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Neste 27 de janeiro completam-se 75 anos da libertação do campo de concentração nazista de Auschwitz, na Polônia, em que 1,3 milhão de judeus foram mortos, numa das maiores atrocidades que a humanidade já conheceu. Às vésperas, o abominável episódio que causou a demissão de Roberto Alvim, então secretário da Cultura do Governo Bolsonaro, no dia 17, tem culminado em merecida repulsa.

Por: Josef Weil e Soraya Misleh *

Não obstante, também ressuscitou distorções, alimentando assim a desinformação. Entre elas, que críticos do Estado de Israel seriam hipócritas ao condenarem a fala de Alvim, colocando um sinal de igual entre antissionismo e antissemitismo. Nada mais falso.

Esses debates acompanham outra distorção: a de que Alvim agiu por seu próprio destempero. Há quase uma semana Bolsonaro busca se dissociar do cadáver mal cheiroso que é resultado de sua criação. Nessa busca, diante da justa repercussão negativa, suspendeu o edital para o “Prêmio Nacional das Artes”, anunciado por Alvim no vídeo em que encena o teatro de horrores da política cultural de Bolsonaro, ao plagiar o ministro da propaganda nazista, Goebbels.

Como vários articulistas têm apontado, o então secretário não caiu porque Bolsonaro ficou horrorizado com sua performance. Na verdade, a postura de Alvim vinha lhe rendendo elogios, como ocorrera pouco antes do malfadado vídeo vir a público. Inclusive, como amplamente noticiado, Bolsonaro chegou a hesitar em exonerar o pupilo de Olavo de Carvalho, que tão bem vinha lhe representando na sua imaginária guerra cultural – basta lembrar que foi nomeado secretário em 7 de novembro último, após impressionar Bolsonaro ao proferir insultos contra a atriz Fernanda Montenegro, que protestava contra a censura, em fins de setembro de 2019.

Também segundo a imprensa, a pressão da representação sionista no Brasil, com suas distintas organizações e diplomacia, teria sido crucial para a decisão de demitir Alvim. O próprio Bolsonaro teria declarado que foi movido pelo “amor a Israel” – e agora colocou como substituta na Secretaria da Cultura a atriz Regina Duarte. Essa última visitou Jerusalém, Palestina ocupada, em fins de novembro de 2018 a convite da pastora mineira Jane Silva, presidente da Comunidade Internacional Brasil-Israel. Por ocasião de sua viagem, em entrevista à Folha de S. Paulo publicada no dia 29 do mesmo mês, afirmou, sobre eventual transferência da Embaixada brasileira para Jerusalém: “Acho que isso é uma questão de justiça, uma questão inegável, irreversível. Acho que demorou, como fala a garotada. Demorou! Tá na hora de cumprir isso. Faz parte de tudo que é bíblico, de todas as coisas nas quais o mundo acredita há milênios e espera.”

A fala inadmissível de Alvim levantou dúvidas sobre a incoerência de um governo aliado do sionismo ter nomeado alguém que utiliza a ideologia nazista como referência à arte nacionalista – e talvez ter em seu lugar alguém que fez essa declaração reveladora de enorme desconhecimento sirva para limpar a barra junto aos aliados de Bolsonaro. A despeito disso, como aponta o jornalista Jorge Mendoza em artigo intitulado “É contraditório Bolsonaro apoiar Israel e ter nomeado Roberto Alvim?”, a questionada incoerência é apenas aparente. A confusão é justificada: afinal, Israel, que comete atrocidades contra palestinos há 72 anos, se autoproclama um Estado judeu e porta-voz dessa comunidade no mundo.

O que é o nazismo

Antes de aprofundar essas questões, cabe explicar brevemente o que é nazismo. Não é “um movimento de esquerda”, como Bolsonaro e seus asseclas querem fazer crer – distorção que não ficou de fora nos comentários ante o caso Alvim. O argumento rasteiro se apoia na nomenclatura usada à época: Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Como aponta o jornalista Jeferson Choma em seu artigo “Nazismo: a face da extrema direita negada por Bolsonaro”, publicado no site do PSTU, “o termo Nazi é uma abreviação em alemão do termo Nationalsozialist (Nacional-socialista). Ele foi utilizado, assim como o termo ‘trabalhadores’ (Arbeiter), como um meio de atrair a classe trabalhadora para longe do Partido Comunista Alemão (Kommunistische) e do Partido Social-Democrata (Sozialdemokratische), na época os dois mais importantes partidos operários da Europa ocidental. Mas isso não significa que os Nazis eram de esquerda ou pretendiam construir mais um partido operário. Todo o programa e ideologia nazista eram profundamente antioperários e anticomunistas ou antissocialistas”.

O nazismo e o fascismo nasceram ao final da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). O primeiro a tomar o poder foi o italiano, com Mussolini na liderança. Fruto do desespero com a situação de destruição e miséria após a guerra, e após a derrota de vários processos revolucionários, os fascistas surgem para servir como destacamentos do capital para impor pela força a submissão ao seu projeto. No caso da Alemanha, a derrota da revolução de 1919, assim como a de 1923, abre espaço para o surgimento de um movimento análogo ao fascismo italiano1.

O fascismo (incluímos o nazismo nessa definição) implica a derrota da revolução e a destruição de toda a organização da classe operária com métodos de guerra civil. Ou seja, utilizando esquadrões armados e, uma vez no governo, o próprio aparelho de Estado, a serviço da prisão, tortura e assassinato de milhares de trabalhadores, o que for necessário para esmagar o movimento operário. Mas sendo este seu objetivo central, implica também a destruição das instituições da democracia burguesa e a instauração de um regime qualitativamente diferente, totalitário, sem nenhuma liberdade de expressão e organização para as oposições, nem para os setores sociais, juventude. Enfim, nesse regime, todos que queiram participar de alguma forma da vida social têm que entrar nas organizações filiadas ao partido fascista ou nazista.

O partido nazista foi fundado na esteira da derrota da revolução de 1918-1919, nesse último ano, por Adolf Hitler – como aponta Choma em seu artigo, “um ex-combatente da Primeira Guerra que realizava discursos em uma cervejaria em Munique carregados de nacionalismo racista, antissemita e de ódio pelo comunismo. (…). Em 1921, o partido cria a SA (Sturmabteilung, ‘divisão tempestade’ na tradução), uma milícia paramilitar que realizava ataques violentos a outros partidos e sindicatos. Essa é uma das mais importantes características das organizações nazifascistas”.

Os nazistas tiveram uma característica particular no espectro dos movimentos fascistas: além de esmagar as organizações da classe trabalhadora, perseguiam a pureza racial ariana, em nome do “renascimento da pátria alemã”. A esse “resgate”, havia que se eliminar comunistas, socialistas, judeus, ciganos, homossexuais etc., para que o povo alemão, “ariano e trabalhador”, regenerasse o país e restaurasse a glória da Alemanha. Daí suas teorias sobre o “sangue puro”, a “pureza de raça” e a exaltação da pátria e da ordem como o caminho para isso. Foi essa a base doutrinária do regime que acabou por levar aos campos de concentração milhões de judeus, ciganos, LGBTs, socialistas, comunistas e demais opositores políticos.

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Ante a crise econômica mundial de 1929, o nazismo alemão, assim como o fascismo italiano, apresentou-se como “resposta” da ultradireita. Hitler chega ao poder em 1933. O projeto nazifascista avança pouco a pouco, até a invasão da Polônia por Hitler em 1939– o que desencadeará a Segunda Guerra Mundial, até 1945. Como expressão de sua doutrina, o regime nazista aplica a “solução final” e, assim, chega à barbárie do genocídio, do assassinato em massa nos campos de concentração.

Aqui é importante destacar que a barbárie nazista foi aplicada com a participação ou colaboração das grandes empresas capitalistas alemãs e inclusive norte-americanas, tais como Volkswagen, Siemens, que utilizaram mão de obra escrava dos prisioneiros nos campos de concentração, e a IBM, dos Estados Unidos, que forneceu a tecnologia para planejar esses locais. Ou seja, a barbárie não era simplesmente uma posição de um “louco”. Contou com apoio dos monopólios imperialistas.

A extrema direita no Brasil

Bolsonaro e Alvim, em sua “guerra cultural” e combate ao imaginário “marxismo cultural”, também se apoiam no ideário dito patriótico, de um nacionalismo que travaria luta contra inimigos internos. Por isso, em nome da suposta “batalha contra o comunismo”, Bolsonaro não se envergonha de homenagear o ditador chileno Pinochet ou o paraguaio Stroessner, que tiveram relações de colaboração direta com nazistas alemães que fugiram depois da Segunda Guerra Mundial e se esconderam nesses países[1].

No caso da Colônia Dignidade no Chile, foram já recuperados os arquivos que revelam detalhes numerosos, confirmam operações no interior do local e atrocidades e a colaboração estreita com a Dina (a polícia secreta da ditadura Pinochet), que recebeu apoio técnico em construções subterrâneas e comunicações dos líderes dessa colônia fundada em 1961 por nazistas exilados. Era uma comunidade agrária de alemães fundada por um ex-militar nazista, Paul Schäfer; lá, durante décadas, mediante isolamento e doutrinação, criaram-se “robôs” humanos; abusou-se sexualmente de dezenas de adolescentes e crianças e em seu hospital se administraram psicofármacos ilegais e choques. Esse criminoso nazista atuou durante a ditadura Pinochet, ajudando o regime de extrema direita a reprimir e assassinar os opositores. A colônia Dignidade serviu como um centro clandestino de detenção e tortura após o golpe do general Augusto Pinochet contra Salvador Allende em 1973.

Quanto a Stroessner, que Bolsonaro fez questão de chamar de “estadista” e “homem de visão” por ocasião de reunião no Paraguai com o atual presidente Mario Abdo, sua cruel ditadura acolheu e serviu de refúgio ao médico e criminoso de guerra nazista Josef Mengele, procurado no mundo inteiro por seus crimes em Auschwitz e que, graças a seus amigos na extrema-direita sul americana e na Alemanha, jamais foi punido em vida.

Sionismo e seus aliados

A imprensa vem dando a noticia que Israel pressionou Bolsonaro para demitir Alvim, e possivelmente seja verdade pelas relações estreitas entre ambos. Mas a partir desse fato, tenta-se passar a ideia de que Israel luta contra a discriminação racial ou é defensor da democracia e da liberdade dos povos. Na verdade, Israel só se posicionou porque o nazismo está publicamente identificado com o antissemitismo, com o genocídio praticado na Segunda Guerra.  E com a performance de Roberto Alvim explicitamente citando Goebbels, ficou insustentável manter esse personagem, pois era revelador demais (ou “bizarro”, como declarou o ministro Sergio Moro).

Mas o que impede que essa postura seja consistente, que faz com que seja hipócrita? A questão é que o sionismo é um projeto político colonial, que tem em sua gênese o racismo. Surgido em fins do século XIX, visava a criação de um Estado homogêneo etnicamente.

O termo sionismo foi cunhado em 1882 pelo judeu vienense Nathan Birnbaum (1864-1937). Ele afirmava, como consta do livro do historiador israelense Shlomo Sand, intitulado “A invenção do povo judeu”, que “só as ciências naturais podem explicar a especificidade intelectual e afetiva de um povo em particular (…) As diferenças de raças estão na origem da multiplicidade das variedades nacionais. É por conta da oposição entre as raças que o alemão e o eslavo pensam e sentem de forma diferente que o judeu”.

Essa ideia vai servir, como escreve o historiador israelense Ilan Pappé, ao sionismo secularizar e nacionalizar o judaísmo. O objetivo era utilizar o apelo religioso para fortalecer o movimento político que, posteriormente, vai se expandir com o pai do sionismo político moderno, Theodor Herzl (1860-1904). Em 1896 ele publica seu “O Estado judeu”, em que profere sentença: para se livrarem do antissemitismo no mundo, a única solução seria os judeus viverem em seu próprio Estado. Nesse livro, ele coloca a questão: “Devemos preferir a Palestina ou a Argentina?” No ano seguinte ocorre o I Congresso Sionista na Basileia, Suíça, que reúne 200 delegados e decide pela Palestina. Naquela terra, então, apenas 6% da população eram judeus. À colonização, portanto, seria necessário a conquista da terra e do trabalho, mediante “transferência populacional” (dos nativos para fora da Palestina e de judeus da Europa do Leste e central para dentro). Um eufemismo para limpeza étnica.

O sionismo sempre teve, segundo o historiador israelense Avi Shlaim explica em “A muralha de ferro”, o pressuposto “não declarado” e de seus sucessores de que o movimento alcançaria seu objetivo “não através de um entendimento com os palestinos locais, mas por meio de uma aliança com a grande potência dominante do momento”. Nessa linha, em 1904, Hertz chega a se reunir com o chefe da polícia secreta do czar e organizador dos pogroms na Rússia, von Plehve, como escreve o escritor trotskista Lenni Brenner em “A muralha de ferro – Revisionismo sionista de Jabotinsky a Shamir”. Ali inaugurava a tradição política sionista de convergir seu programa com o antissemitismo, segundo escreve o marxista francês Maxime Rodinson em “Israel: A Colonial-Settler State?” (na tradução livre, “Israel: um estado colonial de povoamento?”).

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No encontro com von Plehve, o compromisso foi de que, em troca de apoio, o sionismo não antagonizaria com a monarquia absolutista russa. “Ajude-me a alcançar a terra mais cedo e a revolta acabará. E então a defecção dos socialistas”, declarou Herzl no ensejo. Ele e Plehve trocaram cartas, avalizando tal acordo. Mais: o sionismo tinha o compromisso de tentar afastar judeus da organização e ideias revolucionárias. Esses eram em torno de 4,5% da população na Rússia oprimida pelo tzarismo e, diante das perseguições, naturalmente se aproximavam da luta de todo o povo por sua liberdade, e eram atraídos pela causa socialista. Não por acaso, várias lideranças revolucionárias eram de origem judaica, como Trotsky, Rosa Luxemburgo (nascida na Polônia, também dominada pelo tzar), Sverdlov, Zinoviev e muitos outros.

Para tentar evitar a adesão dos militantes judeus à luta na Rússia – que em outubro de 1917 culminará na primeira revolução socialista vitoriosa –, os sionistas tentavam convencê-los a abandonar o movimento, com a falácia de que o socialismo estaria reservado ao futuro Estado judeu. Conforme Brenner, na verdade, “o antissocialismo era parte integrante de sua estratégica diplomática”.

Após a I Guerra Mundial (1914-1918), a Palestina, até então sob domínio do derrotado Império Otomano, fica sob mandato britânico. Há tempos, importantes dirigentes da burguesia britânica, como Lord Shaftesbury e Palmerston pensavam em apoiar-se nos judeus para colocar um pé na região[2]. A liderança sionista vai, assim, encontrar na Grã-Bretanha o parceiro que permitirá dar um salto no seu projeto colonial. A Declaração Balfour, em 2 de novembro de 1917, em que a Inglaterra se declara favorável à constituição de um lar nacional judeu na Palestina, é um marco nesse sentido. A partir daí, o futuro do sionismo estaria associado diretamente às pretensões imperiais da Inglaterra e seus aliados.

Mas talvez o mais chocante nessa longa história sejam, também segundo o escritor trotskista Brenner, os acordos feitos pela Federação Sionista Alemã com o nazismo. Entre eles o de Há´avarah em 1933, que, como explica o jornalista Jorge H. Mendoza em seu artigo, “diante da perseguição, estabelecia critérios que favorecessem a emigração de judeus para a Palestina em troca de importações da Alemanha Nazista”. Ou seja, os dirigentes sionistas se valeram da perseguição nazi para fortalecer o projeto de colonização racista da Palestina. O acordo perdurou até 1938. Brenner observa em sua obra um triste fato: que o sionismo internacional – ao concordar com a Federação Alemã – furava assim o boicote mundial a produtos nazistas. Nazismo e sionismo, afirma ele, tinham interesses que convergiam: um queria eliminar qualquer vestígio de judeus na Alemanha; o outro precisava deles para a colonização na Palestina. Ambos utilizaram o antissemitismo para seus propósitos.

Outro exemplo relatado por historiadores: muitos judeus, ante o genocídio nazista, tinham como pretensão o refúgio nos Estados Unidos. Mas a política criminosa dos EUA foi fechar suas fronteiras durante a guerra e depois, e isso foi apoiado pela direção sionista devido a um objetivo: obrigar os refugiados e os navios que levavam essa população maltratada e perseguida a aportarem na Palestina – muitos que lá chegaram, ao início, não tinham ideia de que seriam despejados para servir ao projeto colonial. E em julho de 1947, a deportação pelos britânicos do navio Exodus que chegava à Palestina com 4.500 refugiados judeus, obrigando-os a retornar à Alemanha, escandaliza o mundo. O passo seguinte é a recomendação de partilha da Palestina pela recém-criada Organização das Nações Unidas (ONU), em assembleia presidida pelo brasileiro Osvaldo Aranha, em 29 de novembro de 1947, em um estado judeu e um árabe – ou seja, delegando a um colonizador praticamente metade da Palestina, sem consulta aos habitantes nativos.

O nazismo foi derrotado ao fim da Segunda Guerra Mundial. Foi uma grande vitória dos trabalhadores e dos povos do mundo inteiro contra a barbárie. O sionismo saiu fortalecido; conseguiu angariar a simpatia da opinião pública mundial e segue a não poupar a instrumentalização da arte como propaganda para seus fins – como mostra o artigo de Mendoza. Propaganda e tecnologia militar estão entre os grandes investimentos de Israel ainda hoje. Ao jornal israelense Haaretz, em 26 de setembro de 2001, o então presidente do Conselho Representativo das Instituições Judaicas da França (Crif), Roger Cukierman, chegou a fazer uma tenebrosa afirmação, à la Alvim: “Quando Sharon [Ariel Sharon, liderança sionista apelidada não à toa de ‘Carniceiro’] veio à França, disse-lhe que ele deve criar imediatamente um Ministério da Propaganda, como Goebbels.”

O sionismo, com o aval da comunidade internacional, imperialismo e stalinismo, levou a cabo os planos de limpeza étnica que começou a traçar nos anos 1940. O resultado foi a criação do Estado racista de Israel em 78% do território como homogêneo etnicamente, em 15 de maio de 1948. A Nakba (catástrofe) para os palestinos – 800 mil foram expulsos (2/3 da população nativa) e cerca de 500 aldeias foram destruídas. Historiadores comprovam no mínimo massacres em 31 aldeias. Em 1967, Israel ocupou o restante (Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Oriental), o que resultou na expulsão de aproximadamente outros 300 mil palestinos.

A expansão colonial continua. Desumanização, racismo, apartheid, limpeza étnica são parte da realidade dos palestinos, sob o jugo do sionismo. Gaza, por exemplo, enfrenta dramática crise humanitária. E 5 milhões de refugiados vivem em campos na região impedidos de retornar as suas terras. Esse é o aliado de Bolsonaro, sob o manto da representação religiosa.

Qual foi o outro país que implantou esse modelo de racismo e apartheid? A África do Sul, onde uma minoria de colonos brancos, os africâners, fortemente armados contra a maioria negra, violou durante décadas todas as leis internacionais, sofrendo por isso um boicote ativo que ajudou em muito a derrotar esse regime nos anos 1990 – movimento que inspira a principal campanha de solidariedade internacional ao povo palestino, denominada BDS (boicote, desinvestimento e sanções) a Israel.

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Na África do Sul durante o apartheid, coerente com a defesa da supremacia branca e em considerar os negros uma raça inferior, sempre houve simpatia do regime pelo nazismo. Sua política foi de atacar qualquer intento de libertação dos demais países africanos das potências imperialistas, como em Angola, Moçambique, Congo etc., assim como de sustentar a república racista da Rodésia contra a população negra discriminada.

Israel e África do Sul foram aliados constantes, afinal, eram ambos estados coloniais e racistas. E pontos de apoio do imperialismo contra a libertação dos demais povos da região.

Quando se analisam o racismo e as violações aos direitos humanos, portanto, não parece incoerente flertar com o nazismo e ser parceiro do sionismo. Vale lembrar que Bolsonaro se elegeu com votos da “direita” sionista. Em discurso de campanha no Clube Hebraica do Rio de Janeiro, em abril de 2017, ele chegou a ser aplaudido e arrancar risos da plateia formada por cerca de 300 pessoas por suas declarações racistas, como a de que havia visitado um quilombo e que o “afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada. Eu acho que nem para procriador ele serve mais.”. Também expôs sua xenofobia, ao dizer que o Brasil não poderia abrir as portas para todo mundo (refugiados). Muito semelhante aos discursos e ações racistas de seus aliados Trump, dos Estados Unidos, que diz que os mexicanos e latinos que tentam entrar “são criminosos”; e Salvini, da Itália, que diz o mesmo contra os imigrantes árabes e africanos.  E Netanyahu sobre os palestinos.

É verdade que a chamada “esquerda” sionista sempre se apresenta como oposição a Bolsonaro. Todavia, como demonstra a Rede Internacional de Judeus Antissionistas em resenha sobre a publicação “Falsos profetas da paz”, de Tikva Honig-Parnass, historicamente essa “esquerda” esteve tão alinhada com o projeto de colonização da Palestina quanto a direita. “Como esse livro mostra, desde antes da fundação do Estado de Israel, a esquerda sionista falou demasiadas vezes a língua do universalismo, enquanto ajudava a criar e manter sistemas jurídicos, governos e o aparato militar que permitiram a colonização de terras palestinas.”

 Nunca mais para ninguém

Mas o sionismo já começa a ter um questionamento crescente não só entre os povos árabes e demais, mas entre os judeus – como mostram movimentos de repúdio ao sionismo mundo afora, inclusive nos Estados Unidos, como a rede Jewish Voice for Peace (Vozes judias pela paz), que apoia o BDS contra a colonização e o apartheid sionista. A posição coerente é repudiar veementemente tanto a apologia ao nazismo quanto o sionismo – o que não tem nada a ver com ser antissemita. Essa é uma chantagem utilizada por Israel para silenciar seus críticos.

Na tarde de 17 de janeiro, entre os assuntos mais comentados do twitter no Brasil, aparecia a palavra Israel (114 mil twittes), ao lado de cultura (298 mil), Alvim (215 mil) e nazismo (119 mil). O comentarista esportivo Milton Neves é um dos que expõem esse tipo de desinformação e confusão entre antissionismo e antissemitismo: “Secretário merecidamente demitido após referência abominável e nojenta ao maldito nazismo. Bom ver que todos apoiam o povo judeu e nunca mais vão falar a bobagem que o Estado de Israel não merece existir e nem queimar bandeiras de Israel nos tais ‘atos’. Viva a comunidade judaica.”

Quem explica a esdrúxula associação é o jornalista francês Dennis Sieffert em artigo publicado no livro “Antissemitismo, a intolerável chantagem”: “Para convencer que a crítica dirigida a Israel é um ato antissemita não é preciso apenas identificar o judaísmo a Israel, é preciso, também, fazer do Estado judaico a nova representação metafórica exclusiva do judeu.”

É o que faz Neves em sua postagem, tentando associar o justo protesto e ato simbólico de queima da bandeira que representa a colonização sionista a um suposto antissemitismo. Desconhece ainda que a defesa de uma Palestina única, laica, livre, democrática, não racista, com o retorno dos milhões de refugiados as suas terras e direitos iguais para todos que queiram viver em paz, é a única solução justa para a totalidade da população que sofre com o apartheid e a colonização. O fim do Estado racista de Israel não significa a mentira de jogar judeus ao mar, mas derrotar o projeto sionista.

Intitulada “Nunca mais para ninguém”, carta assinada por mais de 350 sobreviventes judeus e descendentes de vítimas do genocídio nazista, em agosto de 2014, durante o massacre de Israel em Gaza, publicada no New York Times e disseminada pela Rede Internacional de Judeus Antissionistas, dá a resposta: “Nunca mais para ninguém desafia o uso indevido do genocídio nazista de judeus (‘O Holocausto’) para fins políticos. Ao excepcionalizar o genocídio nazista, os judeus europeus são separados das vítimas e sobreviventes desse e de outros genocídios, em vez de se unirem a eles. A exploração sionista desse genocídio para justificar a colonização, o deslocamento e o apartheid na Palestina é uma desonra para os que sobreviveram e para os que não sobreviveram. O refrão ‘Nunca mais’ deve significar ‘Nunca mais, para ninguém!’.”

*Josef Weil é de origem judaica. Parte de sua família desapareceu durante a ocupação nazista da Europa oriental.

*Soraya Misleh é jornalista palestino-brasileira e teve parte da família expulsa de suas terras na Nakba. Ainda hoje sofrem a colonização e ocupação sionista.

[1] Os segredos da colônia alemã que uniu nazismo, abuso sexual de crianças e tortura em nome de Pinochet, BBC News, 12/9/16.

[2] Afinal, a Inglaterra tinha apoiado Cecil Rhodes em uma empresa colonizadora na África negra, colocando brancos para dominar e impondo aos negros dessa região um regime de apartheid e a perda de qualquer direito. Esses colonos fundaram mais tarde a Rodésia (1964-1979) e só após um duro combate foram derrotados, o que deu origem ao atual Zimbabwe.