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Está completando 80 anos de fundação da Quarta Internacional, uma organização revolucionária mundial que, nas palavras do próprio Trotsky, representava “a obra mais importante da minha vida; mais do que a de 1917, a da guerra civil, ou qualquer outra.

Por: Daniel Sugasti

Por que Trotsky achava que a construção da Quarta Internacional, uma pequena organização com cerca de 6 mil militantes, era a principal tarefa de sua vida?

Porque a contrarrevolução stalinista estava destruindo a herança da Revolução Russa e da III Internacional e era imprescindível construir pelo menos o embrião de um partido mundial que mantivesse a tradição revolucionária, e assumisse a nova tarefa: a revolução política, para derrubar a camarilha burocrática de Stalin e recuperar o Estado operário soviético como ponta de lança da revolução mundial. Assim, embora a tarefa fosse defensiva (para manter o legado do marxismo), ao mesmo tempo ela deveria servir para treinar e preparar novas gerações de revolucionários para futuros enfrentamentos.

Trotsky disse: “Se a nossa Internacional ainda é numericamente fraca, ela é forte por causa de sua doutrina, sua tradição e o caráter incomparável de seus principais quadros. Que isso não seja visto hoje, não importa. Amanhã será mais evidente”.[1]

A IV foi fundada em condições terríveis. À contrarrevolução se somava o nazi-fascismo, que estava em ascensão na Europa. Nesse contexto, Trotsky – que não podia participar pessoalmente da Conferência fundadora – e seus partidários foram brutalmente caluniados e perseguidos. Muitos deles, incluindo o próprio Trotsky, acabaram sendo mortos pelo stalinismo e/ou fascismo.

Da morte de Trotsky à LIT-QI

Com a morte de Trotsky, a Quarta Internacional recebeu um golpe brutal e se abriu uma longa crise. A direção de Pablo e Mandel, pressionada pelo prestígio do stalinismo após a derrota do nazi-fascismo, capitulou ao ponto de orientar a dissolução dos partidos trotskistas nos aparatos stalinistas e traiu a revolução operária na Bolívia em 1952, recusando-se a exigir que a COB tomasse o poder e ao dar apoio crítico ao governo burguês do MNR.

Em 1953, a maioria dos trotskistas, entre eles Nahuel Moreno, rompeu com o pablismo-mandelismo. A partir desse momento iniciou-se um processo de rupturas e fusões que não conseguiu impedir a desintegração da Quarta Internacional.

Nahuel Moreno impulsionou uma grande batalha pela reconstrução da Quarta Internacional.

Com esse objetivo, em 1964 ele se juntou ao Secretariado Unificado (SU) liderado por Mandel.

Mas Mandel tinha herdado do pablismo a mesma análise impressionista e a mesma política de capitulação aos “modismos” da vanguarda. Moreno primeiro organizou a Tendência Bolchevique e, em seguida, a Fração Bolchevique (FB) para combater as sucessivas capitulações da maioria mandelista: à vanguarda estudantil que surgiu a partir de maio 1968, ao guerrilheirismo Guevarista e, por fim, à democracia burguesa através de concessões para eurocomunismo.

O FB rompe com o SU em 1979, após sua direção proibir a construção de partidos trotskistas em Cuba e na Nicarágua, enquanto se recusava a defender a Brigada Simón Bolívar, que depois de lutar na guerra contra Somoza, é expulsa pelo sandinismo e parte de seus membros são presos e torturados no Panamá.

Assim, depois de uma tentativa frustrada de fusão internacional com a corrente de Pierre Lambert, em 1982, a LIT foi fundada com as forças da FB  e setores latino-americanos oriundos do lambertismo.

Desde sua fundação, a LIT-QI assumiu a estratégia de reconstruir a Quarta Internacional.

Como e com quem reconstruir a Quarta?

A reconstrução do partido da revolução socialista mundial é essencial. Sem isso, não há possibilidade de tomar o poder e começar a construção do socialismo mundial.

Temos que reconstruir a Quarta com o mesmo método que foi fundada: a partir de profundos acordos programáticos, metodológicos e morais, que devem ir se expressando em acordos práticos que respondam aos principais fatos da luta de classes mundial.

Neste contexto, não podemos encarar esta tarefa com aqueles que, ainda que se afirmem trotskistas, abandonam o programa, o método e a moral da Quarta e da Terceira dirigida por Lenin.

Continuamos concordando, com o que dizia Trotsky, que nosso programa se sintetiza em três palavras: Ditadura do Proletariado. Portanto, não podemos enfrentar a tarefa de reconstrução com o atual SU, que se tornou uma organização reformista que retirou a ditadura do proletariado do seu programa, participou de governos burgueses como o de Lula, passou a impulsionar os chamados “partidos amplos” e apoia todo tipo de expoentes do reformismo, como PODEMOS ou Syriza.

Também não é possível fazê-lo com organizações como o PTS-FT. Esta organização, que há alguns anos se apresentava como “ultra esquerdista”, está operando uma nítida virada oportunista e parlamentarista. Os primeiros sinais dessa mutação se expressaram em sua recusa em apoiar as revoluções no mundo árabe contra a ditaduras pró-imperialistas como Kadafi ou Assad. Mais tarde, com o auge eleitoral da FIT na Argentina, o PTS passou a priorizar cada vez mais as eleições e o jogo parlamentar burguês. No Brasil, o seu grupo  satélite, o MRT, vive clamando para entrar no PSOL (um partido reformista), além de ter se juntado à campanha em defesa de Dilma e Lula, do PT, com o argumento de “luta contra o golpe”. E algo semelhante, podemos dizer do PO-FIT da Argentina.

Por outro lado, nos propomos a encarar a tarefa de reconstruir com as novas gerações de lutadores operários e populares que estão surgindo das lutas, com os quais buscaremos chegar a esses acordos programáticos, metodológicas e morais, independentemente da sua origem política.

É por isso que dizemos que a reconstrução da Quarta não é uma tarefa restrita apenas aos trotskistas.

Ao mesmo tempo nós não concordamos com esses chamados que são feitas, de tempos em tempos, de “conferências para reconstruir a Quarta”, que acabam sendo eventos de propaganda do partido que convoca e não um espaço real de discussão programática. Não. A reconstrução da Quarta não virá de eventos bombásticos de fim de semana. Virá de um processo de unificação baseado em uma discussão programática e teórica rigorosa e sólida, testada no campo concreto da luta de classes.

A LIT-QI, após 80 anos de sua fundação, reafirma a sua disposição de contribuir para esta grande tarefa, a mais importante de todas: a reconstrução da Quarta Internacional como um partido mundial revolucionário, operário, internacionalista, e democraticamente centralizado.

[1] Trotsky, Leon, Programa de Transição

Tradução: Lena Souza