Intervenção na Reunião da Coordenação Nacional Sindical Social e Popular

Por: Fredis Marrugo – Presidente Ustrial

O Governo criminoso de Iván Duque vem, há um ano, aproveitando a emergência sanitária gerada pela pandemia, para tomar medidas em benefício dos mais poderosos e avançar nas reformas trabalhistas, tributárias e previdenciárias em detrimento da classe trabalhadora, juventude, mulheres, comunidades afro e indígenas e os setores populares, que receberam apenas migalhas assistencialistas e foram vítimas da repressão e da brutalidade policial.

O Comitê Nacional de Greve (CNP em sua sigla em espanhol), reduzido às direções das centrais operárias, convocou uma Greve Nacional para o dia 28 de abril, em meio à incerteza da preparação nas bases e do aumento dos contágios do covid-19.

Para entender o que será este dia de luta, é necessário partir do que significou o dia 21 de novembro de 2019 – que não é comparável ao que foi a Greve Cívica Nacional de 14 de setembro de 1977 – mas guardada as devidas proporções, foi o dia de luta que despertou os trabalhadores e os pobres, por isso a caracterizamos como a mais importante mobilização dos explorados em nosso país neste século.

Um Comando Nacional de Greve que se nega a dirigir a Greve Nacional

Temos que dizer que foi constituído um organismo denominado Comando Nacional de Greve, que apresentou uma lista de reivindicações ao governo de Duque com os 106 pontos mais sentidos por todos os setores, o que foi completamente ignorado pelo Governo. Este pleito ainda não foi resolvido e sobre isso, hoje o Comando Nacional de Greve não diz nada.

Não é desconhecido por ninguém que a intenção dos dirigentes das centrais ao convocar a Reunião de Emergência que votou pela greve de 21 de novembro de 2019 era reduzir essa mobilização a uma jornada de luta, para retardar as mobilizações. Mas a dureza do pacotaço de Duque e a pressão dos diversos setores levaram à derrota da intenção dos dirigentes das centrais operárias e o 21N, que todos conhecemos, foi realizado.

O mais lamentável em todo este processo, apesar de existirem companheiros que defendem as ações dos dirigentes das centrais, é que a partir do próprio dia 21 de novembro eles passaram a atuar como bombeiros tentando apagar o fogo que ameaçava se estender por todo o país, e que ardia fundamentalmente nas grandes cidades como Medellín e Cali, em especial na capital, Bogotá.

Essa atuação como bombeiros os levou a dizer no dia seguinte em declarações à imprensa, que a greve já havia terminado, sendo que as manifestações continuavam em todos os setores e os panelaços ensurdeciam as cidades. Depois foram obrigados a convocar um encontro no mês de dezembro, ao qual não compareceram, mas que no acordo realizado naquele domingo após a reunião, ficou nítido a força e o apoio de amplos setores à luta contra o Governo.

Mais uma vez dividem o Encontro convocado no final de janeiro, realizando um paralelo nos auditórios do Teatro Cafam, enquanto os participantes perdemos toda a tarde do sábado no Teatro Jorge Eliecer Gaitán para terminar no domingo na Concha Acústica da Universidade Nacional. Lá foi votada uma Greve Nacional no dia 25 de março 2020, greve que foi esquecida com o confinamento e os decretos da pandemia, mas que serviu para mostrar a situação de subcontratação, de terceirização e dispersão em que se encontram os trabalhadores da saúde, que foram a linha de frente na luta contra a Covid-19 e a vanguarda na denúncia contra o Governo. Mas sua luta foi ignorada pelas direções das centrais, que os deixaram lutando sozinhos e não permitiram que se unificassem com uma política que pudesse derrubar tudo o que significou a aplicação da nefasta lei 100 de 1993 (Lei que estabeleceu o Regime Geral de Previdência Social em Saúde, ndt).

As lutas em meio à pandemia

A pandemia da Covid é real, não somos negacionistas, mais de 62.500 colombianos morreram e mais de 2.300.000 foram infectadas, mas devemos deixar claro que chegamos nesta situação por total irresponsabilidade do Governo, não só nacional, mas também os famosos governos alternativos, mais interessados nos negócios dos capitalistas do que na saúde da classe trabalhadora e dos pobres, que somos a maioria dos mortos. Por isso devemos exigir um plano de vacinação em massa e gratuito, com a quebra das patentes, no qual todos que desejarem se vacinar, o façam imediatamente.

Não podemos omitir que os dirigentes das centrais tiveram o comportamento mais antidemocrático nunca visto no movimento popular no país, mas essa ação só se explica porque ao invés de ter como política a organização e mobilização dos trabalhadores para derrotar os planos do governo, eles estão desde 2019, negociando e preparando as eleições presidenciais de 2022. Isso mostra que a única coisa que lhes interessa são as eleições, como se com elas fosse possível obter as mudanças que a classe trabalhadora e os setores populares necessitamos.

Não é desconhecido por ninguém que os poucos direitos que os explorados no país ainda temos, não foram dádivas dos governos ou dos patrões. Todos os direitos que hoje usufruímos foram produto da luta permanente dos explorados e nenhum governo vai resolver os nossos problemas. A prova disso é o que vemos atualmente na América Latina, onde os chamados governos “progressistas” aplicaram os planos neoliberais do FMI e do Banco Mundial contra os trabalhadores: Lula no Brasil, que implementou uma reforma previdenciária regressiva; Maduro, que apesar da existência de um bloqueio por parte do imperialismo se nega a expropriar à burguesia, e hoje se veste de vermelho para se autoproclamar Bolivariano e Socialista, enquanto os trabalhadores perderam seus direitos e recebem os salários mais miseráveis da América do Sul. E essa situação se repetiu nos governos de Evo Morales na Bolívia ou de Correa no Equador, que pagaram fielmente o saque e a fraude que significa a atual dívida externa.

Infelizmente, o Comando Nacional de Greve deixou de lutar pela pauta dos 106 pontos, para levantar um pauta de seis pontos denominado de emergência, no qual se negaram a levantar as reivindicações importantes com a reintegração dos demitidos, o que o governo continua desconhecendo. Hoje todo o seu esforço está voltado ao projeto de lei da renda básica, o que significará endossar a reforma tributária, para que uma série de auxílios assistencialistas – como famílias e jovens em ação – se unifiquem em uma verba miserável que chegará no máximo a 400 mil pesos, se recusando a lutar por um subsídio para os desempregados e empregos reais com seus salários

Para esse projeto de lei, convocaram uma Cúpula Nacional, onde supostamente iriam receber as contribuições das organizações. Não incorporaram nenhuma das contribuições sugeridas ao projeto de lei, e continuam se negando a convocar uma cúpula operária e popular para organizar a luta contra o pacotaço de Duque.

Hoje os sindicatos do setor estatal apresentaram uma pauta de cerca de 600 pontos ao Estado, que é o principal violador das leis trabalhistas colombianas ao incentivar a terceirização trabalhista, com os contratos sindicais, as OPS (contrato de prestação de serviços, ndt), etc., cujo objetivo é desconhecer direitos dos trabalhadores. Nesse contexto, a cúpula das centrais sindicais decretou uma Greve Nacional para 28 de abril, Greve inicialmente chamada de estatal e por 24 horas e agora simplesmente a chamam Greve, sem fazer nenhum plano concreto de preparação e na qual pensam realizar algumas agitações e concentrações, chamando de greve a um dia de protesto.

O papel da CNSSP

Nós na Coordenação Nacional Sindical Social e Popular – CNSSP devemos discutir o que fazer diante dessa nova situação. A partir dessa reunião que na prática é uma reunião das organizações que fazem parte da CNSSP e não é o Encontro que os trabalhadores precisam para derrotar o pacotaço do Governo.

Nós, trabalhadores, precisamos ir às ruas não só para protestar, mas para criar as condições para que realmente se realize uma Greve Nacional por tempo indeterminado que paralise a produção, como único mecanismo eficaz para barrar este plano de fome do Governo de Duque, que também é executado com o mais cínico plano de extermínio dos lutadores sociais.

Infelizmente, milhares de trabalhadores ainda não abriram seus olhos nem sua mente e continuam acreditando e confiando nos dirigentes que hoje os estão traindo. Conseguir que os trabalhadores façam a experiência com esses dirigentes traidores passa por construir uma alternativa de direção que reivindique como primeira medida a solidariedade com aqueles que lutam, ou seja, significa fazer as pessoas entenderem que o problema de qualquer trabalhador é nosso problema e não podemos deixá-los sozinhos como aconteceu com a heróica greve dos trabalhadores da mina de carbono de Cerrejón, os quais depois da greve, a transnacional [Grupo BHP, Anglo American e Glencore, ndt.] continua impondo sua política nefasta ao implementar o turno da morte.

Essa alternativa de direção para os trabalhadores, da qual esta coordenação nacional é um pequeno embrião que se está construindo, deve superar alguns erros de sectarismo e de autoproclamação, deve ter uma política de enfrentamento aos planos do governo, contrapondo-se à nefasta política de acordo que hoje agenciam a maioria das direções políticas e sindicais.

Queremos esclarecer que este termo de acordo é utilizado pelos dirigentes das centrais, dando-lhe o significado de negociação. Não podemos confundir estes termos, fazer acordo é concordar com o governo sobre as políticas prejudiciais para os trabalhadores com a ideia de causar o “dano menor”, é transformar os explorados em cúmplices de sua exploração. Em vez disso, a negociação é um resultado da luta, é obrigar aos patrões e ao governo a reconhecer nossos direitos por meio da mobilização e do confronto.

Nós, como militantes do Partido Socialista dos Trabalhadores, achamos que a CNSSP deve chamar aos dirigentes sindicais e em especial ao Comando Nacional de Greve, para que esta jornada de protesto convocada para 28 de abril seja de fato uma Greve Nacional ou que sirva para avançar nesse sentido. Por isso, é necessário que seja convocado um Encontro Nacional onde participem todas as forças do movimento operário e popular, mulheres, juventude, comunidades afro e indígenas, que sejam convocadas assembleias das organizações sindicais, sociais e populares para organizar a participação na Greve, devemos exigir que tenha democracia para a base e que sejam convocados encontros em todas as regiões que visem esse objetivo: enfrentar o Pacotaço de Duque.

Artigo publicado em www.magazine.pstcolombia.org, pelo Editor El Socialista Região Caribe, em 27 março de 2021.

Tradução: Rosangela Botelho