O envolvimento das mulheres na história das lutas operárias, na maioria das vezes, não aparece nem nos livros nem na mídia. Apesar disso, nossa participação e o papel que desempenhamos na organização, sindicalização, mobilização, documentação e inspiração dos trabalhadores foram enormes e várias áreas. Nós, mulheres, sempre estivemos à frente, contribuindo de forma inestimável para o movimento operário e suas conquistas, nas lutas por melhores condições de trabalho, no combate pela jornada de oito horas ou na exigência de salário igual para trabalho igual, entre outras reivindicações da classe trabalhadora.

Por: Erika Andreassy

Uma dessas mulheres foi Lucy Parsons que, em 1886, que, além de ter ajudado a organizar os trabalhadores e trabalhadoras na greve do 1º de maio daquele ano, tornou-se viúva de um dos chamados “Mártires de Chicago” e, até o fim da sua vida, se dedicou à um combate sem tréguas contra o capitalismo, o machismo, o racismo e todas demais mazelas decorrentes da exploração capitalista.

Neste 1º de Maio, marcado pelo debate entre independência ou conciliação de classe, estamos resgatando um pouco de sua história não só como uma homenagem a ela, mas também para lembrarmos que todas aquelas que, de fato, se rebelaram contra a opressão, a submissão das mulheres e o machismo, também se levantaram, obrigatoriamente, contra o sistema que as promove e delas se beneficia.

Uma mulher negra na raiz do “Dia Internacional de Luta da Classe Trabalhadora”

Parsons, filha de uma negra escravizada, era casada com o anarquista e ativista Albert Parsons, um dos mártires de Chicago, e, durante os protestos, em 1886, juntamente com seus dois filhos, conduziu cerca de 80 mil trabalhadores, numa passeata pela Michigan Avenue, uma das principais avenidas da cidade.

Como se sabe, os eventos posteriores às manifestações do dia 1º de maio, em Chicago, conhecido como Revolta de Haymarket, deram origem ao Dia Internacional do Trabalhador. Mas, esta não foi a primeira vez que os Parsons lideravam protestos de trabalhadores.

No dia de “Ação de Graças” de 1884, por exemplo, milhares de desempregados caminharam pela Prairie Avenue, uma avenida habitada pela nata dos empresários e banqueiros da cidade, num criativo protesto: Lucy seguia à frente do pelotão de despossuídos, como símbolo do quão pouco os pobres tinham que ser gratos àqueles que diziam “produzir as riquezas do país” e, enquanto isto, os trabalhadores tocavam as campainhas, ao mesmo tempo em que lançavam furiosas palavras de ordem e insultos contra seus exploradores.

Poucos meses depois, em 28 de abril de 1885, um grupo de trabalhadores tomou outro importante ponto da cidade, a Rua LaSalle, protestando contra um luxuoso jantar promovido para celebrar a abertura do novo prédio da Junta Comercial de Chicago. E, mais uma vez, Lucy Parsons estava na linha de frente, carregando, orgulhosamente, uma bandeira vermelha.

Esses são apenas alguns exemplos das manifestações em que ela se envolveu num momento em que a luta de classes era intensa nos Estados Unidos. Os índices de desemprego eram altíssimos, os salários baixos e os preços dos alimentos estavam subindo vertiginosamente. E o descontentamento e revolta dos trabalhadores contra a injustiça e à fome, em meio a tanta riqueza e opulência, explodiam em constantes protestos.

Mas quem foi Lucy Parsons?

Em 7 de março de 1942, um incêndio envolveu a casa simples de Lucy Gonzales Parsons, de 89 anos, na periferia de Chicago, encerrando uma vida inteira dedicada à luta da classe trabalhadora. Autodidata, era se fez uma oradora brilhante, escritora ativa e dinâmica e militante incansável.

Nascida em 1853, no Texas escravista, de ascendência afro-americana e, também, provavelmente, mexicana, foi constante testemunha das formas mais cruéis de racismo, incluindo os linchamentos promovidos pela Ku Klux Klan, grupo supremacista branco, criado no final da Guerra Civil, em meados dos anos 1860. Em 1870, conheceu Albert Parsons, um ex-soldado branco Confederado (ou seja, que lutou contra o Sul escravocrata) com quem se casou. A ascensão do terror Klan e a profunda perseguição que varreu o Sul depois da abolição da escravidão forçaram o jovem casal interracial a se mudar para Chicago, em 1873.

Na cidade, Lucy e Albert se lançaram em dois novos movimentos militantes: um para construir sindicatos industriais fortes e outro para agitar pelo socialismo. Lucy concentrou-se em organizar as mulheres trabalhadoras e Albert tornou-se um famoso organizador e orador radical, um dos poucos líderes sindicais importantes em Chicago que não era imigrante.

Ao mesmo tempo, Lucy colaborava, como jornalista, em várias publicações socialistas, anarquistas e de entidades da classe trabalhadora e a falava publicamente pela União das Mulheres Trabalhadoras, uma entidade onde ela cumpriu um destacado papel como organizadora, expondo os horrores da vida fabril e da opressão vivida pelas mulheres, tratadas como servas.

Naquele momento, Parsons era militante do Partido Socialista Trabalhista, com o qual viria a romper mais tarde, ao se enfrentar com a ala que adotou uma estratégia reformista, já que estava convencida de que somente uma revolução poderia acabar com o sistema capitalista. Apesar de transitar tanto por grupos socialistas quanto anarquistas, Lucy sempre manteve uma inabalável postura classista, algo que, inclusive, lhe rendeu muitas polêmicas com outras mulheres que atuavam na época na luta contra o machismo.

Como tantas outras mulheres, ela ainda trabalhava como costureira no pequeno ateliê que montou para sustentar a família, depois que Albert foi demitido por suas atividades políticas. Tendo, ainda, que amargar diversas prisões, em decorrência de sua participação em protestos antirracistas, de mulheres ou junto aos movimentos sem-teto e de imigrantes.

As execuções de Haymarket

O ano de 1886 marcou um ponto de virada na história estadunidense. No dia 1º de maio, foi declarada uma greve geral, tendo a jornada de oito horas como sua principal reivindicação. Em Chicago, as fábricas e as ruas se converteram num vulcão de ira operária. E, como mencionado, Lucy, Albert e seus dois filhos se colocaram à frente da gigantesca passeata que tomou a cidade.

Imediatamente, a rica elite industrial e bancária de Chicago transformou Albert e outras figuras “radicais” em alvos a serem eliminados, na tentativa de “cortar pela cabeça” do crescente movimento sindical e político. Brutal repressão policial, invasões de moradia e locais de reunião se tornaram constantes e, como resposta, milhares se reuniram na Praça Haymarket, no centro da cidade, numa manifestação convocada por Albert, alguns dias depois do 1º de maio.

Ali, a polícia se lançou contra os trabalhadores e militantes socialistas e anarquistas e, em meio ao tumulto, sete policiais morreram em uma explosão. E, em represália, oito trabalhadores foram falsamente acusados de usar uma bomba, dentre eles, Albert Parsons. Nunca foi encontrada qualquer evidência sobre quem fez ou detou a bomba, mesmo assim, Parsons e outros sete líderes sindicais imigrantes foram presos e, com o auxílio da imprensa corporativa, que estimulava o fervor patriótico, a lei e a ordem, foi montado um “circo jurídico”, completamente fraudulento, que levou os oito a condenações e sentenças de morte.

Com a prisão de Albert, Lucy passou a liderar uma campanha nacional para que um novo julgamento fosse realizado. Durante o ano e meio em que Albert esteve preso, esperando a execução, ela viajou pelo o país (percorrendo 17 estados), distribuindo panfletos e proferindo discursos para grandes multidões que se reuniam para ouvi-la, isto sem nunca deixa de costurar, para sustentar sua família.

O impacto de seus discursos produziu, inclusive, um cruel comentário sarcástico por parte de um jornal de Nova York: “Que Albert Parsons seja solto, como um compromisso de que a Sra. Parsons pare de falar.”. Como se sabe, os esforços de Lucy e o poderoso movimento que varreu o país, ganhando apoio e solidariedade internacionais, não foram suficientes para barrar o ódio da burguesia e seu desejo por sangue, diante da ousadia daqueles que se rebelaram.

Lucy também foi brutalmente agredida. Na manhã das execuções, ela e seus filhos foram despidos e jogados nus em uma cela de prisão e liberados somente após o enforcamento. No dia seguinte, o caixão de Albert foi levado para sua casa e, num gesto que revelou, ao mesmo tempo, sua emoção e força, ela resgatou a mesma bandeira vermelha que carregou na demonstração da Junta Comercial e a usou para cobrir o corpo de marido. Durante a noite, um cortejo de 10 mil trabalhadores passou pela residência e, no dia seguinte, mais de 200 mil pessoas tomaram as para a procissão fúnebre de Albert e seus companheiros mártires.

Nasce o Dia Internacional dos Trabalhadores

Com a execução de Albert e três de seus companheiros e a condenação à prisão perpétua dos outros quatro, a burguesia tentou silenciar o movimento, impor uma derrota aos sindicatos e por um ponto final à luta pela jornada de oito horas. Contudo, a história foi diferente.

O movimento se espalhou pelo mundo e, no ano seguinte, trabalhadores de países europeus também decidiram realizar protestos e paralisações. Em 1889, operários reunidos em Paris, na França, decidiram que a data se tornaria uma homenagem aos trabalhadores que haviam tombado três anos antes e, por tudo o que esse dia significou na luta dos trabalhadores, o dia 1º de Maio foi instituído como o Dia Internacional do Trabalhador.

Paradoxalmente, diga-se de passagem, os Estados Unidos é um dos poucos países do mundo em que a data não é celebrada. Lá, o “dia do trabalhador” é comemorado na primeira segunda-feira de setembro, temendo que a memória dos eventos Chicago fortaleçam o movimento operário e, em particular, o socialista.

“Mais perigosa do que mil manifestantes”

A execução de Albert e seus companheiros não conseguiu deter a militante revolucionária. Pelo contrário, só aumentou seu ódio contra a classe dominante e seus representantes nos governos.

Quando o José Martí atuava como correspondente do jornal argentino “La Nación” e produziu um artigo cobrindo os eventos de Chicago, ele não poupou palavras de admiração ao referir-se a Parsons, apresentando-a como “a apaixonada mestiça, em cujo coração vibram, como punhais, as dores da gente trabalhadora”, que ela expressava com “eloquência, rude e vibrante, descrevendo, como nunca havia se visto, o tormento das classes exploradas”.

Em sua cruzada contra o capitalismo e em memória dos “Mártires de Haymarket”, Lucy liderou mulheres pobres em bairros ricos “para confrontar os ricos em suas portas”, desafiou políticos em reuniões públicas, marchou em piquetes e continuou a redigir manifestos e artigos para os movimentos e publicações de grupos de trabalhadores, muito além de Chicago.

Ainda se manifestou contra a guerra imperialista dos EUA com a Espanha, em 1898, e também se fez presente e extremamente ativa em todos os principais casos de defesa dos trabalhadores do século 20, incluindo o de Sacco e Vanzetti (trabalhadores imigrantes italianos, condenados à morte, na década de 1920) e dos “Garotos de Scottsboro” (nove jovens negros, acusados injustamente de estupro e sentenciados à forca, no Alabama).

Sua militância nas décadas seguintes foi intensa, tendo participado de vários movimentos, com destaque para a fundação, em 1905, da “Industrial Workers of the World” (IWW, “Trabalhadores Industriais do Mundo”), uma das primeiras e a mais importante organização sindical a permitir não-brancos em suas fileiras e a defender o “sindicalismo industrial revolucionário”, organizando socialistas e anarquistas em suas fileiras.

Em seu discurso, ela disse: “Tomo a palavra porque nenhuma mulher fez isto (…). Nós, as mulheres deste país, não temos sequer direito ao voto (…). Somos escravas dos escravos. Exploram-nos mais impiedosamente que aos homens. Onde queira que os salários devam ser reduzidos, os capitalistas utilizam as mulheres para reduzi-los, e se há qualquer coisa que vocês os homens devem fazer no futuro, é ajudar na organização das mulheres”.

Em 1917, entrou em rota de colisão com seus companheiros anarquistas, apoiando a Revolução Russa. E, em função de suas atividades, na década de 1920, o Departamento de Polícia de Chicago a descreveu como “mais perigosa do que mil manifestantes”.

Uma vida devotada aos trabalhadores e oprimidos

Em seus artigos e discursos, Lucy abordou, repetidamente, as opressões específicas enfrentadas pelos negros e as mulheres, fazendo campanha contra linchamentos racistas e injustiças criminais, lutou pelo sufrágio das mulheres, igualdade salarial, acesso ao controle de natalidade e direitos ao aborto.

Na década de 1930, Parsons, com cerca de 80 anos, e muito pobre para pagar pela passagem nos bondes, caminhava regularmente 10 km até o centro de Chicago, para distribuir panfletos e, frequentemente, ela vista em piquetes e comícios contra as injustiças capitalistas. Nesta época, seu foco era a organização dos desempregados, frequentemente assumindo a liderança nas chamadas “Marchas da Fome”, organizadas pelos movimentos populares.

Preocupada com as táticas e métodos de luta da classe, Lucy tinha uma posição bastante avançada para a época em relação às greves. “A minha concepção de greve, para o futuro, não é atacar e sair, para morrer à fome; mas atacar e permanecer dentro [ocupar] e tomar posse da propriedade necessária da produção”.

Em 1941, em uma de suas últimas aparições públicas, Lucy falou com grevistas da International Harvester, uma empresa fabricante de maquinário agrícola, onde o assassinato de seis trabalhadores serviu como estopim para uma revolta. Nem temperatura gélida nem a quase cegueira, nem seus 88 anos, amansaram seu discurso, no qual ela ressaltou a continuidade da luta contra os capitalistas e a polícia, convocando os trabalhadores a continuar lutando até a vitória.

Lucy morreu em 1942. Seu fogão de madeira pegou fogo e ela ficou presa na casa em chamas. Na sequência, a polícia invadiu seu apartamento, confiscando sua impressionante biblioteca (com 1.500 livros) e documentos pessoais, depois entregues ao FBI.

Mas, se é certo que a perda foi grande, o legado de Lucy Parsons, a mulher que ajudou a inscrever o “Primeiro de Maio” na História, continua vivo em cada ato de resistência das trabalhadoras e trabalhadores contra a opressão e a exploração. E, também, na defesa da independência da classe trabalhadora, em relação aos patrões, aos governos e todos os inimigos dos que se rebelam contra a exploração e a opressão.