Desde dezembro de 2017, os trabalhadores e o povo pobre vêm mostrando que, apesar das ofensivas repressoras do governo Macri e das medidas econômicas que continuam com as demissões, o aumento das tarifas e o teto nas negociações salariais, eles e suas famílias continuam lutando, continuam nas ruas e lutam como e onde podem de maneira decidida com uma premissa justa: não podemos dar trégua para este governo.

Por: PSTU – Argentina

Mas isso não é exatamente o que os dirigentes sindicais pensam, justamente porque, no momento em que é necessário arriscar-se, a situação não é a mesma para eles, já que muitos enriqueceram à custa dos trabalhadores. Por outro lado, para nós só resta lutar para sobreviver, não abrir mão de nenhuma conquista, não deixar passar nenhuma demissão ou suspensão. Mas para esses dirigentes existem outros motivos que os fazem vacilar em muitos casos, trair em outros e dar trégua ao governo.

Uma rebelião nas bases

O que está acontecendo é, sem dúvida, uma verdadeira rebelião na família operária, que vê que nos últimos anos não só perdeu poder aquisitivo, mas também que as demissões atingiram diretamente os trabalhadores.

É por isso que em cada fábrica, jazida de petróleo ou bairro a indignação contra o governo e a traição do triunvirato que dirige a CGT (Confederação Geral do Trabalho) se transforma em pressão para sair à luta com as ferramentas que estão ao seu alcance.

Desde dezembro, são milhares de trabalhadores mobilizados contra as demissões e o plano econômico, o pacto fiscal que condena os funcionários públicos dos estados à fome.

Temos que organizar toda essa revolta, entendendo que, para isso, precisamos passar por cima dos dirigentes traidores e dos limites impostos pelo Ministério do Trabalho. Devemos desconfiar de todos os dirigentes, porque a nossa força está nas assembleias e na organização coletiva.

Um processo de reorganização e o papel das cúpulas

No interior e em algumas regiões de Buenos Aires, esta situação está se tornando explosiva e os sindicatos tendem a coordenar ações, impulsionando organizações como o Movimento Sindical de Rosário, o Encontro Sindical da Patagônia, coordenações compostas entra a CTA (Central de Trabalhadores da Argentina) e a CGT regionais etc.

No entanto, apesar dos avanços, esses agrupamentos tiveram uma política de conter o processo de luta, não impulsionaram o seu desenvolvimento, já que essa rebelião das bases não se refletiu em organização efetiva. E isso acontece porque, apesar de as direções assumirem uma parte das reivindicações dos trabalhadores de ir à luta e o chamado à unidade, fazem-no a partir das cúpulas, não construindo encontros de delegados e ativistas de todos os sindicatos e bairros que façam assembleias  nos locais de trabalho e elejam delegados de base e, a partir daí, organizem ações firmes para a construção da Greve Geral e de um programa operário alternativo.

21 de fevereiro: uma maré operária mobilizada, sem anunciar um plano de luta

Para muitos, o dia 21 de fevereiro foi um acontecimento histórico, que não só mobilizou centenas de milhares de trabalhadores como também demonstrou a morte do triunvirato da CGT. A aliança de Moyano, das CTAs e dos movimentos sociais colocaram um novo ator entre o governo e a resistência do movimento operário.

No entanto, a queda do triunvirato começou a ser gestada com a manifestação de 7 de março do ano passado, que culminou em 18 de dezembro. Foi quando se expressou a rebelião das bases, que dizem: Chega de tanto ajuste! Basta de plano econômico! Enfim, dizem que Macri tem que sair, e por isso o hit do verão fez tanto sucesso.

Porém, existe a tendência de que a unidade alcançada nas ruas no dia 21 de fevereiro leve à formação de um novo agrupamento, uma nova frente sindical que quer aplicar a mesma política de contenção, ainda que façam um chamado à mobilização contra o governo. Mas, novamente, a unidade é proposta a partir das cúpulas e continuam sem dar o mínimo sinal de construção de uma Greve Geral, de um plano de lutas e menos ainda de um chamado à organização das bases dos dirigentes traidores e “conciliadores”.

A vontade da base é enorme e foi comprovada no dia 8 de março. Esse dia era a oportunidade para esta frente sindical realizar uma verdadeira Greve Geral, que não apenas enfraqueceria o governo Macri, mas que também colocaria os trabalhadores e trabalhadoras em melhores condições para conquistar as reivindicações para as mulheres trabalhadoras e a legalização do aborto.

Porém, como todas essas negociatas são feitas por cima, onde estão envolvidos outros atores como o PJ (Partido Justicialista) que quer se reunificar, continuam limitando a convergência dos milhares de ativistas e delegados que estão na luta. Por isso, defendemos como ponto de partida uma postura política de enfrentamento com o governo e as multinacionais daqueles que não depositam esperanças nas eleições de 2019.

Temos que intervir com tudo

Já conhecemos o diagnóstico dos dirigentes e seus limites em torno a saídas por dentro do regime. Mas aqui não se trata de ficar observando e fazer críticas. Devemos intervir nesse processo, justamente porque existe uma rebelião e principalmente depois do que aconteceu no dia 18. Nesse sentido, fazemos uma chamado à organização das bases com encontros regionais e nacionais que expressem essa disposição de luta, pelas reivindicações dos trabalhadores, que defina a agenda para derrotar Macri e seu plano de ajuste imediatamente. Não temos tempo para esperar até 2019, porque a cada dia sentimos o aumento da repressão e da fome.

Estamos em um novo momento. Não podemos nos limitar aos encontros somente de militantes combativos, como os que são chamados pela esquerda e que permanecem apenas nesse âmbito. Todos esses encontros combativos devem ter uma política para disputar linhas concretas com esses milhares de operários que não podem ficar à espera das eleições. Devemos propor as puebladas (manifestações populares), como as de Jujuy e Río Turbio (região mineira), e esse é o caminho a ser construído, já que a ação direta e a autodefesa passam a ser parte fundamental da luta da classe operária argentina, retomando as tradições do sindicalismo que tentaram apagar com a conciliação das cúpulas sindicais com os empresários e o Estado.

No mundo todo estão se dando passos na reorganização dos trabalhadores. Há importantes experiências, como a CSP-Conlutas no Brasil. É por esse caminho que devemos seguir, incorporando todas as reivindicações da nossa classe, todos os métodos de luta e que as assembleias sejam o órgão máximo que forje uma nova direção operária.

Tradução: Luana Bonfante