O primeiro-ministro da Etiópia, Hailemariam Desalegn, apresentou sua renúncia no dia 16 de fevereiro, em meio a grandes protestos contra o seu governo e um estado de emergência decretado por ele desde outubro de 2016.

Por: Américo Gomes

Os protestos no segundo país mais populoso de África (102 milhões de habitantes), com mais de 10 milhões de pessoas passando fome, estão ocorrendo há mais de dois anos, com centenas de mortos pela repressão policial, particularmente na capital Addis Abeba. Noticia-se mais de 1.000 mortos e cerca de 20.000 pessoas presas. São principalmente jovens, que bloqueiam estradas, fecham empresas e fazem greves em toda a região de Addis Abeba.

A violência étnica contra os Oromo também deixou mortos e desencadeou uma crise humanitária com dezenas de milhares de pessoas deslocadas.

O partido de Desalegn, o Movimento Democrático dos Povos do Sul da Etiópia (SPDM, na sigla em inglês), é parte de uma coalizão governamental chamada Frente Democrática Revolucionária do Povo Etíope (EPRDF, em inglês). Hailemariam era ligado ao ex-guerrilheiro Meles Zenawi (fundador da Liga Marxista-leninista do Tigray), dirigente da Frente de Libertação do Povo do Tigray, que compõe a EPRDF, e que governou a Etiópia de agosto de 1991, quando depôs o ditador Mengistu Haile Mariam, até a sua morte, em 20 de agosto de 2012. Hailemariam foi vice primeiro-ministro e ministro das Relações Exteriores. Portanto, está no poder há 27 anos. A guerra civil na Etiópia deixou pelo menos 1,4 milhão de mortos.

Sentindo a ingovernabilidade, no mês passado começou a emitir uma série de indultos e a libertar prisioneiros para buscar um “consenso nacional”. O que é difícil de conseguir depois de prender jornalistas, deputados e líderes da oposição, proibir publicações no Facebook, bloquear a internet e declarar que a oposição e estações de televisão dirigidas pela oposição eram ilegais.

Diante dessa realidade, a própria Direção Nacional da EPRDF exigiu a sua renúncia, em um caso similar à África do Sul. O cargo permanecerá vago até a direção da EPRDF eleger um novo primeiro-ministro, já que são eles que controlam o Parlamento, todos os 547 assentos.

As mobilizações continuam

Mesmo depois da renúncia do primeiro-ministro, a coalizão governante declarou outro estado de emergência para tentar conter os protestos de massas. Mas eles continuam em todas as regiões mais populosas do país.

Os protestos ocorrem principalmente na região da Oromia, a mais populosa da Etiópia, onde estão os Oromo (também presentes no Quênia e na Somália), o maior grupo étnico da Etiópia, com cerca de 35 a 40% do total da população. Eles estão na região central do país no entorno de Addis Abeba, pois suas terras foram confiscadas e estão sem lugar para ir em virtude de um plano diretor do governo. Por isso estão em luta, mas também exigem a libertação de todos os presos políticos e mais direitos políticos e econômicos.

Além deles, e também contra o confisco de suas terras, o segundo grupo étnico, Amhara, que representa cerca de 27% da população, está realizando protestos em sua região.

Os Tigray representam cerca de 6% da população da Etiópia, controlam as posições políticas, econômicas e no setor de segurança, as mais importantes, portanto, de todo o país, com a ajuda do imperialismo e dos Estados Unidos em particular, que treina o exercito etíope. Meles Zenawi era desta etnia.

Para onde vai a Etiópia?

O presidente da coalizão governante assumiu os deveres do primeiro-ministro. A nomeação de um novo primeiro-ministro será uma tentativa de salvar o partido que está no poder há décadas. Mas um novo sucessor não será suficiente para conter os protestos, porque não vai atender nenhuma das reivindicações dos etíopes e nenhuma reforma política será feita. Nem haverá resposta para a marginalização do maior grupo ético nacional, o Oromo, que vive um processo de exclusão política e econômica.

Por isso, as mobilizações devem continuar até derrubar o governo da EPRDF e estabelecer um governo que chame uma Assembleia Constituinte que incorpore todas as etnias, dando-lhes compensações e possibilitando ao povo etíope e aos trabalhadores que se organizem em seus partidos para poderem governar e estabelecer as profundas mudanças sociais que necessitam.

O país da África que derrotou um império

A Itália invadiu a Etiópia entre 1895 e 1896, seguindo a política imperialista do final do século XIX de partilha do continente e tentando criar colônias na África. A Etiópia era um dos poucos países independentes que sobraram. Seus territórios, além da Etiópia, incluíam a Eritreia e o Iêmen.

Inicialmente, o rei Menelik II decidiu realizar certos acordos com a Itália em troca de reconhecimento e armas. Cedeu a Eritreia aos italianos, mas estes o queriam como vassalo do rei da Itália. Em 1893, Menelik declarou que os tratados não tinham mais validade, os italianos enviaram tropas e invadiram a Etiópia, mas tiveram que recuar. Em fevereiro de 1896, 18 mil italianos avançaram novamente, esperavam encontrar 30.000 etíopes, mas havia mais de 100.000. Foi um massacre: 7.000 italianos morreram, 1,5 mil ficaram feridos e 3.000 foram capturados. Em 23 de outubro, o Tratado de Addis Abeba deu fim à guerra e reconheceu a soberania etíope.

Um exército africano, de diversas etnias, venceu os colonialistas brancos

Em outubro de 1935, Mussolini enviou 100.000 soldados através da possessão que tinham na Eritreia. Utilizaram artilharia pesada, ataques aéreos e armas químicas até mesmo nas populações civis e conquistaram o país até 1941. A guerra causou mais de meio milhão de mortos entre os africanos e 5.000 baixas italianas. Mussolini anunciou no fim da guerra o nascimento de seu Império, declarando Vítor Emanuel III Imperador da Etiópia, ou da “África Oriental Italiana”. A Sociedade das Nações reconheceu-lhe esta possessão.

Mas as forças etíopes, que apresentaram forte resistência e eram duramente reprimidas, receberam o apoio do Império Britânico durante a Segunda Guerra Mundial e, em 31 de janeiro de 1941, conseguiram novamente a independência.

Esta segunda guerra ocorreu durante o reinado de Haile Selassie , fiel aliado do imperialismo britânico, onde viveu em seu exílio de 1936 a 1941. Era defensor dos Estados Unidos da África. Em 1973, a fome foi abrumadora em todo o país e levou milhares à morte. A inflação era galopante. Isso fez com que, em 1974, ocorressem motins principalmente na capital. Selassie fez várias concessões, como a diminuição do preço da gasolina e o aumento de salários, mas isso não impediu que ele fosse derrubado pelo Derg.

O Derg foi um comitê de militares de patentes menores e soldados criado para levar as reivindicação dos militares à frente. Era liderado pelo tenente-coronel Mengistu Haile Mariam.

Mengistu  ficou no poder até 1991. Foi secretário-geral do Partido dos Trabalhadores da Etiópia. Ditador cruel com os dissidente e comandante da fase mais sangrenta da guerra de libertação da Eritreia, em 2008 foi condenado por genocídio por mais de um milhão de mortes. Em 1978, derrotou a Somália e a guerrilha de Ogaden com a ajuda dos soldados cubanos. Na década de 1980, houve períodos de fome que atingiram oito milhões de pessoas no país, causando um milhão de mortes.

Com as revoluções no Leste europeu em 1989, acabou a ajuda soviética à Etiópia e os soldados cubanos foram embora. A Etiópia perdeu a Eritreia. O governo de Mengistu se deteriorou.

Em 1989, a Frente de Libertação do Povo do Tigray (FLPT) fundiu-se com outros movimentos de oposição para formar a Frente Democrática Revolucionária do Povo Etíope (EPRDF), dirigida por Meles Zenawi. Em maio de 1991, as forças da EPRDF, recebendo apoio da Albânia, avançaram em Addis Abeba. Mengistu se exilou no Zimbábue, governado por Robert Mugabe.

O Governo de Transição da Etiópia foi criado. Meles Zenawi foi o chefe deste governo e primeiro-ministro, e daí para frente foi fraudando todas as eleições. Em junho de 1992, a Frente de Libertação Oromo se retirou do governo.