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A música “Bella ciao” (“Querida, adeus”, na tradução livre) voltou a ser cantarolada mundo afora. Essa é uma história das mais tortuosas. A canção original marcou a luta pelo socialismo e contra a opressão fascista, mas muitos não conhecem essa história, sequer conhecem sua origem.

Por: Wilson Honório Silva – Secretaria Nacional de Formação do PSTU

De “La casa de papel” ao funk

A música voltou a se popularizar em maio de 2017 com a estreia da série espanhola “La casa de papel”, exibida pela Netflix, que gira em torno de um assalto à Casa da Moeda da Espanha. Na série, a música é interpretada pela engajada Banda Bassoti, numa versão ska punk (mistura de ritmos caribenhos, principalmente da Jamaica, com blues, jazz, rock e batida punk).

A escolha da banda e de sua versão foi feita a dedo. Bassotti é um grupo italiano que tem como lema a frase “Gritem alto: não ao fascismo, não ao racismo” e é formado por ex-trabalhadores da construção civil.

Desde o início dos anos 1980, a banda tem se colocado a serviço das lutas dos povos da Palestina, do País Basco e da América Central, com suas próprias composições e versões dos clássicos das canções de protesto. Vale conferir a versão de “Bandiera Rossa”, também conhecida na versão espanhola “Bandera Roja”, transformada num dos hinos da Revolução Espanhola nos anos 1930.

Foi assistindo à série que MC MM e o DJ RD (o paulista Márcio Rezende e o carioca Rodolfo Marcial respectivamente) compuseram a versão funk intitulada “Só quer Vrau”. Lançada em abril passado, rapidinho ganhou as ruas, chegando ao primeiro lugar no aplicativo de música Spotify. É uma versão totalmente misógina, ou seja, cheia de sexismo, machismo e desprezo às mulheres.

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Segundo o autor, a música foi composta em meia hora, sem que ele soubesse de sua origem. Quando soube, declarou: “Vi que por trás da música tinha história. A gente vive hoje nas comunidades tudo isso que eles passaram anos atrás: lutavam pela liberdade, e o funk luta pela liberdade de expressão” (Folha de S. Paulo, 6/5/2018).

Depois disso, novas paródias da música chegaram aos jogos da Copa do Mundo, quando torcedores, com os brasileiros à frente, utilizavam o refrão para ironizar os adversários desclassificados. Recentemente, ela foi cantada a todos pulmões durante uma manifestação de bancários por aumento salarial em Buenos Aires, na Argentina. Os funcionários, que fizeram uma paródia da canção, provocavam o governo de Mauricio Macri cantando: “Somos bancários, queremos aumento, e Macri tchau, tchau, tchau.”

Afinal, qual é a história e a origem da canção?

Uma história de lutas que ainda ecoa nas ruas

Utilizar a música como palavra de ordem é uma tradição tão antiga quanto ela própria. Há polêmicas em torno das origens de “Bella ciao”. Acredita-se que ela tenha surgido no final dos anos 1800 como canção de luta dos camponeses italianos.

Contudo, “Bella ciao” se tornou inseparável da luta de classes a partir dos protestos contra a Primeira Guerra Mundial, em 1914, e nos anos 1920, quando foi adotada pela Resistência Italiana contra o fascismo de Benito Mussolini. A canção foi retomada em inúmeras batalhas internacionalistas, como na Revolução Espanhola. Também foi o hino da Resistenza nas batalhas dos partigiano (guerrilheiros da resistência), dirigidas pelo Partido Comunista contra o nazismo e o fascismo na Segunda Guerra Mundial.

A letra italiana dessa época conta a história de um homem que diz adeus para a sua bella e vai lutar neste conflito: “Uma manhã eu me levantei/ Querida, adeus, querida, adeus, querida, adeus, adeus, adeus/ Uma manhã eu me levantei/ E eu encontrei o invasor/ (…) E se eu morrer como um membro da Resistência/ Querida, adeus, querida, adeus, querida adeus, adeus, adeus.

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A canção foi retomada em inúmeras batalhas internacionalistas, como na Revolução Espanhola

A canção ressurgiu de forma explosiva nas manifestações da juventude e dos trabalhadores nos rebeldes anos 1960. Aqui no Brasil, como em toda a América Latina, a repressão e a censura ditatoriais fizeram com que a música fosse proibida, o que só intensificou sua propagação entre a militância de esquerda. Uma versão teatral, montada em 1982, virou, por si só, um ato de protesto e, invariavelmente, noite após noite, o público inteiro se levantava, com punhos esquerdos erguidos, para entoar a canção junto com os personagens.

Mais recentemente, a música ecoou em gigantescas manifestações e processos revolucionários. Foi cantada nas praças e ruas durante a Primavera Árabe, embalou os gregos durante suas greves.

O papel do humor, em qualquer sociedade dividida entre pessoas exploradas e exploradores, oprimidos e opressores, é virar a sociedade pelo avesso, desmascarar as mentiras das classes dominantes ou, ainda, promover o destronamento da classe e da ideologia dominante, colocando em praça pública o confronto entre o mundo do mercado e a realidade daqueles que são oprimidos. Uma canção de luta de todos os oprimidos não pode e não deve ser utilizada para oprimir.

“Bella ciao” é o hino para aqueles que lutam para revolucionar o mundo, banir toda forma de opressão, racismo, machismo e LGBTfobia. Que venham muitas versões que possam acalentar os nossos sonhos!