Hoje, 22 de abril, Cecília Toledo, nossa querida camarada Cilinha, faria 70 anos.

Por Wilson Honório*

E quando me convidaram para lhe fazer um artigo-homenagem, confesso que tremi nas bases. Não só pela responsabilidade, em função da admiração que tenho por ela e a consciência de que isto é compartilhado por todos e todas que a conheceram, mas também porque todo mundo sabe que este não é um momento exatamente fácil para falarmos de “perdas”, já que, arrastados pelo tratamento propositalmente genocida que vem sendo dado à pandemia, temos convivido com um número inaceitável e excessivo delas nas últimas semanas.

Mas o estado um tanto melancólico e bastante nostálgico inicial passou logo, levado pela certeza de que falar de Cilinha é falar de vida. É lembrar de lutas. É celebrar uma mulher movida, em tudo que fazia, por uma paixão incandescente e uma indignação permanentemente aguçada pela rebeldia e pelo desejo de dar o seu melhor para a construção de um mundo socialista.

Vida, lutas, paixões, indignação e rebeldia que seguem pulsando em nós, que tivemos o prazer de militar com ela, em seu companheiro Martin Hernandez e em seu filho Martin Garcia, no Coletivo de Artistas Socialistas (CAS), no partido (PSTU) e na organização internacional (LIT-QI) aos quais ela dedicou sua vida e, também, em uma verdadeira multidão de gente que ela tocou.

Muitas paixões, um objetivo: a revolução

Uma multidão formada por gente com a qual ela cruzou seus caminhos nas plateias do teatro, nas salas de aula, nos muitos movimentos políticos, sociais e culturais nos quais ela atuou, nos cursos de formação e seminários que conduziu, ou, ainda, através de seus escritos, tanto na imprensa quanto em obras como Mulheres: o gênero nos une, a classe nos divide (1996), uma referência tão importante para a luta marxista contra o machismo, que ganhou uma nova edição, revisada e atualizada pela própria Cilinha, pouco antes de falecer, em 2015, e organizada postumamente por sua cunhada e grande amiga, a companheira Alícia Sagra, com o título Gênero e classe, lançado pela Editora Sundermann.

E pensando em como lhe prestar uma homenagem em um espaço que lhe era tão querido, como o CAS, que a tem como uma das fundadoras, principais impulsionadoras e inspiração permanente, acabei percebendo que não haveria como não tomar a liberdade de me meter um tanto na narrativa; pois, afinal, eu próprio fui um dos muitos tocados por ela, nas quase quatro décadas em que convivemos.

Se fôssemos dados a crendices, diríamos que nossos muitos encontros “estavam escritos nas estrelas”, porque, diga-se de passagem, compartilhamos a mesma data de nascimento (juntamente com Lenin”, como ela lembrava sempre que a história vinha à tona). Contudo, como também compartilhamos uma concepção materialista da História, o fato é que nos trombamos em diversas situações (muitas vezes “de frente”, e quem conheceu sua disposição para a polêmica sabe o significado disso) simplesmente por necessidades da vida, da militância ou, mais frequentemente, decisões do partido.

De qualquer forma, esses encontros também servem como testemunhos do seu caráter multifacetado.  Desde o início dos anos 1980, trabalhamos juntos na sala da redação do jornal Convergência Socialista; nos descabelamos e nos deliciamos em inumeráveis reuniões, seminários e atividades para debater e organizar a luta contra as opressões e em defesa da Cultura; militamos nos mesmo organismos partidários; lecionamos na mesma universidade; atuamos na tradução de diversas reuniões internacionais e, também, como não poderia deixar de ser, nos encontramos umas tantas vezes ao redor da Arte.

Em meio a tudo isto, aprendi muito com ela, até mesmo através das muitas polêmicas que encaramos, como deve ser entre companheiros. Mas, como destaquei num vídeo gravado durante o ato realizado no Teatro Ruth Escobar , organizado em sua homenagem pelo CAS, o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) e a Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT), pouco depois de ela nos deixar, sempre a vi como uma “mulher apaixonada”.

Apaixonada em tudo o que fazia, mas particularmente pela Arte e a Cultura, pela luta em defesa da emancipação das mulheres e contra a opressão e, com o mesmo ímpeto, pela destruição do capitalismo e a construção da revolução socialista internacional. Paixões que ela começou a alimentar muito cedo e manteve vivas, literalmente, até o seu último suspiro, em 23 de setembro de 2015.

Mergulho na clandestinidade, ainda que sob os holofotes dos palcos

Essa paixão multifacetada e, ao mesmo tempo, focada tem muito a ver não só com a personalidade explosivamente inquieta da Cilinha, mas, também, com o tipo de militante que ela sempre foi. Por isso, pra começar a sua história, recorro a uma citação de um livro que, sei, estava dentre os seus favoritos: Que fazer?: problemas candentes do nosso movimento (Expressão Popular, 2010), escrito por Lenin, em 1902.

É nele que encontro uma síntese da forma como Cilinha encarou a vida e tudo o que fez. Ela foi um “tribuno popular”, como descrito pelo dirigente bolchevique, ao definir o que era, para ele, um militante ideal:

(…) O ideal do social-democrata não deve ser o secretário de trade-union [sindicato], mas o tribuno popular que saiba reagir contra toda a manifestação de arbitrariedade e de opressão, onde quer que se produza e qualquer que seja a camada ou a classe social atingida; que saiba sintetizar todos estes fatos para traçar um quadro de conjunto da brutalidade policial e da exploração capitalista, que saiba aproveitar o mais pequeno pormenor para expor perante todos as suas convicções socialistas e as suas reivindicações democráticas, para explicar a todos e a cada um o alcance histórico-mundial da luta emancipadora do proletariado (…). (p. 48).

Fosse como dramaturga ou atriz, professora ou jornalista, escritora ou parte das mais “simples” atividades militantes, Cilinha nunca perdia algumas coisas de vista: a capacidade enorme de indignação e, acima de tudo, de colocar tudo sob a ótica da luta pelo socialismo, da emancipação do proletariado e dos oprimidos a partir de suas próprias forças, algo que, ela sabia, dependia da construção de um partido internacional da revolução.

Coisas que ela aprendeu muito cedo, quando a diretora teatral e jornalista Maria Cecília Garcia, formada pela Escola de Arte Dramática (EAD) e Escola de Comunicações e Artes (ECA), da Universidade de São Paulo, encarnou a “personagem” Inês, nome adotado na clandestinidade, por imposição das garras sempre afiadas da ditadura militar, ao ingressar, ainda nos 1970, na Liga Operária, organização criada em 1973 e que está nas raízes da Convergência Socialista e, posteriormente, do PSTU.

O encontro se deu de uma forma que poderia parecer inusitada, caso não estivéssemos falando da Cilinha e do papel que a juventude, a Cultura e a Arte cumpriram na resistência à ditadura. Na época, ela e seu grupo teatral, onde também atuava Robson Camargo, tinham uma proposta “mambembe”, levando peças para as periferias e comunidades de São Paulo e cidades do interior. E foram nestas perambulações que eles se encontraram com um pequeno agrupamento de trotskistas que havia retornado de períodos de exílio no Chile e na Argentina e estava construindo a Liga.

No decorrer dos anos, a saída de debaixo dos holofotes dos palcos para o mergulho na militância clandestina foi mediada por uma intervenção concreta nas lutas de sua categoria, numa experiência que Cilinha sempre considerou marcante em sua vida. Em 1978, atuou, ao lado de artistas como Claúdio Mamberti, Renato Consorte, Dulce Muniz, Robson e o igualmente saudoso Carlos Ricardo, na organização da chapa de oposição ao Sindicato dos Artistas de São Paulo, organizada em torno do grupo “Urdimento” (estrutura que sustenta os palcos) e encabeçada por Lélia Abramo, um das percussoras do trotskismo no Brasil e atriz de primeira grandeza.

A campanha vitoriosa foi um marco importante no processo de retirada das entidades sindicais das mãos dos pelegos e colaboradores da ditadura, antecipando o que viria ocorrer nos anos seguintes com bancários, professores e, posteriormente, metalúrgicos, contribuindo, assim, para colocar a classe operária, seus movimentos e métodos no centro das lutas pela derrubada do regime militar.

Ousadias como estas não passaram desapercebidas pelo regime totalitário. Em 2012, Cilinha, então já identificada como Cecília Toledo, e outros três militantes da Convergência (Dirceu Travesso, José Cantídio de Souza Lima, o Cipó, e Tarcísio Eberhard) receberam anistia política e o pedido de perdão do Estado brasileiro, depois da Comissão Nacional constituída pelo Ministério da Justiça comprovar que eles haviam sido perseguidos pela Ditadura Militar.

Uma jornalista apaixonadamente subversiva

No caso da Cilinha, não faltaram provas. Documentos oficiais escavados nos porões da ditadura atestam que sua vida e atividades foram monitoradas por cerca de 10 anos. Durante boa parte deles, os “arapongas” (espiões) a serviço do regime a classificaram como “jornalista subversiva”, principalmente por sua atuação na chamada “imprensa alternativa”.

Em maio de 1979, por exemplo, a redação do Versus, que já sofrera com prisões de colaboradores, foi invadida, roubada e depredada por um comando de extrema-direita. Mais tarde, a editoria foi interditada, depois da aplicação de uma pesada multa financeira. Neste mesmo ano, Cilinha foi detida pelo famigerado Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), em função de sua colaboração no jornal Convergência Socialista e por ter sido identificada como participante da greve dos metalúrgicos do ABC.

Com a derrocada do regime militar, Cilinha acumulou experiência no jornalismo em alguns das mais importantes publicações do país, como o jornal Folha de São Paulo e a revista Veja. Experiência que ela levou, com seus textos afiados, escritos sempre numa linguagem fluente e acessível, para as publicações da esquerda que floresceram na segunda metade dos anos 1970, em jornais como o Movimento, Opinião e o já mencionado Versus.

Contudo, suas contribuições nesta área estarão para sempre gravadas nas páginas das publicações que acompanharam a trajetória da Liga Internacional dos Trabalhadores no Brasil, como o Convergência Socialista, o Alicerce da Juventude Socialista, o Jornal do PSTU e o Opinião Socialista; além da Marxismo Vivo, revista publicada pela Internacional, na qual ela cumpriu papel fundamental, à frente de seu conselho editorial.

Mesmo tendo tido contatos anteriores, meu encontro com ela se deu, em meados dos anos 1980, na sala de redação do CS, quando me transferi da regional ABC para São Paulo. Eu, até então militante secundarista, negro e gay, de origem periférica, cria da escola pública, estava em transição para o Departamento de História da USP. E, por uma daquelas coisas típicas da militância, acabei virando “jornalista”.

Uma metamorfose que só possível porque tive Cilinha não só como editora, mas também como mentora e orientadora – naquele momento, ao lado, é preciso dar os créditos, de companheiras e companheiros como Luís Leiria, Ana Cristina Machado, Cristina Portella, Bernardo Cerdeira e a também saudosa Silvana Finzi Foá.  Foi um aprendizado e tanto.

Cilinha sempre teve qualidades excepcionais para uma jornalista a serviço da revolução: olhar atento à realidade, para definição das pautas que mais pudessem contribuir tanto para a formação e elaboração políticas quanto para a intervenção no movimento; preocupação permanente com a linguagem que melhor pudesse dialogar com os setores mais oprimidos e explorados da classe; agilidade e paciência para editar nossos textos, sempre de forma crítica e cautelosa ao apontar o que poderia (ou, obrigatoriamente, deveria ser refeito) e uma disposição incansável para encarar os fechamentos que adentravam pela madrugada, numa época em que o trabalho era feito em antiguíssimas máquinas de escrever e folhas de pauta.

Trabalho árduo, mas cujas lembranças são repletas de momentos deliciosos. Com um detalhe que nos aproximou de forma definitiva. O responsável pela diagramação era o querido Hiro Okita, autor de Homossexualidade: da opressão à libertação, publicado no início dos anos 1980 e, até hoje, referência fundamental para as LGBTIs marxistas.

Consequentemente, temas relacionados ao machismo, ao racismo e à LGBTfobia se tornaram alvos constantes de conversas, debates e acaloradas discussões que, olhando pra trás, considero cruciais para tudo o que fizemos depois nestas áreas. E, sabemos, não foram poucas as contribuições da Cilinha nesta história.

Uma vida dedicada à libertação das mulheres através da revolução

Sem querer “colocar palavras em sua boca”, coisa que ela abominava, acho que posso afirmar que Cilinha não se incomodaria se eu fizesse suas as últimas palavras da Autobiografia de uma mulher comunista sexualmente emancipada, publicado originalmente em 1926, pela revolucionária russa Alexandra Kollontai:

“Está perfeitamente claro para mim que a libertação completa da mulher trabalhadora e a criação das bases de uma nova moral sexual manter-se-ão para sempre como o alvo mais elevado de minha atividade, e de minha vida”.

Foi exatamente isto que Cilinha tomou como sua principal tarefa, principalmente a partir dos anos 1990. Uma tarefa que, sabemos, não foi nada fácil, mesmo para uma corrente política como o trotskismo que, desde sempre, valorizou a luta contra as opressões, compreendendo-a como indissociável do combate à exploração capitalista.

Contudo, em primeiro lugar, uma série de circunstâncias históricas (que vão desde as traições do stalinismo particularmente nesta área até as características de uma esquerda que, no Brasil, se reorganizou sob uma ditadura e influência da Igreja, de fortes tendências sindicalistas e populistas) fizeram com que estes debates se perdessem num emaranhado de questões.

Em suma, como costumava brincar com ela, sofríamos uma espécie de “síndrome dos podres poderes” (em referência a uma música do Caetano Veloso). A regra geral, no movimento e maioria das organizações, era que “negros, bichas e mulheres, ficassem para depois do Carnaval”. Ou seja, que a luta contra o racismo, o machismo e a LGBTfobia era uma tarefa para depois da revolução. Isto quando não era completamente rechaçada,  particularmente no caso das vertentes stalinistas e maoístas.

Ao seu favor para encarar este debate em relação a mulheres (e nós, enquanto negros e LGBTIs), Cilinha carregava a tradição da Convergência Socialista, que, ainda nos anos 1970, mantinha organismos próprios (como Secretarias) destinadas especificamente para a elaboração e organização em torno do trabalho com estes setores, o que nos permitiu, inclusive, ter protagonismo na construção do Movimento Negro Unificado (MNU) e do SOMOS: Grupo de Afirmação Homossexual, ambos em 1978.

De qualquer forma, os anos da chamada redemocratização, apesar de marcados por uma amplo processo de reorganização de movimentos contra a opressão, também exigiram muito da militância, o que acabou contribuindo para uma certa dispersão deste trabalho, o que já era bastante preocupante e, por isso mesmo, tema constante de debates entre nós que “sentíamos na pele” a necessidade de avançarmos no debate.

Cilinha, ao lado de valorosas companheiras como Ana Rosa Minutti, esteve sempre à frente de nosso pequeno, mas aguerrido, batalhão. E, no início dos anos 1990, ela decidiu erguer barricadas e fazer uso das armas que fossem necessárias para resgatar e desenvolver, para dentro e fora da organização, as teorias, perspectivas, métodos e programa que pudessem contribuir para fazer avançar os debates e a atuação concreta em torno da organização das mulheres sob a bandeira do classismo, do marxismo revolucionário e da revolução internacional.

A luta de classes como divisora de águas no combate ao machismo

Armas que precisavam ser particularmente afiadas e certeiras, principalmente diante do que estava rolando nos movimentos de combate à opressão. Vivíamos num momento em que teorias pós-modernas, que recém haviam desembarcado por aqui, se mesclavam com as ideologias neoliberais e a campanha ideológica sobre “o fim do socialismo”, pós-queda do Muro de Berlin. E, neste contexto já complicado, grande parte do movimento de mulheres abandonava o marxismo, abraçando as chamadas “teorias de gênero”.

Foi deste solo um tanto árido que Cilinha vez brotar o livro O gênero nos une e a classe nos divide, cujo principal objetivo era demarcar as diferenças e fronteiras entre as demandas das mulheres burguesas e trabalhadoras, demonstrando que, apesar de pertencentes a um mesmo gênero, os interesses de classe as colocavam em terrenos opostos.

O livro, como já mencionado, tornou-se um marco, sendo traduzido para vários idiomas. Contudo, também é importante destacar suas entrelinhas, algo importante para lembrar o tipo de militante que Cilinha era. Sua origem e conseqüência imediata estão relacionadas a algumas das coisas mais valorizadas por ela: a formação política da militância e a organização, tanto dos movimentos de massas quanto de um partido revolucionário.

Seu ponto de partida foi um curso sobre a origem da opressão da mulher, ministrado em diversas cidades brasileiras, o que a colocou em contato com trabalhadoras bancárias, professoras, operárias e estudantes que lhe despertaram a necessidade de ampliar os temas do cur­so, publicando um livro. Além disso, o livro cumpriu papel fundamental para o desenvolvimento de Secretarias de Mulheres, dentro da organização, mas, também, em sindicatos e entidades do movimento.

No PSTU, fundado em 1994, Cilinha esteve à frente da Secretaria de Mulheres durante anos, contribuindo para a formação de sucessivas gerações de companheiras, muitas das quais carregam, hoje, seu trabalho adiante. Além disso, ela também ocupou a coordenação da Secretaria Internacional de Mulheres da LIT, uma tarefa decorrente não só de suas elaborações sobre o tema, mas também de sua enorme dedicação para a construção da Internacional.

Além de ter militado no antigo Movimento ao Socialismo (MAS), a corrente argentina da LIT, fundada por Nahuel Moreno, durante três anos, Cilinha se disponibilizou inúmeras vezes para construir este embrião do partido internacional da revolução em vários países da América Latina, como Bolívia e Equador, e, também, da Europa, como no Estado Espanhol, Portugal e Inglaterra.

Uma artista ardentemente socialista

No decorrer de todo este período, a companheira nunca se permitiu distanciar de suas raízes cravadas nos palcos. E o fez, como sempre, com tudo junto e misturado, combinando luta pela emancipação das mulheres e pelo socialismo revolucionário e internacionalista com a convicção sobre a importância da Arte e da Cultura, não só para o entretenimento, mas, também, para a disputa ideológica, a formação e, inclusive, a organização da classe trabalhadora e dos oprimidos.

Era apaixonada por tudo o que tinha a ver com o poeta, dramaturgo e encenador marxista Bertold Brecht (1898-1956) e, por isso mesmo, guardo com carinho uma coletânea de seus textos que ela me deu de presente, décadas atrás. Assim como preservo na memória uma montagem que vimos, juntos, nos anos 1980, do espetáculo Bella Ciao (de Luis Alberto de Abreu), num antigo teatro do bairro do Bom Retiro, símbolo do tipo de espetáculo que ela curtia. Da mesma forma que lhe sou grato por ter me apresentado Iná Camargo e Dulce Muniz, artistas e companheiras de muitas lutas, com as quais manteve diálogo até o fim de sua vida.

E essas foram algumas de suas referências e influências para os muitos grupos e montagens que ela encabeçou ou com os quais colaborou. Algumas delas realmente marcantes, como Guerreiras de Brecht, na qual ela alinhavou seis textos do autor alemão que têm personagens femininas colocadas em situações de conflitos e luta: Santa Joana dos Matadouros (1931), A Mãe (1931), Os fuzis da Senhora Carrar (1937), Mãe coragem e seus filhos (1939), A alma boa de Set-Suan (1943) e Círculo de giz caucasiano (1944).

Outra que fez história, atravessando fronteiras, foi Lucha Mujer Poética, um texto que, também seguindo os passos de Brecht, colocava em cena “personagens” como a Wlassova (de A Mãe), a revolucionária alemã Clara Zetkin e a escritora modernista, jornalista, dramaturga e militante comunista brasileira Patrícia Galvão (a Pagu), para discutir a violência contra as mulheres e suas lutas. O título em espanhol tem a ver com o fato de que o espetáculo foi montado por um grupo formado pela própria Cilinha, na Argentina, onde o texto foi apresentado, na Universidade de Quilmes, em 2014.

Aqui no Brasil, Cilinha colaborou para a criação do Grupo Teatral Trabalhadores da Arte, cuja história se confunde com a do CAS e foi responsável pela montagem de vários textos seus, em meados dos anos 2010, como Foices, Facões e Fuzis (em torno da questão agrária) e Dez dias que abalaram o mundo, uma adaptação que Cilinha fez do famoso livro de John Reed, sobre a Revolução Russa de 1917.

Além disso, também colaborou com iniciativas como o Grupo Teatral Erga- Omnes, grupo dirigido por Jairo Maciel, no Sindicato dos Trabalhadores do Judiciário (Sintrajud), de São Paulo, que montou, em 2016, o espetáculo Rebeldia, rebeldia, em homenagem ao aniversário de um ano do falecimento da autora do texto.

Poderíamos citar diversos outros exemplos de montagens feitas em ocupações, sindicatos, na rua ou em celebrações e atos do 1º de Maio ou do Dia Internacional da Mulheres. Além de saraus e leituras dramáticas levadas para todos os cantos e espaços nos quais a arte pudesse contribuir para aguçar a consciência de classe e a necessidade da luta.

Contudo, neste campo, seu maior legado está exatamente dentre os leitores deste texto: o Coletivo de Artistas Socialistas, criado no início dos anos 2000 e, hoje, filiado à CSP-Conlutas, onde mantém uma atividade constante, combinando produção agitação artístico-cultural com a luta pela defesa dos trabalhadores e trabalhadoras da arte e seu engajamento no combate pela revolução.

Uma polemista “feroz”, também capaz da autocrítica
No ato realizado quando de seu falecimento, Alícia Sagra destacou que a sensibilidade de artista, a inquietude e a paixão que caracterizavam Cilinha também se manifestavam, com força, na forma como era defendia suas ideias e encarava polêmicas. E não foram poucas e nem sempre “fáceis”. Mas, o que mais poderia se esperar de uma militante revolucionária?

O importante é que suas polêmicas e acaloradas discussões sempre contribuíram, e continuam contribuindo, para nos instigar, forçar a reflexão e inspirar o debate entre nós na continuidade da busca do melhor caminho para levar adiante os mesmos ideais pelos quais ela tanto brigou durante a vida. E, tão importante quanto, Cilinha também fez o seu melhor para incorporar críticas e contribuições em suas elaborações.

Exemplo disto é o seu último legado, a edição revisada e atualizada do livro, cujos ajustes e mudanças estão expressos já no título (agora, “Gênero e classe”). Alterações e correções que são demonstrações tanto desta tentativa quanto do método com a qual ela tentou conduzir sua vida. Como foi destacado por Alícia Sagra, no prefácio do livro.

“Cecília sempre dizia que as discussões, as polêmicas, as opiniões – às vezes coincidentes, outras contrárias – que recebia das companheiras da LIT-QI possibilitaram a realização de seu primeiro livro, da mesma forma que lhe fizeram ver as debilidades que ele tinha e que era necessário corrigi-las. Estou segura de que ela gostaria que este livro fosse dedicado a todas essas companheiras”, escreveu (p. 12).

Como isto se refletiu no conteúdo é algo a ser estudado por aqueles e aquelas que venham a lê-lo. No entanto, pra finalizar, vale citar o que a própria Cilinha disse a respeito.

“Este livro foi escrito, inicialmente, em 1996. Esta seria a quarta edição e, durante todos estes anos, vem passando por diversas atualizações. Nesta nova edição, foram incluídas algumas questões importantes que não constavam das edições anteriores, bem como foram corrigidas as definições que novos estudos e discussões mostraram que eram pouco claras ou erradas”, como destacou na apresentação do livro (p. 14).

Ao mesmo tempo, ela também fez questão de ressaltar que esta é uma “obra em aberto”, como tem que ser – dentro dos limites dos princípios que norteiam o marxismo revolucionário – toda elaboração que procure responder à luta de classes, algo, por definição, dinâmico, dialético e suscetível a novas abordagens e perspectivas.

Consciente disto, Cilinha também deixou registrado que:

“O propósito deste livro não é, de forma alguma, esgotar o tema. Pelo contrário. Queremos abrir ainda mais as nossas mentes para de­bater suas causas reais e buscar uma resposta ao feminismo atual, uma resposta que ajude a mulher trabalhadora a se conscientizar de sua si­tuação como mulher e encontrar o caminho de sua emancipação”. Uma luta decisiva não só para as mulheres, pois, afinal, como ela conclui, “ao lutar pela liberação das mulheres estamos, na verdade, lutando pela emanci­pação de toda a humanidade!” (p, 17)

Presente, até o socialismo. E sempre!

É realmente lamentável que ela já não esteja entre nós para pudéssemos fazer este debate diretamente com ela. Mas, exatamente por concordar que não só a emancipação das mulheres, como também de negros, negras, LGBTIs, povos originários, gente marginalizada pela xenofobia ou quaisquer outras formas de opressão, depende da unidade da classe trabalhadora que, por isso mesmo, tem que superar, na luta, as divisões impostas pela burguesia para nos dividir e nos enfraquecer, também tenho certeza que as contribuições da Cilinha continuarão a se fazer presentes entre nós. Assim como sua mente criativa e suas elaborações e produções no campo da Arte e da Cultura continuarão ecoar nos palcos ou qualquer espaço onde se faça necessário.

É assim que, hoje, celebramos seus 70 anos. Será assim, também, que continuaremos celebrando sua vida. Ela odiaria ouvir que lhe “devemos” isto. Mas, devemos, sim. Inclusive pela forma heróica como ela enfrentou seus últimos anos. Nunca admitindo que o câncer que a consumia servisse como obstáculo para se fazer presente em um debate ou ir a alguma atividade. Nunca reclamando.

Sua força é um exemplo, particularmente importante, inclusive, nestes tempos sombrios que enfrentamos. Sua garra em buscar dar o melhor de si, até o último suspiro, deve servir como inspiração para as novas gerações e aquelas que estão por vir.

Como Zé Maria, dirigente do PSTU, destacou no ato no Ruth Escobar, lamentamos, sim, e muito, que ela tenha nos deixado tão cedo, mas celebramos que ela tenha vivido “uma vida plena, pois não há como viver plenamente nessa sociedade se não for lutando contra essa situação”.

Celebramos o fato de ela ter compartilhado sua vida conosco. Seja de forma próxima, como no caso dos mais antigos, seja pelo seu legado, que tomou vida própria nas muitas atividades que desempenhou, e nos muitos e muitas que ela continua ajudando a instigar, inquietar e formar.

Algo que, aliás, ficará ainda mais acessível através de uma iniciativa de seu filho, que, carinhosamente, chamamos de Martizinho, hoje, militante revolucionário e cineasta talentoso, que está produzindo um documentário sobre Cilinha, a ser lançado, provavelmente, no próximo ano. Algo que, com certeza, será uma bela oportunidade não só para homenageá-la, mas, acima de tudo, para lembrar que “os nossos e as nossas” não morrem, nunca.

Aqueles e aquelas que, como Cecília Toledo, dedicam toda a vida à luta pela destruição deste sistema que se alimenta da opressão e da exploração e à construção de um mundo socialista, como já disse seu amado Brecht, não só “são imprescindíveis”, mas também se perpetuam nas gerações que assumem o vazio deixado. Um vazio, paradoxalmente, repleto e prenhe de vida.

Publicado originalmente em: https://blogdocas.com.br/2021/04/22/cilinha-ainda-e-sempre-presente-entre-nos/