Publicamos um relato completo sobre a investigação de um massacre de 288 sírios no distrito de Al-Tadamoun em Damasco, Síria. Dois pesquisadores de crimes de guerra enganaram oficiais de inteligência de Assad para que confessassem o crime, e uma investigação jornalística arrepiante se seguiu.

A investigação foi realizada por Ugur Umit Ungor, professor de estudos do holocausto e genocídio da Universidade de Amsterdã e no Instituto NIOD em Amsterdã; e Annsar Shahhoud que tem mestrado em estudos do holocausto e genocídio. Sua pesquisa se concentra na violência estatal na Síria.

O artigo foi publicado por http://newslinesmag.com em 27/04/22 e em árabe pelo Al Jumhuriya Collective.

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Vídeos vazados mostram em detalhes assustadores e sem precedentes militares sírios cometendo um massacre em 2013 de 288 civis, incluindo sete mulheres e 12 crianças. Nos 27 vídeos, que vazaram para os autores em 2019, mostram as diferentes etapas do massacre, inclusive com os rostos de militares que parecem estar à vontade para as câmeras e ter total consciência do que estavam fazendo antes de executar seus prisioneiros civis a sangue frio. Uma investigação posterior que durou dois anos, com base em dados públicos e inúmeras entrevistas, incluindo alguns dos carrascos que continuaram servindo como oficiais de elite da unidade de inteligência militar da Síria, revelou que o massacre ocorreu em 16 de abril de 2013, em Damasco, no distrito de Tadamon. A filmagem lança luz sobre o funcionamento interno de um regime que dependia de execuções em massa sistemáticas de civis, além do bombardeio indiscriminado de áreas civis durante a guerra de 11 anos do país.

A revista New Lines adquiriu detalhes desta investigação e verificou a autenticidade das filmagens e provas apresentadas pelos autores.

Até o momento, o debate público concentrou sua atenção nos confrontos da guerra, ou nos bombardeios impiedosos e ataques aéreos em territórios controlados pela oposição.  Mas os bairros sob controle do regime, do outro lado das trincheiras, foram relativamente negligenciados. Os vídeos do massacre de Tadamon, nossas entrevistas com os que executaram o massacre e as testemunhas sobreviventes demonstram que havia uma operação assassina de limpeza em andamento. Conforme aprofundamos nossa pesquisa, percebemos que esse massacre foi uma fotografia de uma política muito mais ampla de destruição e extermínio que o regime promoveu nas periferias do Sul. A extensão do genocídio nesse microcosmo é muito maior do que este que foi gravado em vídeo e inclui pelo menos quatro formas de violência: assassinatos em massa sistemáticos, encarceramento, violência sexual e exploração econômica.

Nessa investigação, vamos nos focar nos dois principais carrascos mostrados nas filmagens. Eles são Amjad Youssef, 36, que na época do massacre era subtenente, e o agora morto Najib al-Halabi, nascido em 1984, que não tinha nenhuma patente oficial, porque era integrante de uma milícia conhecida como Força de Defesa Nacional (FDN). Em três vídeos diferentes, com duração de pelo menos 7 minutos cada, esses dois homens aparecem em plena luz do dia enquanto executam 41 civis. Então, eles desovam os corpos em uma cova pré-escavada, preparadas com pneus de carros para a incineração.

Na filmagem, Youssef é visto vestido com uniforme militar verde e um chapéu de pescador cor de oliva. Ele parece focado, estóico e preciso, e trabalha com eficiência para cumprir sua missão em 25 minutos. Seu irmão em armas, Najib, está vestindo um uniforme militar cinza e parece bem à vontade, sorrindo, fumando e até conversando diretamente com a lente da câmera. Os tiroteios parecem ser uma rotina repetitiva: um dos agentes retira de uma van branca um civil amarrado e com os olhos vendados, e o leva até uma larga cova pré-cavada. Outro agente o executa com um tiro de uma AK-47. Algumas poucas vítimas tomam um tiro de pistola. Os assassinos realizam as execuções de modo padronizado, como se estivessem seguindo um procedimento padrão, falando pouco, exceto quando gritavam ordens para as vítimas (“levante-se”, “saia”, “ande”, “corra”). Um agente está filmando, enquanto os outros dois estão atirando. Eles não esboçam nenhuma emoção, mas estão claramente gostando do trabalho. Em dado momento, Najib vira a câmera para si e, sorrindo, envia uma mensagem de dever cumprido ao seu “chefe”: “saudações a você, chefe (معلم), pelos seus lindos olhos e seu uniforme oliva quando o usa”. De acordo com nossa pesquisa, a referência a “lindos olhos” seria ou para Jamal Ismail, ou para Abu Muntajab, ambos comandantes dos carrascos.

Os agentes claramente prepararam o local para as condições ideais de execução, para assassinar as vítimas e depois queimá-las sem deixar vestígios. Eles parecem estar confortáveis e ter familiaridade com o local do massacre, matando em plena luz do dia, o que sugere que toda a área está sob seu controle. Não parecem estar apressados nem preocupados com qualquer ameaça. Enganam suas vítimas dizendo que algumas estavam sendo transferidas para outra área e que essa parte da estrada estaria exposta a franco-atiradores (snipers).

“Sniper, seu desgraçado!” grita Youssef, enquanto arrasta sua vítima cambaleante para dentro da vala comum, depois atira nele. Com uma das vítimas ele fica impaciente, culpando-o por não ter morrido nem no primeiro nem no segundo tiro. No terceiro tiro ele se irrita: “Morre, desgraçado! Você já não teve o bastante?”. O final do vídeo sugere que o massacre acabou, então um dos agentes pergunta “Existem outros?”, então há um silêncio e é possível ouvir gemidos fracos que emergem da massa de corpos que estão abaixo das botas dos agentes.

Os vídeos, já chocantes por sua atrocidade, destacam-se por sua brevidade e insensibilidade de todas as milhares de horas de filmagens que vimos em nossas carreiras de pesquisadores sobre violência em massa e genocídio, seja na Síria ou qualquer outro lugar. O mais chocante sobre os vídeos de Tadamon é o fato de que os oficiais de inteligência que cometeram o massacre estavam uniformizados e a serviço; eles se reportam ao presidente Bashar al-Assad em pessoa e, mesmo assim, escolheram mostrar seus rostos nas imagens incriminadoras. Em vários momentos durante o vídeo, eles olharam diretamente para a câmera, aparentando estar relaxados e sorridentes. Ao documentar suas próprias ações, utilizam vídeos com qualidade HD (alta definição).

Em um vídeo, Youssef é visto dirigindo uma escavadora que depois ele usa para cavar a vala comum, que tem aproximadamente 3 metros de profundidade. A rua onde isso ocorre parece bombardeada, e a cena toda parece o resultado da destruição em massa por bombardeamento, bombardeio e confrontos. Há buracos de bala nas paredes. Você pode ver através de um edifício. Não há sons de guerra: nem bombardeios, nem tiros, nem confrontos. Simplesmente quieto, cortado pelos tiros das execuções e uma fumaça ocasional das armas dos assassinos. O operador da câmera dispõe de tempo para filmar a cena: ele foca principalmente na vala comum. As vítimas são então trazidas para dentro do enquadramento e baleadas uma por uma. A vala é preenchida rapidamente e se transforma numa confusão emaranhada de corpos, roupas, sangue e pneus de carro.

Os olhos das vítimas estão vendados com uma fita adesiva transparente ou com um filme plástico de celofane. Suas mãos estão amarradas com braçadeiras de plástico branco, normalmente usadas para amarrar cabos (as mesmas braçadeiras usadas pela polícia pelo mundo como algemas plásticas). A maioria das vítimas estão vestindo roupas modernas, casuais: jeans e camisas, moletons ou “dishdashas” (vestes brancas longas usadas pelos homens). Alguns estão usando pijamas, sugerindo que foram arrancados de suas casas ou de postos de controle de segurança. Algumas vítimas parecem muito pobres, outros parecem bem vestidos; nenhum parece ter sido gravemente torturado ou como os presos macilentos que o regime mantém nos campos de trabalhos forçados tipo “gulag”. Eles são dóceis e não resistem ou protestam, e seguem as ordens dos perpetradores: saem, caminham, levantam. Todos são baleados, com a exceção de um velho, que é degolado por Youssef.

A maioria das vítimas morre em silêncio. Alguns imploram, choram e uivam; outros tentam barganhar, conjurar ou implorar. Nenhuma das vítimas profere o “Shahadah,” o testemunho de fé muçulmano, antes da morte. Alguns são chutados ou empurrados para a cova, e então baleados; alguns são baleados e só então chutados para a cova; outros são baleados enquanto caem. Uma das vítimas apela: “Por favor, em nome de Imam Ali,” mas Youssef é implacável e o arremessa: “Dane-se você, seu filho da puta”. Alguns contratempos ocorrem durante as execuções: um velho caminha desajeitado na parede ao invés da cova, então cai nela com uma perna e grita com dor pelo seu pai. Em outro caso, o executor erra uma vítima, o jovem cai, soltando suas mãos. Ele esfrega seus olhos mas então é baleado na cabeça. Alguns corpos parecem se mover na cova, mas Youssef espreita, aponta sua Kalashnikov com uma mão e os despacha com um tiro de misericórdia.

As únicas sete vítimas mulheres, usando hijabs e sobretudos que caracterizam a vestimenta feminina mulçumana conservadora, são mortas com uma ferocidade e ódio que de outra forma os frios assassinos não expressam contra os homens. Fora do enquadramento, uma das mulheres soluça, latem para ela:”Levante-se, sua puta!” (!طلعي شرموطة). Os apelos dela caem em ouvidos moucos, quando é arrastada pelos cabelos e despejada no buraco. Duas mulheres gritam incontrolavelmente quando Youssef as chuta para a cova e as executa; outras encaram seu destino em silêncio. Em outro vídeo, a câmera dá uma panorâmica sobre um grupo de crianças mortas, incluindo bebês que tinham sido esfaqueados ou baleados, deitados num quarto escuro enquanto o operador da câmera fala suscintamente:”As crianças dos maiores financistas do bairro de Ruknaddin. Sacrifício para a alma do mártir Naim Youssef.”

Embora a vasta maioria das vítimas fossem Sunni (incluindo turcomanos étnicos), alguns poderiam ser Ismaili,provavelmente alvos direcionados por atividades políticas ou desobediência, como mostra nossa investigação. Julgando a partir da percepção e atitude dos perpetradores, os homens de meia idade Sunni eram suspeitos por definição, a menos que afirmassem sua lealdade e obediência a Assad. De outro modo, eram vistos e tratados como simpatizantes, agentes ocultos ou apoiadores em potencial da oposição. A celebração dos turcomanos étnicos residentes e as boas vindas à invasão do bairro do Exército Livre Sírio supostamente foi prova disso. Mas isso foi uma fantasia exagerada já que todas as vítimas que nós identificamos eram de famílias apolíticas, da classe média trabalhadora. Eles foram presos em Tadamon ou nos postos de controle de segurança ao seu redor, transportados para o local do massacre e executados. Eles provavelmente nunca imaginaram que este nível de violência pudesse suceder a eles no que teria sido um dia comum em suas vidas, levando a cabo seus negócios dentro de uma área controlada pelo regime durante os primeiros anos da guerra síria. E como a atrocidade foi cometida, eles provavelmente nunca entenderam porque isso estava acontecendo com eles.

O bairro de Tadamon está localizado na entrada sul da Damasco antiga. O árabe “tadamon” significa “solidariedade” – originalmente com aqueles que foram deslocados por Israel durante sua invasão das Colinas de Golan em 1967. A população deslocada começou a viver na terra arável no sul de Damasco e construíram habitações informais, usando fundos privados sem acesso a subsídios do estado. A comunidade florescente foi então oficialmente reconhecida, retroativamente, como parte do bairro de Midan e foi batizada de Tadamon.

Nos anos 1990, ondas de trabalhadores domésticos migrantes afluíram em massa da periferia do país. A seca de 2003 afetou profundamente o setor agrícola do país forçando muitos fazendeiros a abandonar suas terras num ato desesperado para encontrar um meio de sobrevivência em Damasco. Os aldeões seguiram seus camponeses, e Tadamon absorveu essa cadeia de migração interna até se tornar um distrito informal considerável com a maior densidade populacional em Damasco.

A maioria da população era Árabe Sunni, mas Alauítas, Druzos, Ismailis, Turcomanos e Curdos também a chamaram de lar. A divergência entre essas comunidades estava baseada na sobreposição entre suas filiações sectárias e regionais. Por exemplo, Alauítas na Rua Nisreen eram identificados com seu vilarejo original Ein Feet, enquanto que os Druzos da rua al-Jalaa tinham fugido do Monte Hermon. Para entender a dinâmica da violência em massa em Tadamon, é importante olhar para essas divisões sócio-espaciais que foram formadas pelas comunidades concorrentes.

A grande mídia síria referiu-se a Tadamon como a “Pequena Síria”, baseada na supostamente fachada  secular do regime de Assad e  retórica da coexistência no país. Mas Tadamon era um espaço paradoxal: sim, sírios de diversas formações sectárias, étnicas, políticas e regionais viveram juntos na intimidade, mas era um ambiente tenso que se tornou crescentemente polarizado. Tadamon é um dos poucos lugares onde vítimas e seus perpetradores eram vizinhos diretos.

Como essas complexidades moldaram o conflito? Os segmentos sociais no bairro podem ter causado desconfiança entre os diferentes grupos, mas há incontáveis bairros pelo mundo onde esse é o caso. Não há nada de especial sobre coexistência desconfortável. Mas foi apenas sob um processo de polarização insidiosa em 2011 que o regime sírio foi capaz de fomentar antagonismo e escaladas de tensões entre as comunidades estabelecidas historicamente. Essa crescente polarização extrema entre vizinhos refletiu nos padrões de mobilização.

Quando as manifestações começaram a aparecer em vários bairros de Damasco na primavera de 2011, Tadamon testemunhou protestos públicos pacíficos que foram curtos, esporádicos e às vezes caóticos. O movimento de protesto efetivamente dividiu os interesses dos grupos voltados para a região, e a um dado momento, havia três Comitês de Coordenação Local diferentes. Divisões semelhantes podiam ser vistas entre as comunidades pró – Assad, que se dividiram em milícias concorrentes. No fim, a área foi dividida em pelo menos 13 terrenos (para)militares separados, controlados por vários senhores da guerra. Do verão de 2011 em diante, Tadamon, também, experimentou o familiar ciclo de protestos de oposição: repressão do regime, militarização da oposição, escalada do regime.

A resposta do regime às manifestações em 2011 foi estabelecer a “Shabbiha,” uma milícia legalista que reprimiu violentamente os protestos de massa. Vestidos com equipamentos civis e desproporcionalmente provenientes dos jovens de minorias étnicas, a Shabbiha invadiu bairros, dispersou manifestações e cometeu crimes contra a propriedade, tortura, rapto, assassinatos e massacres. Enquanto a Shabbiha parece ter surgido do nada, foi o regime que endossou, incitou, dirigiu e gradualmente organizou e reorganizou-os através de seu elaborado sistema de patronato. Estava claro que o regime estabeleceu essas milícias  para fazer o trabalho sujo com negação plausível. Em 2011, a Shabbiha foi formalizada dentro da FDN (Força de Defesa Nacional) e recebeu impunidade para estabelecer postos de controle de segurança,  assim como prender e deter pessoas e durante as manifestações, tinham licença para matar. Um dos perpetradores em Tadamon era um superior Shabbiha.

Enquanto o regime de Assad era altamente experiente e competente em repressão contra civis, era menos hábil  na guerra, e isso ficou demonstrado em 2012. O regime perdeu progressivamente território através da Síria, e no início de 2013, metade do país estava sob controle de vários grupos rebeldes. Na área mais ampla de Damasco também, a linha de frente aproximou-se da cidade uma vez que a maior parte Leste de Goutha e os subúrbios ao sul estavam nas mãos dos rebeldes. Em fevereiro, forças rebeldes lançaram um ataque coordenado em larga escala em Kafr Souseh do sul e Jobar do leste. Se a ofensiva tivesse sido bem sucedida, os rebeldes estariam a uma distância de um assobio das maiores agências de inteligência do regime em Kafr Souseh. A ofensiva falhou, mas o espectro de uma derrota em potencial emergiu grande, e mais importante: a linha de frente agora tinha alcançado Tadamon.

Como a New Lines veio a possuir informação sobre o massacre de Tadamon?

Em Junho de 2019, Üngör estava assistindo a uma conferência acadêmica em Paris sobre os usos acadêmicos de vídeos em depoimentos de sobreviventes e testemunhas de violência em massa. Ele tinha preparado uma apresentação sobre como analisar as tomadas de vídeo de e por perpetradores. Enquanto ele estava esperando pelo seu painel, um amigo sírio morando em Paris ligou e queria encontrá-lo urgentemente. Eles se encontraram imediatamente, sentaram no fundo de um café calmo quando seu amigo puxou seu smartphone e incitou Üngör a assistir o vídeo. O que ele viu neste e em vídeos subsequentes chocou até mesmo a nós, pesquisadores experientes da violência em massa e atrocidades: a Inteligência Militar Síria e a NDF conduziram uma exterminação sistemática de civis no bairro de Tadamon em 2013 e além.

Começamos com a principal execução do vídeo em si. E havia uma boa pista para o horário preciso do massacre, já que um dos arquivos do vídeo tinha um carimbo da hora de 16-4-2013. Localizar o local exato dos assassinatos foi mais difícil: a cova coletiva foi escavada numa rua bem estreita, e a arquitetura e o desenho urbano sugeriam que era em algum lugar nos subúrbios de Damasco, mas se era no Leste de Ghouta ou nos distritos ao sul não estava claro. Vimos um pouco mais que aquele edifício diretamente em frente ao buraco da execução tinha um balcão azul e um telhado vermelho, e uma parede tinha um trabalho artístico de palmeira. De outra forma, a área inteira estava totalmente bombardeada e nada era reconhecível: nem loja, sinalização ou ponto de referência eram visíveis. Mas depois de assistir o vídeo inúmeras vezes, notamos graffiti em uma das paredes atrás do perpetrador. “Conquista da cidade de Yalda, 14/3/2012”. Este texto, pintado com spray mais provavelmente por facções rebeldes, sugeria que a localização poderia ser ao sul da cidade de Yalda, que caiu para os rebeldes por pouco tempo em 2012. (Pensando depois, nós estávamos errados e um amigo nos apontou que aquele graffiti vermelho resultou para dizer “Carimbo da municipalidade” e a localização era no distrito vizinho da classe trabalhadora de Tadamon, mas a dica foi um começo, porque Yalda fica bem no sul de Tadamon). O graffiti nos levou a alcançar os ativistas da oposição e facções rebeldes que foram ativos lá.

Uma vez que não podíamos viajar para a Síria, pedimos ajuda de um assistente de pesquisa que possuía a competência técnica e as redes nas comunidades das vítimas. Ele discretamente olhou e gravou a área, procurou pelas vítimas e organizou entrevistas confidenciais com os sobreviventes. Estas entrevistas foram realizadas via sofware relativamente seguro, e os nomes dos entrevistados e informação de identificação foram compartilhadas separadamente e apagadas das gravações. Seguimos rígidas medidas de segurança cibernética. Também conduzimos entrevistas digitais com testemunhas, espectadores, defensores dos direitos humanos e ex- combatentes do Exército Livre Sírio. Também cumprimos nosso dever fiduciário como pesquisadores acadêmicos com base na Holanda e informamos a polícia holandesa que tínhamos esses vídeos na nossa posse.

Durante nossa pesquisa encontramos inúmeras pessoas que identificaram a localização da rua na qual o massacre foi desenvolvido como Rua Daboul em Tadamon, baseado em instantâneos dos vídeos que mostramos para eles. Os relatos convergiram para localizar o local próximo à Mesquita Othman na via al-Biradi , uma área que estava sob o controle do regime durante todo o conflito. O bairro foi dividido em duas partes por uma linha de frente relativamente estável que, em 16 de Abril de 2013, passou através da Mesquita Othman para o Cinema al-Najoum. Aqui, atingimos nossos limites na identificação precisa da rua, então pedimos assistência técnica de geolocalização e analistas de código aberto. Os especialistas forneceram prova conclusiva, baseados em nove pilares do edifício próximo ao buraco, que confirmaram nossa suposição de que os massacres de fato aconteceram próximos à Mesquita Othman em Tadamon.

Mas, quem eram esses perpetradores? Por que os dois principais assassinos usavam dois uniformes diferentes? Sugeria duas agências diferentes no trabalho, mas eles não tinham nenhuma insígnia ou adesivos nos seus ombros. Seus sotaques sugeriam apenas ocasionalmente um dialeto regional já que eles falavam principalmente árabe sírio “neutro” que poderia passar por damasceno ou o sotaque de um funcionário médio do governo em e em torno de Damasco independentemente da origem, e nada do que eles disseram forneceu qualquer pista para suas identidades pessoais ou profissionais, já que ninguém se dirigiu a outra pessoa. A tarefa à frente era desanimadora: tínhamos que encontrar as agências responsáveis pelo bairro e tentar localizá-las online, ou na mídia pró-regime ou nos opacos grupos online do Facebook das agências de inteligência.

Desde 2011,  o Facebook tem sido uma plataforma popular entre os sírios pró- regime, incluindo perpetradores, que frequentemente postam suas estórias e fotos de seus camaradas falecidos. A questão chave era: como podíamos obter informação deles sem arriscar a segurança de alguém? Tivemos sorte: em 2018, já tínhamos criado um perfil no Facebook de uma jovem, pró- regime de uma família classe média alauíta de Homs, “Anna”. O propósito desta identidade assumida era observar de perto os perpetradores sírios no seu ambiente online e aproximá-los diretamente para entrevistá-los. Cuidadosamente fabricamos a personalidade de Anna e as postagens no Facebook para encaixar no ecossistema dos perpetradores: eles não duvidariam dos motivos de uma garota classe média aluíta de Homs que estava estudando no exterior e pesquisando o conflito. O perfil foi um estrondoso sucesso: conseguimos entrevistar dúzias de perpetradores de Assad, incluindo alguns de nível relativamente alto.

Quando encontramos por acaso o vídeo do massacre de Tadamon, Anna já estava bem incorporada nos círculos pró-regime: sua lista de amigos incluía soldados, militares, oficiais , donos de negócios, jornalistas e até agentes da inteligência. Considerando o profisssionalismo rotineiro desses assassinatos, a proeminência das agências de inteligência dentro do quadro do regime de Assad, e a sensibilidade e discrição que tal operação de assassinato em massa requeriria, era provável que pelo menos um dos atiradores fosse de uma agência de inteligência. Uma vez que analisamos as faces dos assassinos (mais do que era saudável para nós), começamos a navegar nas páginas do Facebook do exército, inteligência e milícias que eram ativas no bairro de Yalda e no sul de Damasco de modo mais abrangente. Talvez trombássemos com uma face familiar. Mas era como procurar agulha em palheiro: nós não tínhamos nome, número da agência e muito poucas outras pistas. Nossos entrevistados reconheciam o atirador principal mas se referiam a ele pelo apelido operacional genérico de“Abu Ali”  dos  Mukhabarat (serviços de inteligência) e não lembravam seu nome completo ou qualquer outro detalhe. Por meses, procuramos em vão, e nossa paciência crescentemente se transformou em desespero.

 

Então, um dia, reconhecemos o atirador principal em uma foto da Agência Distrital da Inteligência Militar também conhecida como Agência 227.

O executor principal, Youssef, é claramente reconhecível por uma cicatriz horizontal na sua sobrancelha esquerda. No vídeo do massacre, ele tinha  olhado diretamente para a câmera, e a imagem era claríssima. Antes de enviar-lhe uma solicitação de amizade, nós navegamos através de suas postagens, muitas das quais eram públicas. Definitivamente era ele. Sua aparência física tinha se transformado um pouco: o corpo fino e muito magro do atirador vestido com uniforme de combate militar tornou-se mais musculoso. Seu perfil no Facebook era de um comum e típico perpetrador sírio: retratos do Assad pai e filho, instantâneos de seus amigos, imagens pitorescas de seu vilarejo, selfies malhando na academia, e o mais importante: uma postagem melancólica na qual ele lamenta a morte de seu amigo e colega, Halabi, claramente o segundo atirador. Estávamos exultantes: encontramos ambos “nossos perpetradores”.

Ele aceitou a solicitação de amizade de Anna no Facebook e estava cauteloso, mas também claramente curioso como e porque Anna o alcançou. Quando explicamos a ele, em termos vagos, através da persona de Anna, que estávamos conduzindo uma pesquisa acadêmica no curso do conflito e que ele parecia estar “no exército”, ele concordou em falar conosco.  Ao longo de um período de seis meses, papeamos e falamos com Youssef diversas vezes, e conduzimos duas longas entrevistas de vídeo com ele. Durante a primeira entrevista, ele estava na agência, sentado à mesa de trabalho, usando roupa de ginástica e uma jaqueta preta com um retrato de Assad na parede atrás dele. Esta foi a primeira conversação para nos conhecermos, e  explicitamente não usamos o termo usual “muqabala” (entrevista) mas a palavra “ta ‘aruf” (apresentação). Ele estava um pouco tenso, e depois da troca usual de amabilidades, questionou Anna mais do que Anna era capaz de questioná-lo. Mas seu comportamento em si também era objeto de nossa pesquisa. Afinal, Anna tinha na sua tela um perpetrador real sentado à sua mesa de trabalho. Ele tinha um computador em seu escritório e pediu café sempre que queria. Por fim, pareceu convencido e concordou com uma segunda conversação.

Esta segunda entrevista foi muito mais informativa e interessante. Falamos tarde da noite, quando Youssef estava na sua casa no sofá vestido com uma camiseta sem mangas branca enquanto fumava um cigarro atrás do outro, bebendo e beliscando um pepino. Ele nos disse que nasceu em 1986 no vilarejo alauíte de Nebaa Tayyib no distrito de Ghab no centro-oeste da Síria, cerca de 40 milhas a noroeste de Hama. O filho mais velho de uma família misturada de 10 irmãos, que foram criados rigidamente para honrar a herança religiosa da família de seu bisavô, um proeminente sheik. Junto com seus irmãos e irmãs, Youssef praticou com frequência os rituais religiosos no templo sagrado alauíte, Bani Hashim, fora da cidade.

Youssef nos contou que em 2004, ingressou na Academia de Inteligência Militar em Maysalun no distrito de al-Dimass em Damasco e passou por um treinamento intensivo de nove meses. Para Youssef de 18 anos, trabalhar para a Inteligência Militar era sua melhor oportunidade de viver uma vida diferente de seus ancestrais, que tinham sofrido as dificuldades em trabalhar nos campos de tabaco e lutaram para ganhar a vida. Youssef tinha sonhado em ter uma vida classe média decente: uma casa, um carro, uma família. Youssef também tinha um desejo secreto de libertar-se de seu pai, um distante sheik alauíta e um ex- agente da inteligência militar. Mas trabalhando para a Mukhabarat  apenas solidificou suas ligações com a comunidade pró – regime, e ele se tornou um “filho da instituição”, como ele colocou. Contrário à sua ambição de independência, agora era “tal pai, tal filho”, disse ele com uma ponta de resignação. Nas nossas entrevistas, mesmo na sua idade atual de 36 anos, ele ainda expressou um profundo medo de seu pai, e de acordo com um de seus conhecidos, ele nunca ousou fumar na presença de seu pai. Durante os anos 2000, Youssef se saiu bem em sua carreira.Ele subiu firmemente de posição e tornou-se um interrogador ajudante oficial com uma rotina de horário de trabalho na agência.  Em 2011, ele estava trabalhando para a Agência Distrital 227, uma sinistra organização baseada em Kafr Souseh, e era responsável pela prisão, tortura e assassinato de centenas de oponentes políticos do regime. Se seu duro treinamento o brutalizou, então seu trabalho como interrogador na agência deve tê-lo habituado mais a cometer atos de violência contra companheiros sírios. O levante de 2011 deve ter mudado mais sua vida. Ele foi enviado para o departamento de operações e designado para comandar a operação militar nas linhas de frente na parte sul de Damasco. De 2011 até junho de 2021, ele era o oficial responsável pela segurança na linha de frente nos distritos de Tadamon e Yarmouk. Há algumas imagens de propaganda dessas operações, e Youssef é visível em um videoclip, olhos fortemente franzidos, cigarro em sua mão, enquanto conversa com um grupo de combatentes prontos para atacar Tadamon.

Durante nossas entrevistas, Youssef censurava nosso uso do termo Mukhabarat e, ao invés, nos admoestava a usar o termo “exército” ou “forças armadas”: Não há nada na crise chamada inteligência: é tudo exército. Eu sou um oficial da inteligência. Eu trabalhei como o exército trabalhou. Meu trabalho era o do exército. Meu trabalho não é briga de rua e incursões e bombas, etc. Esse era meu trabalho na crise. Não havia nada na crise chamada inteligência. Éramos todos exército; nosso trabalho era o mesmo trabalho.

Sua reação alérgica à própria palavra “Mukhabarat” falava por si: não denotava negação de sua existência mas falava da natureza tabu e secreta das agências de inteligência na Síria. Uma conversa aberta sobre elas era claramente não permitida, embora ele discutisse outros tópicos tabus como sectarismo. Isso poderia estar relacionado com a auto imagem de Youssef. Ele deixou claro principalmente que se via como “ibn al-muassasa” (filho da instituição). Por um lado, isso significava que ele estava mergulhado na tradição e cultura da Inteligência Militar e que sua lealdade era primeiro de tudo a aquela agência, acima e além de qualquer lealdade sectária ou regional. Por outro lado, ele era bem literalmente um filho da instituição pelo seu pai ter sido um oficial militar que serviu no exército por décadas.

Outro importante tabu que lançava uma sombra nas entrevistas era o massacre em si. Em nenhum momento durante os primeiros poucos meses de entrevistas e outras comunicações com ele nós sugerimos que tínhamos visto o vídeo ou estávamos a par de seus crimes. Conforme ele explicava sua visão nas causas e cursos do conflito, tornou-se evidente que ele estava particularmente tocado e radicalizado pela morte de seu irmão mais novo, que morreu servindo no exército em 1 de janeiro de 2013. Neste ponto da entrevista, ele se tornou mais emocional, começou a vadiar com seu isqueiro e murmurou: “Eu me vinguei, não estou mentindo para você, eu me vinguei, eu matei. Matei muito. Eu matei muito, eu não sei quantos eu matei”.

Depois de alguns meses, nós o confrontamos com o massacre e deixamos que ele soubesse que tínhamos visto as imagens. Primeiro, ele negou que fosse ele no vídeo. Depois, disse que estava apenas prendendo alguém. Finalmente, ele chegou na justificação de que era seu trabalho e expressou seu contentamento: “Estou orgulhoso dos meus feitos”.

Por que Youssef concordou em falar conosco por tanto tempo? Provavelmente foi um misto de curiosidade, solidão e frustração. Desde que a guerra acabou, em uma vitória pírrica e exaustão econômica, os perpetradores de Assad com frequência vivem silenciosamente com suas memórias, bebendo araq e fumando um cigarro atrás do outro. Ele também estava descontente com as recentes reorganizações no trabalho, já que ele foi removido de sua posição como comandante de operações em Tadamon e Yarmouk e recolocado no enfadonho trabalho de escritório na agência. A sua confissão do massacre em massa em Tadamon não foi inteiramente surpreendente: sua esposa e filhos provavelmente não sabiam de nada, e provavelmente nós éramos os únicos que alguma vez perguntamos a ele a respeito. Quando nós finalmente revelamos a ele que tínhamos todos os vídeos e tínhamos coletado durante nossa investigação um tesouro de informações incriminatórias contra ele e sua unidade, ele começou a nos ameaçar – ou melhor, começou a ameaçar a persona de Anna:”venha para Damasco ou você perderá tudo o que você ama”, disse com raiva.

Desde os anos 1970, Hafez al-Assad construiu seu império de inteligência com quatro serviços principais: Inteligência Geral ou Segurança Estatal, Segurança Política, Segurança Militar e a Inteligência da Força Aérea. Alguns serviços tem subdivisões, algumas das quais se tornaram eminentemente poderosas por direito próprio e começaram a constituir um ator significativo e relativamente independente.

A Mukhabarat síria é tão poderosa quanto inatingível: é um ator imensamente poderoso no conflito mas não pesquisável. É uma fronteira suicida entrar em Damasco e começar a perguntar sobre as estruturas da Mukhabarat, trabalhos ou impacto (a menos que o regime confie na pessoa). O pessoal da inteligência opera sob apelidos ou sob denominações genéricas “Abu Haidar,” “Abu Ali” ou “Abu Jaafar,” e é estritamente proibido identificá-los. Esta prática deliberada pelos serviços de inteligência sírios é para manter sigilo e induzir medo. Mistifica operativos de inteligência e cria mitos exagerados sobre suas pessoas e capacidades. Mas neste vídeo os perpetradores estão flagrantemente visíveis.

O Distrito Agência, conhecido como Agência 227, é responsável pela província de Damasco e seu interior. No início dos anos 1980, era comandada por notórios chefes de espiões como Nizar al-Helou (1942-2016), Hisham Ikhtiyar (1941-2012), Rustom Ghazaleh (1953-2015) e Imad Issa. Shafiq Massa era o diretor em 2013. No momento desta redação, Kamal al-Hussein  dirige a Agência 227. Seu quartel general é um edifício sinistro em forma de W num complexo da Mukhabarat situado entre a Universidade de Damasco e a praça Umayyad, bem em frente à rua do Ministério da Educação Superior.

A lista de amigos de Youssef no Facebook era uma galeria de assassinos. Um de seus contatos no Facebook era Jamal al-Khatib, o mais alto na hierarquia do operativo da Mukhabarat que nós já entrevistamos. Originalmente do bairro vizinho de Qadam, o oficial mascarou cuidadosamente uma personalidade cruel atrás da figura de um pai ruidoso, alegre com um sorriso contagiante e um cabelo misto de branco, preto e grisalho. Esta pessoa é forte o suficiente para enganar qualquer pessoa. Por exemplo, em  um relatório da CNN em 3 de dezembro de 2013, ele foi apresentado como “um comandante militar que atende pelo nome de Abu Aksam” já que mostra o repórter da CNN Frederik Pleitgen perto de Sbeineh, bem ao sul de  Tadamon. Ele aceitou nossa solicitação de amizade, e em uma das duas entrevistas confidenciou a Anna: “Estou dizendo algo que não devia. Eu sou o chefe de Youssef”. Ele insistiu em saber quem a colocou em contato com Youssef, chamando -o de “ um herói, irmão de um mártir, definitivamente não uma cabeça pequena”. A conversa então tomou outro rumo quando Anna perguntou a ele sobre supostas violações:

Anna: Um tempo atrás, você me contou sobre reformar detidos em prisões, mas a mídia diz que o regime sírio matou pessoas em suas prisões. E cometeu massacres contra eles?

Jamal al-Khatib: Minha resposta é muito simples: por que levá-lo à prisão e matá-lo e então ser acusado de matá-lo? Eu prefiro matá-lo na rua, e está feito, e ele morreu em batalha. Se você não está na minha mira, e você é minha inimiga e você está arruinando meu país, por que eu levaria você para a prisão e matar você na prisão e então ser acusado de matar você? Esta questão é muito perguntada, mas é estúpida. Alguém que eu possa matar na rua sem ninguém me ver, por que eu o traria para minhas prisões e lhe daria um número, comida, e bebida, e ele é um peso para o Estado? Você sabe que eles comem o que nós comemos? Eles comem o que nós comemos. Por que eu deveria trazê-lo para comer e beber da minha comida e bebida e às custas do Estado, então eles me acusam disso, de uma forma mais estúpida que isso?…Quando eu prendo 10 ou 15 homens armados, eles precisam de 30 a 40 soldados para acompanhá-los. Por que a dificuldade se eu posso matá-lo na rua e relaxar? Por que eu deveria matá-los na prisão? Eu prefiro matá-los nos seus locais e terminar com isto.

Agora que tínhamos o círculo da Mukhabarat organizado, e quanto ao outro perpetrador, aquele de uniforme militar cinza? O braço direito de Youssef no vídeo do massacre era Najib al-Halabi, também conhecido como Abu William, que estava marcado em uma postagem do Facebook nos “Mártires de Tadamon”.  Druzos originalmente de Golan,sua família foi deslocada para Damasco e ele próprio nasceu e foi criado em Tadamon. Diferentemente de outros residentes em Tadamon, ele era privilegiado e dirigia um clube antes do conflito. Em 2011, ele criou o primeiro grupo Shabbiha em Tadamon e o estacionou bem na Mesquita Othman na linha de frente, o que o fez dele um herói aos olhos dos legalistas. Ele também parecia de alguma forma ter ganho um nível de competência em construir túneis e cavar buracos e trincheiras, e era com freqüência chamado pelos seus colegas para supervisionar e assessorar nessas atividades na linha de frente ou nos massacres.

Nos vídeos do massacre, Najib fica na beirada da cova coletiva, fumando um cigarro, sorrindo para a câmera, e exibindo o sinal V de vitória. Ele não parece demonstrar angústia enquanto comete o massacre contra civis que ele de alguma forma conhecia pessoalmente, já que ele cresceu com eles, de acordo com nossa pesquisa. Baseado também em nossa pesquisa sobre sua personalidade, Najib parece ter reunido uma reputação por ser humilde e inteligente, um bom ouvinte e geralmente estimado pelas pessoas que o conheceram. Aparentemente, ele nunca mostrou seu ódio ou lado oculto à ninguém: “você não saberia que ele faria isto. Eu fiquei chocado quando vi o vídeo”, disse uma pessoa que o conheceu. Mas ele tinha inimigos: Najib foi morto durante atividades de escavação de túneis na linha de frente em 2015. (Alguns acreditam que era um trabalho interno, mas esse aspecto está além do âmbito de nossa investigação).

A Shabbiha foi lançada com a intenção expressa de não ser rastreada pelas forças armadas oficiais do regime. Desta forma, o regime poderia (e pode) argumentar que a violência deles era o trabalho de vigilantes enraivecidos e que não têm controle sobre eles. Mas em Damasco, as milícias são dirigidas por um amigo do palácio, Fadi Saqqar (nome real :Fadi Ahmad), um sem queixo, fumante inveterado, secundarista graduado cujas olheiras profundas, escuras, sob seus olhos traem uma falta constante de sono. Embora ele venha de uma família privilegiada (seu pai era um ex- oficial da inteligência), ele foi preso por corrupção antes do levante. As conexões de seu pai com o regime falharam, e é dito que ele matou um companheiro de prisão antes de receber um perdão presidencial especial porque seus serviços eram necessários para as repressões de 2011. Ele não apenas estabeleceu a Shabbiha, mas também era visto atacando os manifestantes pessoalmente com uma faca e rapidamente tornou-se um intermediário do regime que fez um número de aparições públicas com Assad. Fadi Saggar usurpou poder e se enriqueceu a ponto de mesmo os legalistas de Assad o desprezarem- Youssef, por exemplo, expressou nada mais do que um profundo desprezo por ele.

Entre o soldado raso Najib e o planejador Fadi Saggar situa-se o oficial de comando da Shabbiha por Tadamon, um cinquentão chamado Saleh al-Ras, melhor conhecido sob seu apelido Abu Muntajab. Um homem assustador, magricela com um bigode de lápis – diversas mulheres que entrevistamos depois o identificariam como seu estuprador – Abu Muntajab dirigia um reino de terror em Tadamon e era caracterizado pelos seus colegas como “o Hitler da Síria”. Quando Najib recitou uma dedicação ao “chefe”, ele poderia ter se dirigido ao seu superior direto Abu Muntajab, mas também é possível que ele estivesse se dirigindo ao Major – General Bassam Marhaj al-Hassan, chefe de pessoal das NDF no palácio. Uma pessoa singularmente poderosa na Síria, “Tio” parece aos não iniciados como um verdureiro desinteressante no mercado semanal, mas ele exercia tanto poder que poderia anular qualquer decisão dos outros comandantes por conta de suas ligações muito próximas com Assad. De acordo com numerosas testemunhas que entrevistamos, ele chamava o canal de rádio código 001, que o conectava a Assad, quem uma vez deu ordem de “bombardear o bairro por todos os meios disponíveis”. Os vídeos do massacre de Tadamon e nossa pesquisa demonstram conclusivamente a conspiração e cooperação entre a Mukhabarat e a Shabbiha.

Foto: Youssef, de costas para a câmera, se prepara para empurrar uma vítima para a cova/Fonte

Os vídeos em mãos são uma imagem do silencioso processo industrial de assassinatos nas áreas sob seu controle. Como as partes de oposição militarizadas e vencidas de Tadamon em Novembro de 2012, o regime empreendeu um processo inteiro de segregação e subjugação. Autorizações de segurança foram dadas apenas para aqueles que tinham permissão para ficar no bairro perto da Agência 227 da Inteligência Militar, através do comando da NDF no controle da via. Esta autorização era requesitada para qualquer tipo de atividades, fosse uma viagem para uma emergência de saúde ou uma visita pessoal a um amigo. Além do mais, a Agência 227 emitia cartões de identificação especiais para os residentes do bairro. Havia dois tipos de cartões de identificação: amarelo para os residentes da vizinha Daf al-Shouq e azul para os residentes em Tadamon. Estes cartões contém informação detalhada sobre o portador do cartão, incluindo nome, endereço, membros da família, local de nascimento, etc. Agindo assim, a agência estabeleceu uma vigilância massiva e coletou informações meticulosas sobre os habitantes.

As primeiras vítimas dos massacres em Tadamon foram levadas de suas casas ou da rua a pé para os locais não longe de onde eles viviam, e seus cadáveres eram deixados no local onde todos poderiam conhecê-los. Os vídeos do rescaldo desses incidentes mostram que eles foram baleados a curta distância. Estas vítimas das execuções em massa do regime foram amplamente esquecidas através do curso do conflito. Vídeos do rescaldo desses incidentes foram negligenciados e manipulados na guerra de narrativas entre o regime e a oposição. Depois de Novembro de 2012, vítimas foram levadas para locais de extermínio programados a pé ou por micro-ônibus. Então eles eram baleados um após o outro pelas costas, e seus cadáveres eram queimados até às cinzas. Este método de assassinar e queimar emergiu porque os perpetradores lutaram para ocultar seus atos e se livrarem das pilhas de corpos nas vielas dos bairros. Como resultado, cada perpetrador criou seu próprio local de execução. Youssef tinha o seu, mas outro exemplo era o comandante das NDF Ibrahim Hikmat, melhor conhecido como Abu Ali Hikmat,uma figura militar robusta com um cabelo distintamente tingido e que era um jovem membro das Companhias de Defesa, os infames esquadrões de assassinatos dos anos 1980. Abu Ali Hikmat construiu seu próprio crematório primitivo para queimar os corpos das vítimas escolhidas de seus postos de controle de segurança e do hospital al-Mujtahid. Seus soldados se gabavam de suas habilidades meticulosas em matar pessoas e destruir provas, alegando que seu grupo matou pelo menos 30.000 civis de 2012 a 2015. Isto pode ser um exagero de perpetradores orgulhosos, mas é uma ilustração da extensão e escala do assassinato em massa em Tadamon. Como um residente descreveu: “Sentíamos o cheiro de cobre de carne humana queimando todos os dias”.

Detenção era uma segunda forma de violência em Tadamon. Até o final de 2012, Tadamon tornou-se uma enorme prisão urbana com mais de 60 estações de segurança e postos de controle. A Agência 227 e os postos de controle das NDF se multiplicaram e estavam estacionados na entrada de cada viela do bairro em um quilômetro quadrado entre a rua al-Jalaa e a linha de frente. Os comandantes das NDF construíram muros, dividindo o bairro em 15 zonas, e cada grupo documentava e registrava os residentes em seu território. Estes guetos privados eram controlados e administrados de acordo com suas próprias regras, inclusive tornando as casas confiscadas das vítimas e lojas em prisões, onde eles transferiam detidos e os torturavam. O sub- comandante das NDF  do seu gabinete de informações para as NDF a nível de Estado, comparou o bairro ao Triângulo das Bermudas onde todos desaparecem. Os vídeos e nossas entrevistas lançaram luz na informal e massiva campanha de detenção em Tadamon. Três dos nossos vídeos mostram graves torturas de vítimas civis em casas privadas: espancamentos, chicotadas, queimaduras, eletrocussão e tortura psicológica. Os perpetradores, incluindo Youssef e Najib, infringiram torturas cruéis e experimentais para seu próprio divertimento com o sofrimento das torturas. Al-Hassan estava a par destas prisões e inclusive supervisionava o processo e encorajava os perpetradores.

Terceiro, a violência sexual era tão difundida em Tadamon que não poderia ser outra coisa senão uma política. Uma mulher que entrevistamos nos contou que ela foi ao escritório da Agência 227 na rua Daboul para perguntar sobre o paradeiro de seu marido. Youssef estava sentado na sua cadeira atrás da mesa de trabalho, em uma sala mal iluminada, fumando cigarros, enquanto sons de tortura  ecoavam na sala atrás dele. Ele ouviu a mulher cuidadosamente e prometeu soltar seu marido sob uma condição:”durma comigo ou você pode esquecer sobre seu marido”. Por dois anos, começando daquele dia, Youssef estuprou esta mulher. As irmãs dela, vizinhas, e mesmo maridos foram estuprados e agredidos sexualmente pela inteligência e pela Shabbiha, especialmente por Abu Muntajab. O rapto sistemático da Shabbiha e tortura de homens criaram uma atmosfera de medo, e reforçou a vulnerabilidade das mulheres. Mulheres negociavam sua sobrevivência se envolvendo em relações sexuais forçadas com os perpetradores – em outras palavras, escravidão sexual. Vítimas masculinas experimentaram violência semelhante durante a detenção e tortura. Os perpetradores prendiam os homens suspeitos de simpatia com a oposição, mas eles também eram presos para manipular seus parentes.

Quarto e último eram os trabalhos forçados e a exploração econômica. Com a escalada dos conflitos nas linhas de frente em 2013, os oficiais da inteligência militar assim como os membros da milícia das NDF estacionados nos postos de controle prenderam homens Sunni de Tadamon, Daf al-Shouq e outras áreas, e os transportaram para as linhas de frente como trabalhadores forçados para cavar trincheiras, construir barreiras e muros enquanto as bombas e balas da oposição voavam em volta deles. Aqueles que sobreviveram à dificuldade do trabalho ou aos confrontos foram mortos a tiro nas trincheiras e seus cadáveres reduzidos às cinzas. Trabalhos forçados não eram apenas uma necessidade militar,  mas também um negócio lucrativo para os senhores da guerra e os comandantes da inteligência. Para escapar dos trabalhos forçados, os civis tinham que pagar até 2 milhões de liras sírias (o equivalente a $40,000, dependendo da taxa de câmbio, que flutua) aos postos de controle. Outra camada da opressão econômica e violência no bairro era o confisco ilícito da propriedade privada. Como as pessoas das áreas da oposição fugiram para Tadamon, o mercado imobiliário tornou-se um negócio próspero. Os comandantes da Mukhabarat e da Shabbiha colocaram suas mãos nas propriedades das vítimas despejadas ou mortas e as alugaram no mercado imobiliário aquecido, sob o pretexto de ajudar os mártires e famílias deslocadas ou por necessidade militar. Por exemplo, Youssef e seus chefes apreenderam pelo menos 30 propriedades em Tadamon, que eles  alugam ainda hoje.

As vítimas constituíram um enorme peso moral e emocional para nós. Suas famílias e entes queridos não tinham idéia sobre seus paradeiros. Vivenciamos um dilema terrível: sabíamos mas não podíamos contar a ninguém; queríamos identificar as vítimas, mas daí precisaríamos mostrar as pessoas. Enquanto assistíamos os vídeos várias vezes, ponderamos: gostaríamos de ver os últimos segundos de nossos próprios entes queridos? A maior parte destas vítimas estavam esquecidas e marginalizadas. A mídia internacional focava primeiramente no sofrimento nos territórios da oposição, enquanto o governo de Assad encobria seus crimes e impunha um silêncio mortal na sociedade síria. Como resultado, mesmo as vítimas ficaram confusas pela falta de reconhecimento da sua dor. A vergonha, medo, impotência e opressão contínua até esse dia levaram uma entrevistada a se perguntar: “fui estuprada?”  nossas entrevistas de história oral deram aos sobreviventes uma oportunidade não apenas de revisitar suas memórias dos eventos violentos mas também a validarem suas identidades como vítimas.

Estes videoclips são únicos dentro da inundação de imagens violentas emergindo da Síria durante o conflito: os oficiais da Mukhabarat que se reportam a Assad, com faces reconhecíveis, estavam cooperando com a Shabbiha ao documentar seus próprios crimes contra civis indefesos. Por que eles fizeram isso? Por um lado, não faz sentido retirar estes dois atiradores do contexto mais amplo da impunidade em massa pela violência das agências de inteligência síria e milícias, para a qual a responsabilidade final de comando cabe a Assad. Se tomarmos ao pé da letra as palavras dos perpetradores, eles viram estes massacres como um sacrifício pela vingança de seus camaradas caídos, Hisham Issa e Ammar Abbas. Youssef disse abertamente nos vídeos e nas entrevistas que ele vingou seu irmão mais novo, Naim, que morreu lutando em Darayya. Eles filmaram todo o esforço como um troféu, mas também como uma prova para os oficiais superiores de terem executado seu trabalho.

Tradução: Lilian van Enck