria da ex-classe dominante. Parafraseando Marx, só come quem trabalha. A ditadura do proletariado é uma força armada da maioria da população trabalhadora para esmagar a reação burguesa. Mas ditadura do proletariado e democracia operária não são sinônimos, como Alan Woods quer nos fazer crer.

Se Marx, Engels e Lenin não viveram o período da degeneração do estado operário pela burocracia stalinista, Trotsky viveu. Mas a conclusão à qual chegou é oposta à da TMI. Ele não jogou o bebê junto com a água do banho. Trotsky defendeu até sua morte – violenta – a ditadura do proletariado, mesmo vendo toda sua família e companheiros da Oposição e Esquerda assassinados pelos agentes de Stalin. Trotsky, como também Marx ou Engels, não ficavam horrorizados com a violência. Contra o Estado operário degenerado, ele defendia uma revolução política para derrubar sua superestrutura burocrática e substitui-la por uma superestrutura baseada nos sovietes regenerados após a expulsão da burocracia.

Conclusão

O abandono da defesa da ditadura do proletariado tem uma importância concreta para os partidos marxistas revolucionários. Não se trata de uma discussão acadêmica, mas da própria natureza de tais organizações.

A primeira lição do materialismo histórico é que as marteladas da realidade – para usar uma expressão de Ted Grant – transformam a consciência, e não o contrário. A segunda é que essas transformações acontecem através do tempo, isto é, são uma função da atividade concreta do partido, ou do indivíduo, na luta de classes.

E, como essas transformações são objetivas, isto é, independem da vontade do sujeito envolvido, não importa o grau de conhecimento marxista que esse sujeito, individual ou coletivo, tenha. Isso não quer dizer que o conhecimento marxista seja inútil no confronto com a realidade. Ao contrário, ele é fundamental para sua transformação. Porém, não é o conhecimento em si que a transforma, mas sim sua aplicação prática através da classe social objetivamente revolucionária, o proletariado, e de seu setor conscientemente revolucionário, o partido marxista.

É a prática política de adaptação aos aparatos reformistas e à democracia burguesa que leva a TMI ao abandono da defesa da ditadura do proletariado. O conhecimento, agora dubiamente marxista, só serve para justificar este abandono.

Tomemos como exemplo o Secretariado Unificado da IV Internacional (SU), que sempre foi alvo de uma crítica avassaladora por parte de Ted Grant.

Tanto o SU quanto a TMI têm como concepção de construção partidária o entrismo sui generis pablista. O SU com seu entrismo profundo nos partidos stalinistas europeus. A TMI com o entrismo permanente em partidos reformistas de massas, como o Labour Party inglês. Sejamos justos, a TMI foi muito mais coerente no decorrer dos anos, enquanto o SU viveu de ziguezagues, pressionado pelo impressionismo pequeno-burguês de Mandel.

No fim da década de 70 o SU começou sua adaptação à democracia burguesa, ao capitular ao eurocomunismo[30], isto é, aos partidos stalinistas europeus já completamente integrados aos processos eleitorais e com bancadas enormes nos parlamentos europeus. Porém, ainda defendia a ditadura do proletariado, embora com uma visão “pacifista”, enxergando apenas as virtudes da democracia operária e esquecendo-se da necessidade de implantar “o terror que as armas inspiram nos reacionários”.

Após o fim do stalinismo como aparato mundial da contrarrevolução, simbolizado pela queda do Muro de Berlim, o SU começa a se dedicar a construir os partidos anticapitalistas, esta reunião de revolucionários e reformistas “honestos”. Começam a militar e a se dissolver nesses partidos, como o NPA francês, o Bloco de Esquerda de Portugal, o Podemos da Espanha, o Die Linke alemão. Na Grécia, embora sua seção se recusasse a entrar no Syriza, a direção do SU apoiou o DEA, que fazia entrismo no Syriza.

Em 2006, seu principal dirigente, Daniel Bensaïd escreveu:

“A questão do governo dos trabalhadores inevitavelmente nos trouxe de volta a questão da ditadura do proletariado. Uma conferência da LCR decidiu por uma maioria de mais de dois terços remover a menção à ditadura do proletariado de seus estatutos. Isso foi correto. Hoje, o termo ditadura lembra muito mais as ditaduras militares ou burocráticas do século XX do que a venerável instituição romana de poderes temporários de emergência devidamente mandatada pelo Senado. Como Marx viu a Comuna de Paris como ‘a forma política finalmente descoberta’ da ditadura do proletariado, seríamos melhor compreendidos se invocássemos a Comuna, os Sovietes, conselhos ou autogestão, em vez de nos agarrarmos a um fetiche verbal que a história tornou uma fonte de confusão.”[31]

A semelhança com a justificativa de Alan Woods é total. Bensaïd também recorre a um jogo de palavras para se desfazer da ditadura do proletariado. Não se trata da forma com que vamos denominá-la em nossos textos. Podemos utilizar o termo governo dos Sovietes, governo dos trabalhadores, conselhos populares em nossos textos públicos, mas para explicar o conteúdo do conceito ditadura do proletariado, não para removê-la de nossos estatutos e programas.

Como vemos, a trajetória do SU de adaptação à democracia burguesa levou-o à construção de partidos neorreformistas e ao abandono da ditadura do proletariado. As seções da TMI militam nesses mesmos partidos. No Podemos, no Die Linke, no Syriza (até a traição de Tsipras, e com o rompimento da seção), no La France Insoumise, de Melenchón, onde um setor do SU que rompeu com o NPA também milita, etc.

Portanto, não é surpresa que estas duas correntes, com concepções políticas tão diferentes, mas com práticas tão parecidas, abandonem a defesa da ditadura do proletariado. E, como dissemos no início, isso tem consequências concretas. Tal como o SU, a TMI hoje é uma corrente totalmente adaptada à democracia burguesa e de práticas reformistas.

Como dizia Trotsky, “ao abandonar a ideia de uma ditadura do proletariado, Kautsky transforma a questão da conquista do poder pelo proletariado em uma questão de ganhar a maioria de votos pelo partido socialdemocrata em uma das campanhas eleitorais do futuro”[32]. É exatamente esta a concepção de conquista do poder da TMI atualmente, como pudemos ver no caso da Grã-Bretanha, com Corbyn, e da Venezuela, com Chávez.

A LIT-QI, ao contrário, continua acreditando que “o homem que repudia a ditadura do proletariado repudia a revolução socialista, e cava a sepultura do socialismo”[33].

[1] Segundo Bill Hunter, em Lifelong Apprenticeship, ele foi expulso pelo seu núcleo por inatividade. A direção nacional do RCP revogou a expulsão, mas ele nunca voltaria ao partido.

[2] Ver José Welmowicki, A Luta pela reconstrução da IV Internacional e o Papel do SU – Parte 1.

[3] Bill Hunter, Lifelong Apprenticeship, Porcupine Press, pag, 322

[4] Idem, pag. 321

[5] Ocorreu uma ruptura na RSL neste período, que seria a predecessora do IMG, seção do SU na Inglaterra.

[6] Robert J. Alexander, International Trotskyism, 1929-1985, Duke University Press, p. 489

[7] Segundo Jon Nordheimer, jornalista do New York Times. O conselheiro municipal é similar a um vereador, mas, nas cidades onde não há a figura do prefeito (a maioria das cidades menores), o Conselho Municipal assume as funções executivas. Era o caso de Liverpool na época.

[8] Bill Hunter, 1985: The Chickens Came Home to Roost, The Workers Press, 6 de setembro de 1986, p. 5.

[9] Conforme John Callaghan, British Trotskyism; Theory and Practice, Basil Blackwell, London, 1984, page 185

[10] Rob Sewell, How The militant Was Built – And How It Was Destroyed, acessado em 27/06/2018.

[11] Entrevista com Martin Ralph

[12] Rob Sewell, How The militant Was Built – And How It Was Destroyed, acessado em 27/06/2018. Todas as citações relativas ao balanço do Militant feito por Rob Sewell pertencem a este documento.

[13] Idem

[14] Entre eles estavam Ted Grant, Alan Woods e Rob Sewell.

[15] Ted Grant, Program of the International, acessado em 28/06/2018

[16] Idem

[17] A Brief History of the International Marxist Tendency, acessado em 28/06/2018

[18] Lenin, Discurso no II Congresso da III Internacional, 1920, em Lenin and Britain, p. 70.

[19] Idem, p. 74.

[20] Wikipedia, International Marxist Tendency, acessado em 29/06/2018.

[21] World Perspectives: 2018 – A Year of Capitalist Crisis, acessado em 30/06/2018.

[22]  Alan Woods, Marxism and the State, acessado em 30/06/2018

[23] Aqui não levamos em conta a possibilidade excepcional levantada por Trotsky no Programa de Transição, pois não é disso que o texto de Alan Woods trata.

[24] Engels, On Authority, acessado em 02/07/2018.

[25] World Perspectives: 2018 – A Year of Capitalist Crisis, acessado em 30/06/2018.

[26] Alan Woods, Where Is the Venezuelan Revolution Going?, acessado em 30/06/2018.

[27] Robert J. Alexander, International Trotskyism, 1929-1985, Duke University Press, p. 491

[28] Alan Woods, The Role of The State and Social Democracy, acessado em 30/06/2018.

[29] Para os marxistas, o conceito de revolução violenta significa a tomada revolucionária do poder contra o poder da classe dominante exploradora pelo uso da força e contra sua vontade, inclusive enfrentando-a em uma guerra civil, se necessário. A TMI pinta a violência revolucionária como uma caricatura de “sangue jorrando” e de “guerra civil” para justificar sua capitulação.

[30] Ver José Welmowicki, A Luta pela reconstrução da IV Internacional e o Papel do SU – Parte 2

[31] Daniel Bensaïd, On the return of the politic-strategic question, acesso em 30/06/2018

[32] Trotsky, Terrorism and Communism, capítulo 2.

[33] Idem