O último conflito policial preocupou todos os políticos do regime e provocou uma reação (com a desculpa da manifestação em frente à Quinta de Olivos – residência presidencial) de unidade no repúdio e a denuncia do caráter “golpista” dessa ação.

Por Ricardo García

Todos sabiam (exceto talvez o Nuevo MAS, que comprou a versão) que não havia nenhum “golpe” em curso. Mas não podiam permitir o grave antecedente da ruptura da cadeia de comandos que a rebeldia provocou. Até aí, tudo normal.

Na esquerda trotskista, voltou a ocorrer uma polêmica já habitual.

O caráter do conflito

Todo conflito deste tipo nas forças repressivas, expressa diferenciações sociais em seu interior. Os policiais não são operários, mas isso não significa que todos sejam socialmente iguais. Há os comandantes e oficiais que tem todos os privilégios (tanto legais como ilegais, produto de todos os vínculos com o delito, os juízes e os administradores). Há os setores médios, que ficam com as migalhas desses privilégios. E há os setores rasos, que vivem do salário e dos “bicos” (segurança no futebol, espetáculos, etc), muito reduzidos em tempos de pandemia.

Não se trata de questões ideológicas. Temos certeza de que se todos pudessem “fraudar” seriam muito poucos os que não o fariam. Mas a realidade é a realidade: muito deles não tem moradia, mal chegam ao fim do mês, e sofrem penúrias com suas famílias.  Foi isso o que provocou o protesto policial. Em um contexto de uma força que chegou 42.000 agentes mais os policiais municipais (os “Pitufos”), sem nenhuma formação e provenientes dos setores mais precários da sociedade, e da destruição social de 2000.

Algumas reivindicações de impunidade foram enfatizadas intencionalmente– que existiam e rechaçamos – e no caráter corrupto de alguns dos porta-vozes. Isso existiu, mas não foi o que deflagrou o conflito. Por isso, acabou assim que o governo cedeu em colocar dinheiro.

Infantilismo democratista versus posição revolucionária

Vamos nos apresentar, para evitar confusão. Somos o PSTU. O partido que mais duramente enfrentou o macrismo e sua polícia, que têm presos e perseguidos por chamar para resistir à repressão com o que tiver na mão. E o que diz com a boca defende com o corpo. A agrupação mais perseguida pela Justiça e pela polícia do regime nos últimos anos. Ninguém pode nos acusar de sermos “fracos” diante do aparato repressivo.

A partir disso, rechaçamos a política pacifista e adaptada ao regime da maioria da esquerda – liderada pelo PTS – diante destas situações. Todos estamos de acordo com a necessidade de desmantelar o aparato repressivo, é uma condição para uma Revolução Socialista que derrote o capitalismo e leve a classe operária ao poder.

Mas dizer que isso só se conseguirá vociferando pela “dissolução da polícia”, sem ter uma política para dividir as forças repressivas, está errado. Só é possível que a classe operária possa enfrentar e vencer a repressão em seu caminho na defesa de suas reivindicações primeiro, e depois na luta política pelo poder, se aprender a enfrentá-los com a força, a desenvolver a autodefesa contundente e efetiva de suas organizações e mobilizações por um lado. E por outro, ter uma política para dividi-las, romper sua disciplina e moral, e neutralizar todo um setor do braço armado do sistema capitalista.

Não há revolução na história que tenha sido vitoriosa sem que as massas cumpram esta tarefa, seja qual for a forma em que essa revolução tenha se desenvolvido.

“Ultra-esquerdismo” progressivo ou centrismo regressivo?

O que esta posição expressa? Não é o ultra-esquerdismo de jovens revolucionários com pouca ou nenhuma experiência. Não é um momento na educação de setores que pecam de “ultras”, e que depois avançarão para posições revolucionárias mais maduras. Não é “centrismo” progressivo. Pelo contrario, é uma involução de quem se educou no marxismo revolucionário e que o vão abandonando, à medida de seus “êxitos” no terreno eleitoral, que os levam a não defender o programa e a prática revolucionária, mas o mais atraente para ganhar simpatias e votos. É “centrismo” regressivo.

E ainda por cima, inconsequente. Se o movimento policial foi negativo, e prejudicial para a classe trabalhadora, como a definiram, se foi por causa da impunidade dos assassinos de Facundo Astudillo, por que se limitaram a comentá-la? Não deveriam ter exigido do Governo e do regime a repressão, a ação militar, por exemplo, da Força militar, para desarmar os que estavam agindo contra os interesses populares? Ou no mínimo, não deveriam chamar os sindicatos, a CGT, para uma ação concreta contra os policiais? Por que não o fizeram? É uma lógica de ferro. Não estamos em eleições, quando tudo é resolvido nas urnas, e o que manda são os slogans.

Para enfrentar o braço armado do capital não basta definir o objetivo, e sim estabelecer um “programa de transição” com as medidas e políticas que permitam avançar para esse objetivo. Nossa política de auto-organização, de comitês, de sindicatos policiais de tropa sem oficiais, etc, isto é, de ruptura do verticalismo, é a única que pode permitir dividi-las e, talvez, triunfar.

Um giro antimorenista

Em conflitos anteriores, a diferença na esquerda era muito definida. De um lado, aqueles que reivindicam uma tradição trotskista ortodoxa, morenista, sustentam a posição leninista. Do outro, os partidos que nunca foram ou que romperam com essa tradição (PO, PTS, NMAS).

Mas neste caso, vimos com espanto um giro tanto do MST como da Esquerda Socialista, que curvaram à concepção do PTS. A pressão da FITU parece ser muito forte e, cada dia mais, está fazendo o conjunto dos partidos se adaptar a uma posição pacifista e de localização à esquerda do regime político.

Queremos que esta polêmica ajude a retomar, pelo menos nestas agrupações, uma posição trotskista e morenista.

PTS: CITAÇÃO FALSA

O PTS justifica sua política citando um texto inexistente de León Trotsky. Em 2012, em uma polêmica com o PO[1], reproduzia um material dizendo que os policiais não são trabalhadores (o que é correto) [2]. E na sequência, dava a posição do PTS sobre a política de sindicalização da polícia.

Entretanto, vários anos depois, em 2017, o PTS reproduz como se fosse parte da mesma citação o escrito por Trotsky e o texto próprio[3], fazendo revolucionário russo dizer o que jamais disse. Dessa citação se depreende que Trotsky seria contrario à sindicalização policial. Nunca escreveu isso.

Essa citação foi reproduzida por muitos ativistas e lutadores (entre eles o PO Tendencia) que confiaram equivocadamente que o PTS estava sendo rigoroso.

É correto defender uma posição. Mas é preciso ser muito rigoroso na reprodução dos textos de nossos mestres. Esperamos que o PTS esclareça esta confusão.

Notas:

[1] https://www.pts.org.ar/Sobre-el-caracter-de-clase-de-la-policia-y-el-derecho-a-la-sindicalizacion.

[2] León Trotsky, “La lucha contra el fascismo en Alemania – ¿Y ahora?, Problemas vitales del proletariado alemán”, 25 de enero de 1932.

[3] https://www.laizquierdadiario.com/Mujeres-policias-feministas.

Tradução: Lilian Enck