Ao contrário do que diz a sabedoria popular, não basta vestir-lhe a pele para que alguém se torne lobo. Num mundo de aparências e de frases de efeito, é necessário ser rigoroso com os rumos das organizações políticas presentes na classe trabalhadora, para que esta não perca a perspectiva de luta por um mundo livre de exploração e opressão, um mundo socialista.

Por: João Reis / Em Luta – Portugal

O “são todos iguais” e a falta de perspectiva entre os trabalhadores

Conhecemos entre os trabalhadores um sentimento generalizado de descrença na política e nos políticos. Este sentimento é reflexo de uma crise de representatividade do regime atual, que teima em não dar resposta às necessidades da maioria da população e da desilusão com aqueles que em nome dos trabalhadores têm frustrado as expectativas de melhoria das condições de vida e de trabalho. Vivemos essa experiência, recentemente, com os governos da Geringonça, que dizendo vir para virar a página da austeridade mantiveram as principais medidas de austeridade dos governos do PSD/CDS e da Troika.

O desgaste com os partidos atuais é aproveitado de forma oportunista pelos patrões para desarmar os trabalhadores e impedi-los de, no meio das experiências e desilusões, construírem ferramentas políticas que não repitam os erros do passado e reconstruam soluções que deem resposta para as suas vidas. É esse o conteúdo do discurso dos “são todos iguais” ou daqueles que, em oposição ao Governo do Partido Socialista, ou desiludidos com o Partido Comunista Português, atribuem culpas ao “socialismo” ou ao “comunismo”. Este tipo de discurso vazio de conteúdo, mais do que um desabafo é uma ferramenta que desorganiza os trabalhadores, para que estes desistam de construir outros rumos.

A prática como critério da verdade – Da Revolução Portuguesa aos dias de hoje

Mas não é só à direita que há responsabilidades. As organizações de trabalhadores que, no decurso dos últimos anos e, principalmente, a partir do derrube do fascismo, defraudaram as expectativas dos trabalhadores têm a maior fatia de responsabilidade, por ser delas que dependeu a direção das lutas dos trabalhadores, usando o “socialismo” e o “comunismo” como bandeira nos processos que levaram à derrota.

Desde os primeiros minutos do PREC (Processo Revolucionário em Curso – período marcado por lutas dos trabalhadores contra a exploração e por liberdades democráticas que puseram em causa o modo de produção capitalista no país), o PCP e o PS nunca tiveram como objetivo derrubar o capitalismo em Portugal.

Depois do 25 de Abril de 1974, o PCP esteve presente em todos os governos provisórios, junto com o PPD/PSD e o PS. Defendia, à época, que não havia espaço para uma revolução socialista que questionasse o poder dos patrões, da burguesia. O objetivo, segundo esta organização, era derrubar o fascismo e instaurar uma democracia como a que existe até hoje, dirigida pelos interesses dos patrões como sabemos pela experiência das últimas décadas. Para isso uniu-se com os ditos setores progressistas em governos que englobavam franjas da burguesia nacional. Ao mesmo tempo, combateu ferozmente todos os processos de luta que mais questionavam o capitalismo. Foram progenitores da primeira Lei da Greve, que restringia este direito no momento em que ele era mais necessário, e também da primeira Lei da Requisição Civil, usada pelo Governo da Geringonça para combater as greves dos enfermeiros, dos trabalhadores da aviação, dos estivadores, dos motoristas, dos polícias do SEF, etc.

Já o PS, sob o manto do “socialismo” e da democracia, dirigiu o processo de integração de Portugal na União Europeia, que avançou no saque ao país e na perda da soberania nacional.

O que é o socialismo e o comunismo?

Mas se estes partidos não são, como os nomes indicam, socialistas ou comunistas, o que significam estas palavras?

O socialismo e o comunismo são, antes de mais, formas de ler o mundo capitalista em que vivemos, identificar de forma científica os seus problemas e apontar um rumo que supere estes mesmos problemas. Quem deu suporte a estas ideias foram Marx e Engels, que nos seus estudos verificaram que vivemos num mundo em que a produção não é projetada para satisfazer as necessidades da Humanidade, mas sim para aumentar os lucros de meia dúzia de seres humanos que parasitam o trabalho dos outros. Um mundo em que os meios para satisfazer as necessidades humanas estão nas mãos de privados para que esses obtenham lucro, com os estragos ambientais e a perda de vidas humanas que conhecemos na atualidade. Concluíram que, para superar estes problemas do capitalismo, os únicos que o poderiam fazer seriam os trabalhadores, a maioria da população que sofre a exploração dos patrões e que de forma racional poderiam organizar coletiva e democraticamente a produção de forma a atender as necessidades do conjunto e não de meia dúzia. Exemplos da falência deste sistema desorganizado temos tido vários nos últimos anos. Veja-se o que continua nos dias de hoje a acontecer com as patentes das vacinas COVID-19, cuja existência continua a impedir a maioria da população mundial de ter acesso a esta proteção, apenas para que meia dúzia de farmacêuticas fique com os lucros. Ou por exemplo o avanço da automação na indústria que, ao invés de reduzir os esforços físicos ou o horário de trabalho, leva os trabalhadores ao drama do desemprego.

O socialismo aparece assim como uma superação do modo capitalista de organizar a produção, colocando o atendimento das necessidades da Humanidade como centro e sob a direção da única classe social de interesses comuns, os trabalhadores. O comunismo seria o desenvolvimento natural da sociedade socialista, no qual o avanço científico, social e humano faria as desigualdades desaparecerem totalmente.

Afirmar a necessidade de uma ferramenta revolucionária e socialista 

É preciso entender o sentimento dos trabalhadores e o que os leva a estas conclusões, para evitar que sejam levados para o colo dos partidos dos patrões como o PSD, o Chega ou a Iniciativa Liberal, ou mesmo para o beco sem saída da desmoralização. Ao mesmo tempo, é também importante combater o discurso daqueles que, como o BE e o PCP, sob o disfarce de socialistas e comunistas, levam os trabalhadores a soluções “geringoncistas” de confiança em governos que agem contra os trabalhadores. Neste contexto, é fundamental afirmar a necessidade da construção de uma organização de trabalhadores, que tenha como objetivo principal, a partir de cada experiência, contribuir para a compreensão da necessidade de superar o capitalismo para garantir o direito a uma vida digna, que só um mundo sem exploração e opressão poderá oferecer, um mundo socialista.