Recentemente, o PT e Lula se desgastaram com suas bases em virtude de duas movimentações: a resistência e a demora da direção do PT em aprovar o “Fora Bolsonaro”; e o anúncio do ato das centrais sindicais do 1º de maio tendo como convidados Maia, FHC, Alcolumbre, etc.

Por:  Ailson Matias, de Natal (RN)

Daí Lula, o velho conciliador, participou deste ato do 1º de maio das centrais para fazer as pazes com suas bases. Lula participou do ato das centrais, virtual devido à pandemia, e apresentou um debate estratégico através da tese do “novo mundo pó-coronavírus”. Também não apresentou um programa mínimo que fosse para a crise da pandemia da Covid-19 no Brasil. Fez apenas um discurso para “segurar as bases”.

Lula percebe a conjuntura explosiva em curso, percebe que setores começam a ficar mais agitados, e então, busca não perder contato, busca dialogar com estes setores e agregar outros. Também busca não permitir que haja dispersão “no barco”, ou se tiver, que seja mínima.

Na sua fala sobre o “novo mundo pós-coronavírus”, inclusive, apresentou o seu programa: Que a economia e a tecnologia estejam a serviço do  homem, da mulher, e da natureza;  que seja universal, coletivo e solidário; e que se respeitem as diferenças e se possibilite a emancipação.

Nesta sua fala no dia do trabalhador, Lula passou longe do “Fora Bolsonaro”, e nem mesmo citou as variações políticas em discussão como o impeachment ou renúncia. Centrou sua fala, em novamente apresentar um programa requentado como saída estratégica para os trabalhadores.

Lula não falou, claro, mas sua busca por este “novo mundo” se dá em unidade com a “frente eleitoral democrática amplíssima” que, pública e descaradamente, começou a ser costurada em pleno dia do trabalhador, neste vergonhoso ato virtual das maiores centrais sindicais, e que contou com a participação também de FHC, Ciro, Marina, etc. Ou seja, um discurso que pode até parecer progressista para alguns, falando em “novo mundo”, mas que não tem nada de novo. Unindo-se a praticamente toda a burguesia, esse mundo de Lula é o velho mundo de sempre.

Este “novo mundo” que Lula está apresentando não atenderá as expectativas e necessidades mínimas da vanguarda e nem da massa. Porque os elementos que ele apresenta, e que dão base à sua tese, estão alicerçados nos mesmos limites do programa que o PT utilizou para governar o país, ou seja, no máximo busca minimizar as diferenças sociais, sem ir às raízes dos problemas.

Lula, o PT e seu programa de conciliação de classe já estiveram no governo do país por 14 anos. No orçamento público petista, os gastos com pagamento da dívida pública em 2012, levou os banqueiros a faturarem R$ 753 bilhões, enquanto o principal programa petista, o Bolsa Família, destinou R$ 18 bilhões por ano. Esta fotografia irrefutável, é o resultado do programa do PT no governo.

Lula busca encantar e seduzir muitos corações e mentes, que estão “órfãos de uma liderança” no Brasil. Mas na sua fraseologia, Lula não toca numa palavra: o socialismo. Porque sua opção é por seguir com as mediações e a conciliação de classe.

Mas para ter um “novo mundo” e para proteger a vida e a sobrevivência dos trabalhadores e pobres, seria necessário defender um programa emergencial que destinasse finanças massivamente para garantir o isolamento social, o salário, a renda e a saúde da população, que são exigências mínimas nesta conjuntura.

Garantir estas prioridades significaria, porém, um choque de classe. Significaria “tirar de onde tem, e colocar onde não tem”. E significaria que os trabalhadores seriam prioridade em detrimento dos grandes empresários e do sistema financeiro. O que inevitavelmente leva a conflitos de interesse de classe.

Portanto, estamos diante de uma situação histórica onde o capitalismo demonstra sua incapacidade, e ainda assim, os vemos buscando se aproveitar da crise para não perder, e/ou transferir as perdas para os trabalhadores. Por outro lado, nossa classe tem pelo menos duas saídas. A primeira é seguir o programa de conciliação de classe, que o Lula buscará liderar, e que foi aplicado na América Latina na primeira década dos anos 2000, e mostrou todos os limites históricos.

Os trabalhadores também podem fazer uma profunda reflexão, e a partir das experiências anteriores e da realidade concreta, buscar construir uma outra saída estratégica, que parta de medidas necessárias para proteger a vida, e não o lucro e a ganância. Que inverta a atual lógica econômica, e que caminhe para o fim das desigualdades sociais. E que neste “novo mundo”, os trabalhadores e o povo pobre tenham acesso pleno à igualdade, liberdade, solidariedade e fraternidade. Este novo mundo, chama-se socialismo.

Seguir este caminho significa buscar se organizar para pegar de volta da burguesia o que ela, todos os dias, se apropriou da classe trabalhadora. Significa avançar no tema da propriedade privada!

E, definitivamente, não será este caminho que Lula seguirá. Vai preferir fazer o que sempre fez: conciliação de classe. E este caminho já foi trilhado e vimos onde chegou, e não devemos repeti-lo!

Portanto, o caminho para o “novo mundo” para os trabalhadores e para os pobres do Brasil não passa mais por ilusão de conciliação de classe, que Lula requentou e agora apresenta novamente neste 1º de maio. Passa sim, por seguir fazendo a luta imediata, e também fortalecendo a construção de um programa que atenda plenamente a necessidade do povo. E todos os ativistas honestos que estão lutando contra Bolsonaro, por suas vidas e direitos, e que junto com isso buscam construir este “novo mundo”, devem se somar e pegar em suas mãos a construção deste programa e alternativa socialista.