Apesar de as principais candidatas das alianças majoritárias nas eleições PASO 2021 serem mulheres, quase nada foi discutido ou proposto em relação aos direitos das mulheres dos setores populares, as mais atingidas pela pobreza, pela pandemia e pela violência machista. E as organizações feministas, ativas nesta campanha a favor do governo de Fernández, também não fizeram ouvir a sua voz. A única sororidade possível é entre elas, e não com as trabalhadoras, as jovens precarizadas nem com as mulheres dos bairros populares.

Por: Isabel Morales Pré-candidata a Conselheira Escolar pelas Malvinas Argentinas

Problemas urgentes sem resposta

O último relatório do Observatório da Superintendência de Riscos do Trabalho (STR) realizado no princípio deste ano continua reconhecendo e localizando as desigualdades que nós mulheres sofremos no mundo do trabalho, como uma situação ainda não resolvida por políticas a partir do Estado. Nem sequer a partir do atual Ministério das Mulheres, Gênero e Diversidade da Nação (que é parte da elaboração deste mesmo relatório) [1]. Nele, as tarefas domésticas e de cuidado continuam sendo ressaltadas como um dos trabalhos que continuam nas costas das trabalhadoras e mulheres mais pobres, ainda e apesar de trabalharem fora de casa com magros salários e precárias condições de emprego. Com o Governo da Frente de Todos muito pouco ou nada mudou, apesar de localizar o problema e de pomposos anúncios que não foram além do discurso.

Também não melhorou a situação a respeito da violência machista que atinge as mulheres e setores LGTBI. Em 2020, totalmente atravessado pelas consequências da pandemia COVID-19, houve 251 feminicídios, um a cada 35 horas. Além do aumento das denúncias e dos indicadores de violência relacionados ao maior confinamento e isolamento das mulheres que sofrem violência no seio de seus próprios lares. Até o momento em 2021, contam-se 141 feminicídios, 1 a cada 40 horas, e os números da violência não tendem a diminuir.

A partir do Governo de Alberto Fernández foi anunciado com muito estardalhaço que se aproximava o “fim do patriarcado”. Entretanto, nem sequer se começou a aplicar o aborto seguro e gratuito em todo o país, por causa da objeção de consciência e não se destinou o orçamento necessário para tal fim. Algo parecido acontece com a Lei de cota de trabalho de travesti trans. Muita fumaça e pouca realidade.

Mais mulheres na política e nada muda. Por quê?

Entretanto, as eleições PASO (Primárias, Abertas, Simultâneas e Obrigatórias) passaram e poucas propostas de solução deixaram a respeito de todos estes problemas.

Várias candidatas mulheres foram figuras centrais nesta campanha e, no entanto, nenhuma disse uma única palavra sobre os direitos femininos. Tanto María Eugenia Vidal, ex-governadora de Buenos Aires (agora candidata em CABA (Cidade Autônoma de Buenos Aires) de Juntos por el Cambio, como Victoria Tolosa Paz, presidenta do Conselho Nacional de Coordenação de Políticas Sociais e candidata da Frente de Todos, concordam em uma questão central: continuar aplicando ajustes ao povo trabalhador para fechar as negociações com o FMI e pagar a Dívida usurária e impagável. Também concordam em apoiar os despejos de Guernica e todos os que ocorreram nos últimos tempos, que em sua maioria foram liderados por mulheres chefes de seus lares, que não tinham um pedaço de terra para viver. Enquanto isso há terrenos de sobra que estão nas mãos de alguns poucos privados. Embora Tolosa Paz tenha apoiado a legalização do aborto na Argentina, nunca mencionou em suas apresentações públicas, os problemas que a aplicação da Lei gera, e faz parte de um Governo que não se preocupa que faz muito pouco por isso, deixando assim as mulheres de menos recursos na mesma situação de antes.

Por outro lado, a pré-candidata à deputada Cinthia Fernández, do partido Unite por la Libertad y la Dignidad (o mesmo partido de Milei) entrou pela janela da mídia, apenas roçando a questão das cotas alimentares e o papel da Justiça. Uma ideia solta, se não fosse pelo seu encerramento de campanha dançando tango “de tanga” em frente ao Congresso. Tal método de propaganda reforça a ideia de que a única coisa valiosa que nós mulheres temos para mostrar e oferecer é nosso corpo, usado nesse caso como objeto e gancho para ganhar mais alguns votos. Questionamentos, em geral pela direita, à justiça, pode ser, mas construir e organizar-se com as mulheres trabalhadoras e dos bairros populares, nem pensar.

Por sua vez, a pré-candidata Cynthia Hotton, evangélica e antidireitos fez uma campanha a favor dos valores cristãos e contra a Lei de Aborto Legal e do matrimônio igualitário .[2] Tentando apegar-se ao exemplo de Jair Bolsonaro no Brasil. Seu objetivo é ir intensamente contra os direitos já conquistados das mulheres e setores LGBTI.

Por uma alternativa política dos e das trabalhadores/as

A famosa “sororidade” que agitaram as organizações afins ao Governo dos Férnandez, tais como a coletiva Nem uma a Menos no processo da Marea Verde pelo aborto legal, foi só espuma que se desfez ao calor das urgências que pressionam nossas casas e bolsos, e da pandemia que mostrou que quem paga o prejuízo sempre somos nós as trabalhadoras que sustentamos em nossas costas todo o peso de filhos, do lar, e das desigualdades do mundo.

Nas eleições de novembro não precisamos de candidatos do ajuste, nada de bom virá a partir de Vidal ou Tolosa Paz. Não há “sororidade” possível com elas. Se optarmos por votar em empresários ou nos partidos que os representam, continuaremos ladeira abaixo. A única alternativa eleitoral para nós é um voto independente dos patrões, por isso o PSTU tem suas candidatas e candidatos na FIT-U e convoca você a votar . Ao mesmo tempo fazemos um chamado aos demais partidos de esquerda que integram o acordo eleitoral da FIT-U a rechaçar o conceito de “sororidade” que confunde as trabalhadoras ao propor-lhes a irmandade com as patroas que as exploram e ameaça assim a independência política da classe operária.

Para nós, de Lucha Mujer e do PSTU, a única saída é com nossos companheiros trabalhadores, que sim são nossos irmãos de classe, e é tomar em nossas mãos a tarefa de decidir como conseguir o que nos falta, fundamentalmente, como mudar a partir da raiz, este sistema capitalista que vai sempre contra os que menos têm. Precisamos confiar em nossas forças, fazer uma revolução, constituir um governo dos trabalhadores e do povo pobre, para lançar as bases do sistema que pode nos garantir viver dignamente: um mundo socialista.

[1]https://www.argentina.gob.ar/sites/default/files/desigualdades_de_genero_en_el_mercado_de_trabajo_argentino_observatorio_srt.pdf

[2] https://www.clarin.com/politica/candidata-evangelista-cynthia-hotton-sale-disputarle-voto-jose-luis-espert-quiere-bloque-religioso-_0_w_PhQXYYT.html

Artigo publicado em 01 de outubro em https://www.pstu.com.ar

Tradução: Lilian Enck