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VI- Como reconstruir a IV

Para reconstruir a IV é necessário ter a ambição de unir os revolucionários. E a realidade é que a dispersão das correntes revolucionárias já leva décadas. Surge então a primeira questão sobre com que método avançar em seu reagrupamento. É correto adotar o método de convocar uma “Conferencia Aberta” para reconstruir a IV? Quer dizer agrupar a todas as organizações que se reclamam revolucionárias para iniciar um processo de discussão e confluência?

Por: Eduardo Almeida

Entendemos que este método é equivocado. A própria experiencia prévia a fundação da IV, na década de 30 demonstra sua ineficácia. Trotsky, ao analisar as propostas para construir a IV Internacional opinava assim:

A proposta de citar uma Conferencia a todos os grupos que se reclamam da Oposição de Esquerda (…) reflete uma tentativa de fazer retroceder a roda e demonstra uma total falta de compreensão das condições e leis do desenvolvimento de uma organização revolucionária, e dos métodos de seleção e  educação de seus quadros. Não só rechaçamos, mas condenamos tal atitude por estar em aguda contradição com a política organizativa do marxismo.[11]

Do que se trata é da elaboração das bases fundamentais da política revolucionária para um longo período. Esta classe de problemas jamais foram resolvidas por conferências heterogêneas e improvisadas. Pelo contrário, a falta de preparação política, a convocatória apressada em uma atmosfera de desordem, só servirão para correr o risco de aumentar o caos ideológico e a mútua exasperação dos distintos grupos.[12]

A LIT defende que os processos de unificação devem ser sólidos, preparados e discutidos com profundidade e, se necessário, devem ser lentos. Nesse sentido, propomos critérios claros. O primeiro é que a reconstrução da IV deve estar baseada em um programa. Quer dizer, na compreensão comum da realidade e das tarefas que propomos ao proletariado para a época e a etapa atuais. Como parte desse entendimento, é necessário ter acordos sobre os fatos fundamentais da luta de classes e a ação conjunta nela.

Estes eram os critérios defendidos por Trotsky, na década de 1930:

“No terreno de nossas relações com o SAP, o problema deve reduzir-se ao programa, tática e o regime do novo Partido. É óbvio que o que se necessita não são fórmulas gerais abstratas, mas da constatação, sobre o papel, de todas as experiências dos últimos anos, em que participaram ambas organizações (…) Aos dirigentes tampouco colocamos mecanicamente os problemas. Lhes dizemos: Antes de chegar a uma resolução definitiva sobre nossa colaboração, que nós desejamos a mais estreita possível, é necessário ter plena segurança de que compartimos uma mesma posição a respeito dos problemas fundamentais da estratégia proletária. Eis aqui nossas posições fundadas ao calor da luta de classes em distintos países. Qual é sua atitude para esses problemas? Se vocês não têm posição definitiva a respeito, tratamos de estuda-los juntos, começando pelos problemas políticos mais imediatos e candentes. Creio que esta forma de colocar a questão não esconde nem sombra de sectarismo. Em geral, os marxistas não podem se posicionar de outro modo. É preciso agregar que estamos dispostos a colaborar na ação sem esperar uma resposta definitiva a todos os problemas em discussão.[13]

Por outro lado, é necessário reafirmar que as relações entre organizações revolucionárias devem ter como objetivo uma aproximação de posições e ações em comum para, na medida em que haja acordos sólidos, avançar para uma unificação.

Por isso, é uma precondição que essas relações se baseiem em um método comum de honestidade, franqueza e lealdade. Quer dizer, em um marco de respeito mútuo, buscar os acordos que nos unem e discutir com total precisão as diferenças que existam. Se existem acordos fundamentais, se poderá avançar para uma unificação. Em caso contrário, ainda que não se chegue à unificação, se poderá manter relações fraternais e acordos de menor nível.

VII- Com quem reconstruir a IV?

Entendemos que a reconstrução da IV é uma tarefa para os revolucionários, não só os que têm origem no trotskismo. Uma IV reconstruída deverá agrupar revolucionários originados em distintas tradições do marxismo, sobre a base do acordo ao redor de um programa revolucionário.

Como dissemos no documento aprovado no Congresso da LIT de 1997: “a reconstrução da IV, e da LIT-QI para encarar esta tarefa, vai se dar sobre a base da confluência com indivíduos, grupos e partidos que não só não vem do trotskismo, mas tampouco do marxismo.”[14]

Em segundo lugar, esta tarefa só pode ser realizada com as organizações que querem construir hoje um partido mundial da revolução socialista. Evidentemente, não podemos agrupar-nos com organizações que sejam contra esta tarefa. Nesse mesmo documento de 1997, dizíamos: “As correntes que vem do marxismo revolucionário, mas que renunciam hoje à  luta pela construção de um partido mundial da revolução socialista, podem empreender todas as tarefas que queiram, menos a da reconstrução da IV Internacional”.[15] Nisso se incluem as correntes nacional trotsquistas, que são contrarias a reconstrução da IV Internacional.

Tampouco podemos reconstruir a IV com quem deixou de lado a tarefa de construir partidos revolucionários e se dedica a construção de “partidos anticapitalistas”, ou seja, partidos reformistas eleitorais.

Não podemos também reconstruir a IV com os que, mesmo se reivindicando trotskistas, abandonaram os princípios do trotskismo, com quem cruzou a fronteira de classe para a colaboração e a capitulação com governos burgueses. Entre essas correntes estão as que apoiam governos burgueses como o de Nicolas Maduro na Venezuela, o governo do PS português, a ditadura genocida de Assad na Síria, e que apoiaram os governos do PT no Brasil.

Essa atitude não representa nenhum tipo de autoproclamação. Nós não somos nem nos julgamos ser a IV reconstruída. Esta é uma tarefa que está por ser feita e esperamos poder realizá-la junto com os revolucionários dispostos a encará-la. Apenas queremos resgatar a maneira séria, ao redor de um programa e concepção de partido e de internacional com que ela deve ser construída.

Grande parte dos princípios e estratégias revolucionárias para nossa época está condensada no que consideramos nossas “bases programáticas”: o Manifesto Comunista, as resoluções dos quatro primeiros congressos da III Internacional e o Programa de Transição, votado na conferência de fundação da IV Internacional.

Além disso, teremos de encarar a tarefa de atualização do Programa de Transição, especialmente a partir dos acontecimentos do leste europeu, marcados pela complexa combinação entre processos revolucionários de massas, por um lado, e a restauração capitalista por outro.

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Esse importantíssimo fato histórico gerou uma enorme confusão ideológica e uma reorganização em toda a esquerda revolucionária mundial, provocando crises e rupturas. Quando Trotsky escreveu o Programa de Transição tinha de sistematizar os ensinamentos do marxismo acumulados, mas também explicar o que se passou com a burocratização da URSS. Agora se impõe a atualização do Programa de Transição, em função da restauração do capitalismo e a derrubada das ditaduras stalinistas no leste.

A LIT começou a tomar essa tarefa. Já tivemos um congresso destinado às tarefas programáticas, vamos ter outro em 2018, e seguiremos reelaborando o programa até que tenhamos condições de atualizá-lo. Queremos colocar este desafio para  as correntes e grupos que se propõem realmente reconstruir a IV para responder ao desenvolvimento da luta de classes. Esta é nossa proposta para estabelecer um diálogo com outras organizações, na perspectiva dessa reconstrução.

VIII- Uma nova época que muda tudo?

Compreendemos a reconstrução da IV, a partir da reivindicação da compreensão do mundo e das tarefas dos revolucionários contidas no Programa de Transição. A polarização e instabilidade crescentes na situação mundial, os enfrentamentos cada vez mais duros entre revolução e contrarrevolução, com maiores espaços para a ultra direita e para a esquerda, só atualizam essa compreensão.

A crise da humanidade continua sendo consequência da crise de direção revolucionária, pela ação dos aparatos reformistas que abortam ou impedem a continuidade dos processos revolucionários. A queda do aparato stalinista mundial libera forças de reorganização do movimento de massas. Mas a tarefa de construção de partidos revolucionários que dirijam o proletariado ainda está se iniciando.

Infelizmente, a compreensão de boa parte do chamado movimento trotsquista é oposta a essa. O chamado “Secretariado Unificado” segue por inércia se chamando de “IV Internacional”, apesar de não ter mais nada que se pareça sequer com a IV fundada por Trotsky. As correntes que a dirigem são continuidade das que levaram a IV a destruição no pós-guerra e nunca conseguiram reconstruí-la.

Com os acontecimentos do leste europeu, no entanto, o SU mudou de qualidade. Com a restauração do capitalismo na URSS e a globalização neoliberal, a direção do SU entendeu que tinha havido uma “mudança de época”, que levava a “um novo programa” e “um novo tipo de partido”. A mudança de época, segundo eles, colocou o movimento operário na defensiva por décadas e impossibilita de fato uma revolução socialista. As características da “nova época” são o “debilitamento social dos trabalhadores” e a “crise do projeto socialista”. Essas desfavoráveis “relações de forças mundiais” não se devem a fatores objetivos, mas a elementos subjetivos, como o retrocesso ideológico do movimento operário devido aos “efeitos profundos da crise do socialismo realmente existente”.

Impõe-se então, segundo eles, a necessidade de um programa diferente, que não pode estar centrado na revolução socialista e a construção da ditadura do proletariado, e sim em reformas do capitalismo. E, como consequência disto, deixa-se de lado a estratégia de construção de partidos revolucionários, para construir partidos anticapitalistas. Já não existem motivos, segundo o SU, para construir partidos em separado dos reformistas, é preciso fazer partidos unificados, com programas reformistas.

Assim, se renova com outra forma a mesma negação da antiga direção pablista no pós-segunda guerra mundial de construção de partidos revolucionários.

Isso acontece em uma situação bem distinta enfrentada pelo pablismo após a segunda guerra mundial. Ao contrário do fortalecimento do stalinismo, temos a crise brutal do stalinismo pela desaparição dos estados dirigidos por eles.

E agora, essa política tem consequências ainda piores, pela dissolução direta dos partidos antes trotsquistas em partidos reformistas.  É por isso, que o maior e mais tradicional partido do SU, a LCR francesa que teve um papel importante no maio de 68, se dissolveu no NPA (novo partido anticapitalista). O exemplo foi seguido internacionalmente: em Portugal se dissolveram no Bloco de Esquerda, na Espanha no Podemos, no Brasil no PT e PSOL. Os “limites” dessas direções, segundo o SU, se devem ao retrocesso da consciência das massas, devido à “derrota histórica ocorrida com a restauração” e por tanto a única alternativa é apoiar ou ser parte delas.

Como consequência, o próprio Secretariado, deixou de ser uma corrente revisionista, para se transformar em uma frente internacional de partidos reformistas.

O XVII congresso do SU realizado em março de 2018 reafirmou essas teses. Não sacaram nenhum balanço do desastre do NPA, que vive uma profunda crise, com pouco mais de 1200 militantes, muito menos do que era a Liga Comunista Revolucionária (o partido trotsquista que se dissolveu no NPA) no passado. Ou da crise gerada por Syriza (que foi apoiada acriticamente pela direção do SU), com seu governo neoliberal na Grécia. O partido, hoje, mais importante que esteve no congresso do SU foi o Bloco de Esquerda de Portugal (dirigido por quadros que vem do SU), que é parte do governo burguês do PS em Portugal.

Esse “congresso”, na verdade foi uma reunião de partidos reformistas, uma espécie de Fórum Reformista Mundial, cada vez com menor peso na realidade. Eles informaram ter 6000 militantes em todo o mundo, contando 3000 de uma organização guerrilheira das Filipinas (que não tem nada a ver com o trotsquismo) e 1000 de um partido anticapitalista no Paquistão. Esses informes das Filipinas e Paquistão são apenas disfarces, que nada tem a ver com a realidade, para esconder a decadência mundial dessa corrente.

Felizmente, surgiu uma oposição de esquerda dentro do SU, que reafirma a compreensão do mundo hoje como parte da mesma época imperialista, e mantém a defesa da necessidade de construção de partidos revolucionários.

IX – Contra as seitas

Trotsky rechaçava as seitas. Como afirma o Programa de Transição:

“Incapazes de encontrar acessibilidade às massas as acusam de incapacidade para se elevar até as ideias revolucionárias. Esses profetas estéreis não veem a necessidade de estender a ponte das reivindicações transitórias, porque eles não têm o propósito de chegar à outra margem. Como mula de engenho, repetem constantemente as mesmas abstrações vazias. Os acontecimentos políticos não são, para eles, são a oportunidade para se lançar à ação, mas sim para fazer comentários. Os sectários, assim como os confusionistas e os mágicos, ao ser constantemente desmentidos pela realidade, vivem em um estado de irritação constante, queixam-se incessantemente do “regime” e “métodos” e  se dedicam a mesquinhas intrigas. Dentro de seu próprio círculo, eles costumam exercer um regime despótico. A prostração política do sectarismo não serve mais que para seguir, como uma sombra, a prostração do oportunismo, sem abrir perspectivas revolucionárias. Na política prática, os sectários se unem a cada passo aos oportunistas, especialmente centristas, para lutar contra o marxismo “(destaques nossos)

Rechaçamos as seitas. Buscamos permanente e obsessivamente vias para chegar ao movimento de massas.  Reivindicamos as concepções da III internacional em relação aos métodos de frente única de intervenção no movimento de massas, o que é negado pelas seitas.

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Não por acaso, os partidos ligados a LIT compomos a corrente trotsquista com mais peso nos movimentos sindicais e sociais. Estamos na direção da CSP Conlutas no Brasil, Coordenadora (El Salvador), No Austerity na Italia, Cobas Madrid na Espanha, assim como de importantes sindicatos como Sitrasep (Costa rica) e muitos outros.

Essa discussão é interessante, porque as correntes reformistas e centristas nos acusam de “sectários”. Não somos sectários. Sectários são os que recusam as táticas de frente única e unidade de ação. Sectários são os que não conseguem abrir uma via ao movimento de massas. Mas, nos acusam de “sectários” porque lutamos contra os reformistas.

Essa não era a compreensão da III Internacional, que sempre combinou a política de frente única com a luta aberta contra as direções reformistas. Em seu III Congresso, quando os jovens partidos comunistas seguiam sendo minoritários e tinham de enfrentar a disputa pelas massas na Europa contra as direções burguesas e partidos reformistas de massas, a III discutiu sobre a necessidade da frente única.

As recomendações da Internacional tinham essencialmente um sentido duplo: por um lado a defesa das ações comuns na luta de classes,  junto à classe operária, encaminhando suas lutas por questões mínimas para colocá-las em movimento nas lutas através dos sindicatos ou fora deles. Nesse trabalho prático para levar as massas à ação, as táticas de frente única e unidade de ação são imprescindíveis. Como dizia Trotsky: “Os reformadores temem o poderoso espírito revolucionário das massas; sua arena mais apreciada é a tribuna parlamentar; os escritórios dos sindicatos, os tribunais de justiça, as antessalas dos ministérios. Pelo contrário, o que nos interessa, além de todas as outras considerações, é arrancar os reformistas de seu paraíso e colocá-los ao nosso lado diante das massas. Usando uma tática correta, só podemos ganhar”.

Nesse sentido, todo o arsenal de táticas utilizadas pelo movimento operário, como a unidade de ação e a frente única seguem válidos para impulsionar as ações diretas das massas por um lado, e por outro para desmascarar as direções reformistas. A utilização das táticas de exigências e denúncias continua sendo fundamentais para avançar na experiência das massas perante essas direções.

Na concepção da III Internacional, os dois movimentos (unidade e enfrentamento) devem se aplicar conjuntamente.  “As experiências desses dois anos de luta dos Partidos Comunistas confirmaram em todos os pontos a justeza do ponto de vista da Internacional Comunista. Essa, por sua política, levou os operários revolucionários a se separarem não apenas dos reformistas, mas também dos centristas”. (“Teses sobre a tática”)

Se temos como objetivo a destruição do reformismo, isso tem de se manifestar em todos os momentos. Se entramos em uma luta, mesmo com uma tática unitária, é uma obrigação dos revolucionários se delimitar do reformismo e buscar que as massas façam sua experiência com essas direções. É por isso que essa         tática   se         chama de             unidade-enfrentamento, e que se utiliza de exigências e denúncias.

Ser sectário não é combater implacavelmente o reformismo, é não utilizar corretamente as táticas de frente única e unidade de ação. Nós combatemos as seitas…e o reformismo

Outra característica das seitas que rejeitamos é que elas não desenvolvem relações leais e fraternais com outras organizações revolucionárias. Elas têm como intenção parasitar as organizações trotskistas mais importantes e ganhar alguns militantes. Constroem-se assim, em uma espécie de “canibalismo político” e deslealdade permanente, e não pelo debate programático profundo e leal e por uma intervenção comum na luta de classes.

Em especial, rechaçamos o método usado frequentemente por essas organizações de praticar o entrismo ( e o trabalho fracional secreto) dentro das organizações com as quais dizem querer se aproximar. O entrismo é uma tática que só se pode admitir dentro de organizações inimigas e oportunistas, não entre organizações revolucionárias. Por isso, não existem possibilidades de  reconstruir a IV com essas seitas.

 X- Construir a IV Internacional ou cair no nacional trotsquismo?

O internacionalismo era um dos princípios amplamente difundidos do movimento operário. É uma consequência da compreensão de que a revolução socialista deve se estender internacionalmente ou será afinal derrotada. É parte da compreensão de que sem construir uma direção internacional, os partidos nacionais terminam por capitular às inevitáveis pressões nacionais.

É por isso que Marx, Engels, Lenin e Trotsky sempre tomaram a construção das internacionais em sua época como indissociáveis da construção dos partidos nacionais.

Sem nenhuma autoproclamação, afirmamos que somos a única corrente internacional do trotsquismo que preserva o internacionalismo como base para sua existência e funcionamento. Não dizemos isso com alegria, mas olhando friamente o retrocesso ideológico e programático presente movimento trotsquista. Infelizmente, não existe nenhuma outra corrente internacional que funcione com critérios de uma verdadeira internacional, um partido mundial da revolução.

A LIT tem um funcionamento baseado em congressos regulares- em geral a cada dois anos- que debatem e decidem democraticamente a política e o programa da internacional. Esse debate envolve o conjunto da militância em todos os partidos (com a tradução dos documentos em pelo menos três línguas: inglês, espanhol e português). Esses congressos são momentos riquíssimos de debates e polêmicas. Quando é necessário, se podem organizar tendências ou frações nesses congressos, que têm os mesmos direitos da direção da internacional. Depois das discussões, os documentos são votados no congresso, sendo a partir daí assumidos como posições internacionais por todos os partidos. Junto com isso, é eleita no congresso uma direção internacional para implementar essas políticas.

As políticas nacionais são definidas pelos partidos nacionais, também em congressos democráticos. Como a direção da LIT não tem a autoridade que tinha a direção da III e da IV (que dirigiram revoluções), a internacional não tem poder para mudar a política de uma seção nacional. Mas pode discutir a política desses partidos, e isso é fundamental para combater as inevitáveis pressões nacionais que sofrem os partidos. Depois da discussão, quem decide a política nacional é a seção nacional (ao contrário das posições internacionais, definidas no congresso da LIT). Na história da LIT, já houve inúmeras crises políticas de partidos nacionais em que a discussão política internacional foi decisiva para corrigir os rumos.

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O Secretariado Unificado teve um curso oposto ao nosso. A antiga direção de Mandel e Pablo imprimiu um curso federalista, sem centralização real ao SU. Reconheciam formalmente a necessidade de uma internacional centralizada, mas construíram uma federação frouxa de seções nacionais, com tendências e frações permanentes internacionais, cada uma com seu próprio programa e sem nenhuma disciplina.

O federalismo é oposto ao centralismo democrático internacional. Não existe uma discussão democrática, depois uma decisão coletiva que é aplicada por todos. Cada setor faz o que quer. Essa concepção não tem nada a ver com uma Internacional centralista democrática, como é a tradição da III e da IV. Isso deixou sem combate o curso oportunista dos partidos nacionais por não haver contrapeso ideológico e programático internacional. Esse tipo de organização internacional estava ligado à política da própria direção internacional que também capitulava a todo tipo de direções reformistas.

Depois, com o curso dos partidos do centrismo ao reformismo, o próprio Secretariado Unificado também mudou de qualidade, e acabou se transformando em uma corrente internacional reformista, agrupando uma maioria de partidos reformistas nacionais sem qualquer centralização internacional. Não dizemos que são partidos reformistas como um insulto. Não costumamos fazer isso. Estamos falando de partidos que deixaram de ter no programa a defesa da revolução socialista, da construção da ditadura do proletariado e adotam uma estratégia eleitoral.

O Secretariado Unificado tem algumas reuniões periódicas e congressos distanciados um dos outros. O XV congresso foi em 2003, o XVI em 2010 e o último agora em 2018. Esses congressos são apenas fóruns de partidos, sem resoluções centralizadas para todos. O nome de IV Internacional é mantido apenas pela atração que o trotsquismo exerce sobre as novas gerações de revolucionários.

Os setores minoritários revolucionários que seguiram até agora no SU não estão em sua verdadeira casa.

Outra variante nos dias de hoje é o chamado “nacional-trotskismo”, que é tão liquidador como o federalismo. Moreno definia assim essa corrente:

“[…] suas distintas variantes sustentam que a questão da direção e a organização internacional constituem uma espécie de “programa máximo”, para um futuro indefinido, que por agora tem que manter em um plano declarativo, de expressão de desejos, à espera de que se deem “as condições”[1].

Para eles, a tarefa fundamental é construir partidos nacionais e depois, em um futuro indefinido, se formaria a Internacional. Essa ideologia encobre a prática desses partidos de atuarem como “partido mãe”. Montam correntes internacionais que significam apenas uma extensão desses partidos mãe. Servem para que a direção desses partidos deem ordens aos partidos menores, sem que existam congressos que definam democraticamente a política dessas correntes. A definição da política e do programa dessas correntes é dada pela direção do “partido mãe” e não pelo congresso da internacional.

Isso leva inevitavelmente a destruição dessas organizações. As correntes nacional trotsquistas do passado, como a de Healy, Lambert, do partido francês Lutte Ouvrière, o SWP dos EUA já sofreram consequências brutais. A corrente de Heally se destruiu depois de uma brutal crise moral, com Heally acusado de estupros de jovens militantes. A corrente lambertista está em decadência completa, tanto na França como no Brasil (seus maiores grupos), sendo pálidas lembranças da força que já tiveram. O partido Lutte Ouvriére tem cada vez menos importância na França de hoje. O SWP hoje é uma organização de menos de 200 militantes, completamente adaptado ao castrismo, sem intervenção real na luta de classes dos EUA.

Hoje, outras expressões do nacional trotsquismo são o PTS e PO argentino, que não se propõem realmente a construir a IV, e sim seus próprios partidos nacionais e  “correntes internacionais” mas sem congressos nem funcionamento real internacional, como veremos em artigos a seguir. Ainda estão em ascenso, mas o nacional trotsquismo vai acabar definindo seu futuro, como ocorreu com outras correntes no passado.

XIII – A LIT-QI se coloca à disposição dos revolucionários como uma ferramenta para reconstruir o IV

Até agora, assinalamos as diretrizes programáticas, o método e os atores com os quais nos propomos a reconstruir a Quarta Internacional. No entanto, permanece um ponto central a ser discutido: qual é o marco organizativo a partir do qual ela pode ser reconstruída?

Diante dessa questão, o LIT se coloca à disposição das organizações revolucionárias e militantes revolucionários em todo o mundo como uma ferramenta para a reconstrução da IV.

Nós nunca nos definimos ou acreditamos que somos a “única corrente Internacional revolucionária no mundo”. É muito provável que apareçam outras correntes que se dispõem a construir uma Internacional revolucionária seguindo o modelo do III e IV, no marco de fatores, tais como a intensificação da luta de classes, crises dos aparatos e da grande maioria  das correntes internacionais do trotskismo.

Este último fator é de particular importância. O “trotskista movimento”, considerado como um conjunto de organizações e correntes para além de suas diferenças, mantinham a sua independência dos aparatos socialdemocratas, stalinistas, nacionalistas burgueses ou pequeno-burgueses nacionalistas, embora em muitos casos capitularam politicamente a eles, se acabou, e não existe mais. Algumas de suas organizações, mesmo que continuem a existir, já não são  independentes, mas apêndices do castro-chavismo, da socialdemocracia ou de aparatos nacionais.

No marco desse giro da maioria para a direita, a LIT-QI, juntamente com outras organizações, se manteve como uma organização internacional principista. Estamos envolvidos em uma reelaboração do programa, que para nós é uma tarefa central para a reconstrução do IV.

Estamos abertos à unificações com outras correntes revolucionárias, na medida em que tenhamos acordos programáticos e metodológicos.

Colocamos nossa Internacional à disposição de todas as correntes internacionais ou organizações nacionais revolucionárias, para que a tomem como um instrumento para construir esta internacional, isto é, para reconstruir a IV.

[1] MORENO, Nahuel. Nuestra experiencia con el lambertismo. Disponible en: <http://litci.org/es/teoria/historia/nahuel-moreno-nuestra-experiencia-con-el-lambertismo/>, consultado el 21/03/2017.