Estima-se que a invasão da Ucrânia pela Rússia a 25 de fevereiro já gerou mais de 4 milhões de refugiados. São inúmeros trabalhadores e trabalhadoras, mulheres, idosos e crianças que se viram obrigados a deixar as suas casas e o seu país porque o Estado russo, que historicamente oprime o povo ucraniano, motivado pelos seus interesses econômicos, invadiu a Ucrânia, violando o direito à autodeterminação do povo ucraniano.

Por: Em Luta – Portugal

Por isso, expressamos toda a nossa solidariedade com a resistência ucraniana, e não temos dúvidas de que os refugiados ucranianos merecem encontrar acolhimento e solidariedade por parte dos outros povos.

Hipocrisia e racismo no acolhimento aos refugiados

Não podemos, entretanto, deixar de apontar que, ao mesmo tempo em que a União Europeia promove medidas que, ao menos por agora, facilitam a entrada dos refugiados vindos da Ucrânia, continua a receber com repressão brutal outros refugiados que chegam também fugidos de guerras, conflitos armados e situações de violações sistemáticas de direitos humanos – sobre as quais, muitas vezes, os Estados europeus têm responsabilidade direta.

Nas últimas semanas, enquanto os media divulgavam medidas de acolhimento de Portugal e da União Europeia aos refugiados que fogem da guerra na Ucrânia, escondiam que inúmeros refugiados africanos estavam a ser recebidos a cacetadas pela polícia espanhola em Melilla.

Até onde vai a solidariedade seletiva da Europa Fortaleza?

A cobertura mediática da guerra na Ucrânia, lamentavelmente, foi marcada por diversos episódios racistas, em que repórteres disseram em direto, sem meias palavras, que se comoviam com a guerra porque as suas vítimas eram loiras, de olhos azuis, e porque ocorria na Europa.

Repudiamos com todas as forças este olhar cruelmente racista que mostra que, para os governos, a União Europeia e os media, há vidas que valem mais do que outras. Também devem receber solidariedade e ser acolhidos os refugiados sírios, iemenitas, etíopes, palestinianos!

Além disso, é preciso denunciar que a União Europeia tem, relativamente à guerra na Ucrânia, uma posição interesseira – o seu apoio ao Estado ucraniano neste momento é fruto também dos seus próprios interesses e das suas disputas econômicas e políticas internacionais.

Diferentemente do hipócrita governo Costa, não esquecemos a violência que, em outros momentos, já sofreram imigrantes ucranianos em Portugal: Ihor Homenyuk, ucraniano, foi assassinado a sangue-frio pelo SEF em pleno Aeroporto de Lisboa, porque foi visto como suspeito de ser imigrante.

A UE, enquanto faz propaganda das suas medidas favoráveis aos refugiados da guerra na Ucrânia, mantém como regra uma política completamente xenófoba e brutalmente violenta contra a imensa maioria dos refugiados e todos os imigrantes. A solidariedade racista da União Europeia vai só até onde lhe convém.

Não há solidariedade entre os povos sem combate ao racismo e à discriminação

A nossa solidariedade com o povo ucraniano é outra: é a solidariedade operária, da classe trabalhadora explorada e oprimida que defende até as últimas consequências o direito do povo ucraniano à sua autodeterminação!

Não é à toa que nenhuma palavra foi dita pelas autoridades portuguesas e europeias em repúdio às inúmeras imagens e vídeos que mostraram a discriminação das autoridades ucranianas e de outros países fronteiriços contra pessoas negras, ciganas e de diversas etnias nos processos de evacuação da guerra na Ucrânia. Nós, no entanto, afirmamos com toda a certeza: não há verdadeira solidariedade com o povo ucraniano sem repudiar todo e qualquer ato de racismo na evacuação do país, no acesso à ajuda humanitária e no acolhimento aos refugiados.

Basta de hipocrisia e racismo: em Portugal e em toda a União Europeia, acolhimento imediato de todos os refugiados e regularização para todos os imigrantes, já!

Por: Marina Peres