Recentemente se realizou em Davos, na Suíça, a reunião anual do Fórum Econômico Mundial. Esse é um dos fóruns dos “donos do mundo”, isto é, os presidentes das grandes empresas e bancos imperialistas e os dirigentes políticos e governamentais que expressam seus interesses. A eles se somam economistas, jornalistas, grandes meios de comunicação e também “inovadores tecnológicos”, que buscam vender suas propostas às empresas.

Por: Alejandro Iturbe

O Fórum nasceu em 1971 por iniciativa de Klaus Schwab, um professor universitário suíço de Política Empresarial, que continua sendo seu presidente executivo e organizador. O Fórum funciona em vários níveis, com inúmeras atividades. O nível mais importante é a conferência central e seus debates sobre a situação econômica e política mundial e as propostas que, nesse cenário, os “donos do mundo” devem levar à frente. Muitos dos planos e medidas que foram aplicados pelos governos nos últimos anos surgiram nesse fórum. Outros níveis são as reuniões bilaterais (a portas fechadas) entre governos, entre governos e empresas e entre empresas e “inovadores tecnológicos”.

Este ano, não compareceram figuras centrais da política mundial, como Barack Obama, Vladimir Putin e Angela Merkel, porém esteve presente o primeiro-ministro britânico, David Cameron (entre outros 40 chefes de Estado ou governo). Entre os chefes de empresas, destacaram-se Bill Gates e Satya Nadella (Microsoft), Mary Barra (GM), Jack Ma (do conglomerado chinês Alibaba Group), Eric Schmidt (Alphabet Inc., antes Google), Sheryl Sandberg (Facebook), James Gorman (Morgan Stanley), César Alierta (Telefónica), entre dezenas de CEOs [diretores executivos]. Também estiveram presentes a gerente do FMI, Christine Lagarde, o presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, e outros governadores ou presidentes de dez bancos centrais nacionais.

O local da reunião está de acordo com o nível econômico de seus participantes. Davos é um exclusivo e caríssimo centro internacional de esqui. O Fórum eleva ainda mais os preços. Para preservar sua exclusividade, a inscrição individual para participar é de 20 mil dólares. A diária em um hotel mediano custa 600 dólares por pessoa. Se somarmos a isso os gastos com bebida, comida e roupa adequada ao frio, o gasto total por pessoa pode ser de 40 mil dólares. Também é possível participar de alguns shows exclusivos (como uma atuação privada do ator norte-americano Kevin Spacey, ou um jantar para bater papo com o músico irlandês Bono). Uma delegação não muito grande de um governo ou uma empresa (digamos, 10 pessoas) tem aproximadamente um gasto básico de 400 mil dólares. Uma cifra pequena, se comparada ao volume de negócios que se realizam, mas que representa, por exemplo, o salário mínimo de dois mil operários brasileiros. Alguns “inovadores tecnológicos” devem economizar durante anos para poder participar e oferecer suas ideias às empresas.

Precisamente este ano, o Fórum proporcionou um lugar de destaque às novas tecnologias: seu lema foi “Dominando a Quarta Revolução Industrial” (não é por acaso o peso que tiveram as grandes empresas de informática e internet). No jantar promovido pelo banco norte-americano Morgan Stanley, um alto executivo dessa empresa disse, com amarga ironia: “Antes éramos os reis de Davos, todo mundo queria vir às nossas festas e éramos convidados a todos os debates para dar nossa opinião. Hoje as estrelas de Davos são as empresas tecnológicas”. Outro banqueiro acrescentou: “É verdade que temos um problema de reputação que afeta nossa credibilidade.

Uma cúpula de crise

O “giro tecnológico” que Klaus Schwab imprimiu à última cúpula, ou o reconhecimento da queda da “reputação” e da “credibilidade” dos banqueiros, são a ponta do iceberg de uma realidade muito mais profunda: a última reunião de Davos foi uma reunião de crise, onde os “donos do mundo” reconheceram, em alguma medida, que não têm propostas para superar o efeito negativo a longo prazo da crise econômica mundial iniciada em 2007-2008. Pior ainda, que está colocada a possibilidade de uma nova queda de mesma profundidade.

Não é por acaso que um dos economistas mais escutados tenha sido Nouriel Roubini, uma espécie de outsider dentre os gurus econômicos devido ao seu pessimismo, mas que possui o prestígio de ter prognosticado a crise de 2008. Na reunião, Roubini advertia: “Não é 2008… ainda. No entanto, pode sê-lo, se os governos não agirem.” Até a eternamente otimista diretora do FMI, Christine Lagarde, expunha um alerta: “Em 2016 o crescimento será modesto e desigual. Existe um moderado otimismo, mas os riscos são significativos.

Os dados da realidade mostram a dificuldade para superar o momento aberto em 2007-2008. Em 2015, a principal economia do mundo (EUA) manteve um crescimento parecido ao dos anos anteriores (2,4%), mas com desaceleração no quarto trimestre e outros dados preocupantes (ver, a seguir, os dados da Bolsa), o que mostra que, além de não poder ser a locomotiva que puxa os demais países, quando tenta “acelerar na subida” começa a frear. A Europa melhorou um pouco: a Espanha teve o melhor desempenho (mais de 3% após vários anos de recessão); a Grã-Bretanha segue um pouco acima dos 2% anuais e a Alemanha teve 1,8%. A França, no entanto, apenas alcançou 1% e a Itália continua em queda. Isso para não falar das economias mais débeis, como Grécia e Portugal.

O dado novo e profundamente negativo para a economia capitalista mundial é a chegada da crise na China, que teve uma clara desaceleração e uma dinâmica cujas cifras reais são muito piores do que mostram as estatísticas oficiais (ver o artigo Certezas e dúvidas diante da crise econômica na China).

Segundo dados do Instituto de Finanças Internacionais (IIF), em 2015 a China teria sofrido uma fuga de capitais de 676 bilhões de dólares e prevê-se que, em 2016, o índice será de outros 448 bilhões. Uma demonstração clara de que a livre conversão do yuan e sua entrada no “clube das moedas fortes” do FMI, longe de representar um “fortalecimento” da economia do país, significam mais um passo no caminho da semicolonização e, por sua vez, o fim da “barreira de proteção” que representavam as finanças dirigidas pelo Estado mediante o férreo controle do Banco Popular da China (Banco Central).

Como disseram vários economistas no ano passado, a China deixou de ser “parte da solução”, como locomotiva secundária que mantinha seu crescimento e ajudava a atenuar os efeitos da crise mundial, e passou a arrastar atrás de si os países exportadores de matérias-primas. Agora, “é parte do problema”.

E, certamente, uma parte que não é pequena. Sua desaceleração tem impacto no conjunto da economia mundial: arrasta todas as bolsas do mundo à queda, diminui fortemente os preços das matérias-primas e alimentos e, com isso, empurra a crise das economias exportadoras, como Brasil e Argentina, no cenário de uma economia continental em queda e com altíssimos riscos. “As perspectivas desses países estão se obscurecendo”, afirmou o presidente do IFF, Tim Adams.

A burguesia imperialista e os grandes grupos empresariais nacionais perdem confiança. Já não acreditam nas promessas otimistas (ainda que estas sejam cada vez menores) dos economistas que dizem: “este ano começaremos a sair”. Como consequência, deixam de investir. As bolsas do mundo expressam isso: só em 2016, o índice da Bolsa de Valores norte-americana S&P 500 (que mede Wall Street) caiu 6,7%; Milão, 11%; Frankfurt, quase 10%; Madri, 8%; e Paris, 6%. Os empréstimos de curto prazo são mais caros que os ao prazo de 10 anos, algo que os economistas burgueses chamam de uma “curva inversa dos tipos de lucro” e que é considerado como um dos indicadores que costumam antecipar a recessão.

Ray Dalio, presidente da companhia de investimentos Bridgewater, defendeu em Davos: “O mais provável é que a economia continue com uma notável debilidade. No entanto, no caso de uma recessão, será difícil de revertê-la. Esse é o momento de maior desafio da crise financeira”.

Ainda que a impressionante injeção de dinheiro feita pelos bancos centrais tenha impedido a quebra do sistema bancário mundial e evitado uma dinâmica de “queda livre”, essa política parece cada vez menos efetiva. O próprio Dalio argumenta: “apesar da enorme quantidade de dinheiro que foi colocada em circulação nesses anos, as pressões deflacionárias são constantes.” Segundo o especialista econômico do jornal espanhol El País, “Dalio coloca, assim, o dedo na ferida em um dos temores mais profundos dos analistas: a falta de ferramentas para responder a uma nova crise“.

América Latina à venda

No entanto, inclusive nos marcos da crise e do ceticismo, os “donos do mundo” (enquanto saboreavam caríssimos uísques e champanhes e admiravam a charmosa paisagem de Davos) buscavam percorrer os “caminhos possíveis”.

O primeiro, principal e permanente é o ataque ao emprego, ao salário e às condições laborais dos trabalhadores de todo o mundo pelos governos e pelas empresas. Como já é uma frase comum: os “donos do mundo” (e seus sócios menores e lacaios) descarregam o peso da crise sobre as costas dos trabalhadores (e querem fazê-lo de maneira ainda mais profunda).

O segundo é continuar exigindo “ajudas financeiras” dos governos que, ao final, também serão pagas pelos trabalhadores. O terceiro é buscar os “nichos de investimento” em setores dinâmicos, como as novas tecnologias ou nos países colonizados.

Não é por acaso, assim, que os presidentes do México (Enrique Peña Nieto) e da Argentina (Mauricio Macri) tenham se transformado em “estrelas menores” da cúpula. Levaram em suas malas um catálogo de venda e entrega de seus países. Na linguagem politicamente correta, os agentes do imperialismo chamam isso de “oportunidades de investimento”. Ao mesmo tempo, ambos já mostraram que, para isso, estão dispostos a reprimir com dureza as lutas e mobilizações sociais. Os dois presidentes até se reuniram para “estreitar relações”.

A principal oferta de Peña Nieto foi na área do petróleo e a privatização da PEMEX. “Os baixos preços do petróleo não vão atrasar, limitar ou frear a reforma energética”, declarou. Em dezembro do ano passado, já foram entregues 51 blocos a empresas privadas. O processo de leilão de novos blocos em águas profundas já está em marcha e ocorrerá na segunda metade do ano.

Macri, por sua vez, teve numerosas reuniões com governos e empresas e saiu exultante de Davos: “A Argentina volta a ser parte do mundo” (tradução: a Argentina volta a ter uma “vitrine de oferta” para o imperialismo). A garantia foi o compromisso de que a economia argentina voltará a ser fiscalizada pelo FMI. Dessas reuniões, obteve algumas propostas concretas de investimento (como a da empresa Renault-Nissan de ampliar sua planta em Córdoba) e várias promessas. Entre elas, as do primeiro-ministro britânico David Cameron. Nessa reunião, Macri bateu seu recorde de servilismo ao imperialismo ao afirmar que “para melhorar as relações com a Inglaterra (sic)” estava disposto a abandonar a histórica reivindicação do povo argentino pelas Ilhas Malvinas (usurpadas em 1833 e causa da guerra entre Argentina e Grã-Bretanha em 1982). Cameron, por sua vez, declarou que “nessas condições, estava disposto a ajudar o novo governo argentino”, propondo às empresas britânicas investimentos no país. É claro que essa gente, na realidade, só ajuda a si mesma.

Quem não foi bem foi o governo brasileiro, desta vez representado não pela presidente Dilma, mas pelo novo ministro da Fazenda, Nelson Barbosa. Diferente dos outros anos, em que o Brasil era a “estrela terceiro-mundista” de Davos, desta vez os “investidores” se mostraram profundamente céticos devido à profunda crise econômica e instabilidade institucional que vive o país e suas perspectivas.

É a pior crise no Brasil em mais de 70 anos e coincide com problemas em outras grandes economias emergentes, como Rússia ou China”, disse o professor de Economia de Harvard e antigo economista-chefe do FMI, Jenneth Rogoff. E já não se considera uma crise conjuntural: “o Brasil caminha para uma década perdida”, afirma o já citado Ray Dalio, “pela conjunção dos três principais riscos: alta dependência de matérias-primas, peso elevado das exportações para a China e alta dívida empresarial em dólares”. Segundo ele, estão dadas as condições para uma “tormenta perfeita” e “uma crise profunda e duradoura”.

Ao mesmo tempo, o capitalismo imperialista é cruel com aqueles serviçais que lhes foram úteis, mas que agora deixaram de ser: passam a ser descartáveis. “É questão de tempo, mas já damos o governo de Dilma Rousseff e a ela mesma por terminados. É a única solução”, expressou Ian Bremmer, presidente da consultora Eurasia, durante um debate. Então esclareceu que esperava que “as instituições brasileiras funcionassem” e que “as transformações se dessem dentro delas”.

Algumas conclusões

O capitalismo imperialista não apenas está esgotado historicamente, mas, como expressou essa cúpula de Davos, também se mostra incapaz de promover saídas para a crise que seu próprio funcionamento gerou. Cumprindo as leis econômicas analisadas por Marx (concentração de riqueza e centralização de capitais em um polo, miséria crescente em outro), hoje o 1% dos “donos do mundo” possui tanta riqueza como os 99% restantes.

Nesse marco, sem propostas para resolver a crise, as perspectivas são de novos e duríssimos ataques ao nível de vida dos trabalhadores e das massas, e a necessária resposta de luta a esses ataques. No entanto, enquanto os trabalhadores não forem capazes de elevar essa luta de resistência à formulação de uma alternativa radical ao capitalismo imperialista (a revolução operária e socialista), a situação vai dar voltas em círculo, ou melhor, em uma espiral dupla: descendente em relação à situação econômica das massas e com tendência ascendente nas lutas.

A crise e os ataques às massas e as lutas devoram governos burgueses. Na América Latina vivemos uma decadência dos “populismos burgueses” (que cavalgaram sobre a prosperidade de 2002 a 2012) e o ascenso eleitoral da direita (que cavalga sobre a desilusão e as esperanças frustradas nos governos populistas) e sua chegada ao governo, como o caso de Macri na Argentina. Obrigados a aplicar planos de ajuste ainda mais ferozes que seus antecessores, se não derrotam as massas, têm a perspectiva de durar ainda menos.

Na Europa, em vários países, cai a direita clássica e surgem governos burgueses de “esquerda”, como o caso do Syriza na Grécia, o da coalizão PS-PCP-Bloco de Esquerda em Portugal e possivelmente um governo PSOE-Podemos na Espanha. Também esses governos rapidamente mostram sua verdadeira cara de “aplicadores do ajuste”, de governos a serviço do imperialismo.

É fundamental romper esse círculo vicioso da bipolaridade burguesa. Sejam de “direita” ou de “esquerda”, todos esses governos são nossos inimigos e governam para os “donos do mundo”. É necessário, claro, lutar duramente contra seus planos e ataques. No entanto, nessas lutas é imprescindível ir construindo nossa própria alternativa de poder e de transformação profunda da sociedade. Caso contrário, os trabalhadores continuarão vivendo cada vez pior, enquanto eles se reúnem em meio ao luxo e debatem desfrutando de suas caríssimas bebidas e comidas.

Tradução: Otávio Calegari