Que mês de novembro! Enquanto nossos irmãos e irmãs no Brasil se preparavam para celebrar o mês da Consciência Negra1  nas favelas e bairros da classe trabalhadora para lutar contra o racismo e o mito da “democracia racial” em seu país, aqui nos Estados Unidos nós vimos outra onda de resistência da juventude negra, que agora se une à solidariedade com os árabes, sírios, muçulmanos e palestinos.

Por: Florence Oppen

Os alvos racializados do imperialismo norte-americano e seus aliados (porque Assad, em última análise, é um aliado do imperialismo dos EUA!) aumentam a mobilização conforme os ataques racistas violentos aumentam em número. Se no ano passado tivemos um despertar negro, primeiro com Ferguson e depois com Baltimore, agora temos uma repressão organizada, um consciente desencadeamento das forças podres do racismo. Isso não tem só um rosto como o de Donald Trump – uma boca que ameaça com o horror que está no âmago de cada sociedade imperialista. Também existe a ameaça do fascismo, do nazismo, do genocídio; chame como quiser: da violência sem limites que será utilizada contra os corpos e pessoas negras, não brancas, femininas e LGBTs – o tipo de violência que ressurge em Ayotzinapa, na Síria ou na Palestina.

O Dia de Ação de Graças – ou melhor, o Dia de Ação de Roubos, ou Dia dos Povos Indígenas – passou, e cada peru comido trazia uma sensação desconfortável. Foi desconfortável comer para celebrar qualquer coisa nesse país, estando nauseado com a persistente violência racista permitida sob a liderança de um presidente negro. Obama, o primeiro presidente negro burguês e imperialista, é o símbolo de mudança de muitas coisas: começando como a tela de projeção de todos os males e ódio da extrema-direita durante a campanha de 2008 (ele era um negro-muçulmano-antiamericano-socialista, lembram?), ele se tornou rapidamente o operador de um brilhante desvio da derrota política e militar no Iraque e no Afeganistão e a chave para a cooptação eleitoral de sucessivas ondas de resistência social à crise (greves dos trabalhadores imigrantes, revoltas estudantis, Occupy, Wisconsin). Mas, acima de tudo, ele foi a cobertura perfeita para levar adiante o maior de todos os “resgates” de bancos norte-americanos e para a imposição da austeridade, o desenvolvimento de uma crise de moradia, e uma cruel deterioração do nível de vida do povo trabalhador. Recentemente, inclusive para sua própria surpresa, ele se tornou o símbolo impotente, criminoso e absurdo do mimetismo burguês de “solidariedade negra” quando Ferguson entrou em erupção e o Black Lives Matter (As vidas dos negros importam) se organizou, e ele se manteve passivo diante da dor infligida a seu povo. Muita gente começou a se perguntar: Obama é negro, afinal? Como é que ele consegue ficar de cara limpa? A irônica e exasperante traição a seu povo, seus 7 anos de imobilidade contra o racismo institucionalizado, sua cumplicidade com a classe dominante supremacista branca, tornaram-se a porta giratória para o retorno do fascismo supremacista branco e para a violenta perseguição dos negros e de outros setores da classe trabalhadora dos Estados Unidos. Não sabemos onde isso vai nos levar, não sabemos o quão forte e arraigada é essa escória-Trump da nossa sociedade, mas conseguimos reconhecer os sinais do que está acontecendo e do que desencadeou tudo isso.

De Missouri a Minneapolis: o povo negro está revidando

Os jogadores de futebol americano da Universidade de Missouri fizeram algo muito ousado: eles entraram em greve contra seus chefes, os administradores e gerentes dos esportes universitários corporativos, que pensam neles como mercadorias, semiescravos, semitrabalhadores. Para ser específico: estudantes negros são só 7% da população do campus na Universidade de Missouri, mas 58 dos 84 jogadores bolsistas de futebol americano são negros.2

O grupo organizador “Estudantes Preocupados 1950” [Concerned Students 1950] queria nos educar sobre o fato de que o problema era mais profundo ainda: o campus foi construído em 1839 com o trabalho dos negros escravizados, e apesar da escravidão ter sido abolida no estado de Missouri em 1865, só em 1950 os estudantes negros começaram a ser aceitos na Universidade3. A universidade pública de Missouri era, como quase todas nesse país, só para estudantes brancos, homens.

Estudantes negros tiveram que aturar o racismo diário, silenciamento, palavrões, insultos, intimidações – como espalhar bolas de algodão na porta dos seus dormitórios para lembrá-los da escravidão, ou suásticas desenhadas nos banheiros com ameaças4. Depois de uma série de incidentes racistas no campus, em outubro de 2015 vários estudantes começaram a se organizar e levantar a voz. Eles criaram um grupo (o Concerned Students 1950) e começaram a discutir questões sobre injustiça racial e história básica dos EUA, e também fizeram algumas exigências à administração da universidade. Mas foram ignorados e ameaçados pelas autoridades escolares e quase atropelados pelo conversível do presidente da universidade durante um confronto. Assim, o time de futebol americano tomou uma corajosa atitude, com o método da classe trabalhadora: eles entraram em greve. No dia 7 de novembro, os 32 membros negros do time de futebol americano da Universidade de Missouri anunciaram que não participariam de mais nenhum jogo até que o presidente universitário renunciasse, o que poderia custar, pelo menos, uma multa de US$1 milhão por jogo cancelado (mais todas as perdas dos ingressos e das atividades comerciais do entorno). No dia seguinte ao anúncio da greve, o treinador e a Associação dos Estudantes de Missouri vieram dar apoio aos jogadores, e até o governador do estado mandou uma mensagem de apoio5. O presidente renunciou no dia 9 de novembro, o que foi uma vitória estrondosa, que demonstrou a força da ação unida dos trabalhadores – muito embora esse tenha sido apenas o primeiro passo para enfrentar o racismo entranhado no campus.

Estimulados por essa vitória, estudantes negros, que sofriam com o racismo persistente e com intimidações constantes, começaram a se organizar e discutir em todo o sistema de ensino superior dos EUA. A segunda semana de novembro foi marcada por protestos estudantis e exigências desde Yale até a Universidade de Ithaca, até Princeton6. No entanto, no dia 15 de novembro, e depois novamente no dia 24 de novembro, os Estados Unidos descobririam mais uma vez a mesma velha história de violência e brutalidade policias endêmicas contra a juventude negra. Primeiro foi em Minneapolis, quando Jamar Clark, de 24 anos, foi baleado pela polícia. Ativistas do Black Lives Matter tomaram as ruas e cinco manifestantes foram baleados por grupos de justiceiros neonazistas.

E então houve Chicago, onde, em 24 de novembro, foi publicado o vídeo do assassinato pela polícia de Laquan McDonald, de 17 anos, no meio da rua, em 20 de outubro de 2014. As imagens chocantes do fuzilamento (16 disparos) do adolescente negro que estava andando pela rua (supostamente com uma lâmina de 3 polegadas, cerca de 8 centímetros) enojou e enfureceu muitos de nós. Não se vê nenhum confronto, negociação ou intimidação, só súbitos 15 segundos diretos de tiros sobre um corpo que cai e continua a se sacudir por causa das balas. O recesso do Dia de Ação de Graças de 2015 foi, portanto, marcado pela realidade sórdida desse país, por outro genocídio para comemorar o de séculos atrás.

O que significam as mentiras de Trump sobre os refugiados da Síria e seu ódio contra mexicanos e muçulmanos?

A incitação de ódio feita por Donald Trump está ganhando muita força, e os líderes dos partidos Democrata e Republicano ficam só tentando tirar a responsabilidade de suas mãos. Todos esses ataques estão ocorrendo sob um regime e um presidente do Partido Democrata que, afinal de contas, não parece se preocupar muito com as violações diárias dos direitos dos cidadãos. As frases racistas e antimexicanas de Trump agora cresceram muito: o alvo móvel de seu discurso de ódio varia entre imigrantes, pessoas com deficiências, a comunidade LGBTT, muçulmanos, negros, mulheres… e agora também judeus. O trabalho de Trump não é só nomear publicamente, identificar e humilhar os bodes expiatórios escolhidos para o atual estado de pobreza e frustração da classe trabalhadora norte-americana. Ele também quer canalizar essa frustração da classe trabalhadora branca masculina com a recuperação econômica inexistente para 99% da população apontando essa frustração para o alvo fácil. Além disso, ele quer inculcar comportamentos fascistas, para que os trabalhadores se tornem os executores de suas próprias sentenças sob o capitalismo. Consciente disso ou não, Trump representa a ameaça potencial do fascismo, que está presente nos EUA assim como em qualquer país imperialista em momentos de grande crise econômica e decomposição social. Ele avisou algumas semanas atrás que, se for presidente, o que é muitíssimo improvável no momento (já que as grandes corporações não o apoiam), “serão feitas certas coisas que nunca pensamos que fossem acontecer nesse país em termos de informação e de aprender sobre nossos inimigos. E então teremos que fazer certas coisas que eram francamente impensáveis um ano atrás“.7

Como exemplo dessas coisas “impensáveis”, das quais a história dos Estados Unidos está cheia mas que nunca são realmente debatidas, Trump recentemente propôs que muçulmanos fossem obrigatoriamente registrados num banco de dados nacional especial e que portassem identidades diferentes, apenas por causa da sua religião8. A islamofobia está crescendo, e Trump é parcialmente responsável por dar asas e aceitação social a ela na esfera pública. Dizer que “todos os muçulmanos são terroristas” ou violentos, ou perigosos, tornou-se algo que é defendido com os argumentos da “livre expressão” e “opinião pessoal”. Porém, o resultado das provocações e agressões verbais de Trump é bem concreto e material para a comunidade muçulmana (e até para os que “parecem árabes/indianos”): no Texas, por exemplo, grupos de justiceiros armados patrulhavam perto das mesquitas intimidando seus membros9; mesquitas foram vandalizadas em todo o país (Texas, Connecticut, Flórida)10; e até uma loja na Flórida começou a pôr placas de “Área livre de muçulmanos” na fachada11. Houve até mesmo um juiz racista o suficiente para se posicionar do lado dos donos de lojas e contra os grupos de direitos civis que abriram processos contra eles. Nas duas semanas subsequentes aos ataques de Paris e à espiral de ódio islamofóbico de Trump, o Centro para Relações Islâmico-Americanas relatou pelo menos 27 ataques de ódio contra a comunidade muçulmana.12

O discurso extremista de Trump nivelou por baixo a opressão “aceitável” numa democracia. Por exemplo, seus competidores Republicanos agora conseguiram se revoltar contra o plano de Obama de receber 10.000 refugiados da Síria no país. Até agora, 31 estados se opõem a aceitar refugiados e apenas 5 aceitaram abertamente.13 O candidato do Partido Republicano se tornou um profissional em insultar e agredir um setor oprimido diferente da classe trabalhadora a cada mais ou menos uma semana e, é claro, os partidos Republicano e Democrata estão se deleitando com a ideia de que alguém faça por eles o trabalho sujo necessário para a recuperação das multinacionais norte-americanas: reforçar a opressão e a divisão e diminuir as capacidades políticas de uma luta unificada e confiante da multirracial classe trabalhadora dos EUA.

O estilo “extremo” de fazer política de Trump é atraente para trabalhadores que estão de saco cheio da dança das cadeiras da elite dominante. As pessoas sabem que os assim chamados 1%, a aliança dessa elite política profissional de bilionários/milionários com as principais corporações dos EUA e seus exércitos de advogados e lobbistas, são os que vão continuar a dirigir o país, não importa quem ganhe as eleições. O problema é que parece que não há como mudar isso. E Trump quer dar aos trabalhadores brancos pobres uma ilusão de que ele iria mudar, já que finge ser um “poderoso” empresário pronto a “falar a verdade sobre o poder”. No entanto, por trás do fingimento de Trump de falar a “verdade” para os homens brancos “comuns”, e de zombar da “linguagem politicamente correta” e dos “políticos profissionais”, esse bilionário está só dando voz e encorajando a proliferação das tensões racistas, machistas e homofóbicas, e das relações opressivas em geral que foram cultivadas nesse país desde sua fundação. Trump está apenas dando poder para uma das mais antigas válvulas de escape criadas pelas economias imperialistas: as guerras no exterior e as guerras em casa – onde a violência utilizada contra os explorados é usada para subjugar ainda mais, ou até eliminar, alguns de seus setores mais oprimidos.

Um novo radicalismo e a urgência para a solidariedade mais forte e ousada

As respostas contra os assassinatos de negros pela polícia (e contra os ataques policiais aos ativistas do Black Lives Matter) mostram uma luz no fim do túnel. Há negros lá fora resistindo e lutando, e também há brancos da classe trabalhadora, há muçulmanos, latinos/chicanos, imigrantes, LGBTTs e muitos outros oprimidos saindo do armário, do medo e da apatia, para enfrentar a violência racista mantida pelo status quo. E eles estão se conectando e unindo suas lutas, e enxergando que esse sistema econômico e social sob o qual vivemos defende essa violência.

Quando a linguagem do poder sobrepõe os ataques a diferentes alvos – negros, muçulmanos, refugiados sírios e palestinos -, esses setores têm a oportunidade de unir-se em um movimento mais ousado. De fato, e para ficar em só um exemplo, os estudantes negros, tanto na Universidade da Califórnia quanto na de Minneapolis, começam a mudar as palavras de ordem e a retórica do Black Lives Matter: não é mais sobre denunciar o lento genocídio da juventude negra e atrair a simpatia e a indignação do público norte-americano. Corpos negros estão se erguendo como sujeitos políticos ousados, e não como vítimas do espetáculo de compaixão branca liberal, como foram treinados no passado: eles estão enfrentando diretamente o Estado, todas as suas instituições, da polícia ao complexo industrial penitenciário à educação pública, e não ficarão mais satisfeitos com pequenas reformas ou “aumento na representatividade”. Eles sabem que um presidente negro mudou pouca coisa. Essa nova geração de ativistas negros está se conscientizando de que o racismo está entranhado no capitalismo norte-americano, e que um movimento independente do Estado e dos partidos dominantes é necessário, um movimento independente que organize ações ousadas e massivas, mesmo se no começo esse movimento for composto por setores muito minoritários. O movimento Black Lives Matter tem a chance de fazer história ao romper com o que Breitman (um líder político socialista do SWP) afirmou em 1964: “o aprendizado, a influência, a propaganda de todo o sistema capitalista, do berço ao túmulo, tem como alvo fazer lavagem cerebral no povo: tem como alvo convencê-lo, entre outras coisas, de que as minorias podem pedir e implorar, mas não podem fazer nada de significativo, não podem conseguir nenhuma grande mudança, até que tenham a permissão da maioria“.14

Mas essa minoria não pode ser deixada sozinha. É nosso dever mobilizar a luta unificada de todos os setores oprimidos da classe trabalhadora que estão sob ataque, não apenas por parte de Trump, mas também das forças policiais e grupos de justiceiros, como o ataque à Maternidade Planejada (Planned Parenthood). Das mulheres aos refugiados da Síria e do Iraque, precisamos construir uma solidariedade forte na luta entre todos os explorados e oprimidos. Na Universidade da Califórnia, em Berkeley, ativistas sindicais que se mobilizaram em apoio ao contrato de palestrantes (UC-AFT), uniram-se ao protesto organizado pela União dos Estudantes Negros; e, em outro exemplo, os membros de Vermont do Sindicato dos Trabalhadores Elétricos Unidos (UE) organizaram marchas contra a Ku Klux Klan15. Nós precisamos ampliar e expandir essas ações de luta conjunta. Vamos trazer isso para as ruas, marchas e protestos, para mostrar que os alvos dessa estratégia de criar bodes expiatórios estão prontos a se unir e pôr um fim à crescente banalização dos sentimentos racistas, machistas e islamofóbicos que têm sido alimentados em nosso país!

Notas:

1 https://en.wikipedia.org/wiki/Black_Awareness_Day

2 http://college.usatoday.com/2015/11/08/missouri-football-players-boycott/

3 http://www.kansascity.com/news/special-reports/article44793585.html

4 http://www.huffingtonpost.com/entry/tim-wolfe-homecoming-parade_56402cc8e4b0307f2cadea10

5 http://www.kansascity.com/news/special-reports/article44793585.html

6 http://www.nytimes.com/2015/11/12/us/racial-discrimination-protests-ignite-at-colleges-across-the-us.html

7 http://www.redstate.com/2015/11/20/donald-trump-say-registering-muslims/

8 http://www.redstate.com/2015/11/20/donald-trump-say-registering-muslims/

9 http://thescoopblog.dallasnews.com/2015/11/armed-protesters-set-up-outside-islamic-center-of-irving.html/

10 http://www.thestar.com/news/world/2015/11/18/us-mosques-vandalized-muslims-threatened-after-paris-attacks.html

11 http://thescoopblog.dallasnews.com/2015/11/armed-protesters-set-up-outside-islamic-center-of-irving.html/

12 http://thinkprogress.org/justice/2015/12/01/3726648/islamophobia-since-paris/

13 Os 5 estados que aceitaram foram Washington, Colorado, Connecticut, Vermont e Delaware.

http://www.cnn.com/2015/11/16/world/paris-attacks-syrian-refugees-backlash/

14 https://www.marxists.org/history/etol/writers/breitman/1964/xx/minority.htm

15 http://news.infoshop.org/fascism/vermont-ue-marches-against-klan

Tradução: G. Tolstoy