No marco do ato-festival de 1o de Maio, realizado em Rosario pelos trabalhadores da General Motors (GM), entrevistamos Belén, companheira de um trabalhador suspenso que, com sua luta, mostra-nos um panorama sobre como é ser mulher, mãe e parte de uma família operária, no país do Nenhuma a Menos e da crise econômica.

Por: PSTU – Argentina

Avanzada Socialista: Olá, Belén. Conte-nos sobre sua situação familiar, como você vem sendo parte desta luta…

Belén: Olá. Temos dois filhos, estou grávida novamente, apresentamos os papéis na empresa no dia 2 de março e, no dia 4, que era sábado, dia de folga do meu esposo, chamam-no por telefone dizendo que ele fazia parte do grupo de 350 suspensos. Ou seja, que ele não tinha que ir trabalhar, que iriam telefonar durante a semana para ver se tinha alguma dúvida. Ainda estamos esperando o telefonema…

No início a situação foi muito difícil, porque a família estava aumentando. Nós não somos de Rosario, ele tem família em Reconquista, eu em um povoado, assim que estamos sozinhos aqui lutando. Recebemos ajuda da parte de minha família, mas foi muito difícil, porque eu tive que procurar trabalho, consegui um “bico”, mas tive que deixá-lo por causa da gravidez, porque como se nota a barriga já não pegam você para trabalhar em lugar nenhum. Essa é a realidade pela qual nós mulheres passamos.

Assim que estou enfrentando isso, e participando das marchas que posso porque também tenho dois filhos pequenos. Temos tentado conseguir alguma resposta, mas ninguém diz nada, fomos ao Ministério do Trabalho, o da Província lavou as mãos, o da Nação nem os atendeu. A empresa é grande, tem dinheiro, os que estão dentro têm medo, assim que alguns deles apoiam e outros não, mas é compreensível.

E assim andamos. Ele consegue algum “bico” durante a semana. A empresa não faz as contribuições da aposentadoria nem para o seguro saúde.

Avanzada Socialista: Como foi o momento em que veio a notícia, de que seu companheiro estava suspenso?

Belén: Meu marido não pertencia sequer a um grupo político dentro da empresa, não era de faltar, ainda que com dores musculares, com atestados médicos que indicavam licença, os médicos da empresa o faziam trabalhar, davam-lhe uma injeção ou calmantes para voltar à linha de montagem.

A pessoa vai lá e faz porque, se a empresa vai bem, para ele teria que ir bem. Mas estes companheiros da GM se esforçam, aguentam.

Nós dizemos que são 350 suspensos, mas podem ser mais porque nunca se mostrou a lista oficial, e já disseram que não vão mostrá-la. Com isso resta a dúvida sobre quantas famílias estão suspensas.

Avanzada Socialista: Qual a porcentagem do salário que se paga aos suspensos?

Belén: Neste momento estão pagando 80%, mês que vem começam a pagar 60%, e depois será 50%.

Avanzada Socialista: Como as mulheres que trabalham dentro da fábrica estão se organizando, as que são companheiras dos suspensos?

Belén: Há duas semanas me uni ao grupo das mulheres, já que não podia fazer nada porque estou sozinha com os meninos e não tenho ninguém para cuidar deles. Então eu não era parte do grupo, me mandavam mensagens, mas sabiam que eu não podia.

Agora estou dando ideias, propondo coisas que podem ser feitas, estamos na mesma situação, por isso nos ajudamos. Alguns têm filhos mais velhos, porque estavam trabalhando há 15 anos na fábrica, então é mais fácil para eles, porque seus filhos são mais independentes.

Avanzada Socialista: Que papel você acha que a família dos trabalhadores suspensos cumpre: as mulheres, os filhos?

Belén: Acredito que a parte mais importante é o apoio. Quando veio a notícia para meu marido, no princípio ele aceitou bem, mas com o passar dos dias quem o conhece nota que ele está mais desanimado, mais triste, e não quer brincar com o filho. Eu digo para ele brincar com os meninos, porque eles crescem. Também entendo que é uma situação angustiante. Mas, se a família não lhe der força, ele desiste.

Além disso, com certa idade já não te contratam mais para trabalhar. Pode-se dizer que meu esposo é jovem, mas há pessoas que têm quarenta anos. Isso sem falar das lesões. Ele também tem tendinite, tendinose, principio de túnel do carpo, desvio na coluna, e com isso já sabe que não vai passar no exame admissional, e são essas coisas que te jogam para baixo.

Da minha parte, dou apoio para que ele vá aonde tenha que ir, fico com os meninos, não importa se tem que ir a Buenos Aires, ou onde tenha que ficar. Resistimos e estamos aí. Porque passamos por isso todos juntos.

Avanzada Socialista: Considerando o papel das mulheres em nível nacional, como você vê o fato de sermos parte dos processos de luta contra os feminicídios, por exemplo?

Belén: Esse é um tema bastante inquietante porque estava vendo as notícias e, em abril, houve um feminicídio por dia em média, e não é nada agradável você saber que quando sai não sabe se vai voltar, que a sua filha pequena pode estar passando por uma situação complicada e não te conta. Vejo que, como mulheres, não temos o apoio de ninguém, por isso temos que nos unir, juntar-nos para apoiar-nos. Não digo que os homens sejam nossos inimigos, há alguns que são, mas a maioria nos apoia e cuida.

Avanzada Socialista: Há aqui em Rosario algum tipo de creche para as crianças, por exemplo, para que as mulheres que lutam e as que procuram trabalho possam fazê-lo?

Belén: Não há creches públicas, não que eu saiba. É tudo particular, tem que pagar.

Eu trabalhei até que nasceu minha primeira filha e aos quatro meses tive que deixar o trabalho, porque tinha que pagar para a menina que cuidava dela todo o meu salário. E no meu trabalho não tinha creche, e nem facilitavam uma troca de horário, levando em conta que os trabalhadores da GM têm horários rotativos, porque, se tivessem feito isso, eu continuaria a trabalhar, mas não foram flexíveis, por isso me obrigaram a pedir demissão (de certa forma).

Avanzada Socialista: Que conclusão você tira desta que é uma experiência política, que você fazendo acompanhando seu companheiro e com toda a família, contra o Plano de Macri que significa demissões e piores condições para os trabalhadores?

Belén: Tento ver o lado positivo, porque como família isto nos uniu. Há aqueles que se separam ou homens que se matam, porque para eles é muito difícil não ter trabalho quando são os que sustentam a casa, mas nós estamos lutando.

É louco nos ver marchar. A pessoa sempre vê de fora e se pergunta o que estarão pedindo, o que estarão reivindicando… E depois, quando a situação é com você, quer contar-lhes “olhe, estou passando por isto, pode acontecer com você no dia de amanhã, apoie-me”, a luta é coletiva, não é individual.

Entrevista publicada em: www.pstu.com.ar

Tradução: Lilian Enck