COMPARTILHAR

Nesse ano, comemoramos 80 anos da fundação da IV. Vamos fazer uma série especial sobre a IV em nosso site, que inauguramos agora, com a primeira parte da matéria de abertura.

Por Eduardo Almeida

I- IV Internacional: as condições de sua fundação

Há oitenta anos, em 3 setembro de 1938, foi fundada em Paris a IV Internacional. Hoje, a tarefa de sua reconstrução é mais necessária que nunca. A polarização crescente da situação política mundial e a crise do stalinismo e das outras organizações reformistas abrem espaços que exigem a construção de partidos revolucionários e da IV Internacional para avançar. Caso isso não se dê, novas derrotas dos processos revolucionários virão.

As condições que envolveram o congresso de fundação da IV mostravam o momento político vivido. O ascenso do nazismo e do stalinismo impunham uma situação de retrocesso geral. A feroz perseguição política do stalinismo levou a medidas de segurança extremadas. Trotsky não esteve presente e o congresso durou só um dia. Alguns dias antes tinha sido sequestrado e morto pela polícia secreta de Stalin o secretário geral da IV e organizador do congresso- Rudolf Klement- que levava a proposta de estatutos.

Foram votados só alguns documentos: o Programa de Transição, um esboço de estatutos (informados oralmente, porque o texto original desapareceu com Klement), um manifesto contra a guerra, uma resolução sobre a juventude e algumas saudações.

A proposta da IV nasceu em 1933, depois que a Terceira Internacional respaldou a política desenvolvida pelo Partido Comunista alemão, que rejeitou a frente única com a socialdemocracia e facilitou a vitória de Hitler. Não foi sequer a enorme traição do stalinismo naquele momento que levou Trotsky à ruptura. Mas sim o fato de que perante essa traição não houve nenhuma reação na III, mostrando que a internacional estava burocratizada e morta para a revolução.

Nesse momento, Trotsky chegou à conclusão que era necessário fundar a IV Internacional. Essa era a única forma de preservar os princípios leninistas e estar preparados para o próximo ascenso revolucionário que, provavelmente, viria depois da Guerra Mundial que se aproximava.

A situação era muito difícil. Por um lado, o avanço rápido do nazismo. Por outro, o stalinismo desenvolvia uma política desastrosa com a III, ajudando a derrotar também os processos revolucionários na Espanha e na França. Além disso, desenvolvia um ataque brutal contra tudo o que restava da velha direção bolchevique. Com os processos de Moscou, sob acusações falsas, matou a maior parte da direção bolchevique que dirigiu a revolução russa.  Os seguidores de Trotsky morreram nos campos de concentração da URSS ou pela ação da polícia secreta stalinista que os perseguiam na Europa.

Trotsky teve de enfrentar resistência de seus próprios apoiadores para fundar a IV Internacional. No Programa de Transição responde: “Os céticos perguntam: mas chegou o momento de criar uma nova internacional? É impossível, dizem, criar uma Internacional “artificialmente”, “só grandes acontecimentos podem fazê-la surgir” etc. (…) A Quarta Internacional já surgiu de grandes acontecimentos: as maiores derrotas do proletariado na história”.

 “A causa dessas derrotas está na degeneração e na traição da antiga direção. A luta de classes não admite interrupção. Para a revolução, a Terceira Internacional, depois da segunda, morreu. Viva a IV Internacional!”

“É débil? Sim, suas filas não são numerosas, porque, todavia é jovem. Por agora há principalmente quadros. Mas esses quadros são a base do futuro”. “Fora desses quadros, não há no planeta uma só corrente revolucionária digna desse nome. Se nossa Internacional é débil numericamente, é forte por sua doutrina, seu programa, sua tradição, a têmpera incomparável de seus quadros”.

Menos de seis mil militantes integravam a IV em seu nascimento: EUA (2500 militantes), Bélgica (800), França (600), Polônia (350), Alemanha (200, dos quais 120 presos), Inglaterra (170), Tchecoslováquia (entre 150-200), Grécia (100), Brasil (50), Chile (100) Cuba (100), África do Sul (100), Canadá (75), Holanda (50), Austrália (50), Espanha (entre 10 e 30), México (150).

Mesmo nessas condições dificílimas, a fundação da IV foi um acerto. A III Internacional, naquele momento, havia sido completamente degenerada pelo stalinismo. O objetivo era estabelecer um fio de continuidade com a tradição marxista que se havia expressado na revolução russa e nos quatro primeiros congressos da III.

O Programa de Transição segue sendo até os dias de hoje a referência programática mais importante dos revolucionários socialistas. Sintetiza a compreensão do mundo e das tarefas dos revolucionários em uma nova situação, depois da burocratização da URSS.

Trotsky considerava a construção da IV Internacional a tarefa mais importante de sua vida: Continuo pensando que o trabalho em que estou empenhado, apesar do seu caráter extremamente insuficiente e fragmentário, é o mais importante da minha vida; mais do que o de 1917, o da guerra civil ou qualquer outro.

“Para expressar-me com maior clareza, diria o seguinte. Se eu não tivesse estado em Petrogrado em 1917, a revolução de Outubro ter-se-ia produzido de qualquer forma, com a condição de que Lênin estivesse presente na direção…”

Por isso, não posso dizer que o meu trabalho foi “indispensável”, nem sequer no período entre 1917 e 1921. Mas agora o meu trabalho é “indispensável” em todos os sentidos. Nesta afirmação não há a menor arrogância. A destruição das duas internacionais colocou um problema que nenhum dos seus dirigentes é capaz de resolver… Não resta ninguém senão eu mesmo para levar a cabo a missão de armar uma nova geração com o método revolucionário, sobre as cabeças dos dirigentes das internacionais: a Segunda e a Terceira.”

II- A destruição da IV

Mas Stalin também sabia da importância histórica de Trotsky. A 20 de agosto de 1940, um agente stalinista, Ramón Mercader, matou o velho revolucionário no México.

A IV Internacional, recém-fundada, sofreu uma perda brutal. A isso se juntou uma evolução muito difícil da realidade objetiva.

Trotsky tinha previsto a aproximação da segunda guerra mundial, e que a IV se massificaria com os processos revolucionários que a acompanhariam. Em sua mensagem à Conferência de fundação da IV, ele terminou assim: “Permitam-me terminar com uma previsão: durante os próximos dez anos o programa da Quarta Internacional se transformará no guia de milhões de pessoas e estes milhões de revolucionários saberão como dar a volta ao céu e a terra”.

O fim da segunda guerra mundial realmente gerou um grande ascenso revolucionário, com a derrota do nazismo, a libertação das colônias e a expropriação do capitalismo em vários países. Mas, ao contrário da previsão de Trotsky, foi o stalinismo que esteve na direção desses processos. O aparato stalinista ganhou uma dimensão internacional inédita, ao dirigir estados que cobriam um terço da humanidade.  E isso gerou expectativas para a vanguarda, em todo o mundo, nas direções stalinistas, e limitou o espaço político para o crescimento da IV Internacional.

Leia também:  Sobre o atentado às Torres Gêmeas

Isso ocorreu exatamente em um momento em que a IV tinha perdido seu principal dirigente. Esses são elementos que ajudam a entender a crise que veio depois. Mas não se pode ter uma compreensão determinista dessa crise. O que levou à destruição da IV foi que a nova direção, perante essa situação difícil, capitulou direta e abertamente ao stalinismo. A crise era quase inevitável, a destruição foi responsabilidade da nova direção da IV.

O Terceiro congresso da IV Internacional em 1951, sob a direção de Michel Pablo e Ernest Mandel, votou o documento de Pablo “Aonde Vamos”. Esse documento previa uma nova guerra mundial do imperialismo contra a URSS e que, em função da guerra, os estados operários dirigidos pelas burocracias stalinistas se tornariam aliados na mobilização revolucionária das massas. Os partidos estalinistas seriam as vanguardas das lutas por dezenas de anos, e a única alternativa para os revolucionários era fazer um “entrismo sui generis” nesses partidos. Essa tática entrista era distinta daquela proposta por Trotsky nos partidos socialdemocratas na década de 30, porque não se tratava de um período curto para combater as posições das direções socialdemocratas e ganhar um setor revolucionário para uma posterior ruptura. Era um “entrismo” para permanecer, para aconselhar os partidos comunistas até a luta pelo poder.

Assim, a IV renunciou à luta contra os aparatos reformistas e à construção de partidos revolucionários. Isso levou à sua destruição, que ocorreu em 1953 e, na verdade, nunca foi superada.

Naquele momento, houve uma possibilidade de reverter a destruição. Uma oposição internacional foi formada pelo SWP (maior partido trotsquista na época), o partido francês dirigido por Lambert, o inglês dirigido por Heally, e o argentino dirigido por Nahuel Moreno. Com essa base, seria possível assumir a luta pela reconstrução da IV. Mas o SWP que podia assumir essa tarefa, priorizou sua própria construção, com um desvio nacional trotsquista, e se abortou essa possibilidade.

Em 1963, a partir do reconhecimento de Cuba como um estado operário se deu a reunificação da maior parte das correntes trotsquistas. Daí se originou o chamado Secretariado Unificado da IV. No entanto, não se fez um balanço dos desvios anteriores, e a direção do SU permaneceu nas mãos de Mandel, com a mesma postura de capitulação às direções majoritárias do movimento.

Como afirmamos nas Teses de Fundação da LIT:

 “… cada grande acontecimento da luta de classes (principalmente cada grande vitória revolucionária de dimensão mundial) motivou, em algum setor de nosso movimento, uma tendência à adaptação a direção burocrática ou nacionalista desta vitória.”

Com isso, essas direções capitularam seguidamente a todo tipo de direções pequeno burguesas e reformistas do movimento de massas, como o maoísmo, o guevarismo guerrilheirista, o castrismo, o sandinismo, o MFA português. Assim se levou a IV de crise em crise, desaproveitando inúmeras oportunidades de reconstrução de nossa internacional.

Mais uma vez, o fator decisivo não foi a realidade objetiva desfavorável, ou mesmo as pressões dos aparatos. O determinante foi a resposta dada a essas pressões, foi a política das direções do SU de capitular as direções reformistas e nacionalistas burguesas do movimento de massas. Isso impediu a reconstrução da IV.

III-Bolchevismo (e trotsquismo) e stalinismo são opostos

Uma parte da campanha da burguesia contra os revolucionários é tentar identificá-los com o stalinismo. Como se os bolcheviques leninistas que fizeram a revolução russa, e os stalinistas que a destruíram fossem a mesma coisa. Não são. E o trotsquismo, que é o legítimo herdeiro do bolchevismo é também oposto ao stalinismo.

Os bolcheviques sempre depositaram todas suas esperanças na revolução internacional e, em particular, europeia. A revolução russa conseguiu quebrar a cadeia capitalista em seu elo mais débil, a Rússia atrasada. Mas a estratégia socialista pressupõe a planificação internacional da economia e não o “socialismo em um só país”. Só o desenvolvimento das forças produtivas em escala internacional pode dar as bases materiais para o avanço em direção ao socialismo. O socialismo é, por sua natureza, internacional e só pode triunfar definitivamente derrotando o capitalismo em escala mundial.

No entanto, a revolução foi derrotada na Alemanha em 1919 e em 23, assim como em vários países europeus. Em 1927, nova derrota na China. A revolução russa ficou isolada.

Por outro lado, o proletariado russo teve de enfrentar e derrotar os exércitos dos maiores países imperialistas. Mas pagou por isso um preço caro, com boa parte dos operários (e em particular de sua vanguarda) morta nos campos de batalha.

O isolamento mundial não permitiu que essa economia pudesse avançar além de certo ponto.  O proletariado, desgastado pela perda de seus melhores combatentes, não pôde sustentar o regime criado em 1917. Do próprio proletariado nasceu a burocracia, que se aproveitou do refluxo da revolução mundial e do isolamento da revolução russa para tomar o poder.

O atraso econômico russo gerou as tendências burocratizantes, que foram desenvolvidas. A contrarrevolução stalinista mudou completamente o regime dos soviets. A democracia interna foi suprimida no partido bolchevique e depois nos sovietes. A velha guarda bolchevique foi presa e, em sua maioria, assassinada. Muitos foram julgados nos “processos de Moscou” e fuzilados. Trotsky foi assassinado no exilio em 1939. Toda e qualquer oposição nos sovietes passou a ser perseguida e aniquilada.

O ambiente artístico deixou de ser libertário e polêmico ao se impor uma censura estúpida e reacionária. O “realismo socialista” se tornou a “arte oficial”, na verdade uma peça de propaganda do regime. Mayakovski se suicidou em 1930, Malevich morreu abandonado em 1935.

As conquistas contra as opressões das mulheres e homossexuais foram revertidas. A opressão nacional reviveu, e a URSS se transformou de novo -como a Rússia tzarista- em uma “prisão dos povos”.

A III Internacional deixou de ser uma alavanca para a revolução mundial e se transformou em um braço obediente da burocracia soviética, até ser dissolvida por Stalin em 1943 como demonstração de boa vontade com o imperialismo.

A propaganda imperialista faz questão de igualar stalinismo e bolchevismo, no que é ajudado por todo o aparato stalinista. Essa é uma manobra ideológica essencial para apagar os primeiros anos da revolução russa.

No entanto, o stalinismo foi o agente e a expressão da derrota da revolução. Só se impôs através de uma verdadeira guerra civil. A ditadura stalinista massacrou mais de 700 mil pessoas, começando pela maioria do CC que dirigiu a revolução de 1917.

Leia também:  A história por trás de “Bella ciao”

O stalinismo foi o maior aparato contrarrevolucionário no interior do movimento operário de toda a história. Tinha a autoridade usurpada da revolução russa e uma enorme soma de recursos pelo controle do aparato de estado da URSS (e depois dos outros estados operários burocratizados). Podia convencer ou corromper grande parte da vanguarda que surgia em todo mundo.

A ideologia oficial do stalinismo combinava a construção do “socialismo” na URSS (“socialismo em um só país”) e a coexistência pacífica com o imperialismo. Isso levou a grandes derrotas dos processos revolucionários.

A direção já stalinizada da III teve responsabilidade na derrota da revolução em 1923 na Alemanha e 1927 na China. Depois, o stalinismo facilitou a vitória de Hitler na Alemanha ao se recusar a política de frente única, no chamado “terceiro período” ultraesquerdista. Fez uma virada à direita para a política das frentes populares (coalização com as burguesias “progressistas”, tática nunca mais abandonada), levando a derrota da revolução espanhola.

No pós-guerra, Stalin determinou que os PCs na França e na Itália entregassem o poder à burguesia, que tinha tido seu poder destruído com a derrota do nazi fascismo. Assim o stalinismo possibilitou que o imperialismo sobrevivesse no centro da Europa.

Os reflexos sobre a economia do estado operário russo logo se fariam sentir. O fracasso da estratégia do “socialismo em um só país” era evidente. Em um primeiro momento, esses limites foram relativos, ainda possibilitando um grande crescimento da economia. Mas logo se transformaram em absolutos.

A economia da URSS e dos outros estados operários burocratizados entraram em decadência na década de 60 do século passado. Progressivamente as burocracias foram aprofundando os laços de dependência econômica desses estados com o imperialismo, em particular pelo mecanismo da dívida externa. Junto com isso, foram pouco a pouco introduzindo reformas econômicas com mais e mais elementos de mercado nessas economias.

Os trabalhadores, cada vez mais descontentes, se rebelaram contra as ditaduras stalinistas. As revoluções políticas na Alemanha (1953) Hungria (56), Tcheca Eslováquia (68) e Polônia (80), colocaram o stalinismo em uma forte crise. Mas, essas revoluções foram derrotadas pela repressão direta de tropas da URSS ou das burocracias stalinistas.

A burocracia afinal deixou de lado planos parciais de reformas e avançou para a restauração do capitalismo nesses países. As burocracias comandaram o processo de restauração a partir dos estados, começando pela Iugoslávia, na década de 60, China no final dos anos 70, e na URSS com a posse de Gorbatchev em 85-87.

Os levantes ocorridos na URSS e leste europeu na década de 90, já se deram contra a queda brutal do nível de vida (arrocho salarial, hiperinflação, desabastecimento, especulação desenfreada) determinada pela restauração do capitalismo. As massas se enfrentaram com as ditaduras stalinistas, que já comandavam, naquele momento, estados burgueses. O aparato mundial do stalinismo acabou sendo derrotado pela ação das massas. Mas, pela ausência de direções revolucionárias, quem assumiu o poder foram direções burguesas, oriundas muitas vezes das mesmas burocracias.

A restauração do capitalismo foi a última traição do stalinismo à causa do proletariado mundial. O imperialismo se aproveitou disso para lançar a gigantesca campanha de que o “socialismo morreu”, igualando stalinismo e socialismo. Essa campanha busca mostrar o capitalismo como única alternativa para a humanidade, e a democracia burguesa como o objetivo geral de todos os povos.

Hoje, o stalinismo é repudiado amplamente em todo o mundo. O trotsquismo, que se opôs diretamente ao stalinismo e por isso, pagou com a vida de centenas de milhares de quadros, é o herdeiro do bolchevismo.

IV- Socialismo ou barbárie

Hoje, ao contrário do que defendem os propagandistas do capitalismo, a disjuntiva “socialismo ou barbárie é” mais atual que nunca.

O Manifesto Comunista, 170 anos depois de sua publicação, continua atual: “… o operário moderno, em vez de se elevar com o progresso da indústria, afunda-se cada vez mais abaixo das condições da sua própria classe. O operário torna-se num indigente e o pauperismo desenvolve-se ainda mais depressa do que a população e a riqueza.”.

O Programa de Transição, com seus 80 anos, afirma que:

“As forças produtivas de a humanidade pararam de crescer. As novas invenções e os novos progressos técnicos não levam a um acréscimo da riqueza material. As crises conjunturais, nas condições da crise social de todo o sistema capitalista, trazem às massas privações e sofrimentos cada vez maiores.”

A crise econômica mundial de 2007/2008 abalou a ideologia neoliberal. Cada dia que passa revela mais e mais a verdadeira face da exploração capitalista. Existem claros aspectos de barbárie na realidade cotidiana.

Os trabalhadores hoje se enfrentam com forte queda de seus salários, a precarização da maior parte da força de trabalho (só um quarto com empregos estáveis), péssimas condições de saúde e educação públicas. Já não está presente, nem mesmo nos países imperialistas, a expectativa de ascensão social do passado.

O planeta, em pleno século XXI, vive uma profunda decadência econômica, cultural, moral e ecológica. Os refugiados pelas guerras chegam a 60 milhões de pessoas, o desemprego deixou de afetar uma minoria da população que o capitalismo usava como “exército industrial de reserva” para atingir populações inteiras. A metade dos habitantes é de pobres e miseráveis. Uma nova crise recessiva mundial se anuncia no horizonte.

A violência contra as mulheres, negros e homossexuais atinge níveis absurdos. Existem claros sinais de barbárie na periferia de cada uma das grandes cidades do mundo. O aquecimento global ameaça o futuro do planeta.

Ou o proletariado retoma o exemplo da revolução russa de 1917, ou o capitalismo conduzirá, inevitavelmente, o mundo para a barbárie.

Mas, é amplamente majoritária entre os trabalhadores- e também na vanguarda- a compreensão de que uma revolução socialista hoje é impossível. Para nós, não é assim. É importante lembrar a frase de Trotsky: “A revolução é impossível… até que seja inevitável.”.

Junto com os elementos crescentes de barbárie, se aprofundam os sinais de instabilidade econômica ou política em grandes partes do planeta.  Existe uma polarização social, econômica e política crescente, que pode provocar novos processos revolucionários.

Os reformistas dizem que uma revolução socialista não é possível porque “não está na consciência das massas”. Gostaríamos de lembrar as palavras de Lenin sobre esse tema, em polêmica com os reformistas daquela época: “… em 1901 na Rússia ninguém sabia nem podia saber que a primeira “batalha decisiva” teria lugar quatro anos mais tarde – não esqueça: quatro anos mais tarde – e não seria “decisiva… A revolução nunca cai do céu, já pronta, e no início da efervescência revolucionária nunca ninguém sabe se esta conduzirá e quando a uma revolução “verdadeira”, “autêntica”. 

Lenin escreveu essas palavras pouco menos de dois anos antes da revolução de outubro, quando lutava em posição absolutamente minoritária contra os partidos socialdemocratas que capitulavam as burguesias imperialistas em guerra.

Leia também:  Méritos e limites de Leonardo Padura: Resenha do livro O homem que amava os cachorros

Não estamos profetizando nenhuma revolução socialista em poucos anos. Evidentemente falta um logo caminho para a construção de uma direção revolucionária com influência de massas sobre o proletariado, como foi o partido bolchevique.  Estamos polemizando com os reformistas que fazem de tudo para atrasar a consciência dos trabalhadores e depois argumentam com o “atraso na consciência” para dizer que a revolução é impossível. Com o mesmo método leninista, defendemos o estímulo às lutas diretas dos trabalhadores e que eles rompam com essas direções reformistas.

V- A necessidade da reconstrução da IV

Hoje, a necessidade da reconstrução da IV se impõe. A restauração do capitalismo nos antigos estados operários burocratizados, a derrubada das ditaduras stalinistas e do aparato stalinista mundial confirmaram as previsões de Trotsky sobre a burocracia. A grande crise mundial do capitalismo de 2007/2008 gerou um enorme descrédito sobre a “vitória do capitalismo” como diziam os propagandistas da burguesia. Os ataques duríssimos dos planos neoliberais obrigam os trabalhadores a irem á luta, gerando um crescente processo de polarização da luta de classes e instabilidade política, com enormes desigualdades de país a país. A crise do stalinismo e dos aparatos reformistas libera forças de reorganização do movimento de massas. Muitas vezes se fortalecem alternativas de ultra direita, assim como de esquerda.

Nessa realidade, existe uma enorme contradição: enquanto o programa da IV se confirma pela realidade, como organização mundial a IV ainda não existe. Por isso, a tarefa de sua reconstrução é uma necessidade.

O Programa de Transição continua sendo a principal referência programática até os dias de hoje. Trotsky , em agosto de 1933, dizia que suas bases estavam no Manifesto Comunista e nos quatro primeiros congressos da III Internacional (feitos ainda sob direção de Lênin e Trotsky):  “ Não pode haver política revolucionária sem teoria revolucionária. Aqui é onde temos menos necessidade de partir de zero. Nos baseamos em Marx e Engels. Os quatro primeiros congressos da Internacional Comunista nos legaram uma herança programática de valor inestimável…Uma das tarefas primárias, mais urgentes das organizações que levantam a bandeira da regeneração do movimento revolucionário consiste em separar as decisões dos quatro primeiros congressos, colocá-las em ordem e dedicar-lhes uma discussão séria a luz das tarefas futuras do proletariado”

O Programa de Transição está apoiado em primeiro lugar no Manifesto Comunista, na teoria da luta de classes, na defesa da independência de classe, no internacionalismo operário e na ditadura do proletariado. Incorpora também todas as elaborações centrais do leninismo, que inclui a compreensão da época imperialista e suas consequências de guerras e revoluções.

O Programa de Transição supera assim a separação entre o programa mínimo (das reivindicações imediatas como aumentos salariais ou contra o desemprego) do programa máximo (luta pelo poder), típico da socialdemocracia na época ascendente do capitalismo, e usada até hoje pelos reformistas. O programa de transição busca mobilizar os trabalhadores a partir de suas lutas cotidianas, e apontar desde aí um sistema de palavras de ordem na agitação política e na propaganda para a necessidade de lutar contra o governo, o regime e o sistema capitalista, para a necessidade de luta pelo poder.

“É necessário ajudar as massas, no processo da luta cotidiana, a encontrar a ponte entre suas reivindicações atuais e o programa socialista da revolução. Essa ponte deve conter um sistema de reivindicações transitórias, que partam das condições atuais e da atual consciência de amplas camadas da classe operária e conduzam invariavelmente a um só resultado final: a conquista do poder pelo proletariado.”

Trata-se de uma incorporação e superação das elaborações anteriores, incluindo a compreensão do mundo a partir de um novo fato histórico que foi a burocratização da URSS. Incorpora uma definição que continua extremamente válida até os dias de hoje:

“Parte de definir que a crise da humanidade é a crise de direção de sua direção revolucionária, e que, portanto, a grande tarefa é avançar na superação dessa crise.”

Essa compreensão do mundo e das tarefas dos revolucionários permite dizer que o marxismo atual é o trotsquismo. Nenhuma variante subsistiu à evolução da realidade nessa passagem do século XX ao XXI. Evidentemente, o Programa de Transição necessita ser atualizado, como vamos discutir mais adiante. Mas inegavelmente é a base para qualquer programa revolucionário nos dias de hoje.

No entanto, se o programa da IV passou na prova da história, não se pode dizer o mesmo do movimento trotsquista. Boa parte das organizações que tem origem no trotsquismo abandonou o Programa de Transição e deixou de lado a tarefa de reconstrução da IV. O resultado é que a IV, como organização mundial nunca foi construída nem reconstruída, e não existe hoje.

Na verdade, a IV projetada por Trotsky era simplesmente a continuidade da III Internacional, dos primeiros quatro congressos, antes de sua burocratização. O projeto era semelhante à III, agora embasada no Programa de Transição. Esse projeto nunca pode se materializar, nem em vida de Trotsky, nem posteriormente.

Essa é a tarefa necessária nos dias de hoje. Felizmente, a luta pela reconstrução da IV está viva e tem pontos de apoio na realidade.  A LIT, fundada por Nahuel Moreno, é sua base mais importante. Foi formada em uma longa batalha, de mais de 40 anos, que conseguiu preservar, nos marcos do trotskismo, a um importante número de organizações e militantes, mas não conseguiu impedir a dispersão da maioria do trotskismo e a destruição da IV Internacional. A LIT é um embrião de internacional, a serviço da reconstrução da IV.